Serafim

A Biblioteca Central ocupava uma das construções mais antigas da capital, espremida entre o Tribunal de Registros e uma pequena praça que parecia existir apenas para oferecer aos nobres um lugar agradável onde reclamar do governo enquanto alimentavam pombos. O edifício era grande o suficiente para abrigar documentos de praticamente todas as famílias importantes do reino, registros de propriedades, árvores genealógicas, antigos tratados, mapas e uma quantidade absurda de livros que ninguém lia a menos que estivesse tentando provar alguma coisa. Normalmente, entrar nas áreas públicas não exigia nada além de roupas suficientemente respeitáveis; o problema começava quando alguém desejava consultar informações sobre propriedades particulares de um marquês ainda vivo, porque, aparentemente, querer saber quantas casas um homem possuía era considerado mais perigoso do que permitir que ele escondesse pessoas dentro delas. Por isso, antes de sair de casa, passei alguns minutos copiando a assinatura do Visconde Harfield em uma folha e utilizando um antigo selo que ele guardava em uma caixa do escritório. Não chegava a ser uma falsificação perfeita, mas homens acostumados a obedecer títulos raramente examinavam documentos com atenção quando reconheciam um brasão importante no topo da página.

O vestido que escolhi para aquela tarde era simples o suficiente para não chamar atenção e caro o bastante para garantir que ninguém me confundisse com alguém que pudesse ser mandado embora sem explicação. Any havia reclamado da escolha das luvas, dizendo que não combinavam perfeitamente com o azul da saia, mas eu tinha preocupações maiores do que cometer algum crime contra a moda. Uma delas permanecia escondida dentro de uma pequena bolsa presa à cintura: o anel encontrado na propriedade de Salazar, cuidadosamente enrolado em duas camadas de tecido para impedir que o contato direto voltasse a provocar aquela sensação desagradável. Eu ainda não sabia se pretendia mostrá-lo a alguém, mas a Biblioteca Central possuía uma seção inteira dedicada à história arcana do reino; se existisse algum lugar onde o símbolo pudesse aparecer registrado, provavelmente seria ali.

— Boa tarde. — Coloquei a autorização falsificada sobre o balcão quando o bibliotecário se aproximou, mantendo uma expressão tranquila enquanto ele ajustava os óculos e lia o nome dos Harfield no documento. — Preciso consultar os registros de propriedades pertencentes ao Marquês Florence, principalmente aquisições realizadas nos últimos dez anos.

— Posso perguntar o motivo, senhorita? — Ele passou os olhos pela assinatura e depois voltou a me observar, sem parecer particularmente desconfiado, apenas cansado como alguém que fazia aquela pergunta dezenas de vezes por dia.

— Meu pai está avaliando alguns investimentos ao sul da capital e ouviu dizer que o marquês possui terras naquela região. — Mantive as mãos pousadas sobre o balcão e ofereci o tipo de sorriso educado que aprendera a utilizar em eventos onde preferia estar em qualquer outro lugar. — Ele gostaria de evitar negociações sobre propriedades vizinhas antes de saber quem seriam os possíveis interessados.

O bibliotecário voltou os olhos ao documento. Por um segundo, temi que resolvesse verificar o selo com mais cuidado, mas ele apenas soltou um ruído baixo de compreensão e fez um sinal para que eu o acompanhasse. Subimos dois lances de escadas e atravessamos um corredor onde as janelas altas permitiam que a luz atingisse fileiras intermináveis de estantes. Quanto mais avançávamos, menos leitores encontrávamos, até que ele parou diante de uma porta estreita e retirou um molho de chaves do bolso.

— Os registros nobiliárquicos mais recentes ficam nesta ala. — Ele destrancou a porta e segurou-a para que eu entrasse, observando-me por cima dos óculos enquanto apontava para uma série de armários de madeira. — Não é permitido retirar nenhum documento daqui e algumas informações relacionadas a contratos reais são restritas. Se encontrar uma marca vermelha no canto da página, não poderá copiá-la.

— Naturalmente. — Entrei e examinei as fileiras, fingindo muito mais familiaridade com as regras do que realmente possuía.

— O Marquês Florence está na terceira seção à direita. — Ele parou antes de sair, como se estivesse reconsiderando alguma coisa. — A senhorita tem quarenta minutos. E, por experiência própria, aconselho que seu pai seja cuidadoso ao fazer negócios com aquela família.

Aquilo me fez virar.

— Existe algum motivo específico?

— Trabalho aqui há vinte e sete anos, senhorita. — Ele fechou parcialmente a porta, mantendo apenas o rosto visível. — Algumas pessoas aparecem para consultar documentos por curiosidade, outras por dinheiro e algumas porque querem descobrir por que alguém desapareceu. Aprendi que saber demais sobre o motivo não melhora meus dias de trabalho. Apenas tome cuidado.

A porta se fechou antes que eu pudesse perguntar mais alguma coisa.

Fiquei parada por alguns segundos, encarando a madeira.

Interessante.

A pasta de Florence era maior do que eu esperava, embora isso não significasse muita coisa quando se tratava de famílias aristocráticas. O homem possuía cinco propriedades registradas em seu nome, duas dentro da capital, uma propriedade rural próxima ao rio Faren, uma casa de verão ao norte e uma área agrícola considerável a algumas horas dali. Passei os olhos pelos documentos uma segunda vez, procurando qualquer endereço que pudesse coincidir com os desaparecimentos registrados pela guilda, mas nada parecia particularmente suspeito. Havia contratos de arrendamento, registros tributários, compras de terras, empregados legalmente cadastrados e até documentos sobre criação de cavalos. Tudo excessivamente normal, o que, no caso de alguém que estávamos investigando, era quase mais preocupante do que encontrar alguma irregularidade evidente.

Meu dedo parou sobre um registro de transporte datado de quatro meses antes. O documento não pertencia exatamente à pasta de propriedades, mas estava anexado a um contrato comercial envolvendo mercadorias enviadas da residência rural de Florence para uma área ao sul. O destino aparecia apenas como Armazém Setor IV, sem endereço, e a autorização de circulação possuía um selo do Ministério de Abastecimento que eu não reconhecia. Separei mentalmente a informação e continuei procurando, encontrando mais três documentos semelhantes em meses diferentes, todos com quantidades absurdamente altas de alimentos, roupas simples, medicamentos e correntes de ferro.

Correntes.

Puxei a folha para mais perto.

A descrição dizia materiais de contenção animal.

Claro.

Porque todo agricultor precisava de cinquenta conjuntos de algemas para manter galinhas obedientes.

Retirei discretamente um pequeno pedaço de papel de dentro da manga e comecei a copiar datas, valores e referências, tomando cuidado para não transcrever nenhuma informação marcada como restrita. Não faria sentido sair dali com uma prova se acabasse presa por roubar documentos oficiais antes mesmo de conseguir utilizá-la.

No fundo da pasta havia um registro muito mais antigo, praticamente escondido sob outros documentos. A folha estava amarelada, parcialmente rasgada em uma das bordas e não parecia ter relação direta com Florence; tratava-se da transferência de uma pequena construção abandonada ao sul, vendida anos antes para uma empresa comercial chamada Vesper & Filhos. O nome não significava nada para mim, mas alguma coisa no canto inferior da página fez meu estômago apertar.

Três círculos entrelaçados.

Não era idêntico.

Mas era próximo demais.

Retirei o anel da bolsa ainda envolvido pelo tecido e o coloquei ao lado do documento sem tocá-lo diretamente. O símbolo gravado no ouro possuía espinhos ao redor dos círculos, enquanto o desenho na folha era mais simples, como uma versão incompleta ou antiga da mesma marca. Talvez fosse apenas um emblema comercial. Talvez a empresa tivesse alguma ligação com Salazar. Talvez eu estivesse tentando encaixar peças diferentes apenas porque desejava encontrar uma resposta.

A curiosidade venceu.

Abri a porta e espiei o corredor. O bibliotecário não estava por perto, então atravessei rapidamente até uma pequena seção identificada como História Arcana e Símbolos Antigos. O sistema de organização parecia criado por alguém que odiava leitores, mas depois de alguns minutos encontrei um volume sobre ordens mágicas extintas, depois outro sobre símbolos utilizados durante o período anterior às restrições da Igreja. Nada. No terceiro livro, um compilado de rituais proibidos confiscados durante o reinado de Astor II, encontrei um desenho que fez minhas mãos pararem sobre a página.

Três círculos.

Mais uma vez.

A imagem era pequena e parte do texto havia sido arrancada do livro, deixando apenas algumas linhas incompletas na página seguinte.

...a união das três essências...

...matéria, espírito e energia...

...transferência considerada impossível sem destruição do receptáculo...

O restante não existia.

Alguém havia arrancado a folha.

Passei o polegar pela borda irregular e senti aquele mesmo frio surgir na ponta dos dedos, embora estivesse usando luvas. Afastei a mão imediatamente, olhando ao redor como se alguma pessoa pudesse ter percebido. Não havia ninguém.

Aquilo não fazia sentido.

O livro devia ter décadas, talvez séculos.

O anel de Salazar possuía uma versão do mesmo símbolo.

Uma vítima desaparecida tinha a marca desenhada no quarto.

E agora havia registros de Florence ligados a uma empresa que também utilizara algo semelhante.

Antes que pudesse continuar, escutei a chave girando na porta do arquivo.

Voltei rapidamente para a mesa e escondi o papel de anotações dentro da manga.

— Seu tempo está quase terminando, senhorita. — O bibliotecário entrou carregando outros dois volumes e me observou junto à mesa. — Encontrou o que procurava?

— Talvez mais do que gostaria. — Fechei a pasta de Florence e empurrei-a de volta ao lugar correto, tentando parecer apenas uma jovem aborrecida com burocracia. — Meu pai ficará satisfeito.

— Então suponho que minha parte terminou.

— Posso fazer uma pergunta antes de ir? — Esperei que ele erguesse os olhos. — Já ouviu falar de uma empresa chamada Vesper & Filhos?

A expressão dele mudou apenas por um instante.

Foi suficiente.

— Não.

Mentira.

— Tem certeza?

— Absoluta.

Ele fechou a pasta com um pouco mais de força do que necessário.

— Entendo. — Sorri educadamente e caminhei em direção à saída. — Obrigada pela ajuda.

Não pressionei.

Pessoas assustadas costumavam falar menos quando percebiam que alguém tinha interesse demais.

Assim que deixei a Biblioteca Central, desci os degraus da entrada e quase fui atingida por um homem que atravessava a praça na direção oposta. Ele segurou meus braços antes que eu perdesse o equilíbrio e imediatamente começou a se desculpar.

— Perdoe-me, milady, eu estava terrivelmente distraído e—

Parei de andar.

Aquela voz.

— Tire as mãos de mim antes que eu quebre seus dedos.

O homem piscou.

Depois sorriu.

— Cris?

— Ace?

Ele largou meus braços e olhou ao redor rapidamente antes de voltar a mim com uma expressão ofendida.

— Isso é jeito de falar com um cavalheiro?

Demorei alguns segundos para absorver completamente o que estava vendo. Ace usava um casaco cinza-escuro de excelente qualidade, calças bem cortadas, botas polidas e até um lenço preso ao pescoço. O cabelo continuava indisciplinado o suficiente para estragar parte da ilusão, mas, de longe, poderia facilmente passar por um jovem pertencente a alguma família rica.

— Onde conseguiu essas roupas?

— Essa pergunta me machuca profundamente. — Ele levou a mão ao peito, acompanhando meu passo quando comecei a atravessar a praça. — Por que sua primeira conclusão é que roubei?

— Porque conheço você.

— Isso é preconceito.

— Sua gola está torta.

— Acontece.

Parei e puxei discretamente a parte interna do casaco, encontrando uma pequena etiqueta costurada perto da gola.

Soir.

Olhei para ele.

Ace olhou para mim.

— Pode ser uma marca.

— É um sobrenome.

— Existem pessoas chamadas Soir?

— Existe uma família inteira.

— Que falta de criatividade.

— Você roubou o casaco de alguém da família Soir.

— Roubar é uma palavra muito agressiva. — Ele ajeitou a peça e retomou a caminhada ao meu lado. — Eu prefiro dizer que encontrei temporariamente uma roupa sem supervisão.

— Onde?

— Em uma carruagem.

— Que estava parada?

— Esse detalhe é realmente importante?

Respirei fundo.

— Um dia você será preso por causa de uma etiqueta.

— Nesse dia espero que tenha a gentileza de me visitar.

— Talvez eu leve flores.

— Sabia que me amava.

Antes que pudesse responder, Ace segurou discretamente meu pulso e diminuiu o passo.

— À sua esquerda. — Seu tom mudou completamente, e o sorriso desapareceu do rosto.

Não virei de imediato.

Apenas continuei caminhando até alcançar uma pequena banca de livros usados, fingindo interesse pelos títulos enquanto utilizava o reflexo do vidro de uma loja próxima para observar a praça.

Marquês Florence.

Ele estava parado próximo à entrada de uma casa de chá, olhando repetidamente para o relógio de bolso e depois para a rua. Eu o reconheci das poucas vezes em que o vira em eventos da alta sociedade. Era um homem de pouco mais de cinquenta anos, sempre impecavelmente vestido e aparentemente incapaz de permanecer cinco minutos sem mencionar algum investimento. Naquele momento, porém, não havia qualquer sinal da arrogância tranquila que eu lembrava. Florence parecia nervoso.

Muito nervoso.

— Está seguindo ele? — perguntei baixo, pegando um livro qualquer da banca.

— Desde pouco depois que saiu de casa. — Ace fingiu examinar outro volume ao meu lado. — Gosth descobriu que ele visita esta região duas vezes por semana, sempre no mesmo horário. Normalmente entra naquela casa de chá e sai vinte minutos depois, mas hoje está parado aí faz quase meia hora.

— Esperando alguém.

— Foi o que pensei.

Devolvi o livro à banca.

— E não poderia ter mencionado isso antes?

— Eu estava ocupado tentando parecer um membro respeitável da sociedade.

— Está usando um casaco roubado.

— Emprestado.

— Sem autorização.

— Um detalhe burocrático.

Florence se moveu.

Nós também.

Atravessamos a praça mantendo distância suficiente para não chamar atenção e paramos próximos a uma floricultura fechada. O marquês entrou em uma rua lateral estreita, longe do movimento principal, e olhou para trás duas vezes antes de desaparecer na esquina. Ace fez menção de segui-lo imediatamente, mas segurei sua manga.

— Esperamos.

— Se ele desaparecer?

— Então descobriremos outra maneira. Se entrarmos naquele beco atrás dele agora, seremos duas pessoas suspeitas seguindo um homem que claramente está com medo de alguma coisa.

— Eu estou vestido como nobre.

— Você parece um ladrão vestido como nobre.

— Isso foi desnecessário.

Esperamos.

Um minuto.

Depois dois.

Um homem encapuzado surgiu no outro extremo da rua.

Não consegui ver seu rosto.

Ele caminhava sem pressa, vestido com uma capa longa e escura, e passou por nós sem sequer virar a cabeça. Quando se aproximou do beco onde Florence havia desaparecido, uma sensação gelada atravessou meus dedos.

Meu corpo inteiro ficou rígido.

Era igual.

O anel.

O livro.

A marca.

— Cris? — Ace percebeu imediatamente e aproximou o rosto do meu. — O que aconteceu?

— Nada.

— Você ficou branca.

— Eu já sou branca.

— Mais branca.

— Fique quieto.

O encapuzado entrou no beco.

Esperei alguns segundos antes de começar a andar.

— Agora.

Ace me acompanhou.

Não entramos completamente. Paramos perto da esquina, onde uma pilha de caixotes nos escondia parcialmente, e mantivemos distância suficiente para ouvir apenas fragmentos da conversa. Florence estava de costas para nós. O homem encapuzado permanecia diante dele, imóvel.

— ...não era o combinado... — A voz de Florence tremia.

Não consegui distinguir a resposta.

— Eles estão procurando... depois de Salazar, todos estão olhando... não vou continuar enquanto—

O encapuzado ergueu uma das mãos.

A fala de Florence morreu.

Mesmo de longe, alguma coisa pareceu mudar no ar. O frio aumentou em meus dedos e subiu pelos braços, obrigando-me a prender a respiração. Não havia luz, nenhum gesto dramático ou palavra pronunciada em língua antiga; apenas uma sensação de pressão, como se o espaço dentro do beco tivesse ficado menor.

O homem aproximou-se de Florence e colocou a mão em seu ombro.

O rosto do marquês perdeu toda a cor.

O encapuzado disse alguma coisa junto ao ouvido dele.

Florence cambaleou para trás.

— Não... não, por favor...

O homem se afastou.

Quando passou novamente por nós alguns minutos depois, mantive o rosto parcialmente escondido e fingi ajeitar a luva. A sensação gelada foi tão intensa que precisei conter o impulso de recuar.

Ace permaneceu imóvel ao meu lado até a figura desaparecer na praça.

— Quem diabos era aquele?

— Não sei.

— Você sentiu alguma coisa?

Virei o rosto para ele.

— Por que está perguntando?

— Porque você parecia prestes a vomitar.

— Obrigada pela delicadeza.

— Cris.

Florence deixou o beco pouco depois, andando depressa e olhando ao redor como se esperasse encontrar alguém escondido em cada janela. Não o seguimos. Qualquer informação que conseguiríamos naquele momento dificilmente valeria o risco de sermos percebidos.

— Ele está envolvido. — Ace passou a mão pelos cabelos enquanto observava o marquês desaparecer entre as pessoas. — Não tem como aquele homem estar limpo depois disso.

— Estar assustado não prova participação nos desaparecimentos.

— Você acabou de ver a mesma coisa que eu?

— Vi um homem sendo ameaçado. Isso prova que alguém tem poder sobre ele, nada além disso.

Ace fez uma careta.

— Você é muito chata quando decide ser responsável.

— Alguém precisa compensar você.

— Então qual é o próximo passo?

Pensei no símbolo.

Nos documentos.

Nas mercadorias.

No encapuzado.

— Vamos falar com Esquilo.

A Cidade Baixa parecia ainda mais barulhenta no final da tarde. Ace havia se livrado do casaco roubado antes de entrarmos na região, o que significava que em algum lugar da capital um jovem da família Soir provavelmente estava tendo um dia um pouco melhor sem saber o motivo. Não perguntei o que ele fizera com a roupa. Algumas respostas eram capazes de piorar uma tarde.

Encontramos Esquilo perto das ruínas de uma antiga oficina, sentado sobre um muro baixo enquanto dividia um pedaço de pão com uma criança menor. O apelido era apropriado demais para alguém de doze anos, pequeno e magro, com cabelos castanhos permanentemente desarrumados e dois dentes da frente ligeiramente maiores do que deveriam. Ele nos viu antes mesmo que chamássemos e saltou do muro com uma agilidade irritante.

— Ace! — Esquilo abriu um sorriso assim que nos viu e bateu a mão na dele antes de olhar para mim. — E aí, Cris. Cês sumiram, hein?

— Finalmente alguém que me trata com respeito. — Ace colocou a mão sobre o ombro do garoto. — Aprenda com ele.

— Ele te respeita porque eu pago.

— Ué, e num é assim que funciona? — Esquilo estendeu a mão imediatamente, com a maior naturalidade do mundo. — Informação boa custa caro.

Revirei os olhos e coloquei algumas moedas de prata na palma dele.

— Antes que invente alguma história apenas para ganhar mais, queremos informações reais.

— Eu só conto coisa real.

— Semana passada você disse que o Conde Merrow mantinha um dragão no porão.

— Eu falei que tavam dizendo. É diferente. — Ele guardou as moedas depressa dentro do bolso. — Se o povo fala besteira, a culpa num é minha.

Ace riu ao meu lado.

— Marquês Florence — falei, e o sorriso de Esquilo desapareceu quase imediatamente.

— Aquele véio?

— O que sabe sobre ele?

Esquilo olhou para os dois lados da rua antes de se aproximar um pouco mais.

— Num gosto daquele homem, não. O povo daqui também num gosta. Quem vai trabaiá pra ele às vezes some.

— Quantas pessoas?

— Sei lá. Um monte. — Ele coçou a nuca, franzindo a testa enquanto tentava lembrar. — Uns cara dele aparece por aqui oferecendo serviço. Diz que paga bem, que tem comida, lugar pra dormi e essas coisa. Aí o povo vai, né? Quem tá passando fome num fica perguntando muito.

— E eles voltam?

— Uns volta. A maioria, não.

Ace deixou de sorrir.

— Os que voltam dizem alguma coisa?

— Quase nada. Fica tudo esquisito. Teve um cara que voltou tremendo feito vara verde, num queria nem saí de casa. Disse que lá tinha uns negócio errado, mas quando perguntaram mais ele fechou a boca.

— Onde fica esse lugar? — perguntei.

— Num sei certinho. É pras banda do sul. As carroça sai pela estrada velha, mas depois muda caminho. Um parceiro meu tentou seguir uma vez.

— E?

— E quase tomou no lombo. — Esquilo fez uma careta. — Os guarda viu ele de longe e o moleque teve que se enfia num barranco. Depois disso ninguém quis tenta de novo.

— Guardas do Marquês?

— Uns é. Os outro eu num sei. Usa roupa de soldado, mas num tem símbolo nenhum.

— Mercenários — murmurou Ace.

Esquilo deu de ombros.

— Se é isso aí, então é.

— Ouviu alguma coisa sobre uma propriedade não registrada?

— Já. — Ele imediatamente estendeu a mão outra vez. — Mas essa aí vale mais.

— Esquilo.

— Ué, Cris, eu também tenho conta pra pagá.

— Você tem doze anos.

— E fome num pergunta idade.

Aquilo foi suficiente para me fazer colocar mais uma moeda em sua mão.

— Fala.

— Tem uma casa velha mais pro sul, perto das estrada que vai pra fronteira. Num aparece nos mapa comum, pelo menos foi o que me disseram. Tem guarda pra caramba e quase ninguém chega perto. De noite o povo que passa por lá diz que escuta uns grito.

— De animais?

Esquilo balançou a cabeça lentamente.

— Aí que tá. Dizem que num parece bicho.

— Mais alguma coisa?

— Teve um homem que voltou de lá. O Ren. — O garoto esfregou os próprios braços enquanto falava. — Tava com umas marca preta aqui, ó. Parecia queimadura, mas num era queimadura normal. O cara tremia, falava sozinho... depois sumiu também.

— Família?

— Tem uma irmã perto do mercado velho. Se quiser, eu mostro onde ela mora amanhã.

— Quero. Mas você não vai seguir nenhuma carruagem.

— Eu nem falei que ia.

— Estou vendo sua cara.

— Minha cara é normal.

— Sua cara nunca é normal quando está planejando alguma coisa.

— Cês adulto desconfia demais. — Ele guardou as últimas moedas e começou a se afastar. — Amanhã eu acho vocês. E fica tranquila, Cris, eu num sou doido.

Ace esperou o garoto desaparecer entre as construções antes de olhar para mim.

— Ele vai seguir uma carruagem.

— Com certeza.

— Quer que eu vá atrás dele?

— Não agora.

Começamos a caminhar de volta para a guilda em silêncio, e pela primeira vez naquele dia Ace não parecia interessado em preencher cada segundo com alguma provocação. As informações se encaixavam rápido demais. Florence estava ligado a desaparecimentos, mantinha registros de carregamentos para uma localização não identificada ao sul, possuía alguma relação com um símbolo arcano que também aparecera na propriedade de Salazar e acabara de ser ameaçado por alguém cuja presença fizera meu corpo reagir exatamente como acontecia perto do anel.

— Cris. — Ace esperou até entrarmos em uma rua menos movimentada antes de falar. — Você mentiu para mim antes.

Não respondi imediatamente.

— Sobre o quê?

— O símbolo.

Continuei caminhando.

— Você conhece.

— Conhecer é uma palavra forte.

— Você ficou com a mesma cara que fez quando aquele encapuzado passou por nós.

Parei.

Ace também.

Retirei discretamente o pequeno embrulho de dentro da bolsa e abri apenas o suficiente para revelar o anel.

— Encontrei isso na propriedade de Salazar.

Ele se inclinou para observar.

— É o mesmo símbolo.

— Quase.

— Por que não contou na reunião?

— Porque ainda não sabia se significava alguma coisa.

— E agora?

Guardei novamente o objeto.

— Agora sei que significa alguma coisa. Só não faço ideia do quê.

Ace esfregou as mãos no rosto.

— Então Salazar estava envolvido com Florence?

— Talvez. Ou ambos trabalhavam para outra pessoa. Encontrei registros de uma empresa antiga utilizando uma versão desse símbolo e documentos de Florence enviando mantimentos para um local não identificado ao sul. Alimentos, remédios, roupas e correntes.

— Correntes?

— Registradas como material para animais.

— Claro. Talvez tenham vacas extremamente perigosas.

— Não estou com humor.

— Eu sei. É por isso que estou tentando.

Soltei um suspiro e voltei a andar.

— O homem que vimos hoje não parecia subordinado de Florence.

— Nem um pouco.

— Florence estava com medo dele.

— Muito.

— Então estamos olhando para isso da maneira errada. — Apertei o passo enquanto organizava as possibilidades. — Florence talvez não seja o responsável pelos desaparecimentos. Pode estar fornecendo pessoas, propriedades ou transporte para alguém.

— Isso ainda faz dele um pedaço de lixo.

— Nunca disse que não fazia.

— Só estou garantindo.

Quando alcançamos a rua onde nossos caminhos se separariam, parei antes de seguir para a região nobre.

— Não conte aos outros sobre o anel ainda.

Ace franziu a testa.

— Por quê?

— Quero saber o que significa antes de transformar uma suspeita em pânico. Gosth pode procurar pela empresa Vesper & Filhos, mas diga apenas que encontrei o nome nos registros de Florence.

— Você sabe que esconder coisa da guilda costuma dar errado.

— Não estou escondendo para sempre.

— Foi exatamente o que alguém escondendo alguma coisa diria.

— Ace.

Ele levantou as mãos.

— Certo. Mas, se esse negócio tentar te matar magicamente durante a noite, vou ficar muito irritado.

— É reconfortante saber que essa seria sua principal preocupação.

— Você morrer seria inconveniente para mim.

— Que afetuoso.

— Eu tento.

Nos despedimos pouco depois, e o caminho de volta à mansão pareceu mais longo do que o habitual. A capital continuava funcionando normalmente ao meu redor; carruagens atravessavam as avenidas, comerciantes fechavam suas lojas e empregados começavam a acender lampiões nas propriedades da região alta. Para qualquer pessoa observando de fora, nada havia mudado.

Para mim, tudo parecia ligeiramente diferente.

Até aquela manhã, o Marquês Florence era apenas um possível traficante de pessoas. Agora havia uma propriedade escondida, carregamentos secretos, um homem marcado que desaparecera, um símbolo relacionado a antigos rituais de transferência e alguém suficientemente poderoso para fazer um marquês implorar em um beco.

Eu começara a investigação acreditando que estávamos procurando um criminoso.

Quando atravessei os portões dos Harfield, já não tinha tanta certeza.

Florence não parecia o homem no topo de uma organização.

Parecia alguém com medo de decepcionar quem estava acima dele.

E, se ele era apenas uma peça, eu precisava descobrir quem estava movendo o tabuleiro antes que essa pessoa percebesse que o Crisântemo começara a olhar na direção certa.



Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.