O Décimo andar
18 Orgulho
O dia seguinte ao julgamento não era apenas mais uma manhã comum; era o dia em que o nome de Eloah Cavalcante ecoava pelos corredores de vidro do Meirelles & Associados com um novo peso.
Ao chegar, um colega a interceptou com um sorriso. "Dra. Eloah, o Dr. Meirelles solicitou sua presença na sala de reuniões da cobertura. Imediatamente."
Ao cruzar a porta dupla, ela foi recebida não por silêncio ou processos, mas por aplausos. Arthur havia organizado um café da manhã de boas-vindas oficial para celebrar a vitória. Ele se aproximou dela diante de todos e a envolveu em um abraço firme e demorado.
— Você orgulhou esta firma, Eloah — ele disse perto do seu ouvido, antes de se afastar para que todos pudessem brindar.
O dia seguiu produtivo, mas a tensão entre os dois era como uma corda esticada. No fim do expediente, Eloah caminhou calmamente até o estacionamento subterrâneo. O som de seus saltos ecoava no concreto até que ela chegou ao seu carro. Arthur estava parado ao lado do dele, a poucos metros.
Ele se aproximou, aproveitando a penumbra e a ausência de testemunhas.
— O que você fez naquele tribunal... — ele começou, a voz baixando para aquele tom grave que a arrepiava. — Foi a coisa mais bonita e perigosa que já vi. Parabéns, Eloah. De verdade.
A mão dele roçou o braço dela, e por um segundo, a paixão que fora reprimida por cinco anos voltou com a força de um furacão. O ar faltou, e o desejo de diminuir a distância foi quase insuportável. Mas Arthur, com uma disciplina de aço, recuou.
— Boa noite, Dra. Cavalcante — ele disse, entrando no carro e partindo, deixando apenas o rastro do motor e o coração de Eloah em chamas.
Eloah dirigiu para casa em transe. O apartamento dos pais estava silencioso; eles haviam saído para jantar. Ela foi direto para o quarto, tomou um banho demorado para lavar o cansaço e a adrenalina, e vestiu uma camiseta de algodão macia e um short confortável.
Sentou-se na cama com o notebook para revisar alguns e-mails, quando o ícone de videochamada brilhou na tela. Arthur Meirelles.
Ela atendeu, o coração na boca.
A imagem que surgiu a deixou sem fôlego. Arthur estava em sua cobertura, sentado à mesa de jantar. Estava sem camisa, revelando o físico que os anos e o estresse não conseguiram abalar, segurando um copo de cristal com whisky e gelo. A luz ambiente era baixa, tornando a cena perigosamente íntima.
— Não consegui terminar o que queria dizer no estacionamento — ele disse, observando-a através da câmera, a voz levemente alterada pelo álcool e pela confissão que estava por vir.
— E o que seria? — ela perguntou, a voz baixa.
— Sobre o dia em que eu te mandei embora — Arthur deu um gole longo no whisky, encarando-a com uma honestidade brutal. — Eu sei que você me odiou. Eu vi o brilho de mágoa nos seus olhos por anos. Mas olhe para você agora, Eloah. Olhe para a mulher que você se tornou sem a minha sombra te protegendo ou te prendendo.
Ele suspirou, balançando o gelo no copo.
— Deixar você foi a coisa mais difícil que já fiz, mas foi a melhor coisa que eu poderia ter feito por você. Se eu tivesse ficado, você teria sido apenas a "namorada do vizinho". Agora, você é a Dra. Cavalcante. Eu te dei o mundo, Eloah... mesmo que para isso eu tenha tido que quebrar o seu coração e o meu no processo.
Eloah sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos. A frieza de anos atrás agora era revelada como um sacrifício distorcido.
— E agora, Arthur? — ela perguntou, a voz trêmula. — O que fazemos com o que sobrou desse sacrifício?
Ele olhou para a tela, o olhar prateado fixo no dela, denso e faminto.
— Agora... nós não somos mais um homem e uma menina. Somos dois adultos que sabem exatamente o que querem. E eu nunca quis nada tanto quanto quero você agora.
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