O Décimo andar
9 O aniversário
O aniversário de 19 anos de Eloah chegou com o peso de uma vida nova que ela ainda estava tentando entender. Ao abrir a porta do 901, o grito de "Surpresa!" a fez pular, mas seus olhos, quase que por instinto, varreram a sala cheia de balões dourados à procura de apenas uma pessoa.
Lá estava ele. Arthur estava encostado perto da varanda, segurando uma taça de vinho, conversando com Ricardo como se fossem velhos amigos de infância. Ele usava uma camisa preta que o deixava ainda mais imponente. Sophia, a amiga da faculdade, estava ao lado de Eloah, cutucando-a com o cotovelo.
— Amiga, se o meu presente for o seu vizinho, eu aceito dividir — Sophia sussurrou, fazendo Eloah corar instantaneamente.
A festa seguiu com risadas e o entusiasmo de Marta, mas o clima entre Eloah e Arthur era uma corda esticada. Toda vez que ela passava por ele, sentia o magnetismo que quase a fizera ser pega pelo pai no corredor das lixeiras semanas atrás.
No meio da noite, enquanto os convidados se distraíam com o buffet, Arthur se aproximou de Eloah, que estava na varanda tentando fugir do barulho.
— Dezenove anos — ele disse, a voz grave cortando o som da música que vinha lá de dentro. — Agora você é oficialmente uma mulher com mais responsabilidades perante a lei... e perante suas escolhas.
Eloah deu um sorriso debochado, tentando esconder o nervosismo.
— Achei que você fosse me dar um exemplar autografado do Código Civil, doutor.
— Eu pensei em algo um pouco mais... duradouro. E que não pudesse ser revogado — ele disse, retirando do bolso uma pequena caixa de veludo azul.
Ao abrir, Eloah perdeu o fôlego. Era um cordão fino de ouro, com um pingente de coração pequeno, delicado e maciço. O brilho era intenso, refletindo as luzes da cidade de São Paulo lá embaixo.
— Arthur... eu não posso aceitar isso. Meus pais vão perguntar, é caro demais — ela sussurrou, olhando nervosa para dentro da sala.
— Diga que foi um presente de um "mentor" — ele disse, com um brilho enigmático nos olhos. — Vire-se.
Eloah obedeceu, sentindo os dedos frios dele afastarem seu cabelo. Quando o metal tocou sua pele, ela sentiu um calafrio percorrer toda a espinha. Arthur inclinou-se, seus lábios roçando de leve a orelha dela enquanto fechava o fecho.
— Esse coração agora está no seu pescoço — ele sussurrou, a voz carregada de uma possessividade que a fez estremecer. — Mas o meu... você já sabe onde está.
Ela se virou rapidamente, o coração de ouro descansando exatamente sobre o pulso da sua jugular, que batia desgovernado.
— Você é louco — ela murmurou, os olhos brilhando. — Meus pais estão logo ali.
— O risco faz parte do contrato, Eloah — ele respondeu, recuperando a postura de vizinho impecável. — Feliz aniversário. Tente não perder o seu novo coração por aí.
Ele voltou para a sala antes que ela pudesse retrucar, deixando Eloah sozinha na varanda, sentindo o peso do ouro em seu peito e o peso de um segredo que, a cada andar que passava, ficava mais difícil de esconder.
Qual será o próximo passo desse jogo? Seus pais estão começando a notar o brilho diferente nos olhos dela.
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