O Décimo andar

30 O Veredito do Coração


O salão do café da manhã no navio estava banhado pela luz dourada do sol refletida no mar. Era o último dia do cruzeiro, e o burburinho entre os advogados e juízes presentes não era sobre as novas teses do STF, mas sobre a cena que se desenrolava na mesa de canto, próxima ao janelão.

​Arthur e Eloah não pareciam mais os "tubarões" implacáveis que todos conheciam. Ele estava com o braço possessivamente passado pelo encosto da cadeira dela, ocasionalmente afastando uma mecha do cabelo loiro de Eloah para beijar sua têmpora. Ela, por sua vez, segurava a mão dele sobre a mesa, entrelaçando os dedos enquanto ria de algo que ele sussurrava.


​— "Olhem para eles," — sussurrou uma desembargadora na mesa ao lado. — "Quem diria que a Dra. Cavalcante conseguiria domar o grande Arthur Meirelles?"

​— "Eu acho que foi o contrário," — respondeu um colega. — "Ele parece um homem que finalmente encontrou o caminho de casa."

​Alheios aos olhares, o diálogo entre os dois era suave, carregado de uma intimidade que cinco anos de distância não conseguiram apagar.

​— "Você percebeu que a Mariana e o Lucas estão fingindo que não estão nos encarando daquela mesa ali?" — Eloah comentou, dando um gole em seu suco de laranja, com um sorriso travesso.

​— "Deixe que olhem, meu amor," — Arthur respondeu, levando a mão dela aos lábios e depositando um beijo demorado. — "Passei tempo demais escondendo o que sentia em elevadores e corredores. Se o mundo jurídico quiser um show de como ser feliz, eles estão convidados."

​— "Você mudou, Dr. Meirelles. Onde está aquele homem rígido que se preocupava com a opinião do pai e do conselho?"

​Arthur olhou profundamente nos olhos dela, o tom de voz ficando mais sério e doce.

— "Ele ficou em São Paulo. O homem que está aqui agora só se preocupa com o veredito de uma única pessoa: o seu. Eu te amo, Eloah. E se eu tiver que beijar você na frente do Plenário do Supremo para provar isso, eu farei."

​Nesse momento, Ricardo aproximou-se da mesa com um sorriso de orelha a orelha e uma xícara de café na mão. Ele parou diante deles, observando a conexão óbvia.

​— "Bem, bem... parece que o ar do oceano é muito mais eficaz do que qualquer petição de reconciliação que eu pudesse escrever," — Ricardo brincou, fazendo os dois sorrirem.

​— "Ricardo," — Eloah disse, estendendo a mão para o velho amigo. — "Não tente levar o crédito por isso."

​— "Ah, eu levo sim! Eu sabia que se trancasse dois gênios teimosos em um navio, o resultado seria esse," — ele deu um tapinha no ombro de Arthur. — "Finalmente, Arthur. Você parou de ser um advogado brilhante para ser um homem inteligente. Ela é o seu melhor caso, meu amigo."

​Arthur se levantou e apertou a mão de Ricardo, mas não soltou a de Eloah.

— "Obrigado, Ricardo. Por tudo. Realmente, não existe vitória maior do que essa."

​— "Agora, — Ricardo continuou, piscando para Eloah — "espero que vocês dois não usem esse romance para ganhar todos os casos contra mim no tribunal. Seria conflito de interesses!"

​— "No tribunal, continuaremos sendo adversários à altura, Ricardo," — Eloah rebateu, levantando-se e abraçando Arthur pela cintura. — "Mas, fora dele... o jogo agora é outro."

​Todos no salão observaram enquanto o casal mais poderoso do Direito brasileiro saía do café de mãos dadas, caminhando em direção ao convés. Eles não eram mais apenas dois grandes doutores; eram a prova de que, no Direito da vida, o amor é a única cláusula que não aceita rescisão.