O Décimo andar
21 O Veredito da Família
O domingo amanheceu com um céu limpo, mas a tensão no apartamento 901 era quase palpável. Arthur e Eloah haviam decidido que a transparência era o único caminho, mas enfrentar Ricardo e Marta era, para Arthur, mais difícil do que qualquer sustentação oral no Supremo Tribunal Federal.
Eles chegaram juntos. Arthur, pela primeira vez em anos, não entrou como o vizinho ou o mentor, mas segurando firmemente a mão de Eloah.
O silêncio caiu sobre a sala assim que Ricardo abriu a porta. Ele olhou para as mãos entrelaçadas, depois para Arthur, e por fim para a filha. Marta, que saía da cozinha com uma travessa, parou no meio do caminho, os olhos arregalados.
— Arthur? Eloah? — Ricardo murmurou, a voz grave e confusa. — O que significa isso?
O almoço foi servido em um clima de expectativa sufocante. Eloah mantinha a postura, mas por baixo da mesa, seus dedos apertavam os de Arthur. Quando o café foi servido, Arthur limpou a garganta. O momento do julgamento havia chegado.
— Ricardo, Marta... — Arthur começou, a voz firme, embora seus olhos traíssem o nervosismo. — Eu sei que o que vou dizer pode parecer súbito, ou até difícil de processar. Mas eu conheço a Eloah desde que ela era uma estudante cheia de sonhos, e eu a vi se tornar a mulher brilhante que é hoje.
Ele fez uma pausa, olhando para Eloah com uma devoção que não deixou dúvidas para ninguém na mesa.
— Eu estou apaixonado pela filha de vocês. E, desta vez, não há segredos ou elevadores travados. Eu estou aqui para pedir oficialmente a mão da Eloah em namoro. Eu quero estar ao lado dela, não apenas no escritório, mas na vida.
O silêncio que se seguiu pareceu durar uma eternidade. Ricardo largou a colher, o rosto indecifrável. Marta levou a mão à boca, processando a imagem do amigo de meia-idade e da filha de vinte e poucos anos.
— Arthur... você tem noção da nossa amizade? Do choque que isso causa? — Ricardo perguntou, o tom beirando a decepção, mas também a surpresa.
— Tenho, Ricardo. Por isso esperei. Por isso a deixei seguir o próprio caminho primeiro — Arthur respondeu com honestidade brutal. — Eu não queria uma menina. Eu queria a mulher que ela se tornou. E eu pretendo fazê-la a mulher mais feliz do mundo, se vocês permitirem.
Eloah finalmente interveio, a voz doce, mas determinada.
— Pai, mãe... não foi algo que planejamos para magoar vocês. Aconteceu. E eu nunca tive tanta certeza de algo em toda a minha vida.
Marta foi a primeira a quebrar a tensão. Ela olhou para o brilho nos olhos da filha — um brilho que ela não via há anos — e depois para a postura protetora de Arthur.
— Eu sempre soube que havia algo — Marta admitiu, soltando um suspiro longo e dando um meio sorriso. — Aquele colar de ouro... eu sabia que não era de um "mentor" qualquer.
Ricardo olhou para Arthur por um longo tempo. O "tubarão" do Direito estava ali, vulnerável, aguardando a sentença do amigo. Finalmente, Ricardo deu um soco leve na mesa e soltou uma risada curta, carregada de resignação.
— Bom, se fosse qualquer outro homem, eu o colocaria para fora a pontapés. Mas é você, Arthur. Eu sei quem você é. E sei que, se você está dizendo isso na minha frente, é porque é sério.
Ele se levantou e estendeu a mão para Arthur, que a apertou com um alívio visível.
— Seja bem-vindo à família de um jeito diferente, meu amigo. Mas aviso logo: se você quebrar o coração dela, eu mesmo movo o processo de danos morais — Ricardo brincou, aliviando o clima.
Marta correu para abraçar a filha, e o almoço de domingo, que começou como um tribunal, terminou como uma celebração. O nono e o décimo andar finalmente não tinham mais barreiras. O amor, que sobreviveu ao tempo e ao silêncio, tinha agora a benção de quem mais importava.
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