O dia amanheceu cinzento em São Paulo, combinando com o vazio que se instalou no peito de Eloah. Ela não chorou ao acordar; a dor havia se transformado em uma determinação gélida. Ela se vestiu com o seu melhor terno, mas não para impressionar Arthur, e sim para enterrar de vez a menina que ele insistia em dizer que ela era.

​Ao chegar no escritório, o silêncio na recepção parecia o de um velório. Ela caminhou direto para a sua sala e começou a esvaziar as gavetas. Gustavo, o colega, apareceu na porta com um olhar penalizado.

​— Eloah... o Dr. Meirelles pediu para te avisar que já está organizando sua transferência para o escritório do Dr. Albuquerque. É um ótimo lugar e...

​— Diga ao Dr. Meirelles que ele não tem mais autoridade sobre a minha carreira — ela o interrompeu, a voz firme como aço, enquanto fechava sua caixa de pertences. — Eu não quero ser transferida. Eu me demito.

​Ela caminhou até a sala da cobertura. Não bateu. Apenas entrou. Arthur estava de pé junto à janela, de costas. Ele tencionou os ombros ao ouvir os passos dela, mas não se virou.

​— Vim buscar minhas coisas — ela disse para as costas dele. — E vim avisar que não aceito sua "ajuda" para me realocar. Você disse que eu devia voar, não disse? Pois bem. Eu vou. Mas não para onde você quer me empurrar.

​Arthur finalmente se virou. Ele parecia ter envelhecido dez anos em uma noite. As olheiras eram profundas e a mão que segurava o copo de café tremia levemente.

​— Eloah, seja racional. O Albuquerque é o melhor para o seu currículo agora...

​— Adeus, Arthur — ela cortou, saindo da sala sem dar a ele o gosto de ver uma única lágrima.

​Naquela noite, o jantar no nono andar foi o mais difícil de todos. Ricardo e Marta olhavam para a filha, que mal tocava na comida.

​— Eu vou voltar para o Rio — ela anunciou, quebrando o silêncio.

​Marta soltou o talher, chocada. Ricardo franziu o cenho.

— Mas, filha, sua carreira aqui está decolando. O que aconteceu? O Arthur...

​— O Arthur decidiu que sabe o que é melhor para mim mais do que eu mesma — Eloah disse, olhando fixamente para o pai. — Ele acha que eu sou nova demais, que ele vai estragar minha vida. Pois eu vou provar que ele está errado. Vou voltar para a nossa casa no Rio e vou abrir meu próprio escritório. Não quero o sobrenome Meirelles no meu currículo, nem a sombra dele nas minhas decisões.

​— Eloah, abrir um escritório sozinha é um desafio enorme — Ricardo ponderou, preocupado.

​— Eu passei na OAB de primeira e venci um caso de 20 anos de reclusão contra um dos maiores advogados de São Paulo, pai — ela rebateu, com um brilho de fogo nos olhos. — Eu não sou mais aquela menina que chegou aqui assustada. São Paulo me deu a armadura, mas o Rio vai me dar a minha liberdade.

​Marta segurou a mão da filha, sentindo a firmeza nela.

— Se é isso que você quer, nós te apoiamos. Quando você vai?

​— Amanhã cedo. Já comecei a encaixotar as coisas.

​Do andar de cima, Arthur ouvia o som abafado de caixas sendo arrastadas e portas se fechando. Ele estava sentado no escuro de sua sala, olhando para o teto, sentindo o silêncio do nono andar se tornar eterno. Ele havia conseguido o que o pai queria: ela estava livre. Mas, ao vê-la partir para outro estado, ele percebeu que a liberdade dela era a sua própria prisão.

​Eloah estava indo embora, e desta vez, não haveria elevador que pudesse trazê-la de volta.