O Décimo andar

3 Entre Degraus e Vertigens




​A noite em São Paulo tinha um som diferente da do Rio. Não havia o barulho das ondas, apenas o zumbido constante de milhões de motores e a luz amarelada dos postes que nunca se apagavam. Eloah não conseguia dormir. O silêncio do apartamento novo parecia amplificar o eco dos seus próprios pensamentos, e todos eles terminavam na imagem de Arthur Meirelles.

​Eram duas da manhã quando ela desistiu de lutar com o travesseiro. Precisava de ar. Mas não do ar condicionado central; ela queria sentir o vento da cidade que seus pais tanto elogiaram.

​Sem fazer barulho para não acordar Ricardo e Marta, ela calçou os chinelos e saiu para o corredor do nono andar. O elevador demoraria, então ela empurrou a porta corta-fogo da escadaria de serviço. Seus pés faziam um eco suave no cimento frio. Em vez de descer, seus pés a levaram para cima.

​Apenas um lance de escadas separava a porta 901 da cobertura.

​Quando chegou ao topo, Eloah encontrou a porta que dava para o terraço comum entreaberta. Ela saiu para a área aberta e perdeu o fôlego. Dali, São Paulo parecia um mar de joias cintilantes sob um céu de chumbo.

​— A vista do Arpoador ainda ganha?

​A voz veio da sombra, perto da mureta de proteção. Eloah deu um sobressalto, o coração disparando contra as costelas. Arthur estava lá. Ele não usava mais a camisa de linho; estava com uma camiseta preta simples que marcava os ombros, e segurava um copo de cristal com algo que parecia whisky.

​— Você me assustou — ela disse, tentando recuperar a pose e ajeitando o cabelo bagunçado.

​— O terraço é o único lugar onde o silêncio é real — ele comentou, aproximando-se da luz. — O que faz acordada a essa hora, Eloah? Saudades do Rio ou apenas insônia de mudança?

​— Um pouco de cada — ela admitiu, caminhando até a mureta, mas mantendo uma distância segura dele. — E você? A cobertura é "silenciosa demais", lembra?

​Arthur riu baixo, um som grave que pareceu vibrar no concreto sob os pés dela.

​— Memória boa. Perigoso isso.

​Eles ficaram em silêncio por alguns minutos, observando as luzes da Avenida Paulista ao longe. A presença de Arthur era esmagadora. Ele não tentava preencher o silêncio com conversas bobas, como os garotos da escola dela fariam. Ele apenas estava ali, confortável em sua própria pele.

​— Meus pais acham que você é o vizinho perfeito — ela soltou, sem olhar para ele.

​— E você? O que acha?

​Eloah finalmente virou o rosto. A luz da lua refletia nos olhos claros dele, tornando-os quase prateados.

​— Eu acho que você é o tipo de vizinho que meus pais deveriam manter bem longe de mim — ela respondeu, com uma ousadia que nem sabia que possuía.

​Arthur arqueou uma sobrancelha, visivelmente surpreso com a franqueza da garota. Ele deu um passo em direção a ela, encurtando o espaço. O cheiro de sândalo e tabaco caro a envolveu.

​— Você é muito direta para alguém de dezoito anos, Eloah Cavalcante.

​— E você é muito observador para quem só veio dar as boas-vindas.

​Arthur inclinou a cabeça levemente, um brilho de diversão — e algo mais profundo — surgindo em seu olhar.

​— Talvez — ele sussurrou. — Mas tome cuidado, Eloah. A vista aqui de cima é linda, mas a queda pode ser bem alta.

​Ele tomou o último gole de sua bebida e, com um aceno de cabeça, caminhou em direção à entrada da cobertura, deixando-a sozinha com o vento frio e a sensação de que, pela primeira vez na vida, ela tinha encontrado algo em São Paulo que valia a pena explorar.

​O problema era que esse "algo" era um homem de quarenta anos que morava exatamente onde ela não deveria subir.