O Décimo andar
10 Encurralada
O clima na faculdade de Direito estava pesado naquela tarde. Eloah tentava se concentrar nas aulas, mas o peso do colar de ouro em seu pescoço parecia queimar sua pele. Ela se sentia observada, e não era por Sophia ou pelos outros alunos. Era como se a presença de Arthur estivesse impregnada nas paredes daquela instituição.
No intervalo entre as aulas de Direito Penal, Eloah foi ao banheiro feminino, um espaço amplo de mármore e espelhos imensos, esperando ter um minuto de paz. O lugar estava vazio, o silêncio sendo quebrado apenas pelo gotejar de uma torneira mal fechada.
Ela parou diante do espelho e tocou o pequeno coração de ouro.
— O que você está fazendo comigo? — sussurrou para o próprio reflexo.
De repente, a porta principal do banheiro se abriu e fechou com um clique seco. Eloah não ouviu o som de saltos, mas sim o de sapatos sociais masculinos, firmes e pesados. Ela congelou. Pelo espelho, viu a silhueta de Arthur Meirelles.
— Arthur? Ficou louco? Este é o banheiro feminino! — ela se virou, o coração disparando, a voz saindo em um sussurro urgente.
Ele não respondeu de imediato. Arthur caminhou até ela com uma calma predatória, trancando a porta principal atrás de si. O terno escuro e a expressão séria faziam dele a figura mais perigosa que Eloah já vira.
— Eu vi você na aula — ele disse, a voz ecoando nas paredes de azulejo. — Você não parava de mexer no colar. Estava pensando no presente ou no doador?
Ele a encurralou contra a bancada de mármore frio. Eloah sentiu o contraste entre o gelo da pedra em suas costas e o calor abrasador que emanava do corpo dele.
— Eu estava pensando em como você é imprudente — ela rebateu, tentando manter o queixo erguido, embora suas pernas estivessem bambas. — Se alguém entrar aqui e te vir, sua carreira acaba. O "grande Meirelles" expulso por assediar uma aluna no banheiro.
Arthur apoiou as mãos na bancada, uma de cada lado do corpo dela, inclinando-se até que seus narizes quase se tocassem.
— Eu não estou aqui como professor ou mentor, Eloah. E você sabe muito bem que ninguém entra onde eu decido estar — ele baixou o tom, a voz vibrando de forma perigosa. — Você me desafiou no almoço, me provocou na lixeira... e depois fugiu no elevador. Você acha que pode me dar um pouco de si e depois recuar?
— Eu te contei a verdade! — ela exclamou, os olhos brilhando de uma mistura de raiva e desejo. — Eu não sou como as mulheres que você está acostumado. Eu não sei jogar esse jogo de... de adultos!
Arthur levou a mão ao pescoço dela, os dedos roçando o colar de ouro antes de segurarem sua nuca com firmeza.
— Então eu vou te ensinar as regras — ele sussurrou, a milímetros da boca dela. — A primeira regra é: nunca comece um incêndio se você não pretende se queimar.
O beijo que se seguiu foi o mais intenso até então. Não havia mais a polidez do vizinho ou a cautela do elevador. Era um confronto de vontades. Eloah sentia que estava perdendo o chão, as mãos dele subindo para sua cintura, puxando-a para cima da bancada de mármore.
O som de vozes femininas rindo no corredor fez Eloah paralisar. Alguém tentou abrir a porta, que estava trancada.
— Ué, está trancado? Deve estar em limpeza — disse uma voz do lado de fora.
Eloah enterrou o rosto no ombro de Arthur, prendendo a respiração, o medo de ser descoberta lutando contra a vontade de nunca sair dali. Arthur nem sequer piscou; ele mantinha os olhos fixos nela, um sorriso sombrio de quem dominava a situação.
Quando os passos lá fora se afastaram, ele se separou dela apenas o suficiente para olhá-la nos olhos.
— O risco te assusta ou te excita, Eloah? — ele perguntou, limpando o rastro de batom dela do canto da boca com o polegar.
— Os dois — ela admitiu, a voz falha.
— Ótimo. Porque no próximo jantar na sua casa, eu quero que você use esse colar. E quero que você se lembre de exatamente onde estávamos agora enquanto olha para o seu pai.
Ele destrancou a porta e saiu com a mesma elegância com que entrou, deixando Eloah sozinha no silêncio do banheiro, com o gosto dele na boca e a certeza de que a faculdade de Direito seria o menor dos seus aprendizados naquele ano.
Fale com o autor