O Céu de Calebe
2 Chegada ao Reino Purple Eye
Notas iniciais
Uma das coisas que mais notei assim que chegamos na Vila Thorpe. Notei como as crianças nos encaravam e percebi como eu as escarava de volta. Muitas delas eram gordas ou saudáveis demais para não dizer serem pequenas rolhas. Era divertido ver como poderiam ser tão claras, mas que não chegavam a ser como nós, parecia até que tínhamos uma cor de pele mais adoentada do que elas. Porém enquanto eu, minha mãe e minha irmã, Yamar de 12 e éramos levados na charrete por Áustria, notei como aquelas crianças não tinham educação com os mais velhos. Se derramássemos água em uma mulher, como a molecada havia feito naquele exato momento, tínhamos de levar umas boas varadas na perna e nas costas de uma planta específica, que até hoje não descobri qual era.
Os adultos e os jovens nos observava também com atenção, menos os comerciantes que eram estrangeiros assim como nós naquelas terras que entendia como era estranha a sensação e a mudança de vida, esses acenaram com a mão, mas o que pertenciam á Thorpe não. Observei quando eu vi uma mulher puxar a filha pra si e me olhava e dizia algo pra filha, hoje eu sei que era pra manter distância de minha família, principalmente a minha.
Voltei com as mãos para dentro da charrete e peguei no saco de mantimentos que trazíamos uma maçã, uma gente ali e outra lá e foi assim a nossa passagem do centro da Vila de Thorpe. Provavelmente foi um pouco longe dela que havíamos chego numa casa grande e vermelha. Lembro bem da vida e o cheiro de coisas novas que ela dava. Quando minha mãe parou Áustria na frente da casa, apareceu um homem, não era moço, um senhor já. Tinha a pele um pouco mais bronzeada do que a nossa, mas não era também como as da gente que vi no centro da vila, era diferente. Parecia conosco.
— Juhé! — minha mãe gritou e então havia entendido aquele homem que agora a abraçava era pai da mãe. Meu "jujéh", meu avô. Sai da charrete e minha irmã me ajudou a descer, ela sorria e me levava na mão. Como me irritava, as vezes na época Yamar, eu queria me sentir o Tuijah da casa, o "chefe" da família, mas ela sempre mostrava o quanto era pequeno para os outros...
Hoje sei que ela queria apenas me proteger do que estava por vir...
— Jujéh! — gritou Yamar abraçando o vô com alegria. Me aproximei devagar o observando atento, suas vestes não eram como as nossas. Ele usava roupas feitas com tecido grosso e de cores vibrantes. As roupas da nossa tribo eram peles da maior raça que temos, até hoje de lobos brancos que eram amarradas em nossas cinturas do tecido grosso do animal, enquanto isso, nossas costas toda era coberta pela pele do Lobo Branco e nossos rostos eram cobertos pela sua cabeça, nosso peito ficava nu, tirando os das mulheres que a pele ficava na parte da frente do corpo, assim seria mais... Honrado, como dizemos na tribo. Porém usamos a pele da raposa quando crianças, depois do Ritual de Passagem, de raposinha para Grande Lobo, usamos nossas vestes como havia descrito anteriormente.
Jamais deixei aquilo que aprendi na tribo para trás, foi isso que permitiu que eu vivesse e permanecesse vivo até agora, menos o meu nome que morreu comigo assim que tudo desabou.
Vendo todos como eu caminhava, todo desconcertado e confuso com aquela situação, minha mãe me chama dizendo daquele jeito amoroso:
— Jyhei, venha! Teu Jujéh deseja conhecer vos. — eu olhei pro senhor e ele sorria sem mostrar os dentes, seus olhos enrugados e seu rosto coberto pelo seu enorme chapéu que amarrava abaixo de seu queixo. Parecia ser um homem confiável. Eu me aproximei cauteloso e senti um empurrão de Yamar assim que hesitei em pegar a mão de Jujéh.
— Para de besteira, Jyhei! Ele é teu vô... — assim que peguei em sua mão percebi como as minhas pareciam patas de filhote comparadas as dele que eram grandes demais, e se eram grandes demais...
— Eu sou Gywa, prazer em conhecer Jyhei. — falou seu tom grave, mas seco. Sua voz era seca, mas sentia sinceridade em seu tom.
— Olá... — disse tímido apenas. Ele me encarou e me abraçou, estranhei aquele gesto já que na tribo não era costume um homem abraçar um membro de sua família mesmo sendo sua esposa!
— Você me lembra seu pai Jyhei... Ele era um bom homem.
— Mamãe me disse que ele era um ótimo caçador! — falei orgulhoso de meu pai, ele era muito legal mesmo! Sei disso porque me lembro dele, até hoje. Ele chegando em casa com uma foca nas suas costas ou um Leão-Marinho. Era interessante vê-lo preparar nossa comida enquanto minha mãe dava aula para as crianças de outras famílias.
— Sim, sim... Ele era um caçador muito bom mesmo! E Yamar... — ele se voltou pra minha irmã que prestava atenção no que ele dizia.
— Sim, Jujéh? — perguntou cuidadosamente.
— Você anda aprendendo ainda? A ser uma grande arqueira assim como sua mãe?
— Sim! Estou me esforçando muito! — falou ela empolgada.
Enquanto eu queria ser como meu pai, forte e grande caçador, minha irmã queria ser como minha mãe. Tais pais, tais filhos.
— Bem, muito bem... E vai ser, acredite em si mesma que você vai ser.
— Eu vou!
— Ok, quem quer um pouco da comida de Purple Eye? — perguntou Giwa e eu e minha irmã levantamos as mãos em comemoração, estávamos ansiosos com as delícias que iríamos comer, estávamos ansiosos com a cidade e tudo! Mas eu, principalmente, queria descobrir e em querer saber o porque daquele céu ser tão maravilhoso e o da minha casa tão morto? Até que decidi perguntar pra minha mãe assim que entardeceu e fomos pra cama. Meu quarto ainda dividia com Yamar, era pequeno e com duas camas, um armário grande e uma cabeceira, as velas estavam acesas e pareciam não se apagar por nada, minha cama ficava perto da janela assim como a de Yamar ficava perto da outra janela do quarto. As paredes eram pintadas e feitas de madeira, o chão era escuro como o Grande Tabek, o urso que nos mantinha salvo na tribo. Em agradecimento dávamos frutas e peixes pra que ele vivesse bem e tivesse uma família. Quem os domava era o Chefe Maki que era muito bom no que fazia, pois pra quem era concedido o Dom de Enfeitiçar Bestas era digno pra se tornar o chefe da família. Nossa sorte é que ele era sábio apesar de ser jovem como minha mãe.
— Makpah? — a chamei.
— Sim, filho? — perguntou voltando pra mim e fechando a janela do quarto, eu me sentei na cama e ela também, Yamar já dormia profundamente. Eu coçava meus olhos lutando pra não desmaiar ali mesmo.
— Por que nosso céu é branco e nebuloso enquanto aqui é colorido? Não entendo!
— Bem... — ela pensava em como em dizer aquilo, pois ela também não sabia. Ninguém entendia. — O céu nosso é branco porque não temos proteção, mas aqui... Vendo todas as suas cores e... Você sente alegria quando o vê Jyhei?
— Sim! Tão grande quanto Pœi! — falei que era como uma baleia de tão grande que era. Sim, nossa língua é estranha, mas só pra nomes.
Ela riu um pouco com aquilo. — Como Pœi? Uau, bem grande então... — falou admirada, eu sorri de volta. Ela me deitou e me cobriu com o cobertor de lã de ovelha. Olhou bem pra mim antes de dizer: — O céu daqui é protegido Jyhei. Não pelo o que sabemos, mas até pelo o que desconhecemos.
— E vamos conhecer Makpah? — perguntei pra minha mãe. Ela disse que sim com a cabeça e me beijou na testa.
— Sim, por isso que viemos pra cá: "Descobrir novos caminhos e nos tornar novos também...".
— Vamos voltar um dia mãe?
— Sim. Talvez um dia, sim...
— Maki vai sentir sua falta... — falei com tristeza, gostava do Chefe, ele era um homem bem atencioso com minha mãe e um bom homem pra mim e para Yamar, sem falar que Yamar se apaixonou secretamente pelo filho mais velho dele.
— Não diga loucuras Jyhei! — falou ela cobrindo o rosto. Ela estava ficando como Maki naquela hora.
— Mas mãe! Makpah! Maki e você perderam ambos seus parceiros! Podem se unir novamente!
— Filho, não estarei honrando seu pai... E ne Maki sua falecida. — disse triste. Eu fiz cara feia pra ela, eu merecia um tapa só por mostrar um olhar torto, mas ela tinha de ouvir:
— Huiji — chamei-a pelo nome agora. Ela me deu toda a atenção que poderia, eu sorria pra tirar a careta e pra não parecer uma repreensão. — Huiji, juhé quer te ver feliz e com os olhos brilhando de novo do céu, mesmo ele não podendo estar conosco mais, ele quer que você seja feliz como foi junto dele!
Tenho certeza que vi lágrimas escorrerem do rosto de minha mãe assim que terminei, pois suas mãos, pequenas e macias se tremiam tanto, e ela estava com os olhos cerrados. Eu a abracei e beijei sua testa com carinho.
— Bons sonhos Huiji'Makpah! — disse me despedindo dela, ela sorriu e inspirou fundo. Se levantou e disse um "obrigada" e saiu do quarto fechando a porta.
Assim que deitei na cama, Yamar estava do meu lado, eu revirei meus olhos com seu olhar descrente pra cima de mim. Lembro como seus olhos tremiam de nervoso.
— Como você... — ela começou e eu terminei.
— O filhote caçula tem seus próprios talentos, minha irmã... — disse com um dedinho pra cima sorrindo feito um bobo. Ela estava tentando dizer aquilo pra mãe há muito tempo. Eu só falei uma vez e consegui fazê-la crer em minhas palavras. Que meu pai realmente quer ver a mulher tão amada sua, feliz e sorrindo de orelha a orelhas como sempre fazia, mesmo que não seja ele ao seu lado.
— Bem, parabéns meu irmão. Se souber domar bestas se torne Chefe logo... — disse ela sorrindo bobamente também.
— Sim, pode deixar. Te uno com Dsay como quer... — murmurei pra ela ouvir, virei de lado e não vi como o rosto dela se tornou de puro gelo para pimenta. Aquela noite foi boa pra mim. Mesmo pequeno era esperto, gentil, amável e otimista.
Eu era uma criança boa, uma santa na verdade. Nunca fui um peste. Mas mesmo assim, queria eu antes que as outras crianças houvessem percebido antes.
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