O Cão e a Cruz

1 O Cão e a Cruz


Francisca das Dores, ou Dona Chica, teve sete filhos, o sétimo foi com um padre de uma pequena cidade no norte do Pará, onde atualmente reside, deitada em seu caixão, na sua simples cova. A cruz de madeira com seu nome, fincada sobre o túmulo, balançava quando o vento forte batia, mas nunca caía, assim como a velha fora em vida.

O pai da sétima criança fugiu para outro estado quando o menino mais velho de Dona Chica atingiu a maioridade. No dia em que foi embora, o homem parecia assustado, não tinha se despedido do próprio filho, nem dos outros que ela tivera com os outros homens de sua vida. Sem marido, Francisca, teve de cuidar das sete crianças sozinha, eram sete meninos.

O padre deixou sua igreja, uma pequena e simples capela branca, para a família. Um dos filhos, Ronaldo, havia assumido o sacerdócio. Quando ele virou o padre da igreja do vilarejo, passou a morar na capela, junto com seu irmão José, que precisava de bastantes cuidados, pois tinha a saúde frágil, era pálido e magricela.

Em uma noite de sexta-feira, enquanto fazia o prato que seus filhos mais gostavam, o Tacacá, uma sopa amarelada com goma e camarão, Dona Chica foi abatida por um mal estar repentino e em seguida atacada por alguma coisa que lembrava um cão, não teve tempo de reconhecer, quando menos percebeu, já tinha passado desta pra melhor.

Surgiram rumores de que uma fera sempre era avistada correndo durante as madrugadas de sexta-feira, atacando os desprevenidos. Muitos diziam que um lobisomem tinha chegado à cidade e se instalado por lá. Todas as sextas, alguns caçadores saíam à procura da besta para matá-la.

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Após a longa missa da tarde de Domingo, Ronaldo estava com uma vontade imensa de comer carne, de preferência mal passada, sua preferida; foi até a cozinha para prepará-la, para ele e para seu irmão José. O calor estava insuportável, nas ruas a areia alaranjada era levada pelo vento, formando verdadeiras nuvens arenosas, que invadiam as casas alheias, o que incluía a capela também. Ronaldo sabia que após o almoço teria de cumprir sua rotina limpando a entrada da igreja, pondo a areia para fora.

Após a refeição, tratou de conversar com seu irmão, que passava o dia de cama, José adorava ouvir as histórias de Ronaldo e também a palavra do Senhor, se sentia a pessoa mais feliz do mundo quando o irmão o vinha visitar no quartinho atrás da capela, onde os dois dormiam. Após conversar com José, o padre ia para o velho e pequeno confessionário de madeira, atender os fiéis. Ronaldo ouvia confissões absurdas todos os dias, imaginando se realmente servia de alguma coisa para estes cidadãos ouvir a palavra de Deus, mas ele sabia que não devia questionar os poderes da fé e assim seguia com seu trabalho sempre bem executado: “reze dez ave marias e quinze pai nossos”.

Saindo do confessionário, o suor escorrendo por seu rosto, Ronaldo escutou alguém o chamando, ao se virar viu que era uma das fiéis mais fervorosas da igreja, uma colega querida dele.

— Dona Joana! O que fazes aqui? Ainda falta muito para a missa das seis.

— Ah, nada padre, só vim conversar com o senhor.

— O que me contas?

— O senhor sabe que nos últimos tempos a fera tem atacado com mais frequência? Estou com medo Ronaldo.

— Não há o que temer minha amiga, o poder do senhor protege quem segue a palavra. Sente-se vou trazer um copo d’água para a senhora, deve estar seca de tanta sede.

Enquanto tirava a garrafa da geladeira e apanhava o copo, Ronaldo refletia sobre o que Joana havia dito, “a fera tem atacado com mais frequência”, na verdade ele tinha muito medo da besta, mais do que qualquer um daquela cidade, tinha certeza, tremia quando lhe falavam da criatura, mas tentava sempre demonstrar firmeza e coragem e até agora tinha conseguido, as pessoas ficavam contentes em estar perto dele, se sentiam seguros. A água agora transbordava do copo de vidro, Ronaldo resmungava.

Levando o copo para a mulher, ele foi surpreendido por uma pergunta.

— Padre, não pude deixar de notar esse rasgo em sua roupa, o que foi isso?

Pensando na besta, a mão de Ronaldo fraquejou e agora o copo havia se transformado em estilhaços no chão.

— Oh meu deus! — Exclamou a mulher.

— Não se preocupe Dona Joana! Não se preocupe! — Falava Ronaldo rapidamente, enquanto já catava os restos do copo — Eu só estava desatento, não use o nome do Senhor em vão.

— Desculpe padre, força do hábito.

— Sim, a pergunta que fez pra mim. Foi apenas um acidente de ontem, eu estava passando pela porta quando minha blusa ficou presa em um pedaço de madeira solta e acabou rasgando.

— Ah, acontece né?

— Vou na cozinha pegar a água da senhora — avisou, enquanto catava os cacos de vidro.

— Não senhor, não precisa, já estou indo, não se incomode. Vou para casa agora, tenho que preparar o café e depois me arrumar para a missa.

— Certo, vejo a senhorita mais tarde então.

— Até.

Dona Joana saía da capela, questionando acerca do comportamento estranho de Ronaldo, que não só tinha derrubado o copo como havia ficado da cor das paredes da igreja.

O padre respirava aliviado depois de a mulher ter ido embora. A noite estava chegando, e com ela o compromisso inadiável de Ronaldo, foi ao seu quarto trocar de vestes, aproveitando para conversar novamente com o irmão José.

Os outros irmãos de Ronaldo haviam crescido com os cuidados dos vizinhos, após a morte da mãe. Eles vinham sempre frequentar as missas do sacro irmão ou então tomar um café com ele e José no fim da tarde. Apesar das dificuldades que passaram, eram muito unidos e bondosos.

Ronaldo tinha celebrado a missa com excelência, sua satisfação em ajudar as pessoas o deixava realizado, mesmo com suas preocupações, fardo que acompanha os seres mortais. Cumprimentou os fiéis e os irmãos.

— Ronaldo meu amigo! Como está a vida? — Perguntava o prefeito da cidade.

— Está ótima Carlos, obrigado — respondeu Ronaldo, o prefeito agora dava tapinhas no ombro do padre enquanto ia cumprimentar os outros.

— Meu grande irmão! — Cumprimentou um dos membros da família.

— Rafael! — O padre abraçava o consanguíneo.

— Quando vai voltar a fazer missas nas sextas hein? — Perguntava Rafael.

— Tu sabes que é um dia perigoso não é? As pessoas não estão mais saindo de casa com medo da besta e eu não gostaria de imaginar aquela fera entrando na igreja em plena missa. Estou me protegendo como posso, a mim e a todos.

— Espero que peguem logo esse lobisomem, ele matou nossa mãe, é o que mais desejo, a morte do bicho, estou tentando ajudar os caçadores a pegá-lo nas noites de sexta.

Ronaldo suava frio após ter escutado o irmão dizendo “é o que mais desejo, a morte do bicho”, pegou um lenço e rapidamente limpou a face.

— Irmão, tu não deves desejar a morte dos outros, nas sextas ele pode ser um bicho, mas nos outros dias é humano, como todos nós — advertiu o padre.

— Desculpe irmão, sou apenas um simples pecador.

— E uma pessoa de ótimo coração também, pecadores todos nós somos.

Às oito da noite todos saíam da igreja e o padre arrumava o altar, retirando o que devia ser limpo e varrendo-a. Antes de dormir, pedia ao pai que zelasse pela saúde de José e pela segurança de todos da pequena cidade, que os livrasse da besta.

Todas as noites de sexta-feira, Ronaldo sumia, ninguém da cidade sabia onde ele estava, aqueles que tinham coragem de sair naquele momento, geralmente mendigos ou pessoas sem teto que vagavam sem rumo pela cidadezinha, podiam ouvir choros vindo da casinha atrás da capela, provavelmente era o irmão do padre, que se sentia solitário ali sozinho na noite obscura.

Após notarem que Ronaldo não estava na cidade nas sextas, o povo passou a desconfiar dele, “quem diria, o padre, justamente o padre da nossa cidade suspeito de ser a besta” comentavam os habitantes indignados. Os caçadores vasculhavam o matagal que cercava a cidade na noite escura em busca de pistas ou da própria fera, todos eles armados até os dentes.

De três em três domingos, eles pediam a Ronaldo que lhes deixassem pegar a cera das velas que foram utilizadas somente nas missas de domingo, segundo a lenda, o lobisomem só poderia ser morto com bala untada com cera que queimou em três missas de domingo ou em Missa-do-Galo. Agora, suspeitando que Ronaldo era a fera, os caçadores olhavam de um jeito estranho para ele e o padre sentia isso, havia medo e receio nos olhos deles.

A cada semana a besta fazia novas vítimas e a população estava cada vez mais furiosa. Dona Joana já havia sido levada, em uma das noites, somente partes de seu corpo foram encontradas jogadas pela cidade, grande parte da Rua das Alamedas foi tingida de vermelho. Ciro, irmão de Ronaldo, disse ter visto uma silhueta canina próxima à capela, ao ter olhado pelas frestas da janela, em uma noite de sexta-feira.

Em uma tarde de segunda, Ronaldo tinha resolvido procurar César, um grande conhecedor das lendas locais, também um contador de histórias, parece que sabia de muita coisa sobre os lobos humanóides. O padre estava de frente a uma casa amarela, com os olhos semicerrados devido ao calor, na entrada do casebre, um senhor balançava-se para frente e para trás em sua cadeira de balanço, fumando cachimbo.

— Com licença, é aqui que mora o César? — Perguntou Ronaldo.

— O César? Sou eu — disse o velhote, tossindo. Ele tinha uma cara murcha e larga, o narigão enrugado se destacava em sua face de pele escura.

— Boa tarde, eu sou Ronaldo, o padre da capela de São Miguel — disse estendendo a mão para que o velho a apertasse. Após o aperto de mão, César olhou atentamente nos olhos do padre.

— Eu conheço você, já assisti a uma missa sua, prega bem a palavra do Senhor.

— Obrigado.

— A cidade pensa que tu és a besta, está sabendo não é? Olham feio pra ti.

— Claro, mas o Senhor me protege de todos os males. Foi justamente por isso que vim te procurar, para saber mais sobre a besta.

— Ah, meu caro, posso lhe dizer bastante coisa, meu pai já encontrou um lobisomem quando era jovem, teve sorte de escapar com vida, ele passou a vida pesquisando sobre esta maldição, me passou tudo o que podia.

— Conte-me.

— Sente aí nesta cadeira — o velho aguardou um momento, esperando o padre se acomodar na outra cadeira de balanço. — Bem, vamos começar sobre como se deve deter a besta – César inclinou-se para a frente e deu um sorriso convencido, orgulhoso de todo seu conhecimento — uma das maneiras é colocando cera de vela usada em três missas de domingo em uma bala e atingindo a besta, essa você já deve saber.

— Sei sim. Na verdade eu não quero matar a besta sabe, apenas quero me proteger.

— Entendo, realmente não cairia bem para um padre matar alguém. A maldição do Kumacanga ou lobisomem, faz com que a pessoa sinta um grande desejo de comer carne, comida salgada, e traz uma sede incontrolável. A criatura precisa se alimentar de sangue para viver, se encarrega de obtê-lo quando está transformado. Diz a lenda que quando uma mulher tem sete filhos homens, o sétimo será um lobisomem, ou então quando a mulher se amanceba com um padre. A maldição se desenvolve quando a criança completa treze anos de idade.

Ele apenas havia confirmado o que já sabia, “treze anos de idade”, era horrível saber daquilo, sentia o olhar canino quando fechava os olhos, era aterrorizante, aquilo o atormentava há algum tempo. Sete filhos, a carne, o sangue, o padre, tudo agora estava confirmado, a lenda não era apenas uma lenda, de fato existia e estava mais perto de Ronaldo do que qualquer um poderia imaginar.

— Já ouvi o suficiente, com licença, vou embora, muito obrigado César — disse Ronaldo levantando-se.

O velho não disse nada, apenas ficou olhando para o padre fixamente, franzindo o cenho, a fumaça do cachimbo cobrindo-lhe a face.

A sexta-feira havia chegado novamente, a maldita sexta. O povo da cidade estava decidido dessa vez, em invadir a igreja, para pegar Ronaldo no flagra, para acharem a besta. Perto do anoitecer, os cidadãos brandiam suas tochas, pás e enxadas rumo à capela, gritavam indignados, “Isto vai ter um fim esta noite!”,” A besta não irá mais nos perturbar!”,”Não haverá vítimas em nossa cidade esta noite!”. Chegando na porta da capela, a multidão arrombou o portão e adentrou no local, o altar tornou-se alaranjado pela luz das tochas, o silêncio reinava ali, mesmo com o grito de todas aquelas pessoas. Era um cenário sombrio, todos haviam se calado, agora vasculhavam o lugar em busca de Ronaldo.

Ao chegarem no quartinho em que dormiam os irmãos, encontraram apenas José, pálido e ofegando em sua cama, estava muito assustado com a invasão repentina daquelas pessoas na casa do Senhor.

— José! Por Deus, onde está o seu irmão?

— Eu não sei.

— Ora, não precisa mentir, estamos aqui para o seu bem, para te salvar das garras da besta, diga para nós.

— Estou falando a verdade! Não sei!

Todos os que estavam no quarto olhavam um para o outro, incrédulos, iluminados somente por suas tochas. Na visão de José os rostos de todos demonstravam que estavam sedentos por sangue, o ódio pela besta havia contaminado todas aquelas pessoas com um instinto assassino.

— Vamos embora, ele não está aqui, pobrezinho do irmão dele, abandonado neste quartinho escuro... Venha conosco garoto.

— Não, eu não quero. Aqui estou mais seguro, na casa do Senhor.

— Que seja. Hoje iremos achar a fera, custe o que custar — as pessoas agora evacuavam a igreja.

Nas ruas desertas da cidade, podia-se ouvir apenas o vento e os passos das pessoas revoltadas que vagavam pela cidade em busca do lobisomem. Durante a caminhada, um dos homens disse ter visto uma silhueta correndo para o matagal, logo os caçadores adiantaram-se, aquela era a chance de ouro. Eles se separaram prontos para armar uma armadilha para a besta, cercariam o bicho em um círculo, o deixaria sem saída.

Não tardou para que encontrassem o homem lobo. A criatura rosnava para os homens armados que a flanqueava, sentia-se ameaçada, de fato estava muito encrencada. A saliva deslizava por sua enorme boca canina, repleta de dentes afiados; os pelos escuros eram escassos em algumas regiões do corpo e também eram mal distribuídos; as orelhas pontudas lembravam chifres e os olhos amarelados eram intimidadores. O monstro estava sedento por sangue e carne humana, seus instintos o dominavam, o cão pulou em cima de um dos caçadores com extrema rapidez, o homem nada pôde fazer, estava sendo devorado, o sangue jorrava por todos os lados, tornando as plantas, antes azuladas com a luz do luar, em vermelhas, um vermelho escuro e denso; logo os gritos do homem cessaram, quando a besta o mordeu na jugular. Os outros, que observavam a cena, chocados, agora não viam outra solução senão atirar no bicho e assim fizeram. O lobisomem fora fuzilado, perfurado pelas balas sagradas, untadas com as velas da Igreja de São Miguel, em pouco tempo caiu duro na grama, os olhos perdendo a cor amarelada, a língua pendendo para fora da boca, a besta foi abatida.

Ronaldo notando a confusão que vinha lá de cima, saiu de seu esconderijo, que ficava próximo à sua cama, um pequeno porão que havia feito para se proteger da besta durante a noite. Reunindo toda a sua coragem, levantou o alçapão lentamente, olhando para todo o ambiente, seu irmão havia sumido. Foi andando até a cozinha, do lado de fora era possível ouvir gritos, mas não eram gritos de horror e sim de comemoração. Chegando na praça da cidade, encontrou os cidadãos reunidos ao redor de um poste, em que no alto uma criatura lupina pendia, balançando de um lado para o outro, presa com uma corda grossa no pescoço, o sangue da besta ainda escorria por seu corpo, pingando e criando uma poça de sangue abaixo dela.

O padre foi tomado por uma sensação horrível, caiu de joelhos e começou a chorar, isto fez com que todos se calassem e olhassem para trás. Ao verem Ronaldo ficaram perplexos, pensavam que ele era a fera, mas se ele estava ali ajoelhado, quem era a maldita criatura? Só o amanhecer os daria a resposta.

Algumas pessoas tentavam consolar Ronaldo, mesmo não sabendo o motivo porque tanto chorava, devia estar feliz pelo fim da besta. O padre ficou ali, olhando para a pobre figura do monstro, pendendo tristemente no poste, durante toda a madrugada.

Quando os raios de sol começaram a surgir no horizonte, a figura de José, o sétimo filho de Dona Chica, filho do antigo padre da cidade, aparecia onde outrora estava a besta. O frágil irmão de Ronaldo completaria treze anos naquele dia. Sabendo disso, o padre havia criado um local para se proteger do próprio irmão, para quando o dia chegasse.

Os ataques da besta não cessaram, pois, o lobisomem que em São Miguel residia, já estava lá muito antes da primeira transformação de José, naquela fatídica sexta-feira. Ronaldo carregou a amargura de ter abandonado o irmão naquele dia por toda a sua vida.

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