O Cão de 2030
1 Capítulo único
Notas iniciais
O último cão do planeta disparava em suas andanças, à procura de algo que pudesse saciar sua fome de meses. Seus pêlos pretos e brilhantes haviam se transmutado — agora eram ásperos e baços, seu andar elegante reduzido à uma espécie de rastejar furtivo e feio; arrastava-se contra o calcário, o focinho ferido colado ao chão com suas narinas dilatadas, procurando um cheiro sutil.
O ano em que vivia não igualava-se àqueles em que vicejara a vida; por onde passava via com seus olhos argutos uma paisagem caída coberta por densa neblina anormal, acompanhada de um odor forte e nauseante de podridão. Pelo que seu pequenino cérebro animal se recordava, os humanos, sua outrora fonte de alimento e carinho, tinham se envolvido em conflitos bobos sobre posse de terras férteis portadoras de nascentes ou cascatas de capital. Estúpidos, tolos... se condenaram pela falta de gentileza e excesso de cobiça, agora estavam todos mortos, cobertos pelo manto radioativo da morte. Desconhecia o motivo de sua sobrevivência quando tudo o mais estava podre e inerte, mas agradecia intimamente pela vida mesmo ela sendo vazia — obedecia seus instintos.
Sob a luz embaçada do luar ele prosseguia, seus dois faróis dourados brilhando, as pupilas pesadas pela exaustão. Por gélidas noites ele andou trôpego, pelos dias cálidos cambaleou resfolegando de sede até que o pouco de energia de seu corpo canino se esvaiu, forçando-o a se deitar. Passou a contemplar o território, sua ojeriza pela vida solitária aumentando. Havia corpos caídos o rodeando, armamentos, transportes de guerra, mutilados, ilustrações de símbolos em preto e amarelo gravadas em barris metálicos.
Foi nesse momento de delírio que o cão magrelo, fruto do desperdício humano, viu uma poça ao seu lado que molhava-lhe a pata. Era um líquido de cor estranha produzido pelos homens. Sendo desprovido de reconhecimento de cores, bebeu-o avidamente, sentindo-o molhar as mandíbulas e escorregar pela garganta. Morreu com a sede saciada, mas com a vontade irrefreável de mudar o destino do mundo.
Notas finais
"O cão de 2030" foi feito no ano de 2007, quando comecei a me interessar não só pela leitura, mas como pela escrita também. O tema do concurso era sobre como seria o nosso futuro, coisa que poderíamos ter abordado da maneira que quisessemos, e escolhi a figura do cão, o melhor amigo do homem que ironicamente encontrou seu fim por causa dele (diga-se de passagem também que tenho uma tara por cães e lobos xD).
O mais frustrante era que minha redação tinha ganho o concurso, mas como a "bancada-de-jurados-que-nunca-me prestou-satisfações" considerou meu trabalho supostamente "muito avançado para uma menina de 14 anos da 8ª série do ensino público" não sendo, portanto, de minha autoria - perdi o prêmio, que era um pc novinho (na época não tinha um computador ainda). Ainda fico muito p*** da vida quando lembro disso porque foi o mesmo que ter todos os meus esforços ignorados e meu sonho de escritora massacrado por essa "desconfiança". Por outro lado também foi uma coisa boa porque depois de uma perda temporária de ânimos me dediquei ainda mais à minha ambição e conheci assuntos novos que ajudaram bastante.
Ou seja, foi um marco! o
Como deu pra perceber também, o texto é carregado de adjetivos que atravancaram um pouco a leitura - procurei não mudar praticamente nada da redação original, por isso o "pêlo" ainda tem acento, etc, etc!!! Além disso há uma certa coisa no texto de "sombrio, triste e auto piedade" que me incomoda, mas que eu usava muito em 2007 xD
Ainda vou fazer outra versão para ele! =D
Estou com um pouco de dúvida sobre o tipo desse texto...
Mas estou esperando alguns comentários! o/
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