* * * Mansão Kido – Atenas, Grécia * * *

Casa Oeste – Suíte Master

Saga

Estava deitado na minha cama olhando diretamente para janela, o céu não estava mais negro, passava para um azul escuro agora, talvez em algumas horas os primeiros raios de sol enfim sairiam. Como imaginei, a minha noite foi em claro, não conseguia dormir com a agitação mental. Fiz e refiz mentalmente as cenas vividas da minha vida ao lado dela em busca de respostas que justificassem tudo o que fazia. Não achei tudo o que queria, mas o medo de que se eu tivesse mais uma chance de recomeçar ao lado dela eu pudesse fazer a mesma coisa para que mais uma vez ela me deixasse, me apavorava! Porque se eu conseguisse esse milagre de voltar para vida dela eu não poderia sequer pensar em falhar novamente. Apesar de ser um grande medo também é o pensamento que me consolava, ainda poder sonhar em mais uma chance, em tê-la novamente, eu não poderia mais cometer falhas...

Me sentei na cama e sequei as lágrimas, doía pensar e relembrar de tudo o que eu tinha e perdi por minha causa, mas a dor e a tortura me acompanhavam por tanto tempo que de fato eu já deveria estar acostumado a viver internamente assim, é só o que fiz nesses três anos, me atormentar e me punir! O problema é que quando provei o amor e a felicidade ao lado dela, ainda que fosse algo que eu não soubesse lidar, hoje voltar para a solidão e a dor se tornou algo insuportável! Mas sem ela eu não conseguia ver outra forma de sair desse buraco.

Me levantei e fui lavar o meu rosto, precisava enfrentar esse dia, assim como precisaria enfrentar os próximos, até encontrar as respostas. Sequei o rosto e resolvi sair do quarto, precisava de ar livre ou minha mente voltaria a me atormentar lembrando de tudo que vivi aqui ao lado dela.

A casa estava silenciosa, desci as escadas sem fazer barulho, saindo pela porta recebi o ar fresco e frio do final da madrugada, era disso que eu realmente precisava. Andei em direção ao jardim dos fundos, não queria me encontrar com ninguém e como o dia ainda não tinha amanhecido, a chance era mínima. A mansão estava com todas as luzes apagadas nos quartos, a maioria deles ainda dormia. Andei sem pressa para os fundos e ao chegar de frente para as árvores que delimitavam o terreno, me sentei na grama que também estava fria. Respirei fundo, deixaria o silêncio e o frio de fora se comunicar com a solidão e a dor interna.

Fiquei assim com olhos fechados e respirando fundo por um bom tempo, eu realmente estava precisando. Sentia na pele a temperatura aquecer aos poucos, com o dia amanhecendo, abri os olhos e pude ver os primeiros raios solares colorirem o céu, parei de admirar até perceber que eu não estava sozinho. Sem olhá-lo perguntei:

(Saga) – Tem certeza que não está me confundindo com ninguém?

Ignorando completamente a minha pergunta se sentou ao meu lado, deitou e apoiou a sua cabeça na minha perna.

Puxei um sorriso.

(Saga) – Acho que você ainda está dormindo e por isso não está raciocinando direito, não sou o meu irmão.

Ele balançou o rabo.

(Saga) – Está bem, vou acreditar que você não está me confundindo com o meu irmão e que estou vendo um milagre.

Acariciei os pelos macios da sua cabeça na minha perna. Ficamos quietos por um tempo. Respirei fundo.

(Saga) – Acho que você já entendeu que só venho para cá quando estou com problemas, mas esse problema agora em nada se compara com o último que eu te contei. Na primeira vez eu estava possuído pelo ciúme e a insegurança, estava me segurando para não arrebentar a cara daquele idiota, quem me dera que eu pudesse ter ele para culpar! Dessa vez eu fui o imbecil da história, pelos motivos mais idiotas que possa imaginar acabei ferindo a mulher que amo e com toda a razão ela me deixou. Agora a minha presença para ela só a machuca mais.

Levei as duas mãos ao rosto.

(Saga) – E é isso que eu não entendo! Eu juro que a amo, Pólux, mais do que a mim mesmo! Então por que eu faço tanta merda com ela? Vê-la chorar acaba comigo e só sei que passei dos limites quando a vejo chorando e é tudo o que eu não suporto ver! Mas por incrível que pareça eu sou o causador dela derramar cada lágrima... o que faço é exatamente tudo o que eu não quero fazer com nenhum de nós dois. Eu a quero tanto que a sufoco e a faço sofrer, mas se a amo esses sentimentos não condizem com o que causo a ela.

Tirei as mãos do rosto e o olhei, ele estava me observando.

(Saga) – Eu preciso reconquistá-la, da maneira certa e para isso eu preciso parar de fazer o que fazia antes, mas sozinho acho que não conseguirei fazer isso...

O sol já mostrava toda a sua claridade e com o seu calor amenizava o frio que dava lugar a um tempo agradável. Cheguei a uma conclusão.

(Saga) – Eu tenho razão, eu não preciso passar por isso sozinho.

Me levantei e ele também.

(Saga) – Obrigado pela companhia, Pólux.

Ele latiu e balançou o rabo.

Saí em direção a mansão e ele me seguia, olhei para ele.

(Saga) – Eu estou achando que essa mansão amansou você.

Não sei se ele entendeu a pergunta e se ofendeu, mas em segundos ele arrepiou os pelos e começou a rosnar e mais rápido do que eu pude pensar ele correu com tudo na direção da casa oeste. Tive que correr mais rápido do que ele e por milagre o peguei no ar e o puxei para o meu colo antes da mordida ser concretizada. Ele estava agitado no meu colo, latia e rosnava sem parar, como se me implorasse para soltá-lo.

(Saga) – Pólux, pare!!! Não, Pólux!!!

(Lune) – Deveria cuidar melhor do seu cachorro não percebe que ele é uma ameaça?

Pólux ficou mais agitado com a voz dele. Seus olhos na cor ametista estavam sérios olhando para mim.

(Saga) – Me desculpe, ele não é meu, é do Mask! Mas geralmente ele é manso com quase com todo mundo.

Lune olhou nos olhos do Pólux e puxou um sorriso. Pólux tentava alcança-lo para mordê-lo.

(Lune) – Seu dono é o Mask? Que grata surpresa! Espero que nosso reencontro seja mais prazeroso, Pólux!

Ele arrumou o terno e olhou para mim.

(Lune) – Se me derem licença, preciso ir a mansão. Bom dia.

(Saga) – Bom dia.

Fiquei acompanhando-o com o olhar até ele se afastar e de fato entrar na mansão para poder soltar o Pólux no chão e ele ainda estava agitado.

(Saga) – Você não pode morder as pessoas, faz ideia do que estava fazendo?? Anda vamos para os fundos, antes que você tente morder outra pessoa.

Fomos para os fundos, dessa vez fui para o meio do grande jardim e torcia que eu estivesse certo. Reconhecendo o cheiro, Pólux acelerou na minha frente assim que o viu e todo eufórico balançava o rabo e distribuía lambidas pelo seu rosto.

(Shaka) – Bom dia, para você também, Pólux! Melhor se sentar – Pólux se sentou ao lado dele – e vejo que trouxe uma pessoa para participar da nossa meditação matinal.

Me aproximei e sentei na grama de frente para eles.

(Saga) – Bom dia, Shaka.

(Shaka) – Bom dia, Saga.

Respirei fundo e o olhei nos seus olhos.

(Saga) – Preciso muito da sua ajuda, Shaka.

Com um sorriso e a voz calma de sempre me respondeu.

(Shaka) – Será um prazer ajuda-lo é claro.

Respirei de alívio.

(Saga) – Agradeço muito por isso.

Ele olhou nos meus olhos e perguntou.

(Shaka) – Então em que posso ser útil?

Olhei para a grama.

(Saga) – Eu preciso de respostas, saber o porquê de mesmo amá-la tanto ainda consigo estragar tudo com a minha insegurança e ciúmes, ao ponto de afastá-la da minha vida, aparentemente agora para sempre.

Voltei a olhá-lo. Ele acariciando os pelos do Pólux, disse:

(Shaka) – Bom, a parte positiva é que você entendeu que alguma coisa o impede de ter um relacionamento duradouro com ela, você já consegue ver os sintomas, mas não achou a causa. Você precisa olhar mais profundamente, além das consequências, encontrar a fonte original. Vou dar um exemplo: É como se você me dissesse que está com fadiga, dor de cabeça, tontura, falta de ar e etc. Claramente você está distinguindo todos os sintomas o que é muito bom, mas se você não sabe o que está gerando-os não terá um resultado de cura, pode até tomar um analgésico que amenizaria algumas dores, mas o causa ainda está ali, mas se descobrir que esses sinais corporais estão ligados a uma anemia, teremos então um tratamento de fato eficaz e eficiente.

(Saga) – Então existe alguma coisa além que faz com que eu tente estragar a minha felicidade com ela?

(Shaka) – Outro ponto positivo é que agora entendeu que você é o gerador do problema.

Puxei um sorriso.

(Saga) – Isso não tem como ser bom!

(Shaka) – Sim, você é o problema assim como também é a solução. E para irmos para a cura você tem que estar consciente de que também é o gerador da causa e isso você já entendeu.

Levei a duas mãos a cabeça.

(Saga) – Tenho certeza de que você já sabe o que eu tenho, então por favor, me fala.

Ele abaixou a cabeça e sorriu.

(Shaka) – Infelizmente não funciona assim, você chegou à conclusão de que precisava de ajuda e vou ajudá-lo a encontrar todas as respostas que estão aí, dentro de você esperando o momento certo de saírem. Não quero que fique ansioso, você está indo bem e vou ajuda-lo a juntar as peças e verá que é mais simples do que parece.

Concordei.

(Saga) – Está bem, agradeço.

Ele olhou para mim e sorriu.

(Shaka) – Ótimo, podemos começar a investigar mais profundamente e achar as respostas?

(Saga) – Sim, é tudo o que eu mais quero!

Ele olhou para o Pólux e acariciando os pelos dele disse.

(Shaka) – Preciso que nos deixe as sós, amigo.

Pólux se levantou e balançando o rabo distribuía beijos.

(Shaka) – Também te amo.

Ele saiu correndo para o fundo da mansão. Shaka voltou a sua atenção para mim e eu não via a hora de começarmos e eu entender o que eu estava fazendo.

(Shaka) – Pronto?

(Saga) – Sim, por favor.

* * *

Notas finais
Continua...