O Cubo
2 Player vs Player
Notas iniciais
Alicia me deu as costas e desapareceu por entre a multidão que lotava os corredores. Outros alunos do grêmio passaram por mim e me cumprimentaram, eu apenas sorri e acenei com a mão, enquanto me direcionava para o refeitório do colégio.
Eu sei que minha família é possuidora de bastante dinheiro, e isso significa que no meu bolso há sempre, no mínimo, trezentos dólares. Sou um alvo perfeito para os assaltantes, estou ciente. Bem, isso não significa que eu saio por aí esbanjando o que tenho, e menos ainda que eu saia da escola para almoçar. Vários alunos optam por restaurantes refinados que servem da melhor comida francesa (Eca, por favor, comida francesa? A única coisa realmente saborosa na culinária da França é o “petit gateau” [aquele bolinho dos deuses]), mas eu, por minha vez, prefiro a comida servida pela Tia Marly, a chefe do refeitório, e cozinheira de mão cheia. Hoje é terça-feira, isso significa que o almoço é frango assado ao molho branco, arroz com cenoura e salada de alface, além, claro, da sobremesa: pudim!
Peguei um prato na bancada de mármore e entrei na fila para ser servido. A mulher atrás da vitrine tinha cabelos brancos, coluna curvada, usava um avental branco e uma touca para evitar que fios soltos caíssem na comida. Marly servia um por um, acompanhada de suas fiéis assistentes, Katherine e Bridget, com quem revezava as tarefas dentro da cozinha. Além de ser uma delícia, a comida saía por apenas doze dólares, adicionando o preço de uma garrafinha de suco natural.
Depois de pagar pela refeição, virei-me e segui para a mesa do clube de xadrez. Fui bem recebido (como sempre) por Hector e Lewis, meus melhores amigos.
– Cara, eu quebrei o meu recorde!
– Que recorde, Lewis? – perguntei.
– De horas online! Eu bati quinze horas consecutivas jogando Black Heart. E adivinha só? Completei meu segundo personagem com nível oitenta. Agora ganhei direito ao terceiro personagem, um pet especial de minha escolha, e recebi de bônus um baú com o anel de GrimmCoast para os dois personagens que eu já tenho.
– Ah! Que inveja, mano. – Hector retrucou – Eu ainda estou no primeiro personagem, e o nível dele é setenta e dois. Não consigo continuar upando. Como você chegou ao oitenta?
– Black Heart tem alguns macetes. Tipo, você ganha mais pontos de experiência depois do nível setenta se você tiver uma medalha de PVP*.
*Nota: Player vs Player.
– Eu não tenho medalha de PVP.
– Então faz as missões extras. E usa peças que tenham atributos.
– Saquei...
– Vocês sabiam – os interrompi – que há uma garota nessa escola que sabe jogar Black Heart?
– Sério?! – eles exclamaram em uníssono.
– Aham. E ela é minha amiga.
– Está blefando, Thiago.
Sorri com ar vitorioso. Contei a eles o pouco que eu sabia sobre Alicia, e seus queixos despencaram quando comentei sobre ser duelista nível oitenta. A classe “duelista” é uma das mais difíceis de usar, pois tem vários ataques especiais e combos diferentes, que exigem velocidade e concentração, já que faz uso de três armas diferentes a serem combinadas: os revólveres, a espada e as agulhas.
O sinal tocou novamente, indicando que já haviam se passado vinte minutos, e os alunos do turno da tarde deveriam estar em suas salas.
– Minha irmã deve estar indo pra sala agora. Vou procura-la, minha mãe me pediu para entregar uma coisa pra ela... – Lewis se levantou – Já volto.
– Beleza.
Lewis se afastou de nós, saiu do refeitório e deixou as portas duplas balançando pra frente e pra trás até cessarem os movimentos. Hector e eu continuamos conversando enquanto almoçávamos, e outros integrantes do clube de xadrez que estavam sentados à mesa revezavam uma garfada de comida com um movimento de peça pelo tabuleiro.
Eles treinam tanto que eu fico agoniado. Xadrez é legal, mas não consigo ficar jogando uma partida atrás da outra. Acho que é por isso que eu sou pentacampeão; eu descanso o meu cérebro, me distraio, respiro, coisa que eles não fazem. Muitos ali me respeitam, mas no fundo de suas almas, eu sei que eles querem me espancar até eu chorar como uma menininha. Não que eu chore como uma menininha. Aliás, eu não choro. Hm... De qualquer forma, eu não aguento mais o clima que está se formando nessa mesa. A cada jogada deles sou fuzilado com olhares de raiva e admiração ao mesmo tempo, e isso me deixa confuso.
Fui tirado dos meus pensamentos por Hector, que estava quase me batendo.
– Thiago, Thiago, Thiago!
– Que é?!
– Você ouviu o que eu disse?
– Claro que ouvi.
– O que eu disse?
– Ahn... Que... Ah... Eu...
– Tá, já entendi, você não prestou atenção. Valeu, hein. Bom, eu disse que as inscrições pro campeonato de basquete vão abrir mês que vem! Eu tô louco pra me inscrever.
– Você? No basquete?
– Qual é o problema? Eu sou vinte centímetros mais alto que você, sou rápido, leve...
– Mas não sabe agarrar a bola, e menos ainda encestá-la.
– De que lado você está? – ele riu.
– Do meu. – ri também.
Puxei a corrente de prata do relógio no meu bolso e observei os ponteiros, ouvindo baixinho o tic-tac suave. Marcava uma e dez da tarde. Levantei rápido do banco, recolhi minha mochila e me despedi de Hector com um aceno, disse que iria à biblioteca.
Odeio o fato de ter aula em horário integral, mas o lado positivo é que o retorno à sala só ocorre às duas e vinte. Temos quase duas horas de descanso, em compensação, a saída é depois das seis. Enquanto corro para a sala de informática para encontrar Alicia, estou com o cubo mágico em mãos, de novo. Sempre que tento montar um lado de cor diferente, tipo o branco ou o vermelho, eu giro, giro, giro e acabo com o lado azul completo. Não sei como ou por que isso acontece, apenas acontece, e me deixa até mesmo amedrontado.
Entrei pela porta lateral da sala. Havia dois rapazes jogando, uma garota lendo mangá online, outro escrevendo (o Poetinha, como o chamávamos) e Alicia, na cabine do canto, sentada na cadeira de rodinhas, girando devagar de um lado para o outro. Parecia uma criança. Abri um sorriso abobalhado e me aproximei dela.
– E aí...
– Você veio! Pensei que ia amarelar.
– Eu? Por favor, sou um jogador nato.
– Sei.
Sentei-me na cadeira ao lado dela. Nos posicionamos diante das telas, e abrimos o jogo. Esperamos que aquela típica barrinha de loading estivesse completa, colocamos os fones de ouvido quase simultaneamente e partimos para uma batalha na Arena.
– Vamos fazer assim: se eu ganhar, você me ajuda a upar meu segundo personagem. Se você ganhar...
– Se eu ganhar, você só precisa admitir que eu sou o melhor que você já enfrentou.
– Então vamos mudar: se você ganhar, eu admito isso. Se eu ganhar, você admite pra todo mundo que levou uma coça de uma garota.
– Certo. – sorri – Vamos ao jogo.
Com três cliques, adicionei a personagem de Alicia como minha amiga no jogo, e com mais três cliques, convidei-a para uma batalha na Arena.
Configurações alteradas: Arena Três; Um contra Um; Não é permitido o uso de poções; Boa sorte aos jogadores!*
Foi tudo o que pudemos ouvir pelos fones. Black Heart tem um sistema incrível, uma voz computadorizada (e feminina) anuncia as batalhas que ocorrem nas arenas. Outros jogadores podem assistir ao PVP, eles têm um intervalo de dez segundos para entrar na arena. Após esses dez segundos, meu personagem entrou em campo, juntamente à personagem dela. Era incrível a semelhança física entre a personagem e Alicia, fiquei pasmo por instantes. De qualquer forma, estava ali para vencer, não podia me deixar distrair. Posicionamos os dedos sobre o teclado do computador e iniciamos a luta.
AlbaHikari*, a duelista nível oitenta, avançou contra meu feiticeiro nível oitenta, que apenas abriu o livro e implantou um escudo em torno de si mesmo. A duelista saltou com agilidade por cima da cúpula esverdeada de magia, e assim que seus pés tocaram o chão, sacou a espada e fincou-a no escudo, rachando-o por completo. Antes que ela fizesse qualquer outro movimento, o feiticeiro abriu o livro novamente e atirou contra ela uma bola de fogo, que a atingiu no rosto e a lançou longe. Alba rolou e se levantou, recomeçando a correr contra T.Schwarz*, meu personagem. Com a espada, começou a aplicar vários cortes, enquanto eu apenas defendia com magia, e a barra de Rage*dela estava sendo preenchida aos poucos. Quando faltava um golpe para ela liberar o poder especial da duelista, o feiticeiro rolou pelo chão e acenou com os dedos para o pequeno gato ao seu lado. O animal começou a tremer, seus músculos e ossos aumentaram de tamanho consideravelmente, seus dentes tornaram-se pontiagudos e afiados como verdadeiras lâminas, e ele avançou contra a duelista. Alba desviou da investida do pet e saltou em suas costas, fincando-lhe duas agulhas no pescoço. O gato voltou ao tamanho normal, desmaiado.
Sessenta segundos para uso normal do pet.
Enquanto ela se distraía com o gato demoníaco que apelidei carinhosamente de Lúcifer (sim, era esse o nome do pet), o feiticeiro conjurava a Ira de Kaze*. No céu acima da arena as nuvens ficaram negras e taparam o sol, trovões ecoaram, e um tornado começou a se formar, descendo em direção à Alba.
– Isso não vale, Thiago! – ela retrucou, rindo.
– As regras foram claras, claro que isso é permitido.
– Skill forte é roubo! Ainda por cima trava os meus movimentos!
Alicia estava quase espancando o teclado, e eu não conseguia parar de rir. Enquanto isso, no jogo, Schwarz acabou de conjurar o feitiço de vento, e o tornado atingiu Alba, sugando-a e levando-a para as nuvens. O feiticeiro cruzou os braços, satisfeito, enquanto eu observava o HP da duelista diminuindo. As nuvens se abriram e Alba caiu do céu com apenas 25% de energia vital.
– Vai ver só... Engole minha Rage.
Schwarz abriu o livro e implantou o escudo esverdeado novamente, e Lúcifer já estava pronto para atacar assim que o feiticeiro sinalizasse. Enquanto isso, a duelista abriu um sorriso largo, e meus movimentos foram travados. Alba correu e saltou sobre a proteção mágica, sacou a espada e enfiou com tudo no escudo, quebrando-o. Quando a ponta da espada cravou no chão, a duelista girou o corpo, segurando-se no cabo da arma e acertou-lhe um chute perfeito no rosto. Schwarz cambaleou pra trás, ela largou a espada, puxou os dois revólveres da cintura e começou a atirar no feiticeiro.
Equipamento do adversário danificado, bônus de ataque para AlbaHikari.
Os tiros cessaram, a duelista lançou os revólveres para cima, puxou as agulhas, avançou contra o feiticeiro e, numa velocidade impossível de acompanhar, lhe fez vários cortes pelo corpo, deixando meus pontos de HP num estado crítico de apenas 5%. Schwarz caiu de joelhos, Alba guardou as agulhas e pegou os revólveres antes que caíssem no chão, girou-os e antes de guarda-los na cintura, virou-se e deu o último tiro no peito do feiticeiro, que caiu no chão, derrotado.
Os jogadores que assistiam tudo nas arquibancadas da Arena comemoraram e aplaudiram a duelista, jogando-lhe flores, enquanto ela erguia os braços, vitoriosa.
– Não acredito que você me destruiu com um único golpe...
– Não foi com um único golpe. Seu HP já tinha sido reduzido um pouco quando quebrei seu escudo pela primeira vez.
– Só dez por cento.
– Os outros noventa ficaram por conta da minha Rage.
– Certo, foi uma batalha justa.
– Vai ter que admitir pra todo mundo que apanhou pra uma garota! Adeus reputação! – ela riu.
– Rá-rá-rá, muito engraçado. Eu nem tenho reputação mesmo.
O sinal tocou novamente, e o relógio digital do computador marcava duas horas. Desligamos o jogo e saímos juntos dali, conversando, a caminho da sala de aula.
*Notas: 1AlbaHikari é o nome da personagem de Alicia, e há uma explicação para tal nome, que veremos daqui a alguns capítulos.
2T.Schwarz é o nome do personagem de Thiago, e também há explicação para tal escolha, veremos daqui a alguns capítulos.
3Rage é a “fúria”, libera o ataque especial mais forte do personagem. Esse ataque é variável, pode ser escolhido de acordo com quem manuseia o personagem. No caso de Thiago, é o poder dos ventos, e Alicia usa um combo fatal.
4Kaze é o nome do deus dos céus, de acordo com o jogo.
5Os trechos em negrito representam as falas da voz computadorizada do Black Heart.
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