O Cruzar das Espadas

3 Capítulo 3- Melpone


Os duendes interromperam a viagem por um instante, no entanto, Melpone era incapaz de notar qualquer alteração na trilha celeste que já estavam seguindo fazia horas.

Os alados agitaram-se, balançando a cabeça para cima e para baixo, nervosos com a parada repentina. Os animais, de sentido aguçado, também não pareceram perceber coisa alguma. O que haveria de errado? Melpone não se atreveu a perguntar.

Os seres balbuciavam qualquer coisa em dúens, a língua mais antiga dos duendes, e o medo que transpassavam em suas palavras incompreensíveis eram desconfortável para qualquer um que as ouvissem. São raras as criaturas que são temidas por duendes e estas nunca haviam sido vistas por Melpone. Mas a garota ouvira lendas e estas sempre soavam mais terríveis do que qualquer coisa que pudesse imaginar.

Finalmente, quando os duendes se aquietaram, a garota ouviu um barulho na mata, como se alguém os observasse, alguém ou...alguma coisa. A serra na qual pararam tinha uma densa e arborizada subida, com um ar um tanto quanto rarefeito, sendo cortada somente por um fino caminho de terra, há muito inutilizado. Soava simplesmente impossível que em meio a uma noite tão fria e em condições tão escassas alguma coisa viva ainda pudesse caminhar por aquelas bandas tão distantes de qualquer fonte alimentícia e de água. A menos que...Mas Melpone afastou seus pensamentos sombrios, mantendo toda a elegância que uma princesa precisa ter para representar seu povo, mesmo que este já esteja sob uma sepultura.

Passaram-se tensos dez minutos até que a primeira criatura aparecesse. Os duendes desembainharam suas adagas. Eles eram proibidos de terem armas de maior porte.

Um grito rouco e pra dentro foi emitido por uma das criaturas no mesmo tempo que Melpone pode as avaliar melhor. Eram fisicamente parecidas com seres humanos, se não fossem seus braços maiores, seus músculos demasiadamente definidos, seus olhos brilhantes, amarelos e dilatados, suas enormes garras e seus dentes com caninos exageradamente afiados e quadruplicados para a parte detrás da boca. Todas elas, sem exceção, possuíam uma pele negra, quase que preta, camuflando-se perfeitamente com a noite. Eram vampiros, seres de puro instinto, sem piedade e com desejo por sangue, dependendo da espécie, também por carne.

–São Rowenis...-sussurrou um dos duendes, finalmente, no idioma comum.

–Rowenis? –indagou Melpone.

–Espécie extremamente letal de vampiros, uma das piores e mais devastadoras. Vieram a ser um terrível problema no século IV, antes da chegada de Roweneis, um elfo heróico que com sua guarda e patrulha exterminou, quase extinguiu, grande parte deles. Os seres, inclusive, receberam seu nome em homenagem a ele, seu maior caçador. –disse o duende mais velho, adotando, por apenas alguns poucos segundos, uma expressão mais tranquila.

–Mas Roweneis morreu sem nunca revelar como exterminar essas pragas. –resmungou um outro, elevando a voz, conseguindo, incrivelmente, manter seu mau humor.

Quando, finalmente, as criaturas terminaram de avaliar o melhor ângulo e estratégia para um ataque certeiro, a primeira delas atacou, fazendo com que os alados, igualmente negros, empinassem em uma tentativa desesperada de se livrar do ataque dos Rowenis.

A carruagem aos poucos, tinha sua defesa e madeira corrompida, como se estas nem estivessem ali, pelos dentes e garras afiadas dos vampiros. Melpone gritou, arrependendo-se em seguida, acabando por chamar a atenção dos seres mais pra si enquanto os duendes tentavam, desesperadamente, decepar cada uma das criaturas. Eles eram bons guerreiros, mas alguns deles já se eram possível ver mortos e ensanguentados, sendo devorados vivos pelos desalmados vampiros.

Melpone se desesperava conforme via sua proteção sendo desfeita e seus defensores caindo inertes. Sobrevivera a tanta coisa, bem como os duendes, mas teria de terminar por morrer ali? Não soava justo, nem pra ela e nem pra eles. Ela não estava disposta a desistir. Tinha um pouco de néctar curativo na pequena bolsa que carregava. Não conseguiria mesmo salva-los quando as criaturas finalmente se dispersassem? Mas elas não se dispersariam até que todos estivessem mortos, ela sabia. Pôde ver o duende mais velho de todos e, portanto, o último de pé, dá-la um breve sinal, que soava mais como um sacrifício de honra, para que ela fugisse e o abandonasse e que fosse breve na tarefa, que se salvasse, em um ato extremamente egoísta.

Melpone hesitou, lutando contra sua própria vontade de realizar o pedido de imediato. Não podia fazer aquilo. Os que realmente tem sangue e alma nobre jamais abandonariam um parceiro. Mas que chance teria?, se perguntou.

Sacou sua espada, forjada com um metal barato, propício para o uso feminino nobre, já que não se esperava que estas moças, principalmente de sua idade, fossem um dia necessitar utilizar armas.

Com o coração na mão e o espírito encorajado, saiu da carruagem e soltou três dos quatro alados que se encarregaram de puxar a mesma, apressando-se a segurar um deles para sua própria e, assim esperava, fuga. No entanto, um dos animais que soltara, fraco demais para levantar vôo, foi apto somente para dar uma última e dolorosa relinchada enquanto era pego e devorado.

Melpone suspirou, tentando acalmar a si mesma e ao alado que puxava pelas rédeas. A garota conseguira se livrar dos poucos seres que se focaram nela com sua simples espada, já que a maior parte deles se focava na comida que, de forma fácil demais, haviam conseguido.

O último duende, já caído, tentava repetir o sinal, enquanto mantinha-se sendo diversas vezes atacado, pensando que a princesa não o havia compreendido.

Atacando furiosamente os Rowenis em seu caminho, Melpone abriu uma breve brecha que foi suficiente para que ela arrastasse o duende até o alado e mesmo sem a sela e com o medo que tinha dos animais de grande porte, levantasse vôo com o ser semiconsciente em seu colo. Mas ela não sabia pra onde ir e tampouco sabia como dirigir o animal.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.