O Cruzar das Espadas

1 Capítulo 1 - Acidália


Os destroços da cidade eram visíveis onde quer que se pisasse e o cheiro de sangue era inevitável. Obviamente, haviam mais mortos empilhados naquele dia do que em qualquer outro, mas a desgraça era necessária.

Acidália sabia que a paz tem seu preço, e que se não fossem aqueles que se deitavam inertes sob aquele lençol escuro e estrelado que era o céu noturno, provavelmente seria seu corpo e o de seus companheiros restantes que estariam devidamente ensanguentados e frios.

Os cavalos estavam agitados a espera dos cavaleiros, que em sua maior parte eram crianças que nunca atingiriam a maioridade sem antes conhecer a morte. Precisavam sair rápido dali, os orcs podiam chegar a qualquer momento e eles não eram criaturas nas quais poderia-se brincar.

Acidália apressou-se a limpar e guardar a espada de volta na bainha. Ela era uma das melhores guerreiras em montaria daquele pequeno grupo que sobrevivera com eles, mas nunca se sentiria confortável em montar os alados, considerava-os uma aberração demoníaca sob a pelagem negra e as asas. Contudo, eram dóceis e velozes em sua maioria, mais até que os cavalos comuns.

Ajudava os outros a por ou improvisar uma cela nos cavalos e volta e meia nos dragões, enquanto ela mesma segurava seu próprio corcel pelas rédeas com uma das mãos para que este não fugisse.

Pode ouvir um tilintar rude de uma armadura atrás dela emergir da escuridão de um dos vários túneis presentes no local, mas não teve a preocupação de se virar antes de ouvir a voz familiar:

-Estão muito mais perto do que esperávamos...Eles chegarão rápido. -disse Nirvana, quebrando o silêncio que normalmente a acompanhava. Estava de mãos dadas a uma garota demasiadamente jovem, com um ar assustado e incrédulo no rosto.

Acidália reconheceu a jovem como sendo uma das princesas protegidas de um reino distante, onde somente a garota sobrevivera, carregando consigo a juventude, a prosperidade, ingenuidade e a inocência de um povo esquecido na morte.

Os trajes da menina permaneciam com sua grandiosidade e nobreza, representando tudo o que um dia fora, sendo provavelmente o traje mais caro dentre todos os presentes, incluindo os mortos.

Revirando suas memórias confusas, Acidália conseguiu lembrar-se do nome da garota: Melpone, que em grego significa uma das Nove Musas. Um nome nobre, de fato, pensou mas seu significado era simplesmente indecifrável.

-Coloque-a na carruagem, os duendes se encarregarão de levá-la. -ela disse, apesar de incerta.

-Não há pra onde ir! -retrucou Nirvana. Era visível em seus olhos negros sua imensa coragem sendo corrompida pelas desgraças que os meses que se passavam traziam.

-Qualquer lugar será melhor que esse mar de mortos. -disse Acidália.

-Pior vai ser se a levarmos para um lugar onde as mortes ainda não aconteceram! Precisamos mantê-la a salvo!

-E a manteremos! Fáris ainda não está ameaçada. -falou, enquanto tomava a garota das mão de Nirvana e a colocava na carruagem que se encontrava presa a dois alados. -Levem-na para Fáris, acima das montanhas, ao lado do mar de Galena e perto da região de Galen. -falou, dirigindo-se aos mau humorados duendes condutores que chicotearam os animais, levando a carruagem por um tortuoso e incerto caminho aéreo até o local distante.

Nirvana bufou, desaprovando claramente a atitude da amiga, mas sem contestar. Não fora ela a posta no comando.

-Acidália! Preciso de ajuda aqui! -gritou Silena enquanto se confundia selando um dos cavalos para um garoto gordinho. Acidália riu, correndo para auxiliar, ficando feliz por poder voltar a mexer nos cavalos e encontrar sua maior companheira desde muitos anos.

No entanto, os ânimos e a breve folga não duraram muito. Ouviu-se o barulho do desembainhar de espadas e os gritos e passos apressados dos inimigos orcs que se aproximavam. Eram como uma praga, sempre aceitavam o maior valor oferecido para que entrassem em combate, independente de com quem fosse.

O alerta foi gritado por Acidália para que as pessoas montassem e partissem em retirada. E foi então que os dragões de pequeno porte levantaram voo enquanto os cavalos disparavam pro meio da densa mata.

O garoto gordinho do qual Silena e Acidália ajudaram se enrolou na hora de partir, não acostumado com a rapidez do cavalo que montara, permanecendo em função do animal enquanto as amigas gritavam ordens das quais ele simplesmente parecia incapaz de realizar. Mas elas também deveriam partir.

Sem tempo para ficar mais, Acidália montou em seu corcel, ajudando Silena a subir de carona e ambas foram forçadas a galopar para a escuridão da floresta, abandonando não somente o menino para as garras dos orcs como também qualquer outro que tenha, por ventura, se atrasado.