O Crisântemo Proibido
8 Um novo sonho
Notas iniciais
Neste mundo
no seio do inferno
Olho as flores
Issa
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Ichigo levantou a contra gosto aquele dia. Ainda se remexeu debaixo das cobertas, aproveitando o que ainda lhe restava de sono. De olhos fechados, ainda era possível ouvir a promessa de Aizen ecoando em seus ouvidos, como se o próprio estivesse a lhe sussurrar aquelas palavras naquele instante. Ichigo então sentou-se e passou as mãos nos cabelos meio bagunçados enquanto bocejava. Percebeu então a pequena folha de Acer cair em seu colo. Pegou –a. A simples visão daquela folha o fez ruborizar novamente ao lembrar da galante figura do nobre. Agora ele tinha certeza de que a noite passada não foi apenas um sonho.
O fascínio de Ichigo por aquele homem só aumentava. Ele era tão diferente em sua maneira de ser em comparação a Grimmjow... e de tantos outros que já passaram por aquela casa de chá.
Com os pensamentos ainda em Aizen, o rapazinho se levantou, arrumou a roupa de cama e se preparou para a primeira refeição do dia.
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“Que noite horrível a que eu passei...”
Yummichika se lamuriava, visivelmente abatido e com olheiras, para os outros rapazinhos próximos a ele. Havia acabado de chegar a casa de banho, e começou a se despir, enquanto continuava a falar das agruras de seu mal súbito.
“ Hunf! Você poderia reclamar assim se tivesse passado a noite que passei, Yumi san.” – falou Luppi enquanto esfregava a pele cheia de marcas avermelhadas de unhas e mordidas com um pano molhado, mergulhado em uma tina de água morna. “ O cliente da noite passada, aquele samurai grandalhão, quase acabou comigo! Se eu fosse um limão, estaria só um bagaço agora.”
Luppi mexia o pescoço de um lado para o outro, querendo aliviar a tensão que sentia nos músculos. Precisava mesmo ele ter que lhe puxar os cabelos com tanta força?
“Pelo menos foi um grandalhão que te levou pra os lençóis do futon, e não uma dor de bar... digo, uma indisposição súbita que eu tive.” – falou o outro rapaz, mergulhando em outra tina próxima a Luppi. “ Agora, o que me deixa mais indignado foi não ter me apresentado para o daimyo. Eu sei que a festa não teve o mesmo brilho sem a minha bela presença. Imagino que Youruichi san não conseguiu ninguém a minha altura para me substituir. Ela estava contando exclusivamente comigo...”
O rapazinho de cabelos negros deu a sua conhecida risadinha maliciosa. Ao ver essa reação, Yumichikka o indagou sobre o que era tão engraçado.
“Não me diga que você não esta sabendo Yumi san?” – Luppi se aproximou mais do outro rapaz.
“Não estou sabendo do que, pirralho?”
O mais novo continuou a sorrir, fazendo círculos na água com os dedos.
“É lógico que Youruichi sama arrumou um substituto... Quem dançou para o daimyo foi Kurosaki Ichigo.”
Yumichikka arregalou tanto os olhos que a um momento Luppi imaginou que sairiam das orbitas. O rosto do rapaz ficou vermelho antes de bradar em alto e bom som pela casa de banho, fazendo com que os outros rapazinhos olhassem em sua direção:
“AQUELA COISA DO KUROSAKI ICHIGO??? COMO YOURUICHI SAMA TEVE ESSA CORAGEM???”
“Argh, tambem não precisa gritar no meu ouvido, Yumi san! ...” Luppi tapou os ouvidos com visível desagrado. “Bem, o que está feito, está feito. Quem dançou foi Ichigo. E o daimyo parece ter ficado interessado nele. Hn, e eu imaginava que nobres tivessem um gosto mais refinado.... Aizen sama até repreendeu Grimmjow san por causa daquele ruivo idiota. Sei disso porque vi tudo. Eu estava indo muito bem com meu cliente, até aquele caniço ambulante de cabeça laranja aparecer. Acredita que ele começou a discutir com Grimmjow? Quando eu pensava que ele ia quebrar a cara do Ichigo, o daimyo apareceu e acabou com a festa.” Luppi torceu bem o pano molhado que usava,enquanto Yummichika balançava a cabeça, sem querer dar muito crédito ao outro.
“Não, não, é possível...” Yumichikka quis rir, mas Luppi o interrompeu.
“Pergunte a qualquer um daqui, Yumi san. Ou então, pergunte ao próprio Ichigo... Oh, e falando no demônio...” – Luppi virou-se, apontando em direção a entrada.
Ichigo havia chegado naquele instante. Todos que estavam ali olharam para ele, que ainda estava parado a porta. Parece que não tinha sido uma boa ideia ir a casa de banho.
Ichigo não teve tempo sequer de dar mais dois passos para entrar, pois Yumichikka se levantou, com a água ainda escorrendo pelo seu corpo, e foi até ele.
“Muito bem, pirralho cabeça de fogo! Quem lhe deu permissão para tomar o lugar que era meu?!?”
“Foi a própria Youruichi sama. Se não gostou, então vá reclamar com ela.”
Ichigo fez menção de seguir em frente, porém Yumichikka lhe barrou a passagem.
“Você deve estar se achando muito importante, não?”
“Talvez menos do que você estaria se estivesse no meu lugar. Agora, me deixe passar” – Ichigo passou por Yumichikka, tirando-o do caminho.
“Essa sua pretensão não vai durar, Ichigo. Assim que o daimyo puser os olhos em minha pessoa, vai cair diante da minha beleza, e nem sequer vai ter a vaga lembrança de você ...”
“... Isso se Ulquiorra nii san permitir, Yumichikka!”
“Pare de se intrometer Luppi!”
“ Eu só estou dizendo a verdade. Problema seu se não quer ouvir, Yumi san. Não é mesmo Ichigo?”
Ao ver que Ichigo tentava ignorá-lo, o rapazinho continuou:
“Poucos tem a sorte de conseguirem estar no topo da hierarquia. Os outros, como nós, temos que trabalhar muito... mas, até que eu não posso reclamar. O meu cliente de ontem... ele pode ser um bruto, mas é bem apessoado e muito fogoso. Grimmjow san foi insaciável na sua primeira noite, Ichigo?”
O ruivo sentiu o sangue correr quente em seu rosto. Era uma raiva inexplicável que corroía seu peito ao ouvir as palavras e indagações carregadas de malícia que Luppi proferia com seu sorriso de falsa inocência. As marcas aparentes na pele branca do rapaz de cabelos negros também eram uma provocação. Luppi fazia questão de ostentá-las para Ichigo.
“Ei! Eu ainda não terminei de falar com você!” falou Yumichikka, pegando no ombro de Ichigo agressivamente.
Ichigo virou-se de repente e empurrou Yumichikka com força, fazendo-o com que caísse no chão úmido. O rapaz ainda tentou se levantar e revidar, mas o ruivo foi mais rápido e pegou um balde, atirando toda a água fria que havia nele. Alguns rapazes seguraram Ichigo, antes que ele atirasse o balde de madeira na cabeça de Yumichikka.
Ichigo soltou-se , largou o balde no chão, e foi embora deixando para trás Yumichikka, encharcado e humilhado, ainda tentando se levantar.
“Youruichi sama vai saber disso Ichigo!” gritou Yumichikka indignado.
“Shh, é melhor nem se exaltar tanto, Yumi san. Ichigo é praticamente protegido de Aizen sama, agora. É mais provável que você se dê mal.” Luppi deu um tapinha amigável no ombro do mais velho, que furioso, só olhava para o ruivo se retirando pisando duro.
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“Ah, Ulquiorra san! Está indo ver outro de seus admiradores?”
Szayel havia cruzado com Ulquiorra no corredor. O moreno simplesmente ignorou o outro, seguindo em frente, altivamente. Szayel riu e ajeitou os cabelos recém arrumados de maneira graciosa.
“Ainda bem que tem muitos admiradores que matariam por uma noite com você, Ulquiorra san. Assim não vai ficar desamparado quando o daimyo se cansar e te deixar por outro rapaz mais jovem.”
Ao ouvir isso, Ulquiorra parou, virou-se e encarou Szayel.
“Do que está falando?”
“Não acredito que ainda não esteja sabendo...” Szayel continuava a sorrir, com o dedo indicador aos lábios, talvez se divertindo com a sutil mudança de expressão no rosto de Ulquiorra. Continuou: “Um passarinho me contou que Aizen sama esteve em um passeio noturno... acompanhado de um certo ruivo...”
O moreno estremeceu com aquelas palavras. A fúria era notória em seus olhos. Era impossível continuar imperturbável com o que acabara de ouvir. Claro, poderia ser apenas mais uma mentira de Szayel somente para atingi-lo, mas algo em seu íntimo lhe prevenira desde a noite passada que o sentimento de Aizen havia mudado. Aquela fofoca veio somente para confirmar sua dolorosa suspeita.
“Como soube? Quem falou isso para você?” Ulquiorra olhava diretamente para Szayel, interrogando-o.
“Alguém de minha inteira confiança, e que presenciou tudo enquanto estava acompanhado de um cliente. Mas isso não importa, o que importa é que estou lhe prevenindo, porque lhe tenho muita consideração...”
“Não... Aizen sama não faria isso...”
“Há! E por que ele não faria?! Pelo que eu me lembre, não foi dessa mesma maneira que ele se tornou seu patrono?” Szayel suspirou desviando o olhar para o chão, com expressão forçadamente penosa. “ Que destino mais triste o nosso... não adianta, por mais que sejamos bonitos , por mais que nos dediquemos, eles sempre vão nos trocar por alguém mais jovem. E isso vale para todos, meu querido, inclusive para você...”
Szayel então estendeu o braço, querendo tocar o rosto de Ulquiorra, que na mesma hora o repeliu, saindo depressa dali, para longe de sua vista. Vendo que conseguiu abalar a fortaleza gélida do rival, Szayel riu em triunfo. Essa virada na vida de Ulquiorra poderia lhe trazer muitos proveitos.
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Grimmjow se sentia ridículo. Passou o caminho quase todo da mansão de Aizen até o Yoshi-cho praguejando e falando sozinho. Ainda soltou um palavrão em voz baixa quando apeou de seu cavalo e atravessou o portão do bairro.
Aquilo só podia ser castigo. Já não bastava levar uma bronca em frente a dois putinhos e ainda isso?! Todos os seus antepassados deveriam estar rangendo os dentes com tamanha humilhação. Ele poderia ter recusado. Sim, poderia ter mandado um servo qualquer fazer isso em seu nome. Mas mesmo assim ele veio. Por que diabos? Era como se uma força contrária a sua racionalidade e orgulho o impeliam para que ele mesmo fosse. Seria uma intuição? Que fosse, então isso. Mesmo que ele não tivesse fé nessas bobagens.
Ao entrar na Hana no Kikku, ele foi recebido por uma jovem serva. Grimmjow falou do que veio tratar e ela então o levou para uma pequena sala e pediu educadamente que esperasse.
“Ainda tenho que esperar? Bah, pode deixar, já conheço essa casa, eu mesmo o procuro.”
A pobre garota apenas se encolheu, acuada como um animalzinho. O samurai então seguiu casa adentro. Ainda olhou por entre as frestas das portas corrediças, sem encontrar o que queria. Até que os acordes de um shamisen lhe chamaram a atenção. Ele seguiu o som, que foi ficando mais forte a medida que se aproximava de uma sala grande, onde uma das portas estava aberta.
Foi então que ele viu Ichigo, concentrado em passos de dança, movendo-se devagar e graciosamente, atento a seus gestos. Junto dele estava Shinji, tocando o shamisen enquanto acompanhava o aluno com olhar atento.
Grimmjow não falou nada, nem sequer se mexeu. Parecia que estava sob uma espécie de feitiço que aquela dança lançava, lhe prendendo a atenção. O ruivo ajoelhou-se, de costas para o samurai e estendeu os braços, inclinando o corpo para trás, até que suas mãos, unidas, tocassem o piso. Ao ver o samurai a porta, Ichigo deu um grito de susto, chamando também a atenção de Shinji.
“Mas o que o acontece?! Ah! ... vejo que temos uma visita importante hoje...” Shinji mudou quase de imediato sua expressão. Levantou-se e veio ter com Grimmjow, o sorriso cheio de dentes estampado no rosto.
Grimmjow estreitou os olhos com Hirako. Ele tinha o mesmo sorriso cínico e irritante de Ichimaru.
“Sua mãe não lhe ensinou que é feio ficar bisbilhotando?” o louro cutucou o peito do samurai com seu leque, sem cerimônias.
O samurai ficou muito vermelho, e arregalou os olhos, visivelmente irritado com aquela falta de sutileza de Shinji. Ainda viu de relance, Ichigo se levantar depressa, e se recompondo, evitando de corresponder ao seu olhar, e permanecendo no mesmo lugar em que estava.
“Está procurando por alguém?”
“Sim, mas... Eu ainda não o encontrei! Só que também ... tenho coisas a tratar com ele.” – disse Grimmjow, apontando com um gesto na direção de Ichigo.
O jovem então pareceu surpreso, a um primeiro momento, e depois apreensivo. Será que Grimmjow ia tentar algo contra ele, depois da noite passada? Ichigo ainda abriu a boca para advertir Hirako, mas parou ao ver que o samurai tirou de seu quimono um papel dobrado, com um carimbo em vermelho.
“Isto aqui é pra você. É de Aizen sama.”
O louro ergueu uma das sobrancelhas e continuou sorrindo, e olhando para Ichigo comentou:
“Ah, Aizen sama sempre tão amável...”
Grimmjow então estendeu o papel para Ichigo, que o pegou, guardando-o dentro do quimono. Nesse instante, os dedos de ambos se tocaram levemente. Os dois então se olharam, sem saber ao certo como agir na frente do outro.
Hirako pigarreou sonoramente.
“Sinto muito, senhor, mas Ichigo está em aula, não pode atendê-lo nesse momento. Mas se quiser aguardá-lo, eu mesmo providencio tudo, para que espere até ele estiver disponível.”
“Do que está falando? Eu só vim aqui pra... Ah! Eu não preciso ficar lhe dando satisfações!”
Grimmjow , muito corado, foi direto para porta a fim de ir embora logo dali, até topar com o rosto sorridente de Ichimaru, sendo seguido de Kira, logo atrás dele.
“Grimmjow kun! Também veio aproveitar um tempo livre por aqui?”
“Seu cara de raposa! Por sua culpa eu tive que vir fazer o papel de moleque de recados do daimyo. Ele está a sua procura.”
“Outra vez? Ah, não adiantou muito eu me esconder aqui com meu Izuru. Que posso fazer? Terei que ir, Izuru chan...”
“Não se lamente, danna sama. O seu dever em primeiro lugar.” Falou Kira, com uma reverência.
“Eu sempre me pergunto se eu mereço tanto, Izuru chan...” Gin segurou o queixo de Kira, sempre sorrindo muito.
Grimmjow em contrapartida soltou um suspiro de enfado diante da cena. Se ele quisesse ver cenas de amor, teria ido ao Kabuki.
“Eu vou indo Izuru, antes que esse ranzinza acabe lhe assustando com essa cara feia.”
“Por favor, danna san, não diga isso.” Censurou Kira. “Mas... se importaria se o acompanhasse até a saída?”
“Não precisa pedir permissão a mim para fazer o que quiser, Izuru chan. Vamos Grimmjow kun?”
O samurai de olhos azuis apenas grunhiu algo ininteligível e seguiu na frente.
Ichigo estava a porta da sala, ainda olhava os samurais indo embora, quando ouviu Hirako lhe falar:
“Esse Grimmjow foi seu patrono de mizuage, não foi Ichigo?”
“Ah!? S-sim, foi ele...”
“Hn, começou bem no ramo, Ichigo. Ele parece ser bem , como é que eu posso dizer?... Impulsivo.”
“Impulsivo? Ele é um grosso, isso sim.” – bufou Ichigo irritado.
“Sei, entendo. Mas ele foi somente isso? Um patrono?”
“Como assim, Hirako sensei?”
“Não, nada, esqueça.” – Hirako fez um gesto com a mão, enquanto ia andando para pegar o shaminsen deixado a um canto. – “ Venha, vamos voltar ao que estávamos fazendo.”
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Estando finalmente sozinho, Ichigo subiu depressa para o dormitório e abriu a carta de Aizen ansioso. Em uma caligrafia esmerada, estava escrito um poema de autoria do próprio daymio. Um poema que falava sobre o luar claro e límpido de uma noite de outono.
O ruivo dobrou o papel e o apertou contra si. Sentiu um calor irradiando-se em seu peito, enquanto mantinha a carta ali. A última vez que teve essa sensação foi em sua noite de mizuage... Apesar de todas as suas impressões terem se desfeito depois. Por um instante, Ichigo, ainda que por um instante, achou que Grimmjow ia se retratar pelo que fez a noite passada. Mas que engano...
Ichigo afastou seus pensamentos de Grimmjow e guardou a carta junto com seus outros pertences e a escondeu com cuidado.
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A rotina da casa continuou a mesma no decorrer dos dias. O outono se despedia depressa, assim como o vermelho vivo dos áceres se desfazia ao sabor do vento, salpicando pelos ares suas folhas.
Naquela tarde, os donos da kagemajaya se encontravam no escritório, a mesa com chá posta. Aparentemente parecia tudo tranqüilo, mas o teor da conversa carregava uma certa apreensão.
“Já começou a providenciar tudo, Youruichi san?” – Urahara foi o primeiro a pegar a xícara de chá verde fumegante.
“Eu já conversei com Ichigo. Logo as camareiras irão aprontá-lo.”
“Como ele reagiu?”
“Não fez nenhuma objeção, mas me pareceu nervoso. Acredita que os olhos dele até brilharam?” Youruichi deu uma risada e falou em seguida” Ora, parece que nosso rebelde está sendo domado...”
“ Não dizem que a besta mais feroz pode ser amansada se souber lidar com ela? E além do mais, o daimyo é uma raposa velha, tem experiência na arte de seduzir, não concorda comigo?”
Youruichi acenou com a cabeça, pensativa. Urahara percebeu algo de diferente nesse gesto da esposa, sempre tão expansiva.
“Alguma coisa errada, Youruichi san?”
“Ulquiorra.”
“O que tem ele?”
“Ora, Urahara, pois não o daimyo o danna de Ulquiorra? Fico pensando se o interesse de Aizen em Ichigo pode trazer conseqüências não muito boas...”
“Aizen pode ser o danna de Ulquiorra, mas isso não implica dizer que ele é casado com o daimyo...” Urahara riu.
“Sua cabeça só serve mesmo para as finanças, Urahara. Não é só isso. Ulquiorra sente mesmo algo muito forte por Aizen sama. Eu vejo isso nos olhos dele.” Youruichi pousou sua atenção no chá, servindo um pouco mais para o marido. “Esqueceu que fui Oiran? Eu sei como os conflitos aparecem, sei como essas coisas funcionam. Sempre aparece alguém querendo te derrubar, seja por ambição, inveja, ou por ciúmes. Já vi cada coisa, isso desde que eu era apenas uma aprendiz.”
“Acha mesmo que ele seria capaz de alguma coisa extrema?”
“ Não sei. É muito difícil de adivinhar o que se passa na cabeça dele. Mas quando se é movido pela paixão, pode se esperar de tudo.”
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Kira deu um último ajuste no enfeite de cabelo nas mechas ruivas e cuidadosamente arrumadas. Não havia como não sentir orgulho por Ichigo, ali, se preparando para receber um senhor feudal. Tudo graças a um empurrãozinho de Ichimaru.
Ichigo parecia estar mais nervoso do que na sua noite de mizuage. Se olhou algumas vezes no espelho, admirando o quimono fino e os delicados enfeites de seu cabelo. Pareciam que todos foram comprados especialmente para aquela ocasião.
“Você está perfeito Ichigo. Não tem razão pra se preocupar.” Tranquilizava Kira. “ E eu posso ousar em dizer, que mesmo se Aizen sama o visse num simples quimono de servo, ele não iria perder o interesse em você.”
O ruivo sorriu, mas não deixou de morder o lábio inferior, ainda tomado de nervosismo. Levou uma leve repreensão de Kira, com cuidado para que o carmim nos lábios do mais novo não saísse.
A porta de correr se abriu, e quem entrou foi Hirako. Estava mais risonho do que o de costume.
“Youruichi san me pediu para ver como andam as coisas. O daimyo chegou a poucos instantes, e já está aguardando, junto com Ulquiorra.”
Ichigo estalou os dedos das mãos, ansioso.
“Eu já estou pronto, Hirako sensei.”
“Ótimo.Vamos indo então?” disse Shinji já caminhando em direção a porta.
Ichigo e Kira seguiram o loiro pelo corredor, até chegarem em um sala onde o daimyo costumava ficar. Uma criada já estava de prontidão, os esperando à porta.
Mais um vez, Shinji evitou de entrar junto com os rapazes, saindo até mesmo da vista dos que estavam no interior da sala. Mas antes, ele resolveu falar mais uma vez, a mão com o dedo indicador em riste, como costuma fazer ao dar suas lições:
“O que eu te falei na noite de sua apresentação de dança, também vale para hoje, Ichigo. E faça ainda com mais ênfase.” Hirako sorriu ao final, e olhou para Ichigo de uma maneira que ele julgou enigmática.
O ruivo assentiu, ainda meio sem jeito com o sorriso de Shinji, e seguiu porta adentro.
Ao entrarem, encontraram na sala os proprietários, Ulquiorra e Aizen. Na mesa preparada para a ocasião, um jantar e garrafas de sake.
Ichigo e Izuru fizeram o cumprimento formal para os que estavam ali presentes.
Os olhos de Aizen tinham um brilho especial, ao ver Ichigo entrar. Sorriu para o rapaz, discretamente. Já Ulquiorra se mantinha praticamente inerte, como uma bela boneca de porcelana, mantendo os grandes olhos verdes baixos, em direção das mãos unidas em seu colo.
Com um aceno, o lorde feudal indicou o lugar onde Ichigo iria se acomodar. Bem ao seu lado. O rapazinho respirou fundo, e fez de acordo com a vontade de Aizen. De qualquer maneira, ter Ulquiorra logo ali, do lado esquerdo do lorde, não dava muita segurança para Ichigo. Talvez fosse por esse motivo que os donos estavam ali presentes.
Aizen estendeu a taça para Ichigo servi-lo.
“Sirva-se também. Essa é uma noite que você deve celebrar junto comigo, Ichigo.”
“Qualquer momento ao seu lado deve ser celebrado, Aizen sama. Me sinto imensamente honrado.” Falou ichigo, com alegria e agradecimento sinceros.
O rapaz encheu a sua própria taça, e a ergueu ao mesmo tempo que o daimyo e a levou aos lábios em seguida. O gesto fez com que algumas gotas de sake caíssem em seu quimono. Aquilo era considerado um mau sinal. O ruivo ficou apreensivo, cobrindo a mancha que havia ficado em seu colo com as mãos. Aizen percebeu a preocupação do rapaz,e pegando em sua mão, tratou de tranquilizá-lo, falando baixo ao seu ouvido.
“Não há razão para se preocupar com uma superstição tola como essa, Ichigo. A não ser que esteja preocupado que o sake possa estragar seu quimono.”
Ichigo não pode deixar de rir.
“Mesmo assim, eu deveria tomar mais cuidado, Aizen sama. Pelo menos pelo quimono.”
A pequena comemoração prosseguiu, com Kira tocando e cantando algumas musicas típicas de sua terra natal, enquanto Ichigo tomou a liberdade de dançar mais uma vez para Aizen, que parecia cada vez mais enlevado por ele, enquanto Ulquiorra permanecia distante, alheio ao que acontecia a sua volta.
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Ichigo pensou que a parte mais difícil havia terminado. Ele se sentia vigiado a todo instante por Ulquiorra, e quando se viu longe daqueles grandes e inquisidores olhos verdes, sentiu que um enorme peso havia sido tirado de suas costas. Mas, ao chegar a um dos melhores quartos da casa de chá, um outro tipo de tensão passou a lhe ocupar a mente. O de estar sozinho, junto com o daimyo.
Não era tão experiente e nem tão educado quanto Ulquiorra ou qualquer outro kagema que já o entreteu antes. Sentia o coração sair pela boca quando abriu a porta de correr para que o lorde feudal passasse.
Aizen no entanto, parecia saber das preocupações do jovenzinho, e ele mesmo foi se acomodando, sentando próximo ao futon, elegante e altivo. Era impossível não se sentir atraído por aquele carisma que o daimyo exercia. Era hipnótico.
O rapaz então imitou o lorde, sentando-se de frente a ele, e procurou encará-lo nos olhos, tentando não se importar por estar com o rosto vermelho. Uma dose de sake talvez viesse em boa hora. O lugar era tranquilo e silencioso, tendo por único barulho o da agua a escorrer de uma pequena fonte em um jardim privativo. O ruivo então falou para o lorde, sempre atento a todos os seus gestos:
“Gostaria de algo mais, Aizen sama?”
“Um chá apenas.”
Era um pedido simples a primeira vista, mas Ichigo sabia que vindo de um lorde, não seria uma simples preparação. E logo ele que nunca teve paciência pra esse tipo de coisa? Mas agora não poderia haver recusa, e o rapazinho se direcionou prontamente para o conjunto de chá. Fez tudo até onde sabia, da melhor maneira que podia. Suas mãos estavam geladas, e era cada vez mais difícil mantê-las em controle para que não tremessem.
Ichigo mantinha a vista baixa, se concentrando em mexer o chá no recipiente, evitando assim encontrar o olhar de Aizen, que acompanhava tudo com minuciosa atenção. E não era uma observação pura e simples. O lorde tinha uma apreciação especial naquele ritual. Para Aizen, era um verdadeiro deleite acompanhar as mãos, a maneira como se moviam em seus gestos, que para ele eram cheios de significados intrínsecos, que diziam muito sobre quem lhe preparava o chá.
Assim que Ichigo lhe estendeu a bebida quente, Aizen podia sentir a tensão do rapaz em seus dedos que apertavam com força a taça de porcelana. Aquele rapazinho havia realmente se esforçado para agradá-lo, mesmo sabendo que a cerimônia do chá não era seu forte. E os olhos dele, eram límpidos, de um brilho vivaz e verdadeiro.
Aizen tomou o recipiente com o chá, e em um gesto suave e elegante agradeceu Ichigo, antes de beber. Ichigo assistia a tudo, ansioso e um tanto apreensivo, querendo a aprovação do lorde feudal.
O incenso de sândalo queimava devagar, irradiando-se pelo ambiente, seu doce aroma inebriando os sentidos, dando a sugestiva impressão de estar em algum sonho.
“Divagando, Ichigo?”
O rapaz ficou alerta com a pergunta do lorde. Piscou algumas vezes os grandes olhos castanhos, enquanto se desculpava. Aizen achou aquela expressão encantadora.
“Perdoe-me se pareço distraído, Aizen sama. Só estava me perguntando se tudo isso não passa de um sonho. Um lindo sonho...” . O ruivo sorriu meio sem jeito, o olhar buscando o olhar do lorde.
“Eu posso te garantir que tudo isto que está vivendo é a realidade, Ichigo.”
Com um sorriso nos lábios, o daimyo estendeu sua mão para o rapaz, um sugestivo convite.
O kagema fez a vontade do lorde. Sentiu-se acolhido quando sentiu sua mão envolvida por aquela outra mão, tão firme e segura. A breve intimidação foi se desfazendo, e ele próprio pousou a cabeça no peito do nobre.
De olhos fechados, o rapaz sentiu-se envolvido pelos braços do lorde, apertando-o, protegendo-o. Deu um suspiro profundo, estremecendo de excitação. Aizen, sempre seguro de suas ações, estreitou o abraço ainda mais, apertando o rapaz contra si.
Se deixando levar pelo calor daquele braço forte a lhe envolver, Ichigo pegou uma das mãos de Aizen, grandes e longas, e beijou a ponta dos dedos devagar, roçando os lábios, passando-os de um dedo a outro. O daimyo ainda tendo a mão beijada pelo rapaz, o trouxe mais para junto de seu peito. Fez então com que Ichigo olhasse para ele. Abaixou o rosto e tomou Ichigo num beijo carregado de desejo, fazendo o mais novo corresponder a ele, a respiração ofegante. As mãos de Aizen desceram até a cintura de Ichigo, apertando-o mais contra seu corpo. O ruivo envolveu os braços no pescoço de Aizen, numa entrega total e sem reservas.
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Ulquiorra entrou em seus aposentos lívido. Respirou fundo e deu alguns passos com dificuldade. O ciúme que sentia era tanto que fazia seus músculos retesarem. Um a um, os enfeites de seu cabelo caiam no chão,tirados e jogados pelo rapaz.
Aquele momento, Aizen estava com Ichigo, juntos. O lorde finalmente estava consumando o desejo que tomou conta dele durante toda a cerimônia. Olhava para Ichigo como se já o estivesse possuindo, ali mesmo, na frente de todos. Na frente de Ulquiorra.
Jogou-se pesadamente no futon de seda vermelha. Inerte, ele vislumbrou seu quarto. Viu seus valiosos móveis e objetos,os ricos quimonos de seda,boa parte dados de presente. Tudo parecia sem valor pra Ulquiorra agora. Os olhos verdes então encontraram o espelho de moldura laqueada em negro. Na imagem refletida, viu uma lágrima se formar no canto de seu olho, ganhando mais volume, e por fim, escorrer pelo seu rosto pálido. Ele Levantou-se e pegou o espelho, em seguida, um pente de casco de tartaruga decorado. Passou o pente por seus cabelos negros algumas vezes, olhar perdido para o espelho.
De repente, golpeou furioso o espelho com o pente, fazendo com se partisse ao meio,em uma rachadura que ia de cima a baixo. Ao ver o que tinha acabado de fazer, ficou alguns instantes analisando o dano. Passou o dedo indicador na rachadura devagar. Tirou depressa quando sentiu a dor aguda do corte em seu dedo.
Pôs o dedo ferido nos lábios, o gosto metálico e acre invadiu sua língua. Olhou novamente para o espelho, e pode ver sua imagem distorcida pela rachadura. E bem no meio de seu peito, havia uma mancha de sangue. O corte no dedo não era nada. Onde o rubro marcava na rachadura do espelho, ali era onde realmente doía.
“Irei te destruir, Kurosaki Ichigo.”
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