O Criminoso Perfeito
13 Capítulo 13 - Novos caminhos.
Notas iniciais
Eren, definitivamente, não sabia cozinhar.
Aquela era sua décima tentativa, e a cozinha estava entupida de fumaça, e com algo não identificado na frigideira. Depois de desistir, e quase ter que enfrentar a possibilidade dos bombeiros invadirem sua porta, suspirou, terminou de se vestir e saiu. Pensou em comer alguma coisa na lanchonete perto de casa, e só depois comprar um livro de receitas para finalmente aprender a manusear uma panela sem queimar a casa. Estava no meio do caminho quando o avistou. Quanto tempo não o via? Quanto tempo não o via sorrir daquela forma? Não sabia dizer, mas Mikael estava totalmente diferente.
Começando com a aparência. Mikael nunca fora o tipo de rapaz que se importasse muito com isso, mas não significava que andava desleixado, pelo contrario, sempre andava muito bem arrumado, embora respondesse às cantadas e elogios com apenas um “não é nada demais, apenas gosto de me vestir assim”. Mas Eren não esperava encontrá-lo vestindo um terno bem cortado e uma gravata vermelha, e principalmente, não esperava vê-lo de cabelo grande. Sempre avisava ao irmão que deveria cortar seus cabelos negros, e mesmo que não se importasse em deixá-los crescer, Mikael sempre o fazia. Agora o cabelo do moreno continuava com o mesmo formato na frente, mas com um rabo de cavalo atrás, se ele soltasse, provavelmente já estaria batendo no ombro.
Eren decidiu falar com ele, e tentar puxar assunto com um “Nossa, Mikael, tá na hora de cortar o cabelo”, mas deteve-se no meio do caminho ao vê-lo andando em direção a um carro preto, segurando dois cachorros-quentes, e entregando um deles a um rapaz de cabelos loiros e olhos azuis. Se perguntou quem poderia ser o loiro, já que estava afastado quando o rapaz estava trabalhando na delegacia. Sentiu uma vontade de ir até lá e perguntar de maneira indireta quem seria o novo amigo do irmão, quando o viu limpar algo na bochecha do outro, antes de dar um selinho nele.
“Então ele não precisa mais de mim” – Pensou – “Sim, é melhor que ele tenha me superado, já que só pude dar a ele tristeza.”.
O rapaz de olhos verdes virou e seguiu em direção à delegacia. Estava feliz com a nova vida do irmão, mas ainda não entendia porque as lágrimas insistiam em sair dos seus olhos.
***
Quando chegou à mesinha da área de descanso, Mike percebeu que a cafeteira estava vazia. Suspirou. Muito provavelmente havia sido ele a pessoa que bebera todo o café, mas ainda queria mais. Colocou o coador de papel, o pó, e encheu o lugar com água, depois se encostou e decidiu esperar que o café ficasse pronto. Ainda pensava em Erwin, onde o amigo estaria, se ao menos estava bem e vivo. Não tivera uma noite sequer em que tivesse dormido tranquilamente desde o acidente, e agora tinha uma delegacia envolta em caos nas mãos. Se perguntou como o outro aguentava tudo aquilo nos ombros.
– Beber mais café vai acabar fazendo com que tenha uma úlcera, Mike. – Ouviu uma voz vinda da porta, antes mesmo de olhar para o sorriso nos lábios do loiro. Como ele poderia parecer tão otimista, sendo que sua expressão e olheiras não negavam que também estava preocupado?
– Bebo café porque ainda estou no trabalho, e não posso sair para beber uma cerveja.
– Deveria sair cedo hoje, não temos muita coisa o que fazer. A máfia local parece que deu um tempo com a morte de Valentino, e os pequenos delitos já estão sendo facilmente resolvidos.
– Sim. Eu sei.
– Ainda é o Erwin?
– Sabe que sim. – Respondeu, antes de ver Nanaba se aproximar e tocar seu rosto.
– Sua barba está maior do que o normal.
– Não tenho tido tempo para fazê-la.
– Não teve tempo, ou não se importa mais em fazer?
– Talvez um pouco dos dois. – Admitiu.
– Não vai adiantar nada se afundar com isso. Se ele puder ser achado, será. Pense que ele também estava na mira dos mafiosos, talvez esteja se escondendo e não possa contatar você para seu próprio bem.
– Admiro seu positivismo.
– Não é positivismo, temos que ver por vários ângulos.
– Tem razão.
– Eu sei que tenho. – Sorriu. — Vamos jantar alguma coisa essa noite, você precisa relaxar. Cozinho para você.
– Depois daqui?
– Sim.
– Tudo bem.
Mike observou o rapaz sair pela porta e falar com alguns colegas. Precisava relaxar, e talvez jantar com Nanaba resolvesse alguma coisa. Virou-se e pegou a xícara enquanto observava o café cair na jarra depois de ser coado.
***
O loiro mais novo observava alguns papeis enquanto tentava organizá-lo de modo que pudessem compreender. Desde que o paradeiro de um dos mais conhecidos detetives passou a ser desconhecido, o jornal da cidade estava em polvorosa, principalmente seus dois novos companheiros de equipe. Gostava de seu novo emprego, o fazia esquecer os problemas que passara, dos dias sombrios que o ainda atormentava. Só de ouvir os gritos vindo de Jean, já sentia seu coração se encher de animação.
– COMO AINDA NÃO DESCOBRIMOS NADA? NÃO PODE SER! – Gritou, pela décima vez naquele dia.
– Jean, se estressar não vai ajudar. – Interveio Marco.
– CLARO QUE NÃO VAI AJUDAR! Temos que pensar em alguma coisa Marco, não importa o que façamos, temos que descobrir onde esse cara se meteu.
– Mas nem o policiais, os antigos companheiros dele sabem, Jean.
– Não importa, Armin! Eles devem estar mentindo! Tenho certeza.
– Jean, poderíamos falar do novo delegado, o antigo parceiro do delegado Erwin.
– Sim Marco, mas e depois? O que falaremos? Fingiremos que isso acabou? Não, temos que descobrir tudo logo! E pra já!
– Uma coisa de cada vez Jean. – Marco contornou a mesa onde Jean estava, ficando ao lado dele e pegando alguns papéis – Temos uma entrevista com o delegado Mike. Em algumas respostas ele demonstra que acredita que o ex-parceiro ainda está vivo, mas não deixa nada explicito, podemos comentar sobre.
– Tem razão. Por enquanto, isso deve dar.
Armin sentiu um pouco de inveja na forma como eles falavam um com o outro. Não, não era bem isso. Sentia uma invejinha sempre que alguém falava muito intimamente com Jean, e isso se tornava mais forte quando era o Marco que o fazia. Estava na cara que aqueles dois tinham algum tipo de relação, e muito provavelmente ia além de amizade, mas o loiro mais baixo preferia pensar que eram só amigos.
Não sabia dizer desde quando passara a se importar com isso, desde quando passara a sentir um desconforto na hora de falar com Jean. Queria poder explicar o que sentia, mas ainda achava que era apenas uma forma de inveja, já que ele era sociável com todo mundo, mas no fundo sabia que não era inveja o que sentia. Sabia que o que sentia e o incomodava, era o ciúme.
***
Patrick estava mais ansioso do que esperava. Nunca tinha se sentido assim desde que Auruo começara a trabalhar na casa, mas agora só de lembrar o seu nome, já sentia seu coração se inquietar. Por que ele fizera aquilo? Por que o beijara? Era óbvia a resposta, mas negava-se a acreditar. Desde que se apaixonara por Levi, Patrick não tinha se dado ao luxo de pensar em mais ninguém, de modo que não havia percebido os sentimentos do outro até o dia em que ele simplesmente fizera o gesto de beijá-lo.
O rapaz sentiu seu coração quase parar quando ouviu a campainha ser tocada.
– Olá Patrick. – Começou o loiro.
– O-Oi. – Respondeu, sentindo suas bochechas esquentarem.
– Bem, já posso entrar? Sabe, eu trabalho ai...
– Não! Quer dizer, sim. Entre.
Auruo entrou quando o outro deu passagem, e parou alguns passos depois, enquanto Patrick fechava a porta.
– Patrick?
– S-Sim?
– O que aconteceu?
– Nada.
– É por causa do beijo?
– O que você acha!? – Explodiu – Você me beija do nada e ainda pergunta?
– Você tá falando isso porque não foi seu amado chefe.
O mais velho se virou e seguiu em direção ao jardim, com Patrick logo atrás.
– Você não tem nada a ver com isso!
– Tem razão. – Auruo se virou, olhando para o rapaz e indo em direção a ele – Eu não tenho nada a ver com isso! Eu não tenho nada a ver com o sofrimento do cara por quem sou apaixonado, não tenho nada a ver com o fato de querer que ele ao menos seja feliz!
– V-V-Você é apaixonado por mim?
– Por que acha que eu te beijei!? Por diversão?
– Não... É que...
– E se eu te beijasse agora? E se você me desse uma chance de te fazer esquecer o Levi? – Patrick estava encostado a parede, enquanto Auruo se aproximava cada vez mais, encurralando-o – O que você faria?
– Mas eu não quero esq-
– Sim, e é por isso que está sofrendo! – O mais velho bateu a mão na parede atrás do ruivo, fazendo com que ele se assustasse.
Patrick se surpreendeu com a reação do outro, e mais ainda quando se pegou pensando na possibilidade que ele lhe propusera. O que faria se permitisse se apaixonar novamente, mas dessa vez por alguém que o correspondesse? Não sabia o que dizer. Queria responder, mas não encontrava palavras para explicar o que sentia, na verdade mal sabia o que se passava em sua cabeça e em seu coração. Talvez pudesse dar uma chance, mas sentia que iria trair Levi.
– Não posso traí-lo.
– Como você vai trair alguém que nunca teve nada com você? – O loiro se aproximou, inclinando-se como se fosse beijá-lo outra vez – A pessoa que gosta de você não é ele, e sabe disso.
– E se eu não conseguir esquecê-lo? – Patrick sentia não só seu rosto, mas todo seu corpo esquentar com aquela proximidade – E se não der certo?
– Não precisa ter medo de mim. – Seus lábios estavam a centímetros um do outro.
– Eu tenho medo do que posso sentir, e se você me magoar também?
– Não farei isso.
– Quem me garante?
– Dou minha palavra. – Completou, antes de tomar os lábios do ruivo para si, em um beijo que foi prontamente aceito. E correspondido.
***
– É, parece que temos tudo que precisamos. – O moreno começou.
– O que? Uma roupa de mafioso e uma arma não farão com que nos transformem em chefes da máfia.
– Se acalme, eu tenho um plano. Para achar aquele filho da puta, só precisamos que acreditem que somos grandes chefes e nos deem informações.
– Os seus planos quase nos mataram uma vez, Levi. Uma vez não, duas.
– Mas estamos vivos, não estamos? Pois é. Agora para de reclamar, e dirija. Temos que falar com esse cara ainda hoje. O pai dele morreu e ele teve que assumir tudo, mas não sabe como negociar, temos os lugares dos seus depósitos de armas, então se o matarmos, poderemos pegar as armas e vende-las.
– Mas ele estará com vários guardas.
– Mas é claro que vai estar rodeado de guardas! Mas com quem pensa que está falando, Erwin?
– Com o cara que eu deveria prender, mas agora estou dentro de um carro, prestes a cometer suicídio!
– Na verdade está falando com o cara que você não aguentou ver, e já queria foder, mesmo não sabendo o motivo.
– Atração física é uma coisa. Eu deveria ter matado você quando tive a oportunidade, nada disso teria acontecido.
– Você não me mataria nem se quisesse. De alguma forma você se sentia atraído por mim, é mais fácil assumir de uma vez.
– Vá se foder, Levi. – Erwin começou a estacionar em uma área perto de um galpão abandonado – Chegamos.
– Ok, é o seguinte, você fica calado, parado, e finge que é um alemão que não fala nossa língua, eu cuido do resto. – Disse Levi antes de abrir a porta do carro e sair, sendo seguido por Erwin.
Ambos se aproximaram de um carro estacionado a alguns metros de distancia, que era rodeado por cinco homens que deveriam ser os guardas do dito traficante de armas. Erwin vestia um sobretudo preto, por cima de um terno fino e caro comprado por Levi, além de óculos escuros, mesmo que já estivesse anoitecendo. Usava apenas para que não fosse reconhecido, já que, junto com o cabelo grande penteado de forma diferente do habitual usado por ele, seu rosto ficava completamente diferente.
– Estão atrasados. – Começou o traficante.
– Demoramos um pouco na hora de sacar o dinheiro, algumas pessoas no banco não sabiam falar alemão.
– Pelo menos trouxeram tudo?
– Claro, quem acha que somos?
– E onde está?
– Bem, está no porta-malas, pode conferir. Onde estão as armas?
– Estão no caminhão ali atrás – Apontou, indicando um caminhão mais afastado, protegido por dois homens.
– E quem me garante que estão ali mesmo?
– E quem me garante que o dinheiro está no porta malas mesmo?
– Justo. – Levi sorriu. Talvez ele não fosse tão idiota quanto pensava – Que tal fazermos assim: eu olho o caminhão, enquanto você olha no porta malas. Ao mesmo tempo.
– Por mim, tudo bem.
É, talvez ele realmente fosse tão idiota quanto Levi pensava.
O moreno mais baixo e o loiro seguiram em direção ao caminhão estacionado na área afastada, enquanto o traficante e mais alguns homens se aproximavam do carro. Assim que chegaram perto o suficiente dos respectivos veículos, trocaram olhares e balançaram a cabeça em afirmativo, indicando que poderiam abrir e conferir seus objetos de desejo.
“É agora”, pensaram os mais novos parceiros de crime.
Assim que o traficante de armas abriu o porta malas, ouviu-se um barulho ensurdecedor de uma explosão. Uma bomba fora plantada, de modo que quem abrisse, junto com quem quer que estivesse ao seu lado, fosse pelos ares. Quando perceberam que era uma armadilha, os guardas sobreviventes sacaram suas armas, mas não eram rápidos o suficiente para lidar com Levi. Com um movimento rápido ele pegou as pistolas que trazia consigo e atirou nos homens que estavam mais perto do caminhão, deixando o caminho livre para que Erwin passasse correndo e o abrisse, ficando com estoque enorme de armas e balas a sua disposição.
Junto com o traficante, mais três guardas haviam morrido, de modo que agora só restavam mais dois para serem abatidos. Levi conseguiu atirar na perna de um enquanto tentava se proteger, e quase fora baleado pelo outro, livrando-se apenas porque Erwin pegou uma arma e o matou, antes de correr atrás do que restara. Voltou alguns segundos depois, ofegante e sangrando, mas vivo.
– Pegou ele?
– Sim.
– Tomou um tiro de novo, Erwin?
– Dessa vez foi de raspão. – Respondeu segurando a perna – Vamos, temos que dar o fora daqui. Onde estão as chaves?
– Não achei nos pedaços que sobraram do cara, então deve estar no carro dele.
– Talvez estivesse com um dos guardas. Pelo menos o que eu peguei estava limpo.
– Então vamos dar uma olhada nesse daqui. – Conclui o moreno, contornando o corpo ao seu lado e procurando em seus bolsos – É, tava com esse. Espero que essas chaves abram o galpão, ou terão morrido por nada.
– Não acredito que me tornei um assassino. Tudo culpa sua, Levi.
– Não faça tanto drama.
– Sério, você destruiu minha vida. – Respondeu o loiro indo em direção ao antigo carro do traficante. Por sorte, as chaves ainda estavam no lugar, talvez para facilitar a fuga caso a transação não desse certo.
– Me poupe, Erwin. Se não quisesse isso, teria me matado quando teve a oportunidade.
– Sim. Me lembrarei disso quando aparecer outro assassino da máfia na minha vida.
– Mas não irá aparecer.
– Por que acha isso?
– Porque eu não deixarei que mais ninguém fique com você, Erwin Smith.
***
Estava mais frio do que esperava fora da delegacia. O loiro barbudo colocou as mãos dentro dos bolsos da calça, enquanto seguia o parceiro até seu carro estacionado a alguns metros.
– Está com frio, Mike?
– Um pouco.
– Seu nariz está vermelho. – Nanaba sorriu – Então acho que vai realmente chover.
– Sim. Parece que você me conhece bastante. – Mike entrou no carro, seguindo Nanaba, que já estava ligando-o.
– De fato. Há anos trabalhamos juntos, já gravei suas manias. Sempre que ia chover, você reclamava que seu nariz ficava frio. Você tem um bom faro, Mike.
– Pois é.
– Vai chover muito ou pouco?
– Você já está complicando para mim.
– Vamos lá, use seus poderes do ‘Olfato Perfeito’. – Nanaba deu uma risada divertida, fazendo com que Mike o seguisse. Fazia tempo que não riam juntos daquela forma, era bom poder passar um tempo novamente com seu parceiro.
– Sinto ter que te decepcionar, mas meus poderes são limitados, senhor Nanaba.
– Que pena. Queria saber se esse final de semana faria sol.
– Só olhando na previsão do tempo.
– Seu nariz é mais confiável.
Mike sentia-se feliz por Nanaba estar tentando reanimá-lo, então decidiu que aproveitaria bem a noite. Passaram em um supermercado antes de seguirem para a casa do mais novo, onde tiveram que tomar cuidado para não queimar o local enquanto cozinhavam. Ao ouvir que Nanaba cozinharia para ele, Mike concluiu que o outro saberia o que estava fazendo, mas a verdade era que ele tentou seguir uma receita que não dava muito certo, fazendo com que a comida ficasse com um aspecto duvidoso. No final acabaram pedindo pizzas e abrindo a embalagem com latinhas de cerveja.
– Normalmente eu consigo cozinhar algo comestível, mas hoje não foi meu dia de sorte. – Admitiu.
– Percebi. – Mike sorriu. O mais novo já começava a ficar ruborizado com o efeito do álcool, e mesmo que não demonstrasse, o barbudo também da podia sentir os efeitos em si.
– Não ria de mim! – Protestou Nanaba, enquanto tentava atingir Mike com um soco leve, enquanto o outro tentava desviar inutilmente.
– Achei que cozinharia para mim, fiquei até feliz. Nunca tive alguém que fizesse isso por mim. Acho que quando me casar, minha esposa será do tipo dona de casa, que ficará cozinhando e fazendo tudo para mim.
– E você precisa se casar para ter uma comida caseira? Mulheres não agem mais assim, senhor século XIX.
– Eu sei disso. Por isso que não irei me casar.
– Só porque não terá uma escrava em casa?
– Não. Na verdade não sei, acho que nunca me apaixonei realmente por alguém. E se alguém se apaixonou por mim, nunca me despertou interesse.
– E se agora alguém se confessasse para você, o que faria? – Perguntou Nanaba, colocando uma latinha vazia em cima da mesinha de centro. Ambos estavam sentados no tapete, começando a ficarem bêbados, enquanto viam algum programa aleatório na TV, e jogavam conversa fora.
– Depende da pessoa. Talvez eu desse uma chance a ela.
– E se essa pessoa – Nanaba prosseguiu, tirando a latinha da mão do barbudo, e sentando-se em seu colo, envolvendo sua cintura com as pernas – fosse eu?
– Nanaba...
– Sim Mike, eu. Seu fiel parceiro. Eu quero você Mike – Sussurrou no ouvido do outro, sentindo-o se arrepiar – Eu desejo você de uma forma que não consigo controlar. – Completou, antes de morder levemente a orelha de Mike.
– Você está bêbado, Nanaba.
– Acho que se eu estivesse sóbrio, não teria coragem de falar. Mas essa é a verdade.
Antes que o mais alto pudesse responder qualquer coisa, Nanaba o beijou. Não esperava que fosse correspondido, mas foi, sentindo duas mãos segurá-lo pela cintura, e sua boca ser invadida com uma língua faminta. Nunca pensou que Mike pudesse beijar tão bem. Talvez suas fantasias estivessem corretas, e ser possuído por aquele homem era o que mais queria desde que o conhecera.
– Nanaba – Interveio Mike, separando os dois – Não.
– Por que não?
– Estamos bêbados.
– E daí?
– Não é certo. Podemos nos arrepender disso quando estivermos sóbrios.
– Eu não me importo. – O menor desejava mais, queria que aquele contato se prolongasse pela noite inteira, queria senti-lo por completo.
– Mas eu sim.
Mike o afastou delicadamente e se levantou, seguindo em direção à porta.
– Vai fugir assim?
– É melhor Nanaba. Conversaremos depois, quando estivermos conscientes do que estamos fazendo.
– Mas Mike... – Tentou protestar, mas o barbudo já tinha pegado seus sapatos e seguido em direção à rua, onde tomou um taxi e seguiu para casa, desejando não ter interrompido o momento.
***
Armin andava apressado pela rua. Desde que seus pais morreram, era sempre assim que andava pelos lugares, apressado, olhando sempre para as pessoas ao seu redor. Eram poucas as pessoas em quem conseguia confiar, principalmente à noite.
Depois de ver Jean surtar por não saber como escreveria uma matéria, tinha sido dispensado por Marco, que o mandou para casa descansar. Com um sorriso no rosto apenas disse: “Vá na frente, vou tentar convencer esse cabeça-dura de que precisa dar um tempo”.
Não gostava de deixá-los sozinhos, e aquele sentimento o incomodava, e pior, o deixava com a cabeça nas nuvens, fazendo com que ficasse menos atento que o normal, mesmo que sempre tomasse todas as precauções que deveria.
Após sair da Redação, passou na lanchonete que ficava em frente ao local e comprou um pedaço de torta. Adorava os doces daquele lugar, e como tinha dinheiro de sobra, se permitiu um agrado para variar. Tinha acabado de sair quando seguiu em direção a seu novo apartamento. Iria pegar um ônibus só para não ter que fazer uma pequena caminhada sozinho. Normalmente a fazia ao lado de Jean e Marco, mas como dessa vez estava sozinho, preferiu não se arriscar.
Estava passando por um beco quando sentiu seu braço ser puxado.Quando finalmente o choque deu lugar ao desespero e pensou em gritar, sentiu uma mão ser levada a sua boca, para que não fizesse nenhum ruído.
“Isso não pode estar acontecendo. Não posso passar por aquilo de novo”. – Pensou.
– Shhhhh, fique quietinho. Sim. Sentiu minha falta, Arminzinho?
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