O Crime do Sem-Testemunhas
1 Capítulo 1 - O Assassinato do Juiz
Notas iniciais
Eram pouco mais de nove horas da noite quando um grito ecoou pelo Teatro Santa Isabel durante uma apresentacao, no Recife de 1922. O publico se levantou assustado das poltronas e correu para a saida. E la, a nata da sociedade pernambucana petrificou. Um corpo, com um tiro no peito, jazia em frente ao portao principal.
Ninguem viu, ninguem soube… Somente a lua cheia extraordinariamente luminosa daquela data testemunhara o assassinato.
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Na manha seguinte, a Imprensa, a policia e a multidao de curiosos ja cercavam o local do crime. Os melhores peritos da cidade foram chamados para trabalhar no caso. O corpo era de Benedito Castilho, consagrado juiz de direito, uma das principais autoridades da regiao.
As semanas foram passando e, no entanto, nenhuma pista do criminoso foi encontrada. Profissionais de todo o pais foram convocados no intuito de resolver aquele que, ate o momento, estava sendo considerado ‘’o crime mais misterioso da decada’’. A noticia estampava capas de jornais do pais inteiro, e rumores ja atravessavam o Atlantico em direcao ao estrangeiro.
O governador Sergio Loreto mal conseguia dormir — viu nesse grande escandalo uma forma de alavancar a popularidade junto a populacao e garantir as proximas eleicoes. Para tal, era necessario capturar o homicida. Alem disso, a pressao do povo para resolver o crime aumentava a cada dia; Doutor Castilho era uma figura muito popular e querida, e a indignacao pelo seu assassinato era geral. Ou solucionava-se o misterio no seu mandato e virava heroi nacional, ou o crime permanecia impune e perderia a grande maioria do eleitorado. A regra da politica era clara.
Passados tres meses do homicidio, nenhuma misera pista foi encontrada. Nenhuma testemunha, nenhum depoimento, nenhum boato com fundamento… Apenas as teorias conspiratorias em conversas de mesas de bar, pracas e materias de tabloides sensacionalistas. Muitos peritos ja jogavam a toalha e partiam do Recife. O que se cochichava pelas delegacias eh que o crime estava destinado a prescrever... Nao tinham a menor ideia de quem poderia ter cometido tal barbaridade. Seria mais uma daquelas grandes incognitas da humanidade, como a identidade de Jack, o Estripador... Um dos principais investigadores do caso declarou à Imprensa, dias antes, que nao havia mais nada a se fazer — era o crime perfeito.
Todavia, se ha uma coisa que o jornalista Norberto Villar aprendera com Sir Conan Doyle, Agatha Christie e Allan Poe eh que nao existia crime perfeito. O jovem acompanhava o caso desde o inicio, fazendo a cobertura para a redacao do jornal Diario de Pernambuco, colhendo todo tipo de informacao das escassas fontes na cidade. O rapaz alto, esguio e com bigode discreto acreditava na Lei de Taliao: ‘’Olho por olho, dente por dente’’. E que todo delinquente deixava, por mais insignificante que fosse, um vestigio.
Esse caso, em especial, atiçara seu senso de justiça. O misterio so incentivava seu trabalho jornalistico e brio investigativo. E de frente para a pintura do juiz bonachao, no Tribunal de Justica, prometera nao desistir de encontrar seu assassino, e solucionar o que os recifenses estavam chamando de ‘’O Crime do Sem-Testemunhas’’, batizando, assim, o criminoso que nao deixava pistas — o Sem-Testemunhas.
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