O Crime

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Mais uma narrativa sobre um crime curioso.

Que houve crime, isso houve! Mas não se pode dizer que Meireles o cometeu, pois nem se pode dizer que ela estava lá, muito menos que tinha motivos suficientes para cometê-lo. Ora, pode o fato de ele não lhe ter dado um pote de pasta de amendoim ser um motivo para assassinatos? Seria se ele lhe tivesse atirado o pote na cabeça dela – e se o pote estivesse cheio de pasta de amendoim. Fora isso, motivo nenhum.

Mesmo que ela quisesse matá-lo, ocasiões não faltaram que fossem mais propícias para se colocar uma lâmina no copo de chá, que não na festa de aniversário da sogra dele.

E a nora? Alguém se lembrou de suspeitar da nora, aquela que todos sabem adorar fazer chá? Suas especialidades são os chineses, ela sempre diz. Onde ela estava quando o pobre miserável botou as lâminas de barbear goela abaixo? Inocentemente sentada no sofá, e ninguém se lembra de tê-la notado chegar, tão fantasma ela consegue ser, afinal, esconde muito bem sua presença.

E o encanador que também ali estava, por que ele não é suspeito? Afinal, alguém perguntou o que fazia um encanador na festa da adorável senhora Espinela? Dizem que ele sempre lhe presta bons serviços e por isso ela gosta do moço que, diga-se de passagem, foi pego pelo falecido a furtar palitos de dentes da mesinha de conveniência da senhora. E se fora pego novamente? Certamente teria eliminado a testemunha do crime com lâminas de barbear usadas. Homem vil!

Há também o irmão que todos sabem não aceitar que a mãe deixaria ao nosso mais novo habitante do além o vaso de flores que fora ridiculamente feito pelo oleiro com quem ela tivera um caso na juventude. Certamente mata-se por herança hoje em dia.

E o padre? Sabem como são os sacerdotes do Homem, que logo começam a se achar o próprio Homem. Ele, ouvindo as confissões do nosso defunto, pode ter achado os pecados – confessados por ele dois dias antes, conforme todos sabem – dignos de morte, ao invés de perdoáveis. Padres costumam achar que carregam consigo a justiça, representadas aqui pelas lâminas.

Não se esqueçam, porém, do tio, homem egoísta que não admite que se peça dinheiro a ele. O nosso finado passava por problemas financeiros, bem sabemos, e poderia ter pedido emprestado ao tio, o que teria sido o mesmo que pedir lâminas em seu chá.

Oh! Quase me esqueço do filho, adolescente rebelde sem causa que espera desde pequeno por aquelas notas de vinte reais que seu pai se recusa e lhe dar, afinal, sabe que o pirralho gastará com coisas vãs como lanches gordurosos e carrinhos baratos. Motivo forte de vingança!

O mais perfeito suspeito, no entanto, é a sogra, já que ela odeia o fato de ele ter esquecido seu presente de aniversário naquele dia tão importante.

Pensem, meus caros, pensem na falta de motivo da Meireles frente a todos esses e mais. Pensem que ela o amava de maneira quase incompreensível, e que eu o odiava por ela amá-lo. Pensem que eu tenha a barba feita. Pensem, pelos céus, que eu era o melhor amigo de quem ele roubou a mulher. Pensem que eu odeio chá, mas fico feliz em servir ao meu amigo, ladrão de amores. Pensem que a vingança perfeita seria fazê-lo engolir tudo o que me fez e morrer por isso! Pensem, pelos céus e pela terra! Pensem!

Notas finais
Obrigada. ^.^
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!