Notas iniciais
- Esta história se passa depois de "Cidade dos Ossos" e antes de "Cidade das Cinzas".

“(...) Durante a grande escapada pelas águas, Norderic nadava com uma força descomunal e com frequência desumana, é claro. Diz-se que lá dentro, ele esbarrou numa pedra cinzenta gigante e perdeu seu anel, a relíquia máxima de poder católico, O Anel do Pescador. O Papa então, foi encontrado dois séculos depois em meio a suas ossadas na superfície. Diz-se que seus ossos boiaram pois estavam totalmente ocos, sem conteúdo nenhum.”

Alec achava esse tipo de leitura realmente interessante. Coligar os pontos era uma atividade extremamente empolgante. Norderic fora o Papa Aclamado, assim chamado pelos seres de Idris, por ser o vampiro mais poderoso da terra. Seus poderes iam além da prática, eram amaldiçoados. Jaz a lenda de que o Anel do Pescador era a relíquia da imortalidade, que podia transformar alguém no ser mais poderoso do universo e fazer com que suas fraquezas fossem expelidas de seu corpo. O Papa não era prisioneiro da escuridão como seus irmãos, seu sangue fluía como ouro em suas veias, mas um sangue venenoso eternamente.

O sucessor de São Pedro, Norderic, como qualquer outro Papa, passou por juramentos. Mas seu segredo fora desvendado há pouco mais de dois séculos após a sua morte pelos Caçadores de Sombra, que houve um pacto fora do comum que o denunciou como criatura do submundo. Não se sabe o verdadeiro significado do Pacto misterioso ou seus resultados, era tudo parte de um arquivo morto da Clave em que ninguém poderia tocar a não ser os de alto poderio. Mas os livros registram que desde a morte do Papa Norderic, o Anel do Pescador que foi passado de geração em geração até ele, nunca fora encontrado novamente.

Alec havia passado aquela tarde sozinho no Instituto, Clary estava com sua mãe no hospital junto com Simon e Isabelle esperando melhoras do coma em que havia entrado na última aventura “mortal”. Clary e Simon eram amigos recentes de Alec. Clary descobriu ser uma Caçadora de Sombras no último ano, seu sangue não era simplesmente mundano como o de Simon, agora ela pertencia ao grupo dos Nephilim. Isabelle, a irmã Lightwood de Alec, era a mais carismática do grupo. Mas nem mesmo ela conseguia animá-los neste momento por causa da situação de Jocelyn.

O livro que Alec estava lendo se encontrava jogado num canto escuro atrás do antigo sofá da biblioteca de Hodge, que havia fugido há meses depois de descoberta a sua traição. Nem mesmo os olhos azuis celeste de Alec teriam visto algum indício de falsidade naquele homem, que era como um grande pai, um mentor para ele. Hodge entregou o Cálice Mortal para Valentim, o grande perigo contra Idris, e fugiu sem deixar pistas. A decepção ainda banhava os corredores do instituto e também a saudade do cheiro das folhas de chá escuro que Hodge preparava nas tardes frias de Nova Iorque, apenas o cheiro que se tornara ácido como veneno agora.

O telefone começou a tocar na mesa de carvalho sustentada por esculturas dois anjos de semblante triste, e cada vez mais melancólicos. Alec se assustara com o barulho pois estava concentrado em sua leitura, mas logo se pôs a correr para atendê-lo.

– Quem é?

– Alec, por favor, onde você está? Estou te esperando há 2 horas! – Era uma voz semelhante à de sua irmã mais velha, mas com um pouco mais de raiva que o normal.

– Desculpe, Isabelle. Acabei me distraindo com as plantas da estufa, elas estão.. Hum.. Secas. – Respondeu Alec procurando uma desculpa para usar. Ele não queria revelar que estava lendo material proibido pela Clave, principalmente por agora estarem sob vista grossa devido ao último incidente.

– Desde quando você gosta de ir lá em cima ver aquelas plantas nojentas? Que seja. Te encontro em meia hora, e não ouse se atrasar!

– Ah.. Ok. – Antes de poder responder, Isabelle desligou o telefone furiosamente. Alec se perguntara se o que havia a irritado fora apenas o seu atraso, ou haviam mais fatores para isso. Ele não gostava de ver sua irmã aborrecida, que dirá furiosa.

Alec vestiu seu sobretudo negro e pegou as chaves da motocicleta que Jace havia deixado por acaso. Jace não sabia que ele usava sua motocicleta sem permissão, mas ela era amaldiçoada e todos sabem que coisas amaldiçoadas são muito mais legais que as normais.

No cair da noite, Alec se assemelhava a um corvo uivante na moto de Jace com seu sobretudo esvoaçado como asas negras de um morcego demônio. Logo estaria em seu destino ao encontro de Isabelle e descobriria o porquê da tamanha ira da irmã em não ter sua presença.

Já fazia quase 1 ano que Alec não via Magnus. O Mago do Brooklyn que havia conquistado mais que sua confiança no momento de trevas, o fazia lembrar de que estava solitário demais, sem companhia durante um bom tempo justamente por ser diferente. Alec nunca tivera amigos, na verdade. O único amigo que tinha era Jace, e sempre fora apaixonado por ele secretamente. Talvez essa paixão tivesse fugido de seu coração pois agora ele só batia por um só, um ser sozinho.

A moto era tão sobrenatural quanto sua velocidade pelo mar de concreto de Nova Iorque. Seus riscos em forma de fogueiras brilhantes se transformavam em faixas de luz flutuantes enquanto Alec acelerava cada vez mais. Ah se Jace soubesse, o mataria vivo com uma estela enfiada entre os olhos.

Lá estava ela, Isabelle. Estava usando um par de coturnos prateados e calças negras. Sua blusa estava simples até para a irmã extravagante que tinha, mas nada se comparava àqueles olhos negros como o eclipse lunar demonstrando seu poder de persuasão.

– Ei, Alec! Estou aqui.

Alec parou a moto perto da calçada quase que caindo por cima de sua irmã. Ele não era muito bom em manusear instrumentos sobrenaturais. Afinal, nunca matara um demônio sequer.

– Onde estão Clary e Simon? Como vai Jocelyn?

– Está na mesma.. Parece que o coma nunca abandona seu corpo. Nem mesmo a voz de Jace a fez acordar, estamos com receio de que ela não volte mais. Clary fica assustada e Simon tenta acalmá-la, mas não há o que fazer.

Alec não gostava de Clary nas primeiras semanas em que a conheceu. Depois se suas aventuras e com o passar do tempo, acabou se acostumando com sua amizade, então ficava sentido por saber que ela não estava feliz e não havia como ajudá-la.

– O que pretende fazer agora? Voltemos ao Instituto então? – Perguntou Alec duvidoso.

– Sim. Você veio na moto do Jace? Ele te mataria se soubesse.

– Nem mesmo eu sei onde ele está. Por Raziel, essa moto é incrível demais para ficar plantada nos fundos da catedral. – Alec quase que babava ao falar da fantástica moto.

– Que seja. Vamos voltar logo, eu estou com fome e deixei alguns...

Isabelle parara de falar. Não só ela, mas como todo e qualquer barulho era inexistente naquele momento. Alec só conseguia sentir suas batidas de coração totalmente aceleradas como se fosse ter um ataque a qualquer momento. A atmosfera estava completamente paralisada, sua irmã parecia uma estátua de cera em sua frente. Sentia-se como se seus ouvidos estivessem abafados por um sobro quente que não permitia a entrada de qualquer som.

Mas sim, uma melodia angelical começou a dançar em torno de Alec, sussurrava com melancolia como uma pena prestes a se molhar numa poça.

– Ad salutem.. Aqua profluens et mare..

Alec sentiu como se fosse desmaiar, essa voz era sobrenatural e o que significavam essas palavras? Ao olhar o horizonte de concreto à sua frente, bem ao final da rua, ele viu uma luz morta que fluía como uma alma torta desenhada à mão. Quando piscou, ela já não estava mais lá e as estranhas vozes já não cantarolavam mais.

– ... sacos de lula congelada para cozinhar mais tarde, espero que goste de frutos do mar tanto quanto gosta da minha comida.

Alec se mantinha inativo, sua mente havia se petrificado em segundos. O que havia acontecido fora uma experiência única para ele, nunca nada fora igual em seus anos de Caçador de Sombras.

– Que cara é essa? Minha comida não é tão ruim quanto uma chicotada no seu rostinho lindo se não ligar logo essa moto. Eu estou com frio e fome, vamos. – Disse Isabelle montando na garupa da moto demoníaca de Jace.

Alec se desafiou a olhar novamente para o fim da rua onde vira a aurora perecida, mas nada havia lá. No lugar, surgiram dúvidas e medo, muito medo. Logo se pôs na frente da moto e acelerou como se não houvesse amanhã, só queria ficar o mais longe o possível daquele lugar e daquela situação horripilante. Não devia contar para ninguém, se Isabelle não ouviu a voz, ninguém ouvira a não ser ele. O vento uivava em seus ouvidos a caminho do Instituto como um sussurro morrediço, mas no momento, o que ele mais desejava era estar de volta à biblioteca para descobrir o que aquelas palavras significavam e o porquê de terem se manifestado para ele.

Só de pensar que havia lido sobre o Papa Aclamado mais cedo, o fazia tremer caso tivesse alguma relação entre a alma viva que cantarolava, e o sem alma morto amaldiçoado que jazia sob as águas negras do Mar de Alborão.

Notas finais
Espero que tenham gostado e comentem =)