Era meia noite.

Uma meia noite erma e sombria, destas que somente o inverno do sul consegue trazer. Louis havia acabado de sair do banho, estava com os pijamas mais confortáveis que tinha, já que ventava muito do lado de fora. O dia a dia na clínica médica em que trabalhava eram sempre exaustivos, não muito pelo seu trabalho, mas pela forma como as pessoas sempre o olhavam, o julgavam. Parava no corredor da sala de estar, apenas para poder encarar o espelho por um breve momento. Seu rosto de cor anormal.

Passava a mão por seu rosto jovem, porém manchado de branco, um desnível de seus pigmentos que já havia sido interrompido, porém nunca totalmente mascarado. Vitiligo não é contagioso e é hereditário. Muitas vezes é desperto apenas por estresse, mas possui um tratamento. Ainda assim, as pessoas sempre o olhava com um certo nojo, como se não quisessem toca-lo ou poderia acabar com a mesma condição dermatológica.

Já havia aprendido a conviver com aquele reflexo, como se o amor próprio fosse qualquer opção.

Suspirou extenuado e seguiu para o sofá da sala. Não havia nada que pudesse fazer com aquelas manchas brancas que o deixavam parecendo um monstro malhado. Jogou a toalha em um canto e tirou um livro de doutrinas passadas da pequena mesa de chá a sua frente. Recostou-se, ficando confortável. Aquela era a rotina normativa de Louis.

Sentia-se relaxar sob o som das gotículas de chuva que batiam contra o vidro da janela da sala, o som do vento nos galhos de árvores da rua e o cheiro de ozônio que se formava, trazendo aquela familiaridade associada ao cheiro de “terra molhada”. Aquele clima era ótimo para tirar um cochilo, eram as vezes que Louis conseguia pensar em cochilar sem o auxilio dos seus remédios de insônia e anti-depressivos.

De repente sentiu um vento invadir sua sala, um vento frio úmido de brisa noturna, trazendo consigo o som da tempestade que deveria ter ficado fora da casa. O vento era acompanhado de um som de um forte baque, um som de escancaramento e de algo pesado caindo. Na mesma hora saltou do sofá verde musgo e pensou, tem alguém na minha casa. Mas vinha apenas o vento e nada mais.

No que olhou para a entrada de seu quarto, lugar do qual acreditava ser a fonte do som, podia observar um quadro de sua mãe pendurado na parede, Lenora. Um relâmpago estala e trás consigo a luz necessária para deixar aquela suspeita macabra, e se fosse um assaltante armado? E se fosse um sequestrador?

Com cuidado, pegou uma torre de pedra que havia ganhado de presente a anos atrás de um colega de trabalho, era pesada o bastante para ferir alguém se necessário e em passos silenciosos, na ponta dos dedos, seguiu ao seu quarto para averiguar a situação. De inicio não avistou ninguém, mas quando seus olhos desceram e encontraram o chão, deparou-se com um rapaz ali deitado, com o corpo molhado da chuva e completamente nu.

Não foram as costas atipicamente alvas, a pergunta de quem era ele ou até mesmo o que fazia ali que arrancou o folego do jovem anestesista. Era o magnífico e sobrenatural par de asas negras em suas costas. Uma delas se encontrava esparramada sobre o chão tomando-o quase todo em penas trevosas, a outra estava com uma dobra estranha, como se estivesse quebrada.

As penas se moveram e Louis saltou para trás de susto, escondendo-se atrás da porta e observando o rapaz novamente, pés descalços, cabelos molhados. Estava voltando a realidade, mesmo que ainda estivesse totalmente incoerente com o senso comum. Havia sobre seu chão um anjo de asas negras. Aquilo devia ser um sonho e nada mais.

O rapaz se moveu, com dificuldade tentou levantar seu corpo do chão, as esbeltas asas se recolhiam no possível, parecia em dor, mas era difícil ver seu rosto com tamanha falta de luminosidade. Louis apenas o estava observando, aguardando suas reações, talvez esperando acordar da loucura que estava se metendo.

Porém não acordava e o rapaz parecia precisar de ajuda. Como um doutor, antes de tudo, sentiu que deveria ajudar o anjo caído que murmurava de dor. Cauteloso, deixou seu humilde esconderijo atrás da porta e seguiu para o rapaz no chão, com as mãos a mostra, caso viesse a assusta-lo, queria que o visse como amigo, alguém que não queria lhe fazer nenhum mal.

— Você está bem? – perguntou, ainda incerto do que deveria dizer. Deveria perguntar sobre as asas, deveria interroga-lo que ser era?

O rapaz parou de mover-se, como se estudasse a voz e presença de Louis. Por seu rosto escorria a água da chuva, que vinha de seus cabelos negros encharcados, uma gota ainda ousava viajar por seu rosto pálido e pingar de seu nariz no tapete do chão.

Louis não sabia o que esperar do rapaz, não conseguia dizer se ele era de boa ou má intenção, sabia apenas que era algo fantástico e sendo sonho ou realidade, precisava agir. Decidiu dar-lhe um nome primeiro.

— Meu nome é Louis. Doutor Louis Hummingbird. Mas pode chamar-me apenas de Louis. Como você se chama?

O rapaz de asas noturnas não havia levantado o rosto, mas continuou seus esforços para tirar o corpo do chão e sob a luz de uma trovoada disse suas primeiras palavras.

— “Nunca mais”.

Mas antes que pudesse fazer qualquer sentido, perdeu todas as forças que usou para se levantar, seus braços tornaram-se apoios inúteis e seu corpo foi de direto encontro com o chão. Rapidamente Louis foi em direção ao rapaz, pairou as mãos sobre ele hesitando toca-lo, seu braço estava encharcado e gélido, ele precisava de urgentes ajudas médicas. Ele precisava urgentemente de sua ajuda.

Fechou as janelas, as trancas haviam sido quebradas com a força do choque do corpo do rapaz contra elas, ele entrou a força, mas talvez estivesse apenas procurando um lugar para se abrigar da chuva. Hesitou por um instante se deveria tocar o anjo de asas negras, ele que parecia ser tão fantástico quanto a ficção, seria algum pecado passar-lhe a mão? Mas que pensamento bobo, ajudar a alguém, jamais seria visto como um ato pecaminoso.

Abaixou-se para pegar o rapaz em seu colo e tira-lo do chão frio, ele era pesado, além de maior que Louis, tinha essas enormes belezas negras para complicar. Sem problemas, quase uma hora depois conseguiu deixar o rapaz em sua cama, seca-lo com uma toalha e cobri-lo com dois edredons. Ele estava gelado, aquilo não era nada bom, com certeza iria se resfriar.

“Nunca mais”. Eram as únicas palavras que o misterioso rapaz havia proferido. Eram tão misteriosas quanto a própria existência do anjo. Talvez associa-lo com uma figura misteriosa como um anjo fosse presunção, aquele rapaz poderia muito mesmo ser um demônio. As asas negras já foram descritas biblicamente como sinal de um ser corrompido, caído, seguidores de Lilith. Mas seu rosto pacifico e belo no travesseiro contava uma outra versão.

Louis queria perguntar tantas coisas. Separou uma roupa larga em um banco e deixou água esquentando em uma chaleira para poder fazer um chá quente, seu sono havia sido completamente escanteado pela presença do rapaz misterioso.

Havia deitado o rapaz de costas para cima, por conta daquele amontoado de penas negras. Ao aproximar a mão, percebeu um espasmo involuntário, definitivamente estava quebrada. Não era especialista em aves, mas para tudo dava-se um jeito! Improvisava uma tala com uma régua de madeira, gaze e alguns anti-inflamatórios.

Pegou uma coberta e uma almofada e sentou-se ao lado da cama, na espera de estar lá quando o rapaz acordasse e pudesse lhe perguntar tudo o que corria em sua mente. Cobriu-se e deixou o livro a seu lado e se envolveu na coberta, mas estava apenas se perdendo em pensamentos, perguntas e ponderações de coisas que nunca havia dado tempo para pensar. Quando menos percebeu, caíra em um sono profundo.

****

Acordou dolorido por conta de ter dormido em um cantinho mal coberto no chão, o sol já estava a invadir o vidro com seus raios luminosos. Um gemido de dor e um estalar de asas eram o motivo de tê-lo desperto.

Sobre a cama, um rapaz jovem, belo de cabelos negros como a noite e um inexplicável par de asas pretas. O rapaz tentava esticar suas asas e as forçava em um movimento, mas logo as recuava em dor, bagunçando a tala improvisada.

— Não as mexa! – respondeu de imediato o médico.

O rapaz o olhou atravessado, suas íris vermelhas como escarlate, nada menos dignas que de uma criatura sombria como era. Louis hesitou por um momento, havia ajudado o rapaz, mas não sabia se era perigoso, ainda duvidava se quer se era real.

— Eu sou um médico, não quero machucar você. – explicou.

— Devia temer mais a mim, do que eu a você. – disse o rapaz em tom grave. Uma bela voz, definitivamente um anjo negro.

— O que fez em minha asa? – perguntou, virando o rosto para analisar o trabalho do médico.

— Um improviso, me pareceu quebrada. Eu estava despreparado com sua visita tão repentina, fiz o que pude. Se não movê-la muito pode sarar em algumas semanas.

O rapaz ergueu o tronco de seu corpo, mesmo com a asa dobrada ostentava um tamanho e aura superior, trazia trevas da noite em sua aura, como se quisesse assustar o doutor, intimida-lo. Seu corpo pálido completamente exposto constrangia um pouco Louis, a beleza pode ser admirada tanto quanto temida.

— Não tem medo de tocar-me, mortal? Não teme a consequência de suas ações? – perguntou bronqueando.

— Você estava ferido! O que queria que eu fizesse? Deixasse você nu pelo chão? Ensopado de chuva, com a asa quebrada? Acha que sou algum tipo de monstro!? Não me arrependo do que fiz, seja você grato ou não, eu o ajudei! Era o certo a se fazer! – Louis poderia não entender que criatura era aquela, mas sabia que havia tomado a decisão certa quando o ajudou sem julgar. Jurara nunca negligenciar ajuda seja para a pessoa que fosse. Ou criatura.

Constrangido o rapaz de penas negras abaixou os ombros. Não apenas reconhecera a audácia do doutor, como também suas intenções. Estava mesmo solitário e necessitado, um estranho o havia acolhido, talvez por alguns minutos pudesse abaixar sua ríspida guarda.

— Como se chamas?

— Eu me chamo Louis. Doutor Louis Hummingbird.

— Eu... não tenho um nome.

— Como não tem um nome? – perguntou o médico surpreso.

— Sou chamado de mensageiro, mau presságio, de corvo. Não converso com os homens que me encontro, apenas venho arrancar-lhes um ultimo suspiro. Sou a ultima coisa que veem e subsequentemente a que mais temem. – explica o rapaz, esperando uma reação familiar do médico.

Acertara em cheio. Louis ficou por um momento paralisado, pálido e sem palavras. Estaria conversando com um mensageiro da morte? Poderia ter chagado seu momento e por algum suspiro de sorte, seu ceifador havia se ferido, dando-lhe chances de fugir e então... Ele o havia salvado? E agora? Iria ao encontro de Lenora?

— Não precisa temer Louis, não vim atrás de você. – respondo o rapaz com um sorriso calmo. Assustar alguém era uma façanha divertida que não tinha o luxo de fazer muito. – Eu me acidentei pelo caminho, fui rude com você, mas gostaria de expressar um pouco de gratidão.

Dizendo isso o rapaz abaixou sua cabeça em um gesto formal, o doutor jamais havia recebido algo assim, vindo de uma criatura tão... exótica, para não dizer divina. O rapaz era de tudo admirável, sobrenatural como algo tirado de ficção, como um sonho.

— Então... não vai me matar? – perguntou ainda estonteado.

— Ora não, de forma alguma. – respondeu o corvo. – Eu não mato, apenas busco a alma para o descanso a pedido da própria Morte.

O médico empalideceu novamente.

— Hahaha, estou me divertindo ás suas custas Louis. Eu não vou leva-lo, não vou feri-lo. Um vento do acaso me jogou aqui, sua gentileza em me ajudar é algo do qual não vou me esquecer, eu seria incapaz de tomar sua vida... Assim como tenho sido incapaz de tomar as dos demais. – respondeu ficando de repente cabisbaixo.

O médico percebeu então que o rapaz de fato não lhe oferecia perigo algum, estava apenas assustado com a novidade, mas talvez, se fosse para lhe fazer mal, este já o tivesse feito. Pegou então a ponta do lençol e estendeu para o rapaz nu, para que se cobrisse dos ventos matinais, seu corpo pálido não deveria ficar assim exposto.

O rapaz aceito e cobre o peito, se enrola no tecido branco quase do mesmo tom de sua pele, deixando apenas as costas descobertas por conta das asas, estas que chamavam a atenção de Louis a todo momento, intrigado, fascinado curioso.

— É por isso que gritou “nunca mais”? – perguntou o médico.

— “Nunca mais”?

— Pouco antes de desmaiar por completo, você disse “nunca mais”.

— Ah, sim. Acho que sim. Como disse sou um mau presságio, se não o pior. Me ver sobrevoando-o significa que sua vida está por uma linha e eu vou encerra-la. Muitos gritam, alguns amaldiçoam, xingam, no final quase todos imploram. É um destino horrível pra uma criatura que foi dada um coração. – ele estende a mão para a do doutor e a coloca em seu peito, seu corpo pálido é gelado, sua mão também. Mas o doutor sente em seu peito o bater de um coração.

A proximidade faz com que Louis fique constrangido, o rapaz era muito bonito, não costumava ficar tão próximo das pessoas, elas não costumavam aceitar seu toque de forma tão leviana. O rapaz corvo estava triste e vulnerável, mas o que mais chamou a atenção do doutor foi que ele não tinha absolutamente problema nenhum com ele. Não tinha nojo de sua pele em duas cores, seu pigmento errôneo.

O corvo estava confiando a ele, apenas por ser um alguém disposto a ouvir. Aquela sensação simplória de confiança era nova, tão nova que o pegou desprevenido.

— Seu corpo é muito frio. – observou em voz alta, mas se arrependeu logo depois. – Perdão. Sim, tem um coração aí, senti o pulsar por minha mão.

— Estou vivo, doutor. Sou consciente, posso sentir. E ainda assim, sempre que venho é para terminar com quem acabo de conhecer. A dor nos olhos dos mortos, o sofrimento, a saudade. É tudo muito intenso. Queria apenas poder me aproximar delas, sem que isso as levasse a um inevitável final.

— Mas... Não tem outros como você? Outros, hm, mensageiros da morte? – Perguntou o médico sem saber ao certo como se referir ao rapaz, que não tinha nome.

— Estou mais para um subordinado da morte. Não. Isto também não estaria correto. Sou o ultimo sussurro, a pior surpresa. A morte é minha vida, ela me cerca, e me mantém existindo.

O rapaz olhou para as próprias mãos pálidas conforme procurava uma definição do que seria, nunca havia se importado muito com sua denominação, mas agora que estava tentando se por em palavras, identificava uma pequena dificuldade. Ele era a morte e ao mesmo tempo não era. Eram todos de sua espécie a morte e ao mesmo tempo subordinados a ela. Isso ainda não era uma boa definição, talvez ponderasse sobre isso mais tarde.

Louis por outro lado enrijeceu os ombros um pouco tenso, tentou disfarçar seu desconforto sem sucesso. O garoto corvo percebia a linguagem corporal do jovem médico, mas já estava acostumado demais com as pessoas em medo sob sua presença. Não se incomodava nem se quer para um suspiro. Era um comportamento nada mais do que o natural.

— Tem sim outros iguais a mim, — continuou explicando – idênticos a mim, sob os olhos dos comuns. Temos a mesma função e estamos espalhados por todo o mundo. Sempre que cruzo caminho com algum é como se eu olhasse diretamente em um espelho e que graça tem conversar com um reflexo quando eu mesmo o odeio?

Louis pensa um pouco sobre o que o rapaz estava lhe contando. Ele não havia pedido ajuda, muito menos o conselho dele. Estava apenas se abrindo por ter sentindo-se confortável em sua presença, por ter cuidado dele. Talvez, pensou Louise, ele achasse que poderia confiar nele, que ele não teria medo e por isso dizia todas aquelas coisas sobre sua relação com a morte, sobre sua relação com a solidão que lhe foi dada junto a vida. Uma função importante, mas com condições bem cruéis.

Então vinha aquela metáfora do espelho. Louis sabia mais do que ninguém o que era se olhar no espelho e detestar seu reflexo. As pessoas olhavam com julgamento, com nojo e ignorância. Nunca fora algo que pudesse prejudica-las, mas agiam como se quisessem se prevenir de algo que jamais aconteceria. Quando soube do tratamento para a redução das manchas já era um pouco tarde, elas já tinham destruído sua auto confiança e segurança diante das outras pessoas.

E ele estava mimicando este mesmo preconceito no corvo. O rapaz disse que não o machucaria, se abriu em dizer que vinha de extensão das funções da morte e ele havia ficado tenso, se precavendo de um mau que não existia. O garoto corvo era apenas o garoto corvo. Um rapaz incomum, mas inofensivo que estava se abrindo para um doutor apenas para ter algum alívio em seu peito. Quantos anos será que o rapaz viveu com essa dor? O médico sentia-se envergonhado de ter agido com tanta tensão e cautela, depois de ter sido ele mesmo quem abrigou o rapaz, o acolheu em sua casa, deu-lhe sua cama e um tratamento.

— Eu não consigo imaginar como é solitário para você. – disse Louis – Eu fui rejeitado pelas pessoas, costumo na maior das vezes sofrer por um pré-julgamento apenas das peculiaridades no meu rosto. Estas mesmo que nunca me fizeram algum mal a saúde e jamais fariam a outro alguém. Mas ainda assim, eu sempre posso insistir em conversar com elas, quebrar essa primeira impressão. Você nunca nem tem a chance.

Louise não era muito bom com as palavras, nunca tivera muitos amigos e sua forma de conduzir conversas era limitada. Não queria fazer o rapaz de asas negras se sentir ainda pior com seu discurso, mesmo que remetesse diretamente ao problema que ele apresentou.

— Mas sou apenas um covarde, me isolo do mundo por medo da reação das pessoas. Replico um discurso de que não gosto delas, de que não preciso delas, mas no fundo estou tão solitário quanto qualquer um. – ele suspira – e orgulhoso demais para admitir isso. Se pudesse interagir, tenho certeza de que seria muito bem recebido, você é muito bonito e sua voz é deliciosa de se ouvir. Tem alguma coisa que eu posso fazer para ajuda-lo?

Louis se sentia culpado em ter mal julgado o rapaz, se não tinha por que ter medo, não teria. Queria agora apenas reconfortar o rapaz que tudo o que mais desejava era o que Louis nunca havia se esforçado em ter. Não se esforçado o bastante.

O rapaz de asas negras fica sem imediata reação diante do elogio, não alimentava inseguranças estéticas, mas nunca havia pensado em ser algo como “bonito” e principalmente que sua voz seria algo bom de ouvir. Sempre que proferia as palavras do destino de sua vítima, esta desabava em lágrimas, angústia, risos e até mesmo em uma triste calma de conformidade. Pensar em sua voz fazia com que prestasse atenção em seu timbre e tornava a experiência de fala algo totalmente diferente.

O corvo sentia-se agora encabulado, sem saber como conter o calor que se formava em seu peito e rosto, essa era a sensação de receber um elogio. Uma sensação comum, frívola e para ele totalmente nova.

— Não precisa fazer nada. – respondeu de imediato abaixando um pouco o rosto, para que encontrasse a linha de raciocínio que tinha antes. – Já fez o suficiente. – sorria.

Louis sentia-se aliviado em ver que o rapaz aceitara suas palavras de desculpa, suas palavras sinceras de vulnerabilidade também. Não se achava especial em nada, mas aquele encontro surreal era algo diferente e de certa forma especial. Não tinha por que arruinar tudo e transformar em uma memória ruim. O corvo nunca tinha tido alguém com quem conversar, com quem confiar um sentimento. Ele poderia ser este alguém.

Mesmo sem muita intimidade, estendeu a mão para um toque tímido nos cabelos negros do rapaz, um gesto pequeno, porém simbólico. Não tinha medo do corvo, não tinha medo de toca-lo. E o toque, que para o corvo sempre fora sinônimo do ultimo encontro, sempre fora algo inimaginável é dado de forma carinhosa, como um gesto de confiança.

O tempo congela para o rapaz corvo, o calor de um toque estranho em seus curtos cabelos faz com que seu peito aperte. O sentimento de saudade, a ideia de que o toque duraria poucos segundos e de que a mão logo iria se afastar, já faz sentir sua falta. Sentia bater forte o coração, havia algo naquele gesto que mudara a perspectiva do rapaz sobre o doutor, fazia um laço, uma lembrança, algo que queria guardar e retribuir.

Sem uma imediata resposta retribuiu o gesto do doutor com um sorriso sincero, não conseguia nem se lembrar quando havia sido a ultima vez que sorria daquela forma. Louis sorri de volta, seu rosto de manchas brancas exótico, fora dos padrões, tornava-se algo que o corvo imediatamente associava a beleza mais plena. Olhos castanhos, pele variante e lábios finos, rosados, vívidos.

Quando Louis afastava a mão, o rapaz a segurava. Queria poder retribuir a gentileza, queria dar-lhe algo em troca. Mas no instante em que segurou a mão quente do doutor ouviu uma melodia lenta no vento, um assobio que só poderia ser ouvido pelos dele, a nota final de uma sinfonia de vida. O início do fim, o chamado da morte.

— Está tudo bem? – perguntou Louis percebendo que o rapaz arregalara os olhos.

O corpo do corvo enrijecia, ele precisava atender a todos os chamados, sua função era esta. O lençol que cobria seu corpo pálido escorregava por seu colo e exibia mais de seu corpo magro, ele era como uma boneca de resina nunca antes pintada, sem pigmento algum, alvo e ainda assim tão belo, como se esculpido por anjos divinos.

As íris vermelhas se viravam para o preocupado médico. O rapaz sempre sentia-se vazio, entendia muito bem a importância de seu trabalho, de sua função no mundo, mas detestava com todas as forças o quão limitado do contato estava. Louis era gentil, queria poder ficar um pouco mais com ele, queria perguntar-lhe coisas, do que gostava, o que pensava, o que fazia, como era a sensação de comer café da manhã. Queria pedir-lhe mais favores, queria sentir o toque em seus cabelos novamente, queria poder tocar os de Louis, mas a morte chamava, seu assobio soberano indicava que precisava ir embora, sem expectativa de voltar.

O passado sempre deve ficar para trás, quem se recicla é a vida. O tempo passa. Mas queria poder passar mais tempo com o doutor, queria contar as manchas claras de seu rosto, queria ver seu sorriso mais uma vez. Sentia uma onda de emoções egoístas e individuais que nunca havia parado para sentir antes. E ainda assim, o dever chamava.

— O chamado da morte. – diz e se levanta. – Eu preciso ir.

— Mas sua asa não está boa, você está ferido, não pode trabalhar! – se levantou também, indignado — E se, ah... E se a pessoa que você for buscar tentar lutar de volta. Ela pode fazer isso, não é? Como você se feriu? – Louis estava curioso, mas não havia tido a chance de perguntar tudo que lhe veio à mente ainda, o rapaz havia ficado pouco tempo, pouco demais.

— Eu posso me regenerar com muita mais velocidade do que um simples mortal. – Disse estendendo as asas, ainda com as penas bagunçadas na área machucada e com a tala improvisada.

— Ah... Claro... Faz sentido! – respondeu Louis decepcionado. Não desejava que o rapaz estivesse ferido ou em dor, mas como gostaria de fazer suas perguntas, de ter ao menos mais alguns minutos com ele. – Mas... Você pode voltar aqui depois, não é? Quer dizer, você está convidado, eu... Adoraria sua companhia.

Louis tenta um apelo, não conseguia pensar em forma melhor de pedir ao corvo para voltar. Não queria atrapalhar no trabalho dele, afinal parecia ser algo de extremamente importância para o ciclo da vida, onde que um simplório anestesista teria qualquer crédito de intervir com algo tão belo assim?

O corvo sente novamente aquele aperto no peito e não tem dúvidas de que ele se direciona a Louis.

— Você é sempre tão adorável assim? – disse com um sorriso triste.

Sua pergunta fez com que os ombros de Louis se abaixassem, era uma frase de despedida, sabia que o rapaz ia embora. Sentia-se tão insignificante naquela situação, seu querer não valeria de nada.

— Eu preciso de um último favor antes de atender a este pedido, meu Louis. – disse o corvo estendendo sua mão fria e tocando gentilmente o rosto do doutro. – Por favor.

Louis levanta os olhos castanhos, estava tão disposto a conhecer mais do corvo que faria qualquer coisa. Um sentimento repentino e intenso.

— O que posso fazer por você? – perguntou apreciando o toque gélido do rapaz que fazia seu rosto quente.

O corvo se aproximou um pouco mais do doutor e segurou seu rosto com ambas as mãos, exibindo como era um pouco mais alto do que Louis, ainda mais com suas asas trevosas enormes, mesmo que dobradas.

— Para eu recuperar minhas forças, preciso de um pouco de sua essência como ser vivo. Gostaria de roubar-lhe apenas um suspiro, um instante, um pouco de ar, nada que vai lhe fazer falta. – mentiu.

O corvo não precisava de absolutamente nada se não sua própria energia para se regenerar, um pouco de força de vontade e miasma acumulado por eras era mais do que o suficiente. Mas a oportunidade de levar uma parte de Louis com ele não poderia passar. A dor da partida era quase asfixiante, não parecia em nada inapropriado roubar um suspiro.

— Ah! C-claro! C-como eu, o que eu preciso fazer? – O rosto de Louis estava totalmente corado, ter o corvo próximo, tocando seu rosto com sua voz galanteadora estava fazendo com que esquecesse até mesmo como falar.

— Feche os olhos. – disse o rapaz.

Quando Louis fechou os olhos, o corvo deu mais um passo á frente, deixando os corpos bem próximos, inclinou o rosto e beijou os lábios quentes do doutor. Louis ficou rígido de inicio, nervoso, tenso. Mas o corvo beijou seus lábios delicadamente, escorregou as mãos por suas costas e se manteve com calma.

Louis não sabia exatamente como reagir, como respirar, não queria que o corvo fosse embora, sentia um carinho por ele, mas não tinha pensado que poderia ser algo mais, algo mais íntimo. O rapaz era lindo de corpo e alma, seu beijo delicado e repentino. Então parou de racionalizar aquilo e passou a sentir, permitindo se envolver e permitir que o outro conduzisse o ato.

Em uma oportunidade o corvo deixou a língua invadir a boca do doutor que correspondeu virando o rosto e abraçando seu pescoço. Louis estava fora de si em beijar um estranho, que nem se quer tinha nome, que tinha asas. Mas talvez fosse tudo fantástico o bastante para que abrisse uma exceção poética e cedesse ao desejo apenas uma vez. Um beijo, não havia nada de mal em um beijo se fosse consensual, se fosse reciproco.

Se fosse intenso.

Quando o corvo parte o beijo, Louis está quase sem ar, com os lábios inchados. O rapaz de asas negras sorri, como havia dito roubaria um suspiro de Louis, deixando-o sem ar. Mas não havia lhe roubado um instante, havia lhe dado um momento.

O corvo estende as enormes asas negras, majestosas como a própria noite, um espectro negro esfumaçaste envolve o corpo do rapaz e faz para ele uma enorme veste negra feita de sombras, um manto que cobre todo seu corpo, com dois cintos de corrente na cintura e um corte que exibe uma bota enorme que vai até o joelho parecendo de couro com cadarços negros. As unhas do rapaz são igualmente negras, destacando seus dedos pálidos.

O último detalhe era a máscara que cobriria o rosto do rapaz, uma mascara com lentes pretas escondendo seus olhos escarlate, prateada com um enorme bico ornamentado em detalhes tão pequenos que levariam mais do que um olhar para analisar. Desta forma, o rapaz se mantinha irreconhecível, possivelmente o uniforme que deixava todos os corvos idênticos. Tão sombrio quanto magnifico.

O rapaz vai em direção a janela e a abre, mas antes de voar para longe, ele tira a mascara e com um sorriso olha para Louis pela última vez, para que seus olhos de íris vermelhas decorassem como era o rosto único do doutor, de olhos castanhos como cobre e cabelos curtos caramelo claro.

Louis viu imóvel a partida do rapaz. Ainda anestesiado pelo beijo, pelo toque e por todo o breve instante que tiveram juntos. Apenas observou quando uma pequena ave de bico e penas negras se afastava de seu céu pela noite estrelada de lua minguante.

Quando voltou a si balançou a cabeça. Poderia tudo aquilo ter sido apenas um sonho? Um devaneio de loucura de uma anestesista solitário? Então percebeu a pena negra em seu chão, a luz da lua que entrava em seu quarto fazia um feixe de luz claro diretamente para ela. Aquilo era uma pena grande demais para ser de um corvo comum, aquela pena era do seu rapaz-corvo, que havia invadido sua casa sem pedir licença e já deixara uma marca em seu peito.

Louis pegou a pena, ela era tão bonita, sua negritude era quase divina, seu brilho escuro admirável. Guardaria aquilo com carinho, um segredo apenas entre ela e o rapaz. Suspirou triste e pensou consigo se um dia voltaria ver o rapaz, ou se aquele era um presente de despedida datado para “nunca mais”.

****

Os ventos noturnos balançavam as finas cortinas do hospital e tocavam a pele idosa de Louis, uma enfermeira fechava a janela para que a brisa não resfriasse o fraco idoso que estava mantido vivo em sua cama por máquinas beges. Louis queria ver a noite, mas não tinha forças para fazer esse pedido. Sentia que seu fraco coração já estava com os batimentos contados, logo seria sua vez.

Mas diferente do que muitos que passaram por aquela mesma cama branca, naquele mesmo quarto particular de hospital sentiam, Louis não temia o inevitável. Era o ciclo natural da vida, ela chega sem avisar para uns e para outros através de uma estrada óbvia de degradação e debilitação física. Quanto mais se vivia, mais próximo dela se chegava. Quanto mais envelhecia, mais a sentia.

Louis estava em paz, havia vivido uma vida longa. Tinha montado carreira no mesmo hospital que estava o mantendo vivo. Fez suas doações, fez seu testamento. Ao seu lado flores coloridas que haviam sido trazidas dos poucos que para ele ligavam, não era uma vida de se invejar, mas era uma vida, em suma, feliz.

As flores ao seu lado, mesmo em um jarro de água, já começavam a murchar. Lembrava-se então de que anos atrás, numa noite como esta teve seu primeiro encontro com um anjo. Lembrava-se perfeitamente era uma meia noite de dezembro, erma, uma terça feira de lua minguante. Foi nesta noite em que o sobro solitário do vento passou a ser sempre um suspiro de esperança e expectativa.

Fechou seus olhos, o bater de asas ainda era tão fresco em sua mente. Esticou a mão por seu pijama de moletom e puxou de lá uma pena negra como trevas, intacta, grande demais para pertencer a uma ave comum. Louis havia mantido consigo o segredo de um encontro tão fantástico capaz de abalar o senso comum de qualquer homem, sua lembrança mais querida e por isso não temia o inevitável.

Pois quando ela chegasse, ele chegaria.

— Faz um bom tempo desde nosso ultimo encontro, não é?

Louis abriu os olhos para se deparar com uma silhueta negra de asas enormes na cor da noite e uma mascara prateada com um bico ornamentado em espirais. O rapaz com asas de corvo afastou a máscara e revelava um rosto jovial bonito, pálido e olhos escarlate sobrenaturais. Mas Louis nem precisou ver o rosto do rapaz, havia reconhecido seu suave timbre vocal.

— 37 anos. – respondeu com um sorriso. – Veio me levar?

O corvo olhou com dó para Louis, este então virou-se para o vidro da janela e percebeu em seu reflexo que estava jovem novamente, com a mesma aparência de quase quatro décadas atrás. Seu contorno estava transparente, esbranquiçado e esvoaçante, então era assim a aparência de um fantasma? De uma alma antes de ser levada ao além?

— Como se sente? – perguntou o rapaz.

— Vivo. – respondeu em brincadeira. — Como tem passado? – perguntou ao corvo.

— Estive solitário, incapaz de visitar meu único alguém especial, meu único amigo. – disse com um sorriso triste.

— Mentira. – acusou Louis. – passava toda noite de dezembro, todos os anos. Sempre no aniversário de nosso encontro. Eu acordava toda noite com o som de suas asas e abria a janela, sempre esteve convidado a entrar.

— Eu fiz um acordo com a Morte e suas condições eram que eu guardasse absoluto segredo de ti. Se eu visse seu rosto acordado, seria incapaz de manter esse acordo. – explicou o corvo, estendendo suas mãos gélidas para tocar o rosto adormecido de Louis idoso.

Louis conseguia ver seu corpo sobre a cama, segurando a pena negra e não pode conter um sorriso. Olhou para o corvo e sentia um calor no peito, um calor sobrenatural, sentimental, afinal era agora apenas um espectro.

— E que acordo foi esse que me custou anos em saudade? – perguntou ao corvo e ainda ousou recitar. – “Me deixando neste âmbito negro, esse âmbito de sombra, minha alma que da dor da saudade se assombra.”

O corvo bateu suas asas e pouco na frente do espírito de Louis, estendeu as mãos para pegar nas dele, segurou seus dedos.

— O que acha de passar sua eternidade ao lado de um corvo?

— Isso significa que não vai mais embora? E não me deixará mais a só em expectativa?

O corvo balançou a cabeça em negativa e Louis jogou seu corpo contra o do corvo enquanto sentia um espectro misteriosos se formar sob seu corpo, cobrindo-o de trevas gélidas, uma sensação que corpo humano nenhum tinha, do qual sentiu mais saudades do que esperava sentir. Ao ter seu abraço bem recebido e estar envolto nos braços do corvo, Louis ousou ficar na ponta dos pés e roubar seu suspiro de volta em um beijo inusitado.

E com um sorriso sincero o rapaz corvo respondeu:

— Nunca mais.

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