O Corvo

13 Capítulo Penúltimo


Notas iniciais
Olá leitores (será que ainda tem algum? Kk) bom, depois de anos eu percebi que não terminar essa história é deixar uma lacuna no meu histórico. Então tá aí, espero ter melhorado minha escrita e mantido o padrão da fic :) boa leitura!

Amanda se mantinha viva com todas as forças que ainda lhe restavam. Entretanto, não eram muitas. Pensava no Corvo e em uma longínqua e quase impossível revolução. Gubner sempre conseguia uma forma de corromper e controlar as pessoas. Era difícil manter todos esses pensamentos enquanto seu corpo gritava de dor.

Ela estava nua, amarrada nos pulsos por correntes fincadas no teto do quarto escuro, com apenas uma lâmpada. Seus pés não a sustentavam mais e seu corpo estava caído sustentado pelas correntes que cada vez mais prendiam a circulação. Essa dor não era comparável à do resto do corpo. O próprio Gubner fizera questão de fazer cortes na pele da cabeça aos pés e mandara um homem-da-lei jogar sal. Abaixo dela havia uma poça de sangue. Seu cabelo fora arrancado. Dias antes – Amanda perdera a noção de tempo – o governador sádico aplicou choque elétrico nela e esticara seus braços e pernas em diferentes direções provocando dores até então nunca imaginadas. Em todas as sessões de tortura, ele a questionava sobre a localização do Corvo. Ela seguia até o fim, sem dar a ele nenhuma informação.
Amanda ouviu passos se aproximando. Com muito esforço, abriu os olhos para ver a penumbra do Gubner.
— Sabe por que faço isso? – começou a discursar – porque não há nada pior que a dor. Não importa o quão fortemente você acredite nas suas ideias, quando o sofrimento é maior que a esperança, todos sedem. Não há mais esperança para você e o Corvo, Amanda. Vocês nunca conseguiriam. Se me derrubassem, o sonho de igualdade de vocês ainda seria utópico. Alguém me substituiria. Sempre tem alguém com sede de poder. Se tem o mínimo de amor pela sua vida, me diga onde o Corvo está.
Amanda esforçou-se ao máximo para responder:
— Mate-me então...
— Essa é sua decisão final? Morrer por alguém que não faria o mesmo por você? Tudo bem – ele deu de ombros. – Afogue a vadia.
O homem-da-lei tirou-a da corrente, enquanto Gubner saía da câmara. Amanda caiu na própria poça de sangue. Ela foi amarrada nos pés e punhos e atirada em um cilindro de vidro de pouco mais que sua altura, cheio d’água. Não pôde reagir, estava fraca demais.
Desesperada, tenta quebrar o vidro, porém é forte demais. Ela se debate, sem sucesso. Até que suas forças se esgotam e Amanda simplesmente desiste. Não há mais escapatória.

Fichel carregava Amanda no colo, ambas caminhavam junto ao grupo de retirantes que procuravam um lugar que não estivesse em ruínas como suas cidades de origem. Atravessavam o deserto há dias. Já estava escuro e pararam para descansar. A criança estava abraçada com sua mãe, sentindo seu calor.
— Mamãe, como meu pai era? – perguntou ela, de repente.
— Ele foi um herói, minha filha. A última notícia que me lembro de ter dele, tinha conseguido fugir do campo de batalha. Não foi um herói de guerra, mas foi um exemplo de ser humano.
Aquela resposta pareceu tranquilizar Amanda. A pobre não tinha uma imagem do pai, a não ser a que sua mãe passava. Fechou os olhos e ao invés de concentrar-se em dormir, vasculhou o fundo de sua memória. Ela conseguiu encontrar a lembrança. Talvez fosse apenas sua imaginação, considerando que ela não completara nem um ano na última vez que o vira.
Amanda estava em seus braços, sendo balançada. Ele era muito jovem. Seus cabelos castanhos como os dela e seus sorrisos se pareciam. Até mesmo os olhos claros. Aquela lembrança deixou-a tão contente. Seu abraço era acolhedor, reconfortante. A menina esforçou-se para não tirar a imagem da mente. Ele começou a cantar:
“Pequeno preso pássaro
O que fez ficar assim?
Destruiu seu próprio lar
Tudo na vida tem um fim...”

Amanda continuava ouvindo a música de sua alucinação. Era como se a esperança voltasse a crescer dentro dela. A sensação de morte eminente foi substituída por vontade de lutar para viver. Neste momento o vidro é quebrado, ela cai e a água é derramada. Respira profundamente recuperando o oxigênio que a pouco lhe faltava. Após voltar com a respiração normal, ela consegue olhar para cima e ver seu salvador. Ela reconheceu-o de tempos atrás, antes de ser sequestrada pelos homens-da-lei. Era um homem que estava no meio do povo. Ele entregou sua roupa a ela.
— Obrigada. O que faz aqui?
— Eu pensei que ele suspeitasse. A revolução que vocês tanto sonharam... Começou.