O Corvo
3 Capítulo 2 - Decisão
Notas iniciais
Amanda havia sido levada pelo Corvo até seu esconderijo. Era de fato, muito longe. Eles saíram da região da tempestade, atravessaram a enorme paisagem deserta e finalmente chegaram a um local de solo rochoso, onde havia uma cadeia de montanhas. Subiram-nas com o cavalo e chegaram ao refúgio dele.
Uma caverna. Era onde ele costumava esconder-se. Corvo levou-a até o aparente fim da caverna. Ele encaixou os dedos sob um espaço feito sob medida e empurrou a pedra com um pouco de força. Ela deslizou e abriu um túnel.
— Você que pensou em tudo isso? – perguntou Amanda.
Corvo apenas balançou a cabeça positivamente em resposta.
Depois do diálogo no deserto, eles não haviam trocado nenhuma palavra. Corvo olhava desconfiado para Amanda e para os lados, às vezes.
Eles caminharam pelo túnel em silêncio. As rochas escuras eram perfeitamente esculpidas. Corvo sacou um fósforo de seu cinto, acendeu-o e foi acendendo as tochas que havia pelo caminho do túnel. Por fim, chegaram a uma porta de madeira. Ele abriu-a.
Exibiu-se uma enorme sala. Cheia de objetos de todos os tipos. Uns novos, outros muito velhos e destruídos. Havia de roda de bicicleta até toca-discos.
— Minha nossa! – falou Amanda boquiaberta, tamanha sua impressão. – Como... Você conseguiu tudo isso?
— Roubando... – Corvo respondeu frio.
Por um momento, ela ficou surpresa. Mas logo abriu um sorriso maroto. Aquela palavra lhe era familiar, “roubo”.
— Tem um banheiro ao final do corredor – Corvo jogou uma toalha nos braços dela. – Vá tomar um banho. Você está fedendo.
Amanda olhou-o irritada. Achou seu comentário grosseiro, entretanto não discutiu. Era a verdade.
Amanda terminou de se arrumar e foi para a sala cheia de objetos.
—Pronto. Agora está melhor – falou Corvo. Ela torceu os lábios sarcásticos indicando que não achou graça.
Passou-se um tempo em silêncio. Amanda sentou em uma cadeira e Corvo também.
— Desculpe. Acho que não começamos bem – ele falou em tom educado. – Qual é seu nome?
— Amanda Jones.
— Bonito nome. Pode me chamar de...
— Corvo. Eu sei. Há dez anos você salvou a mim e a minha mãe da morte pelos homens-da-lei. Não deve lembrar-se de mim, eu era apenas uma criança...
— Sim. Estou lembrando. Seus olhos inocentes já se foram, mas continuam... chamativos – falou ele, fixo nos olhos dela.
— Obrigada, eu acho.
Ele não usava o chapéu preto e nem o pano vermelho. Porém continuava com sua máscara respiratória.
— Não vai tirar sua máscara?
— Eu... Não posso – o seu tom de voz era triste e distante.
Amanda não se atreveu a perguntar o porquê.
— por que você se chama "Corvo"?
— É uma analogia. Os corvos, assim como eu, tem o papel de tirar o que está podre do mundo. A diferença é que eles comem o que está morto, enquanto eu mato.
Amanda refletiu. E logo perguntou:
— E o que exatamente você procura com isso?
— Eu procuro justiça.
— Justiça? É para isso que servem os homens-da-lei, não é? Eles seguem as ordens e leis do Gubner. Ele é a justiça, certo?
— Pobre garota ingênua. Responda-me: acha o sistema de governo dele justo? Acha justo pagarmos impostos para alimentar o ego e desejos do Gubner?! Acha justo sermos presos, punidos ou mortos por tentarmos causar o mais mísero desafio ao governo?
Não se podia ver o rosto dele, mas pelo tom de voz podia-se imaginá-lo irritado.
— Não. Nunca achei e nunca me conformei, mas não pude fazer nada pra mudar.
— Sim, você pode! Aqui você está bem protegida e escondida, não tem como sair se não quiser ser morta, torturada ou presa. Pode me ajudar. Nós podemos sim tornar este mundo melhor! – Corvo levantou-se da cadeira – Começamos acabando com o ele. Matamos o Gubner e então enfim poderemos recomeçar – ele sentou-se novamente, mais calmo.
— E por onde você recomeçaria? – perguntou Amanda.
— Anarquia – respondeu, em seguida pegou uma de suas facas e cortou uma cortina desenhando o símbolo do anarquismo. Um “A” dentro de um círculo. – A palavra vem do grego antigo: “Anarkhia”, que significa “sem governo, sem líder”. Todos seriam livres, porém dentro dos limites. Mas estes não seriam tão restritos como atualmente. O que acha?
— Sinceramente?! Acho que não vai dar certo. É um preço muito alto. Não podemos combater os homens-da-lei
— Tudo bem – Corvo falou levantando-se e dando as costas para Amanda. – Você pode ir então... Tente sobreviver lá fora sozinha. Se eles te pegarem, você sofrerá as consequências. Mas sua outra opção é ficar aqui. Pode morar comigo e viver a favor da justiça. A escolha é sua.
Corvo não esperou a resposta dela. Encerrou o diálogo indo para o quarto onde ele dormia, deixando-a só sob a luz de um abajur fraca.
Amanda passou a noite dividida entre tentar dormir e pensar na escolha que faria. As duas opções pareciam ser mortais. Ela tinha habilidade em roubar, mas não passava disso. Nunca fora boa em brigas. Poderia ela ajudar ao Corvo? Não saberia dizer...
— Bom dia, garota – falou Corvo.
De fato já era um novo dia. Dentro daquele lugar, mal se podia perceber.
— Está na hora. Você deve me dar uma resposta. Qual será sua decisão?
Veio à mente de Amanda tudo o que sofrera por causa dos comandos do Gubner e todos os homens-da-lei. Toda a fome, o abandono para com o povo, as punições, as humilhações que assistira e principalmente o enforcamento de sua mãe por uma causa injusta.— Eu lutarei ao seu lado, mesmo que custe minha vida! – disse com uma firmeza e segurança que poucas vezes sentiu antes.
Fale com o autor