O Corvo

1 Capítulo 1 - O Menino Dos Olhos Azuis


Notas iniciais
Ele não é tão explicativo e talvez deixe algumas dúvidas, mas no depois vocês vão entender tudo direitinho!

Eu vaguei pela trilha de areia com os pensamentos a esmo. Estava deserta, porém o sol já brilhava no céu como um holofote. As folhas das copas altas chacoalhavam com o vento e rodopiavam até cair no chão, bem a tempo de meus pés descalços as esmagarem.

O Parque Nacional de Roseevelt é muito bonito no outono.

A brisa suave balançou os meus cabelos e me deu uma ótima sensação de conforto. Eu me sentia culpada por estar me sentindo bem.

Minha saia estava ainda mais justa com o suor e as lantejoulas da camisa tintilava com o balanço do meu caminhar. Já era sete da manhã. Eu carregava meus sapatos de salto alto juntos ao corpo e a bolsa pendurada no ombro oposto. Eu queria voltar para casa, mas não podia.

Não saberia como enfrentar meus pais após o que havia feito. Lembrava-me dos gritos e dos berros. Era quase como um borrão sujo e desgastado. Não falei para onde ia e nem com quem, apenas me vi, algumas horas mais tarde, sentada ao lado de um homem de ombros largos e jaqueta de couro, eu bebia alguma coisa verde e a música alta machucava meus ouvidos. Podia-se dizer que estava de ressaca, mas não me sentia assim. Sentia-me leve. Ali, naquele momento, com meu corpo e meus pensamentos só para mim.

O barulho dos pássaros e da cachoeira próxima que fica ao limite do parque deixavam meus músculos tão moles quanto a água. Era bom saber que podia recorrer a mim mesma nos tempos difíceis.

Thomas.

Uma voz ecoou pelos meus ouvidos. Eu parei subitamente, espantando um canário que bebia água de uma pequena poça próxima a trilha. Eu tentei olhar para os lados, mas a voz não tinha direção, era grave e aguda ao mesmo tempo e parecia vim de todos os lugares e de nenhum lugar. Não estava com medo, apenas curiosa.

Deve ser coisa da minha cabeça, pensei.

Eu ouvia vozes o tempo inteiro. Dando-me conselhos, me pedindo favores.

Continuei meu caminho, porém um pouco mais rígida, mais alerta.

Nada aconteceu.

Até o momento em que cheguei à cachoeira, o parque se ocupava com intensa movimentação. Gotículas já respingavam no meu rosto, refrescando meu corpo. Tive o bom senso de parar e pensar no que faria a seguir. Voltar para casa estava eternamente fora de questão, mas Alice, minha melhor amiga, ela poderia ser a solução dos meus problemas.

Ela iria ficar irritada por eu não ter contado nada para ela, porém não se compararia à ira dos meus pais. Ela era boa em entender, me compreenderia certamente.

A cachoeira desaguava em um pequeno lago circundado por rochas e limo. Havia apenas uma estreita faixa de grama que separava o lago da floresta densa do parque. Diversos peixes rodeavam perto da margem, a água era tão clara que podia vê-los nitidamente, todos em busca de alimento.

Eu me sentei em uma pedra ao lado de uma toalha estendida e cuspi na água, três carpas manchadas automaticamente subiram á superfície e engoliram a saliva.

Como um flashback, ou uma lembrança contínua e forte, eu me vi sentada num cais de madeira apodrecida visando um extenso mar que ocupava todo o horizonte. O cais se projetava em meio às águas e era quase tão pequeno para suportar duas pessoas. No alto, não se viam nuvens, e, apesar da claridade, não se tinha sol, o céu era apenas um reflexo do mar. A maré subia rapidamente e, com um piscar de olhos, eu já estava quase me afogando. Com a cabeça ainda para fora da água, percebi um movimento em minha volta, gritei por socorro. A sereia de cauda verde e cabelos pretos que se camuflavam com as ondas segurou meu pulso, apenas seu rosto molhado e fantasmagórico para fora da água, o olhar alinhado ao meu. Sua mão era quase tão pegajosa e escamosa quanto a cauda. Ela tinha dentes afiados e olhos laranja como faróis que a permitiam enxergar diante de si através da corrente escura e turbulenta.

Ela me puxou para as profundezas e descobri que conseguia respirar debaixo da água. Passamos por peixes, algas e corais. Assustei-me quando avistei um tubarão, porém ele fez um movimento com a cabeça que a sereia retribuiu com um aceno e passou por nós, a alguns centímetros da minha pele. Ela me levou para uma projeção rochosa, ainda situada em meio à infinita água. Eu continuava molhada e as ondas que chocavam contra as rochas não ajudavam em nada no processo de reversão.

-Quero minha recompensa.- Ela sibilou, a língua fina se contorcendo, como se fosse uma cobra.

Eu fechei minhas mãos em forma de concha e cuspi na vala, cuspi tanto que começou a transbordar. A sereia agradeceu, despejado o líquido em suas próprias mãos. Ela pulou na água sem deixar respingos e desapareceu. Eu preciso segui-la, pensei. Não sabia qual o motivo, mas sabia que era importante. Quando estava prestes a pular no gélido mar novamente, algo agarrou meu pulso.

-Opa!­- Uma voz grave retumbou e eu logo estava quase caindo no lago, as minhas pernas ainda apoiadas na margem, porém o tronco a centímetros da água, apenas pendurada por uma mão forte que pareceu vim do nada. ­-Você sabe que não é muito seguro nadar nessa parte do lago, não sabe? Tem uma placa bem grande ali. -­ Ele apontou para a placa situada a dois passos de onde eu estava e eu a olhei, apenas como um reflexo, já sabia do que se tratava. Já a vira milhões de vezes.

Desviei o olhar para meu interlocutor. Era um menino alto de cabelos escuros e cacheados. Ele usava jeans surrados e uma camiseta azul com os dizeres ‘Eu peguei sua mãe’. Ele aparentava ter a minha idade, talvez um pouco mais velho.

-Sim, eu sei. Acho que estou um pouco cansada, só isso... ­- Ele me olhou com curiosidade, como se estivesse penetrando minha mente. Não consegui me focar em mais nada, apenas nos seus olhos, quase hipnóticos. Era como se ele estivesse me lendo, uma peça averiguada antes de ser comprada. Quase perdi minha linha de raciocínio.- ­... E me perdi nos pensamentos.

Ele percebeu que continuava segurando meu pulso, embora eu já estivesse equilibrada em cima das pedras e o soltou, pode até se dizer que ele corou, mas virou o rosto antes que eu pudesse afirmar.

-Ah, claro. Só... Tome cuidado da próxima vez. -­ Ele sorriu um sorriso branco e reluzente que tinha um canino levemente torto o que, em minha opinião, o deixava ainda mais charmoso.

-Meu nome é Pandora.-­ Afirmei, jogando meus cabelos pelo ombro. Eles estavam um pouco embaraçados, da festa e da falta de escovação constante, mas nunca falha. É a jogada perfeita. Seus olhos brilharam, não pude deixar de notar que eram de um azul tão claro, parecia se misturar com a esclera e contrastava com a pele morena.

-Rogã.-­ Ele acenou com a cabeça e se retirou, se juntando a um menininho com metade do seu tamanho que, apesar dos cabelos ruivos, se parecia com ele. Antes de desaparecer entres as árvores ele olhou mais uma vez para trás e eu guardei sua imagem na memória.

Normalmente, esses devaneios que eu tenho me atrapalham. Já foi considerado déficit de atenção, mas não chega nem perto do real incômodo. É quase constante, tenho uma ideia e minha mente me leva até ela. Eu me projeto dentro da imagem e é como se eu me desligasse do mundo real. Completamente psicológico, disse o médico. Eu tomo pílulas que pouco fazem afeito. Já tentei conversar sobre isso com as pessoas, elas não entendem e não escutam. Não suportam a ideia de não saber de alguma, de não conhecer um problema e, no final, sobra pra eu mesma descobrir.

Quando era pequena, tinha mais ou menos sete anos, tive um desses devaneios enquanto andava em um cavalo na fazenda dos meus tios. Eu caí em um emaranhado de raízes, no pé da maior árvore da fazenda inteira e um ninho de vespas aterrissou na minha cabeça. Tenho cicatrizes até hoje.

Porém ali, no lago, pensei que não fora tão ruim. Não fora porque tinha alguém para me salvar na hora de que eu precisava. Perguntei-me se voltaria a ver o menino.

Ele cheirava a canela.

Eu adoro canela.

Notas finais
:p