O Corvo

2 Capítulo 2 - Alice


Notas iniciais
Pq eu sou muito legal, vou postar o segundo capítulo u.u hahaha

Eu toquei a campainha, apressada para sair do calor que se intensificava com a chegada do meio-dia. Após o meu quase-­incidente na cachoeira do parque, decidi que tentaria me estabilizar como pessoa. Se é que isso era possível. Passaria a próxima semana na casa de Alice. Não nos vemos há algum tempo, mas durante minha vida inteira ela foi a única menina disposta a conversar comigo e eu a recompensei me entregando àquela amizade.

A casa da qual eu olhava de frente para era completamente fora dos padrões civis de Roseevelt. Ao contrário das casas modernas e bem estruturadas com vidro, cortinas elegantes, portões altos e cinco lugares na garagem, a casa de Alice era rústica. Parecia feita para se usar em uma fazenda, dito mais sinceramente. Os portões de ferro se entrelaçavam com vinhas e a grama do jardim estava morta e seca. Grandes árvores com copas que alcançavam o segundo andar projetavam sombras alternadas por toda a parte da frente. Lembrei-me de como a casa era gelada e me dava arrepios. A tinta laranja chamativa estava velha e descascava em certos pontos. Era possível distinguir cada um dos quatro andares pelas janelas com ventanas de madeira.

A porta dupla de madeira velha esculpida se abriu em uma sonoridade quase inaudível e uma figura pequena e magra apareceu por entre a abertura. Seus olhos se arregalaram e um grande sorriso se formou em seus lábios.

-Pandora! -­Alice gritou e desceu os degraus da porta até o portão tão rapidamente quanto conseguiria. Enquanto descia, a chave reluzia em suas mãos, ela a passou pela fechadura e nem terminou de abrir o portão por completo, se jogou em cima de mim com os braços ao redor do meu pescoço.

-Oi, Alice.- ­Me pronunciei. Ao dizer, ela se soltou e olhou bem para mim, seu sorriso foi embora. Como se uma nuvem tivesse passado pela sua cabeça, sua cara se fechou imediatamente e uma sombra escura pareceu repousar sobre seus olhos. Que nem em desenhos animados.

-Posso saber onde você esteve nos últimos dois meses?! -­Se seu berro agudo já não tivesse me incomodado, ela me deu um tapa no ombro que teria doído se não fosse tão fraca. Seus braços finos pareciam quebrar toda vez que eu os tocava. Quando o sol iluminou seu rosto eu percebi o que havia de diferente nela.

Os cabelos. Ela os tinha pintado de roxo dessa vez, um roxo bem escuro. Alice está normalmente com o cabelo rosa ou vermelho, mas eu gostei da mudança, realçava seus olhos verdes, porém não combinava muito com seu roupão listrado.

Tentei achar uma desculpa para aparecer na casa dela daquela forma, mas tudo o que consegui dizer foi ‘Precisamos conversar’.

Ela me ofereceu biscoitos e achocolatado, dos quais eu recusei. Disse que estava sozinha em casa, portanto não haveria o porquê de falar em sussurros. Dirigimo-nos até o deck da piscina, aonde deitamos nas espreguiçadeiras. Uma onda de familiaridade ocupou minha mente. Lembrei-me dos tantos momentos que havíamos passado juntas nesse jardim. Ele permanecia igual, as rosas floridas e os carvalhos crescentes. As trepadeiras subindo pela parede, como prisioneiros tentando alcançar a liberdade que se esconde do outro lado do murro. O lugar era tão grande que de vez em quando me perdia.

-Você poderia ter ligado para mim, sabia?­- Seus olhos pareciam preocupados, mas ela emanava uma sensação de alívio.

-Sabia. Desculpe.- ­ Olhei para as minhas mãos, tentando achar um jeito de me explicar.- ­Eu não quero voltar para o hospício, Alice.- ­ Uma lágrima involuntária escorreu pela minha bochecha, mas eu consegui manter minha voz firme.

-Eu posso tentar convencer seus pais.- ­ Ela fez uma careta de consideração que logo desapareceu quando lhe lancei meu olhar de reprovação. Não havia convencimento quanto á minha família. A filha única destinada a ser uma louca. Quando eles botavam algo na cabeça, só Deus para retirar o escolhido.

A casa cheirava a natureza e terra, ficamos paradas por um tempo, olhando para o nada. Cada uma tentando achar algo para falar, para fazermos nos sentir melhor.

-O que exatamente você fez, Pandora?- ­ Ela dirigiu seu olhar para mim e esperou enquanto eu respirava fundo.

Olhei para seu rosto curioso. Alice era linda. Tinha o rosto todo anguloso e perfeitinho, como uma boneca. Apesar de pequena, tinha as curvas necessárias e estava sempre disposta e preocupada. Todos deveriam ser que nem ela, eu pensei, assim tão atenciosos e confiáveis.

-Enfiei uma faca no estômago. ­- Fechei os olhos, temendo sua reação. Agucei meus outros sentidos. O cheiro de cloro da piscina, o sol penetrando meus poros, uma respiração forte e controlada. Reproduzi a imagem de Alice em minha mente. Sua boca semiaberta, seus olhos pesados e tristes.

Retomei minha visão para algo completamente diferente. Ela estava imóvel, sem expressão alguma. Apenas me encarava, parecia tentar descobrir se eu estava falando a verdade ou não.

-O que você pensou?­- Foi tudo o que disse.

-Como assim?- ­ Me remexi, desconfortável.

-Quando você enfiou a faca no estômago, que visão passava pela sua cabeça? ­- Ela havia fechado os olhos e cruzado as pernas esticadas. Estranhei a pergunta, mas não ousei não responder.

-Eu estava de frente para um espelho, eu me via nele e mais nada. Um espaço apenas em branco me cercava. Estávamos a sós. Mas a imagem que eu via não era eu, era parecida comigo, porém um pouco deformada. Sangue começou a derramar dos olhos de meu reflexo, minha pele começou a descascar que nem tinta e por baixo, meu músculo ficou a mostra. Meus dentes se tornaram amarelos e apodrecidos e mais de muitas cicatrizes percorriam minhas bochechas e minha testa. Toquei na linha de sangue que escorria dos meus olhos e vi minha mão toda manchada de vermelho. Tinha uma faca no chão, a peguei e mirei no espelho. Ele se quebrou aos meus pés.

Um silêncio constrangedor se seguiu, até que Alice se pronunciou.

-E devo subentender que você mirou no estômago do seu reflexo? -­ Seu tom era vil, quase sarcástico.

Olhei para ela, esperando ela abrir os olhos, quando o fez, franzi o cenho e ela entendeu a mensagem.

-Desculpe Panda, mas... -­Ela se interrompeu, tentando achar as palavras. O sol havia mudado de lugar e uma fina linha de luz iluminava seu rosto, quase podia senti-lo se aquecendo. ­- Eu não sei o que devo dizer.

-Então não diga nada. Só alguém para desabafar já é bom o suficiente. -­ Eu pareci bem convincente, mas ela não desistiu.

-Mas não quero ser só alguém para você desabafar. Quero ser mais que isso, eu quero ser sua conselheira.

-Você é. -­ A cortei novamente.

-Não sou não. Tudo o que sei fazer é ouvir.- ­ Ela se emburrou e eu deixei para o lado. Quando Alice botava algo na cabeça, ninguém o tirava, assim como meus pais. Viver cercada de gente teimosa poderia ter algumas consequências indesejáveis.

Após o tempo que se passou, ouvimos um ruído distante vindo de além do deck e uma mulher baixa de cabelos claros presos em um coque saiu pela porta de vidro apressada, com uma bandeja na mão, seu avental e touca indicavam que era uma das empregadas, entre muitas outras. Na bandeja, dois copos altos de batida se situavam intocados e muito bem feitos, decorados com uma rodela de limão.

Nós encaramos enquanto ela se dirigia ás espreguiçadeiras e colocava a bandeja em cima da mesa de plástico circular entre as duas. Nós a fuzilamos com o olhar e vi um rubor se preencher pelo seu rosto enquanto evitava nossas faces. Ela quase tropeçou na volta, andando ainda mais rápido.

Começamos a rir, desmanchando a posterior tensão. Adorávamos intimidar os empregados.

Eu sentia saudade de rir, como se tivesse um gosto diferente, meu corpo inteiro relaxou. Um ótimo remédio.

Alice era um ótimo remédio.

-Ai, coitadinha. -­Disse Alice, aos soluços, enxugando as lágrimas que haviam escorrido pelos seus olhos. Ela estava toda vermelha de tanto rir, de um jeito adorável.

-Achei que você tivesse dito que não havia ninguém em casa.- ­ Falei, lembrando-me repentinamente. Seu sorriso se esvaiu.

-Mas que inferno. ­- Ela falou pausadamente, que nem ela faz quando não está de acordo, soando muito irritada. Eu entendi sua raiva.

-Que tal irmos ao Kit’s? -­ Era sempre a proposta perfeita para compensar um problema.

Notas finais
A Alice é o máximo né? hahhahah
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.