- Sua bunda fica linda nessa calça. Disse, passando os dentes nos lábios e arrumando-se na cadeira.

Freddie arrastou sua banca para junto da dela de modo discreto, correndo a mão para seu braço e o segurando, encarando-a com pura raiva. Sorte sentarem no fundo da sala.

- V-v-você... Você ta bem. Tentava conter a respiração descontrolada, mas o seu desespero era visível.

- Porque não estaria?

- P-p-porque ontem a noite, vo-você...

- Você tem uma tendência a exagerar com tudo, não é?

- Pessoas morreram, Sam! Está em todos os noticiários!

Ela remexeu sua bolsa e pegou seu gloss de framboesa, encarando Freddie com admirável naturalidade enquanto o deslizava por seus lábios carnudos.

- Alguém que a gente conhecia?

- Pessoas do nosso campus!

- Azar o deles...

- Está brincando comigo?! Que porra toda foi aquela ontem?! Sussurrava num volume discreto, porém a seriedade e o ódio como falava aumentavam seu tom.

- Foi só uma ressaca, Benson.

- Ressaca?! E o que tomou para vomitar aquilo, um tanque de petróleo? Olhe as minhas mãos! E as mostrou, fazendo Sam revirar os olhos.

- Nossa, deveria procurar uma manicure! Homens também fazem isso. E não te deixaria mais gay do que parecer ser.

- O que é que você tem?!

- O que VOCÊ tem?! Além dessa sua cara de fracassado...

- DIZ A VERDADE!!! Berrou, chamando a atenção de todos, inclusive do professor, que não pareceu nada feliz com a interrupção.

- Srta Puckett e Sr Benson, retirem-se da sala! Agora!

Freddieward empurrou a cadeira para trás com violência e sumiu porta afora, nem mesmo notando que fazia isso sozinho. A loira continuava sentada na cadeira, havia voltado a batucar com sua caneta e parecia não se importar com os olhares fixos e assustados de todos os seus colegas de classe, como se nada estivesse acontecendo.

- Não me ouviu, Samantha?! Retire-se! Agora! Repetiu o mestre, com mais rispidez desta vez, esforçando-se para parecer manter alguma autoridade sob a loira.

Os lábios dela sorriram leve e torto, os olhos fixos no professor. Suavemente levantou-se, desfilando por entre as cadeiras e batendo os saltos contra o peso de modo intimidador.

- É isso mesmo que quer? Seu questionamento mais pareceu uma ameaça, o mesmo sorriso debochado ainda lá. A tranqüilidade e a ironia em sua voz não faziam parecer que estava sendo expulsa.

- Não me faça perder mais tempo, garota. E virou-se de volta ao quadro, dando continuidade a sua aula. A loira assentiu com a cabeça e cantarolou um “Tá bom...” discreto e dirigiu-se ao corredor.

- Estava quase entrando atrás de você! O que houve? Freddie a abordou na porta, e Sam a fechou com cuidado, caminhando ao lado do moreno.

- Não houve nada, Benson.

- Fomos expulsos de uma aula por culpa sua!

- Você que gritou...

- O que me lembra de voltar para onde estávamos. Ele a pegou pelos braços e a jogou contra a parede, encarando seus olhos de perto. – O que você vomitou?!

- Vômito? Ironizou, deixando-o com as veias do rosto saltadas de tanta ira.

- PARE DE GRACINHA! Aquilo parecia um animal dilacerado misturado com graxa, e... E era preto e gosmento, e nenhum ser humano poderia vomitar aquilo!

- Devo ter inalado muita fumaça no incêndio, eu não sei... Respondia de modo tão despreocupado, que Freddie não sabia se ficava irritado ou com medo daquilo. Por mais que ele apertasse seus braços, aquilo não parecia machucá-la.

- Sua desculpa não vai funcionar!

Sam o empurrou e arrumou suas vestes, encarando-o.

- Devia conversar com o psicólogo do campus. E saiu, deixando-o outra vez sem condições de segui-la.

- Não estou maluco! Gritou e Sam virou-se por cima de seu ombro, gritando um “Te vejo no almoço!” de longe.

E Freddie sabia que não estava, por mais que a duvida em sua própria voz deixasse isso a desejar. Havia sido real. E ele sabia disso porque havia passado a noite acordado, esfregando o cheiro de morte do chão. Respirou fundo e guardou suas mãos no bolso enquanto a esperava sumir entre os corredores. Feito isso, deu a volta até o seu dormitório com agilidade. Precisava conversar com alguém, e não era com o psicólogo do campus.

Suas mãos tremiam. Odiou-se por ser tão idiota. Ele estava em seu quarto, com a porta trancada. O que poderia acontecer? Tirando o fato de que sua melhor amiga e ex namorada que ainda amava poderia pular sua janela com a mesma facilidade da noite anterior e escutar sua conversa. Ou quem sabe, poderia até mesmo estar escondida em algo lugar e estar fazendo isso agora. Parecia estar exagerando, mas depois de sua ultima madrugada, não sabia mais distinguir o possível do imaginário. Era demais para processar.

Discou os números com pressa. O barulho da chamada em espera o deixava ainda mais nervoso. Porém, a voz do outro lado da linha o tranqüilizou de imediato, ou ao menos o suficiente para que conseguisse falar.

- Spencer? Nossa... É bom falar com você.

- Eu digo o mesmo, cara. Como estão indo as aulas? As notas? A Sam, ela esta aí?

- Eu não sei...

- O que disse? Ele parecia confuso. Freddieward respirou e sentou-se em sua cama, segurando o aparelho com as duas mãos.

- Preciso conversar com você sobre ela.

- Sam? O que aconteceu?

- Sinceramente? Nem eu mesmo sei.

- Freddie, está me deixando preocupado. Diga de uma vez!

Mas ele não queria falar. Não queria assumir o quanto havia sido irresponsável levando a garota até aquele lugar mal afamado, e pior, dizer que havia a deixado sair de lá com aqueles sujeitos. Mesmo sabendo que não pôde fazer muito para impedir. Porém, o desespero lhe tomava a força do corpo e estrangulava sua garganta. Estava ficando impossível guardar aquilo sozinho. E Spencer parecia ser o único que o ajudaria com sensatez, mesmo sendo um homem atrapalhado.