O restante do dia havia sido maçante, monótono e angustiante. Ele sentia-se culpado só de respirar quando sabia que Sam estava por aí, fazendo sabe-se Deus o que e com quem. Sentia falta da inspiração que o sorriso dela ao lado de sua banca o trazia. Do modo como ela encolhia os ombros e tentava disfarçar os dentes ao sorrir. Da mania que tinha de jogar o pescoço para trás o tempo todo apenas para manter a franja no lugar. De como checava o relógio o todo tempo, apenas para saber se já era hora do almoço. Ou de como fazia Freddie pagar por ele sempre, mesmo ele adorando isso por dentro. De como ela sempre o ajudava a fazer a barba, já que ele não tinha o menor jeito para isso e sempre acabava se cortando em alguma parte do rosto. E de como ficávamos próximos quando ela fazia isso. De como sentia a respiração dela em seu pescoço. Sua respiração quente, normal e humana. Três coisas que ela não aparentava mais ser desde aquela maldita noite de descuido. Um deslize, e ele havia estragado o mundo. Porque Sam era seu mundo. E o amor dela era o que o mantinha na orbita.

Ao final daquele enfadonho dia, recolheu-se em seus dormitórios. Nem sinal da loira. A preocupação o dominava, mas sabia que vê-la o deixaria ainda mais aflito. Preferiu forçar-se a tentar terminar os trabalhos e textos da semana assim que a noite caiu, pois estava atrasado em várias matérias. Aquilo manteria sua mente ocupada. Seus dedos antes agidos em cima do teclado diminuíram a velocidade até pararem de vez no momento em que uma idéia lhe correu a cabeça.

Quando a vida ainda lhe caminhava normalmente, Samantha e ele partilhavam um segredinho. Seu frigobar tinha um estoque de bebidas alcoólicas de todos os tipos, para quando eles estivessem a fim de diversão. Havia funcionado bem das vezes em que a pressão da universidade quase os levava ao fundo do poço. Então, enchiam a cara e davam risada de qualquer mosca que passasse a frente de ambos, mesmo tendo que lidar com a ressaca do dia seguinte. Mas neste momento, Freddie não estava a fim de diversão. Apenas de um escape para toda a angustia que afligia seu ser. Jogou seu laptop de lado e andou rapidamente até seu frigobar. Pensou em uma cerveja, mas talvez precisasse de algo mais forte se quisesse mesmo se desconectar daquele quarto. Vodka. E quase nada de um suco de laranja que estava abandonado no canto da geladeira. Definitivamente, havia mais álcool do que qualquer outra coisa ali.

E desceu direto. Quente, amargo e alucinante. Balançou a cabeça para livrar-se de modo figurativo do gosto que havia em sua boca, mas ele não estava ali para apreciar nada, e sim para fugir. Três copos, seis copos, nove copos. E o quarto todo já rodava, assim como o embaralho das palavras em sua boca. Caiu ao chão, do lado da geladeira aberta, forçando-se a rastejar até a cama. Porém lhe faltava consciência e equilíbrio para tal. Seus lábios proferiram uma gargalhada boba e ele rolou em seu tapete, ficando de barriga para cima e apontando para o teto, como se quisesse alcançar algo. A visão turva e tremula de antes, de repente, havia se tornado completamente escura. Apagou. Rápido e profundamente. Assim como desejava. E de repente, os problemas pareceram menores por alguns instantes.

Doces horas as quais Freddieward conseguiu se dopar e descansar sua mente conturbada. Logo, a realidade lhe chamou de volta em um zumbido ensurdecedor e irritante, e desta vez, não era o seu despertador. Uma mão balançava seu ombro com força, quase o arrastando para fora do quarto. Uma sirene berrava a plenos pulmões e passos apressados eram ouvidos tão altos como se cavalos estivessem trotando nas escadas.

- Levanta daí, cara!

- Sam...?

- Não, é o Dylan! Levanta, Freddie! Temos que sair do prédio! Dylan era mais velho, e responsável por manter a ordem do dormitório dos garotos. – Você bebeu?! Disse parecendo decepcionado, e colocou Freddie em seus ombros, andando rapidamente com o colega até o lado de fora, como fora recomendado.

- Posso ir andando daqui... Freddie sussurrou-lhe na metade do caminho, e Dylan atendeu seu desejo, colocando-o de pé com cuidado.

- Tem certeza, cara?

Freddieward gemeu e tentou controlar os rodopios em sua cabeça, esfregando seu rosto e assentindo a pergunta do amigo com um “sim” feito com sua cabeça.

- O que houve? Perguntou, ao ver todos os garotos amontoados em frente ao prédio, todos descalços e de pijamas, sendo guiados para o imenso pátio principal.

- Ocorreu um homicídio aqui, Freddie.

“Sam”. Esse foi o pensamento imediato do moreno.

- Eu preciso... Preciso ir atrás dela!!! Gritou, sacudindo-se entre a multidão. De repente, o seu cérebro saiu do modo de repouso e imediatamente alarmou-se para a necessidade de encontrá-la.

- Freddie! Volte aqui! Dylan o seguia com desespero, até que alcançou seu braço, segurando-o com a mesma força que usava para marcar seus gols em seu time de hóquei. – NÃO PODE SAIR DAQUI!

- VOCÊ NÃO ENTENDE!!! EU PRECISO SABER SE ELA ESTÁ BEM!

- O prédio dela também foi evacuado, e as lideres do dormitório e os professores estão lá com as garotas, assim como aqui. Ela não está sozinha. Fique calmo.

- E se foi ela que... Por favor, não pode ir até lá?!

O menino respirava fundo enquanto encarava Freddie, tentando ser compreensivo ao seu desespero. No momento em que ia consolar o moreno, um bipe alarmou seu celular, e depois de alguns segundos de breve conversa, ele andou até um dos professores ali presentes, cochichando em seu ouvido. O homem parecia concordar com tudo, e depois de refletir sozinho, subiu no banco de areia que circulava a fonte decorativa dos garotos, exigindo atenção com algumas palmas e gritos.

- Alunos! Foi me dada à ordem de levar todos vocês até o dormitório feminino. É sensato que fiquem todos juntos até que a checagem em nosso prédio acabe, assim teremos maiores controles sob qualquer situação perigosa. Não sabemos se o responsável pelo estrago ainda vaga pelo nosso campus.

- Mais perigosa?! Uma pessoa foi assassinada! Freddie gritou, pondo-se a frente do homem. – Sabe ao menos o nome? Sabe quem foi morto?