O Corpo De Samantha
5 Capítulo 5
– É complicado... E estranho... A Sam está... Diferente.
– Diferente?
– Sim... Nós fomos a um show e ela saiu com uns caras depois disso, contra a minha vontade. Eu tentei impedir, mas você conhece a Sam e... Ela apareceu no meu banheiro depois de horas, e parecia que tinha sido espancada ou... Eu não sei. Ela vomitou uma coisa grudenta e grotesca, e era preto!
– Ela não ta tomando algum desses remedinhos de mulher? Você sabe...
– Não que eu saiba, mas era diferente, Spencer! Era uma coisa... Uma coisa do mal. Disse abaixando o tom e dando uma olhada em seu quarto, assustado com as próprias afirmações.
O homem deu um suspiro pesado do outro lado da linha e limpou a garganta, claramente atordoado.
– Freddie... Você sabe, a vida de universitário, você está solitário e tem muitas confusões na sua cabeça... Talvez precise ir a um médico e checar se está tudo bem com o seu...
– Spencer, eu não estou mentindo!
– Eu não estou dizendo que está... É que, cara. Olhe o que você mesmo está falando. Não está exagerando? A Sam pode ter tomado algo que ofendeu seu organismo, ou pode estar tomando alguma medicação. Checou isso?
– Não... Não me passou pela cabeça.
– Porque não tenta conversar isso com ela, então? Não viaje muito, marujinho.
– Não conto mentiras e não sou maluco.
– Eu não quis dizer isso. Mas é normal se sentir perturbado com sua nova vida. Costumava ser você, a Carls e a Sam sempre unidos. E agora cada qual foi para o seu lado, e vocês dois tem bastantes problemas de relacionamento, por mais que tenham se aproximado ultimamente. Tente descansar e sair do campus pra dar uma volta. Pode estar sobrecarregado.
– Spencer, era diferente... Tentava convencer o amigo, impaciente. Apoiou as mãos na cabeça e respirou fundo, aumentando um pouco seu tom de voz. – Eu temo por ela.
– Espere um pouco antes de acreditar demais em alguma coisa. E me avise imediatamente se algo estranho acontecer por aí novamente, tudo bem? Agora tenho que ir... As vendas de esculturas estão fartas hoje!
– Boa sorte com suas vendas. Até mais. Disse desanimado, e jogou-se sobre a cama, afastando-se do telefone.
Sentia que sua tentativa de pedir ajuda havia sido em vão. Esfregou as mãos no rosto, angustiado, e encarou o teto, perguntando-se sobre as palavras de seu amigo. Estaria mesmo ele exagerando? Não... Sam sempre havia tido sua dose de maldade. Mas ela nunca aparentou ser maligna. E era essa nova impressão que ele tinha da loira que fazia seu corpo arrepiar-se em ondas de pavor de cima a baixo.
Checou seu relógio de pulso depois de horas olhando para o vazio. Almoço. Ele deveria encontra — lá, mas simplesmente não conseguia. Não tinha vontade nem coragem de tentar desvendar sozinho algo que o apavorava. Era covarde demais para isso. Talvez Marissa Benson estivesse certa... Ele deveria ter ficado em Seattle, debaixo das saias da mamãe e longe daquilo tudo. Talvez ele fosse mesmo um fracassado, que falhou em proteger a única garota que ele amava. Seus olhos estavam vermelhos. De sono mal dormido e acumulado, de preocupação. De dor. Deu a eles um pouco de descanso, e o dia emendou-se com a noite, embalando Freddieward num longo sonho de onde poderia voltar para a velha e boa normalidade.
O despertador programado para o mesmo horário, todos os dias, finalmente tocou, assustando-o e fazendo-o sentar-se na cama até que pudesse se situar de onde estava. Havia dormido durante todo o dia anterior até a manhã, e já era hora de voltar para as aulas matinais novamente. E no mesmo ritual do dia anterior, tomou um banho frio, o que estava se tornando algo comum em sua vida, já que precisava esfriar sua cabeça constantemente. Arrumou seu material e apressou-se para a primeira aula, sendo novamente surpreendido pela presença dela ao fundo da sala. Apressou-se em disfarçar suas emoções, e caminhou o mais devagar possível, para ter mais tempo de observa — lá.
As mãos da garota estavam apoiadas em sua cabeça, e ela encarava o professor como se quisesse explodir sua cabeça. Aquela era sua cara para o tédio de modo extremamente elevado. Sentou-se ao seu lado, aliviado de vê-la aparentemente normal.
– O que você tem? Perguntou, juntando sua cadeira a dela como de costume. Observando-a mais de perto, pode notar novas diferenças em sua aparência. Seus cachos quase não faziam curva alguma, estavam ressecados, opacos e mal definidos. Sua pele estava mais pálida que o normal, seus lábios estavam arroxeados e o branco de seus olhos tinha um leve avermelhado discreto, daqueles que passam rápido depois de coçarmos os olhos por alguns instantes. Tinha olheiras nunca vistas antes nas pálpebras e vestia um suéter qualquer e jeans, roupas que não costumava usar ultimamente. – Não quero ser indiscreto, mas você parece péssima. Tá tudo bem?
– Eu só to meio dodói... Respondeu, despreocupada, cruzando os braços e esfregando-os, encarando sua banca.
– Você ta com frio? Ou... É algum problema de mulher? TPM?
– TPM não existe, Freddieward. Fica tranqüilo, ta? Já ta passando...
– O que ta passando? Perguntou, temendo a resposta.
Respirou aliviado por não ter sido respondido, mas aquele vazio apenas aumentou a tensão em sua cabeça. O sinal tocou, pegando-o de surpresa. Quando a aula havia passado tão rápido? Ele não se deu conta. Havia perdido todo o tempo dela encarando a loira sinistra sentada ao seu lado. Tentando convencer-se de que aquilo poderia ser apenas uma gripe.
– Bom... Eu vou indo nessa. Sam levantou-se e pegou suas coisas, obrigando-o a fazer o mesmo.
– Vai matar aula?
– Não... O Sr Hempkins ainda está ofendido porque eu o confrontei na sala de aula e me proibiu de assistir todas as aulas dele até que eu me redima. Esse desgraçado ta querendo me sacanear...
– Bom, então peça desculpas! Não pode perder todas as aulas dele!
– É... Melhor eu resolver isso. Disse, piscando um olho pra ele e dando as costas em seguida, aproveitando o fluxo que a sala sempre ficava durante as trocas de professores.
– Vai voltar depois da aula dele, não vai?
– Claro que sim. E sorriu, passando para fora da sala e deixando-o sozinho com seus pensamentos.
Mas Freddie sabia muito bem que não voltaria a vê-la nas aulas. Não hoje.
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