O Cordeiro e o Tigre
3 Capítulo 2 - Muitas perguntas.
Notas iniciais
A primeira coisa que voltou aos sentidos de Victória foi o olfato, e o que ela sentia era o cheiro de fumaça. Madeira pegando fogo, para ser mais preciso, imagens da noite da morte de seus pais começaram a circular sua mente.
O cheiro de umidade com fumaça era muito forte para ser apenas uma lembrança e por alguns segundos ela acreditou estar de volta ao dia em que descobriu o que havia acontecido com sua família.
Mas assim como o olfato, os outro sentidos começaram a vir e ela se lembrou do que havia acontecido momentos antes, e num sobressalto ela acorda, e rapidamente se senta no que parece ser uma cama muito confortável.
Com os olhos arregalados ela tenta absorver todo o local em que esta, mas assim seus olhos encontram um foco de luz, sua cabeça lateja, ela fecha os olhos imediatamente e com uma careta e a mão levada a cabeça ela solta um gemido de dor.
— Sinto muito — Aquela voz de novo, ela percebe, ela tenta abrir os olhos mais uma vez, dessa vez a cabeça dói, mas ela consegue manter os olhos abertos. – Você é muito mais suscetível ao tranquilizante do que eu esperava – ele continua calmamente, falando quase em um sussurro: – A dor de cabeça é um efeito colateral totalmente normal, irá passar daqui alguns minutos.
Victoria apenas franze a testa, em completa confusão, ela tenta formular uma pergunta, mas várias aparecem em sua mente e tudo o que ela consegue reproduzir é um som questionador.
Agora conseguindo se acostumar mais com a iluminação, ela foca ao seu redor. O quarto era mal iluminado, se não fosse pelo foco de luz, que agora ela percebe ser uma lareira num cômodo que ela presumiu ser uma sala. O quarto onde ela está parecia ter apenas a cama e uma mesinha na lateral da cama.
O ar era úmido e ela pode jurar que ouviu alguma queda de água muito distante, o homem parado a sua frente não era nada mais do que uma sombra, ele estava contra a luz emitida pela fogueira, então ela não enxerga nada além de uma massa preta muito, muito alta.
Ela chutaria pelo menos 1,80 de altura, talvez mais. Ela percebe que seria muito difícil tentar atacar esse homem, mas mesmo assim ela procura ao seu redor algo que pudesse ser usado como arma.
— Eu sei que você deve estar assustada e confusa, mas eu garanto a você Victoria, agora você está segura.
Mais uma vez a expressão de confusão atinge seu rosto, Victoria então consegue formular uma pergunta:
— Quem é você?
— Um amigo, um companheiro, uma sombra, ou um fantasma.
Raiva e frustração começam a tomar conta da mente de Victória, mas ela se mantém calma, afinal o homem poderia facilmente matá-la.
— Que tipo de amigo, companheiro, sombra ou fantasma drogaria alguém? Não acho que algum deles se enquadre em um sequestrador.
— Mas eu não te sequestrei, Victoria. Você é livre pra ir à onde quiser.
— Como diabos você sabe meu nome? E qual é o seu? O que quer comigo?
— Estive acompanhando você há um bom tempo, anos. Mas isso é história para depois – A sombra se meche desconfortável, mas se mantém no mesmo lugar. – Vamos, acabei de fazer o jantar e temo que se esperarmos mais, ele irá esfriar.
E lá está ela de novo, a expressão confusa de Victória, ele vê a sombra se mexer e ir em direção ao cômodo da fogueira e virar à esquerda.
Em que merda ela tinha se metido, um perseguidor ao que parece, mas não um pervertido, pelo menos não ainda. Suas roupas continuavam no mesmo lugar.
Ela então, se levanta da cama e começa a tatear a parede em busca de um interruptor, ela o encontra próximo a porta. Seus olhos demoram um pouco para se acostumar com a luz, e a dor de cabeça, apesar de fraca, ainda insiste em permanecer.
Agora podendo olhar melhor, o cômodo é muito arrumado e organizado, um guarda roupas na parede oposta a da cama, e uma escrivaninha a esquerda da parede da porta foram os móveis que ela não conseguiu enxergar. Sua bolsa estava em cima da escrivaninha, fechada como havia deixado, apesar dela duvidar que seu sequestrador não tivesse mexido.
Ela rapidamente procura seu celular, mas não encontra. Claro que ele não estaria ali, que tipo de sequestrador ele seria se ele deixasse o celular com ela, afinal?
Victoria suspira e continua mexendo em sua bolsa, ela acha uma tesoura que deixava para cortar a unha, “vai servir” ela pensa, e com um suspiro ela se encaminha em direção ao cômodo da lareira.
Dando uma olhada ao redor, ela percebe que é realmente uma sala, e muito ampla, com estantes nas duas paredes laterais repleta de livros, acima da lareira havia uma pequena prateleira com livros e acima, uma pintura muito bonita de uma paisagem, um campo de trigo ao pôr do sol.
Haviam também um sofá e uma poltrona e abaixo deles um tapete persa vermelho com detalhes em amarelo, era incrivelmente bonito. Toda a sala tinha uma aparência antiga, ela quase se sentia transportada para pelo menos dois séculos atrás.
Mas apesar de muito bonita, a sala era muito mal iluminada, contendo apenas a luz da lareira e uma luz amarela que iluminava muito mal o lado contrário à lareira, onde a luz dela não chega.
Ela olha para a direita e há uma porta, de madeira maciça e de coloração escura, logo ao lado do quarto onde acordou, e a esquerda ela encontra uma passagem e uma luz, um pouco mais forte. Apertando firmemente a pequena tesoura ela se encaminha em direção a luz.
A cozinha era completamente diferente do cômodo em que estivera a alguns segundos, ela acabou de sair do passado para ir para o futuro em poucos segundos.
O cômodo é totalmente tecnológico, com móveis e eletrodomésticos brancos, uma geladeira muito moderna, da qual ela só havia visto em lojas super caras, um fogão igualmente moderno e uma bancada de granito branco extensa que quase ia de uma extremidade a outra.
Um balcão divide a cozinha e a sala de jantar, onde uma mesa com seis cadeiras esta posta, com um copo e um conjunto de talheres.
A sombra agora não era apenas uma sombra, e estava de costas para ela, cortando algo na bancada. Como ela já havia constatado, era um homem muito alto. O topo de sua cabeça mal chega ao ombro do homem, e ela não se considera uma mulher baixa.
Esse homem se destaca completamente na cozinha, ao contrário dos móveis, ele está vestindo um conjunto de calça social, camisa social e colete completamente pretos. Pelo amor de Deus, até o cabelo deste homem era impossivelmente preto.
— Espero que goste de massa, tive pouco tempo para preparar a comida, e havia apenas ingredientes para um spaghetti alla carbonara. — O homem disse sem se virar.
Como diabos ele sabia que ela estava ali, ela não fazia ideia, ela mal havia entrado na cozinha.
— Como... Quem é você? – Victória pergunta confusa e com medo, a pequena tesoura tremia junto com sua mão, ela decide que seria melhor esconder a mão atrás das costas.
— Primeiro – ele diz se virando – Jantar, depois falamos sobre isso.
Se antes ela estava assustada, agora ela está aterrorizada, pois ao se virar, ela pôde ter visão completa do homem, ou a não visão, já que ele usa uma masca preta que cobria quase todo seu rosto, deixando espaço apenas para a boca e mandíbula.
Victoria dá um passo para trás apertando a tesoura ainda mais, quando percebe que ele está vindo em sua direção com um prato na mão.
— Não vou comer, não sei quem é você! Quero uma explicação agora! – Victoria exige, dane-se se ele fosse mata-la, ela já está cansada de ficar confusa.
— Sente-se então – Ele diz calmamente, sua voz num tom quase entrando na área do sussurro – não há motivos para você ficar em pé na porta da minha cozinha.
Ela se senta na cadeira mais distante dele, longe do prato e talheres, olhando bem agora, talvez aquela faca fosse mais útil que a tesoura.
O homem suspira, quase como se estivesse lidando com uma criança birrenta, e empurra o prato e os talheres na direção de Victoria.
— Por onde devo começar? – Ele diz colocando um pouco do que parecia suco de uva em um copo e passando ele para Victória.
— Do início. – Victoria responde, sem encostar no prato ou no suco.
Ela percebe os ombros do homem caindo, quase que se preparando para contar algo difícil, ela lembra de perceber esse mesmo movimento quando contaram a notícia sobre seus pais.
— Bom, tudo começou numa noite chuvosa, dez anos atrás... – O homem diz se sentando em frente a ela.
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