O Coração de um Nerd
8 Capítulo 8
Notas iniciais
POV. GREG (SoHo — 1986)
Eu encarava a porta de madeira marfim há vários minutos e não conseguia bater. Não me sentia nervoso daquela forma desde que falara com ela pela primeira vez. Todos os sinais haviam voltado: meu coração acelerado, minhas mãos tremendo, a falta de coragem. Ela estava ali, logo após aquela porta, mas eu simplesmente não conseguia bater. Era a primeira vez que eu ia a um baile, e a primeira vez que eu ia a um baile com a minha namorada. Eu não queria estragar tudo.
Fechei os olhos, respirando fundo algumas vezes. Então abri os olhos e bati na porta. Alguns segundos de silêncio. Passos. E uma mulher jovem, em seus 35 anos. Ela vestia um uniforme branco de blusa e saia com alguns detalhes pretos, sapatos fechados pretos e o cabelo preso em um coque justo. Apesar da seriedade das roupas, ela sorria amigavelmente.
“Boa noite. Meu nome é Mariah, sou governanta da casa dos Scott. Entre, por favor, a srta. Meggie não deve demorar.”
“Obrigado.”
Acompanhei Mariah até a sala onde ela indicou o sofá para que eu me sentasse.
“Gostaria de alguma coisa?” ela perguntou ainda sorrindo, mas eu neguei.
“Não, obrigado.” Ela assentiu e foi na direção de outro cômodo, me deixando sozinho na sala.
Admito que não consegui sentar; estava nervoso demais para isso. Ao invés disso, comecei a andar pela sala, procurando algo que me chamasse a atenção e me distraísse até que Meggie descesse.
A sala em si era enorme, tanto que mal pude acreditar que estava em um apartamento urbano e não em uma casa. Apesar do tamanho, havia poucas peças de mobiliário, o maior destaque indo para o sofá de 6 lugares completamente branco localizado no meio da sala. As demais peças, também claras com detalhes dourados, davam uma sensação de paz que pouco a pouco ia me acalmando.
Enquanto me distraía com a decoração da sala, vi, em uma pequena mesa do lado direito do sofá, uma foto que me chamou a atenção e me aproximei para ver melhor. Nela estavam Meggie, Daniel, um homem grisalho e sério que deduzi ser o pai deles, e um cara alto, moreno e elegante, os quatro em pé, lado a lado, em uma sala parecida com aquela. O cara não se parecia com Meggie, Daniel ou o pai deles, então deduzi que não fosse da família. Ainda assim, na foto, Meggie e ele sorriam um para o outro enquanto ele mantinha a mão em sua cintura. Cerrei o maxilar, incomodado com a imagem, mas meus pensamentos foram interrompidos pela voz de Meggie.
“Chegou tão cedo.”
Virei na direção do fundo da sala, onde ficava uma escada circular que ela descia. Esqueci de respirar durante alguns segundos ao vê-la por inteiro: vestido sem alças branco coberto com renda preta, saltos pretos, cabelos soltos, maquiagem leve e batom rosado. Ela desceu sorrindo e veio na minha direção.
“O que foi?” perguntou ao notar minha expressão.
“V-você está tão linda…”
Observei suas bochechas se colorirem com um leve tom de vermelho, e sua boca se uniu à minha por alguns segundos.
“Você também está muito bonito…”
Sorri, meio idiota. Era raro vê-la em momentos envergonhados, por isso eu os valorizava tanto.
“Vamos?” Ela assentiu e saímos.
O percurso até o colégio foi rápido e fomos especulando sobre como Chris e Lizzy agiriam um com o outro.
“Eu acho que vai ser normal”, ela disse e eu ri.
“Vai ser tudo menos normal. Aposto que eles vão estar tão constrangidos como nós no começo do namoro.” Ela fez uma leve careta.
“Não éramos tão constrangidos.”
“Você não muito, mas eu…” Ela riu baixinho.
“Sim, você sempre ficava constrangido quando eu chegava muito perto.”
“Claro, você é minha primeira namorada.”
Apesar de estar olhando para a rua, eu soube que ela estava sorrindo abertamente com isso. Olhei-a pelo canto dos olhos só para confirmar: não dava para esconder um sorriso daquele.
“Você parece feliz demais com isso.” Ela deu de ombros inocentemente, ainda sorrindo.
“Algo de ruim nisso?”
“Não…” Respondi desconfiado, mas me divertindo. “E eu? Sou seu primeiro namorado?” Ela inclinou a cabeça para o lado, pensando.
“Teoricamente, sim.”
“Teoricamente?” perguntei, agora mais curioso e com uma fagulha de ciúme começando a queimar no meu peito.
“Sim, teoricamente, porque não tive nada oficial com ele.”
“Humph.” resmunguei e não falei mais nada.
Incomodado, mantive meus olhos no trânsito, me perguntando mentalmente se seria aquele mesmo cara da foto. Considerei perguntar, mas acabei desistindo por razão nenhuma. Ela está comigo agora, então não tenho que me preocupar com isso, não é? É passado…
Pelo canto dos olhos, vi seu rosto se aproximar do meu, na tentativa de ler minha expressão. Mantive o rosto impassível, ainda olhando o trânsito. Como eu não desse sinal de retornar sua atenção ela cutucou meu braço.
“Ei, ficou chateado comigo?”
Pela voz de chantagem emocional eu sabia que ela estava brincando, então resolvi entrar na brincadeira e mantive o silêncio. Ela continuou:
“Ei, não vai responder? Mereço silêncio agora? Não tive nada tão sério.”
Tive que morder o interior na bochecha para não rir do tom de irritação falso. Não aguentei mais e comecei a rir quando ela começou a cutucar meu rosto com o indicador.
“OK. Você ganhou.” disse, ainda rindo, enquanto estacionava na frente da escola.
“Eu sei”, ela respondeu sorrindo.
Saí do carro e abri a porta a porta do passageiro para que ela saísse também, lhe oferecendo meu braço.
Já no salão do ginásio descobrimos que Chris e Lizzy ainda não tinham chegado, então nos aproximamos da mesa do ponche e ficamos bebendo e conversando para passar o tempo. Não queríamos perder a hora que eles entrassem.
Pouco depois, Meggie, que vez por outra olhava para a porta do ginásio, me cutucou apontando para a entrada. Chris e Lizzy tinham acabado de entrar e pareciam nos procurar. Acenamos e eles vieram na nossa direção. Meggie se adiantou para falar com a Lizzy enquanto eu cumprimentava o Chris.
“E aí, cara?”
“E aí, chegaram faz tempo?”
“Não, tem uns 15 minutos.”
As meninas se afastaram para ir ao banheiro, e eu e Chris ficamos sós. Não resisti e acabei cutucando ele com uma expressão cínica.
“Você está babando por ela, não é?” Ele me devolveu a expressão cínica com um sorriso.
“Tanto quanto você está babando pela Meggie.” Ri em concordância, mas minha curiosidade cedeu e eu tive que perguntar:
“Você vai fazer alguma coisa hoje, não vai?”
“Com certeza.”
“O quê?” Ele negou com a cabeça.
“Melhor não saber.” Dei de ombros, mas sorri.
“Boa sorte, então.”
“Valeu.”
Pouco depois as garotas voltaram e, quase no mesmo instante, começou a tocar uma música lenta. Troquei olhares com a Meggie quando Chris tirou Lizzy para dançar e ficamos esperando ansiosos o que aconteceria entre aqueles dois.
Mas mesmo minha curiosidade sendo enorme, eu não pretendia passar a noite observando os outros dois, então…
“Quer dançar, Meggie?” Ela sorriu e pegou minha mão, entrelaçando nossos dedos.
“Claro, mas também quero ver aquele momento histórico” disse, apontando para Chris e Lizzy que pareciam conversar enquanto dançavam.
Comecei a rir ao perceber que sua curiosidade era tão grande quanto a minha.
“Ok. Vamos observar as crianças por enquanto.”
Eles trocaram mais algumas palavras, tão concentrados um no outro que nem deviam ter percebido que pararam de dançar. Senti Meggie apertar minha mão quando vimos ele erguer o rosto dela. Trocamos um rápido olhar que significava tem que ser agora... E foi.
Meggie comemorou tanto que quase derramou o copo de ponche em mim. Eu ri em silêncio com uma sensação de paz que há muito não sentia em relação àqueles dois. Acho que isso resolve as coisas…
“Finalmente!” ouvi Meggie dizer e concordei.
“Eu que o diga.”
“Agora concordo com a Mariah, a sensação de ser casamenteira é ótima.” Olhei para ela com uma sobrancelha erguida.
“Negativo. O casamenteiro aqui sou eu. Passei tempo demais tentando costurar aqueles dois.” Ela riu, afagando meu rosto.
“Imagino.” De repente seu rosto se iluminou. “Acho que agora podemos fazer encontro duplo, não é?” Ri do raciocínio rápido dela.
“Sim, acho que podemos.”
Desviamos nossos olhos para os dois e vimos a Lizzy com a cabeça encostada no ombro do Chris e ele nos olhando. Demos nossos melhores sorrisos cínicos e erguemos levemente os copos de ponche para ele. Ele sorriu de volta e acenou com a cabeça, voltando a atenção para a Lizzy outra vez.
Depois disso, finalmente tirei a Meggie para dançar.
“Parece que podemos parar de nos preocupar com os dois agora”, Meggie comentou, olhando de esguelha para os outros dois antes de tornar a olhar para mim.
“Sim. Minha atenção é toda sua, senhorita” provoquei, enquanto subia a mão por suas costas e nos movíamos ao ritmo lento da música.
Ela sorriu com minha provocação.
“É bom que seja mesmo, pois a minha é toda sua.”
Sorri e me deixei levar pelos seus olhos, me hipnotizando mais a cada segundo. Ela encostou o rosto no meu, suspirando levemente e fechando os olhos. Acabei por fechar os meus também, apreciando o momento com os outros sentidos. Podia sentir claramente o calor do seu corpo, a maciez da sua pele e o toque dos seus cabelos; o seu perfume; o som da sua respiração suave no meu pescoço… mas ainda faltava um sentido…
Cedendo ao instinto, procurei sua boca com a minha e a beijei. Inconscientemente, suspirei ao sentir seu gosto mais uma vez. Era viciante. Senti suas mãos em meus cabelos, me puxando, e não resisti a aprofundar o beijo, me permitindo ser irresponsável por alguns segundos. Mas minha sanidade ainda estava em mim, por isso, pouco depois me separei dela, satisfeito em observar que ela estava tão desorientada quanto eu.
No fim das contas, apesar do nervosismo inicial, me diverti bastante para um primeiro baile. Fiquei feliz por Chris e Lizzy finalmente se acertarem e por ter um motivo para zoar com os dois. E Meggie… Meggie era uma força da natureza que não se podia parar, em todos os sentidos que isso possa ter, e me levava com ela sem que eu sequer percebesse. Foi assim desde o começo e seria assim até o fim.
Perto das 20h, Chris e Lizzy, que estiveram cochichando nos últimos cinco minutos, viraram para mim e Meggie com uma sugestão.
“Querem sair daqui? Chris e eu pensamos em irmos jantar em um restaurante italiano que tem aqui perto.”
Como eu e Meggie só tínhamos tomado ponche desde que chegamos, a sugestão foi bastante bem-vinda. Também era uma desculpa para fugir do barulho e irmos para um lugar mais reservado. Assentimos e fomos os quatro para a saída do ginásio.
O restaurante italiano ficava a apenas 4 quadras de distância, mas fomos de carro para evitar ficar longe do estacionamento. Apesar de ser sexta e do horário avançado, não foi tão difícil encontrar uma mesa vaga para os quatro. Logo o pedido foi feito — uma lasanha grande — e ficamos livres para conversar.
“Vocês viram a Lisa e o Yao?” Lizzy perguntou.
“O asiático até que parecia feliz”, Chris comentou e eu concordei.
“É, depois de tanto tempo a Lisa finalmente conseguiu. Finalmente.”
Dei um sorriso sugestivo para os dois e eles entenderam a indireta: Lizzy ficou vermelha, mas com um sorrisinho no rosto, e Chris desviou os olhos, se fazendo de surdo, mas também sorria. Troquei olhares com a Meggie e ela sorriu, cúmplice. Íamos tirar uma com a cara deles por um bom tempo.
Depois disso, a conversa virou para os outros casais do baile e ficamos especulando quantos casais teriam se formado ali. Logo o assunto virou para algo que ainda não tínhamos falado a respeito: a Corleone era uma escola de ensino fundamental e nós íamos para o ensino médio. Teríamos que sair de lá.
“Vocês já pensaram a respeito?” Meggie sondou.
“Eu não”, confessou Chris. “Admito que nem tinha pensado nisso ainda.”
“Nem eu”, completou Lizzy.
“Eu admito que já pensei.”
Os três me olharam sem nenhuma surpresa no olhar e eu quase ri. O preço que se paga por ser um nerd.
“Para onde vai?” Lizzy perguntou.
“Pensei em prestar exame para a Academia de Ciências do Bronxs.” Os três assentiram como se essa fosse a escolha mais lógica.
“É. Parece que a gente não vai ficar junto para sempre...” Chris falou com certa melancolia na voz.
“Vocês deviam tentar. Não é difícil.” Chris e Lizzy riram.
“Não é difícil para você,” Lizzy comentou. “Não temos seu QI, Greg.”
“E eu precisaria de uma bolsa para entrar. Meus pais não podem pagar.”
Fiz uma careta, concordando ao menos com a parte financeira. Eu acreditava que eles conseguiriam uma bolsa se tentassem a sério, mas fui interrompido pela chegada da lasanha.
A partir daí, passamos para assuntos mais leves, comentando os filmes que seriam lançados no ano e Meggie aproveitou para mencionar o encontro duplo. Como sabíamos, os dois fizeram cara de paisagem, para o nosso divertimento, mas ficou acertado que marcaríamos um dia.
Saímos do restaurante quando já passava das 21h30. Nos despedimos, e Chris e Lizzy foram embora na direção oposta à nossa. Fomos até o carro da Meggie para eu deixá-la em casa. Ficou acertado que eu levaria o carro para casa comigo e devolveria a ela no dia seguinte.
Não sei se pelo cansaço ou por outra razão, fomos em silêncio o caminho todo, assim como no elevador até o hall no apartamento dela. Na porta, ela virou para mim com um sorriso sincero.
“Obrigada por me convidar.” Sorri em retorno.
“E quem mais eu convidaria? Você é a única que eu gostaria de levar.” Seu sorriso aumentou e ela pegou minha mão.
“Sabe dizer palavras bonitas, Sr. Wulliger.”
Apesar de sua provocação eu não ri. Pela segunda vez na noite me deixei levar por todas as sensações que ela me causava. Ergui a mão que ela não segurava e acariciei seu rosto, tento a satisfação de vê-la fechar os olhos e inclinar a cabeça buscando mais contato. Cedendo, beijei-a suavemente ouvindo-a suspirar. Eu havia me controlado a noite toda — com exceção daquela hora—, mas senti que se avançasse mais que isso eu não me controlaria mais. Por isso, parei o beijo e afastei-a suavemente. Vi certa confusão em seus olhos, mas ignorei, mesmo isso me dando um aperto no peito. Beijei seu rosto e sussurrei “boa noite” em seu ouvido, me virando para ir embora a muito custo.
Senti meu corpo tremer em protesto a cada passo que dava para longe dela e respirei fundo, repetindo mentalmente: é o certo a se fazer… é o certo a se fazer… Isso até ouvir a voz dela me chamar.
“Greg…”
Seu tom fez meu coração acelerar e eu parei de andar. Reunindo todo meu autocontrole, virei para olhá-la. A súplica que vi em seus olhos me desarmou completamente e, antes que eu me desse conta, andei de volta para ela e a beijei com todo o desejo que sentia. Ela correspondeu com o mesmo entusiasmo, me abraçando e encostando o corpo no meu. Apertei sua cintura, fazendo-a recuar até encostá-la na parede do corredor. Acariciei seu lábio inferior com a língua e ela entreabriu os lábios, tocando a minha com a sua. O sangue martelava em meus ouvidos, e eu não escutava nada além de sua respiração acelerada e seus gemidos baixos. Nada mais importava e eu não precisava de nada além dela.
Com certa relutância, afastei minha boca da sua para beijar seu pescoço, mordendo levemente. Com um ofego, ela arqueou as costas e suas mãos puxaram os cabelos da minha nuca me fazendo grunhir. Fascinado com sua reação, continuei a morder seu pescoço em vários pontos, sentindo-a se retorcer em minhas mãos. Ela uniu novamente nossos lábios em um beijo desesperado, afastando-se da parede e nos guiando às cegas. Só percebi o que ela pretendia ao ouvir a porta do apartamento ser aberta. O que me sobrava de sanidade me fez acordar naquele instante.
“Meggie, não…” consegui sussurrar apesar de quase não conseguir respirar.
Ela não estava em situação melhor que a minha: o rosto corado, ofegante e os lábios vermelhos. Seus olhos estavam de um azul mais escuro que o natural e me encaravam confusos com minha atitude.
“Meggie… se eu entrar… eu não vou embora hoje…”
Quando entendeu minhas palavras, seu rosto ficou ainda mais corado e ela desviou os olhos dos meus. Ela assentiu após alguns segundos e me abraçou, escondendo o rosto em meu peito. Respirei fundo, procurando acalmar meu corpo que ainda tremia levemente, e a abracei em retorno.
Ela ergueu a cabeça para me olhar alguns segundos depois e eu lhe sorri, beijando suavemente sua boca e logo depois sua testa.
“Boa noite”, falei novamente e ela assentiu.
“Boa noite. Volte com cuidado.” Assenti e dessa vez realmente fui, pegando o elevador, descendo e indo até o carro dela.
A caminho de casa, repassei inúmeras vezes aquele momento na minha cabeça, sorrindo idiotamente a cada vez. Minhas mãos ainda tremiam um pouco e eu me perguntei se algum dia conseguiria lembrar desse momento sem tremer. Eu tinha sido imprudente, claro, mas tinha valido cada segundo. Parece que vou tomar muitos banhos frios e longos daqui pra frente...
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