O Coração de Gelo

1 O Coração de Gelo


O Coração de Gelo

Tudo o que John queria era que tudo não passasse de um sonho, um sonho ruim.

A guerra, o medo, as mortes – as que já chegaram e as que chegarão – as lutas e os preparativos. Tudo isso, ele queria que fosse um pesadelo.

John Megvilly era um mago combatente do reino de Freijord, a cidade das Muradas de Gelo. E como combatente, tinha o dever de proteger sua cidade dos inimigos que se aproximavam. A guerra havia sido anunciada há pouco tempo e hoje,um dia antes de se iniciar, a cidade estava no que os habitante chamavam de PeaceDay, ou Dia de Paz. Um dia reservado para os combatentes ficarem com as pessoas que amam uma última vez. Para celebrarem e criarem uma ótima última (talvez) lembrança.

Freijord era uma cidade localizada no meio dos 7 grandes oceanos, sendo considerada estrategicamente perfeita, tanto nos quesitos econômicos quanto nas guerrilhas. Ela fazia a ligação entre os continentes. John sabia, como todos os habitante também sabiam, essa era a ambição principal dos atacantes: Conquistar a cidade e a utilizar como canal principal de comunicação e logística para a Grande Guerra que se aproximava.

Freijord havia sido construída há muito tempo atrás em cima de uma colossal placa de gelo. Os primeiros habitantes magos de extrema força e destreza haviam construído muros em torno de toda a placa, tornando-a uma fortaleza de gelo. Aos poucos, a cidade foi ganhando fama e sua população foi crescendo, criando uma própria cultura local. A magia e o controle eram livremente permitidos e até incentivados. A grande maioria dos magos eram especialistas na manipulação da Água e Gelo, entretanto, existiam magos controlando todo tipo de energia. Magos e Nulos viviam pacificamente e a divisão política era feita de maneira democrática: Qualquer pessoa podia se candidatar como político de Freijord. Aos poucos, as pessoas se adaptaram a viver em um local com temperaturas abaixo de zero.

Atualmente, na instabilidade mundial devido a Grande Guerra, Freijord havia sido alvo de pequenos ataques que foram facilmente contidos antes de avançarem para dentro da cidade. Os enormes muros eram a principal defesa e como tal, o exercito o usava como principal fonte de ataque também evitando que os ataques chegasse até os civis.

Se a divisão política da cidade era bem estabelecida, a divisão militar não ficava para trás. Desde o início, foi identificado que a cidade precisaria ser constantemente vigiada e protegida, devido sua economia estabilizada e sua posição vantajosa, foi a partir desta necessidade que surgiu os Combatentes do Gelo, o exercito de Freijord. Utilizando uma organização baseada nas habilidades dos “soldados”, os Combatentes do Gelo recrutam, treinam e utilizam as habilidades e talentos de qualquer um que queira fazer parte do exercito para proteger e zelar pela segurança e estabilidade de Freijord.

Fazer parte do exercito em Freijord era uma honra. Todo ano havia a seleção, aonde os jovens de qualquer sexo poderiam expressar sua vontade de entrar para os Combatentes de Gelo. Como tradição e cultura da cidade, existia todo um ritual a ser celebrado. Posterior a isso, os novatos passavam por um treinamento, para aflorar novos talentos ou aprimorar os já existentes. Eles guardavam a cidade dos perigos externos e internos. E por último, á a cerimônia de Atribuição, aonde seu posto será designado. John era um Mago Combatente, especialista no controle das energias.

John nem sempre ansiou ser um Combatente. Na verdade, assim que terminasse seu ano escolar, ele queria apenas viver da pesca junto com a sua família. Mas, depois de ser influenciado por um nobre sentimento, John sabia o que queria fazer pelo resto da sua vida: Ficar ao lado daquele que ama. Por isso, como boa parte dos seus amigos, ingressou nos Combatente do Gelo.

O ritual de inicialização foi lindo, ele lembrava. Toda a cidade brilhava com a Aurora Boreal que havia aparecido devido o controle das energias dos Generais. As pessoas cantavam músicas antigas a pleno pulmões e os anciões mais velhos manipulavam a neve, fazendo com que a tempestade de neve se transformasse em um show de dança rítmica. Todos estavam felizes. Ao contrário de agora...

John observava a cidade silenciosamente do alto de um bloco de gelo, localizado na parte mais “alta” da cidade. Ventava, como sempre. Porém não bruscamente como nas tempestades. Eram mais como ventos de mudanças... Das chaminés feitas de gelo, ele observava fumaça preta saindo, provavelmente dos deliciosos pratos que eram feitos no PeaceDay. As famílias cozinhavam para seus guerreiros, a fim de lhe dar uma ótima última (talvez) refeição. Ele já havia ceiado com a sua família. Cozido de Foca, seu prato predileto. Pediu licença ao terminar, queria ficar sozinho. Estava aflito. Quieto por fora, mas cheio de dúvidas por dentro. Ele tinha uma guerra particular a ser batalha hoje. Não tinha medo da morte, possuía outro medo, algo maior e com várias variáveis. Algo que não poderia passar de hoje. Por isso havia subido ali. Sempre que precisava de um tempo sozinho, para pensar. Procurava aquele local. Era ótimo. Pensou. Dele dava para observar toda a Freijord e ver suas nuances e belezas frias.

- Amanhã, a cidade estará em guerra – Observou John, em um tom triste.

Mexeu em seu pesado casado de pele e do bolso lateral, retirou uma pequena caixa de madeira. Abriu-a. Um brilho azul intenso preencheu seu rosto. Dentro da caixa, existia uma pedra cravejada de safiras azuis, seu formato era redondo em uma ponta e na outra extremidade era fina, como uma gota de água.

- É isso. Tem que ser hoje. Coragem John. Coragem – Engoliu em seco, enquanto fechava a caixa com as mãos tremulas.

John respirou fundo e concentrou suas energias. Começou a fazer gestos com as mãos, como se estivesse canalizando poder mágico em torno das mãos. Eis que, após poucos segundos uma estrutura degelo começa a tomar forma na frente de John. É algo pequeno, uma bola de gelo puro. Ainda fazendo gestos, John modifica o formato da esfera, transformando-a em uma espécie de pomba, totalmente feita de gelo. A criatura recém criada ficou imóvel, olhando para John.

- Oculi Mei Placet – Pronunciou John, invocando as palavras mágicas antiga, originarias do povo antigo de Freijord.

De repente, a pomba que antes permanecia imóvel, ganhou vida. Abrindo as asas e o bico. Bateu as asas e alçou vôo. Primeiro foi para o alto e desceu em rasante. Depois, começou a rodear John em alta velocidade até pousar em seu ombro esquerdo.

- Por favor, Ache-o ! – Ordenou John, voltando seus olhos para a criatura. Obediente, a mesma alçou vôo novamente e rumou em grande velocidade em direção a cidade.

John sabia que utilizar a magia de localização Creature Locate era o meio mais rápido de se encontrar alguém em Freijord, principalmente quando se estava com pressa e ansioso, como ele. Era uma magia simples que os Combates do Gelo aprendiam logo no inicio do treinamento. Combinava manipulação das energias com magia antiga. Agora, enquanto observava a pomba sumir em meio às casas da cidade, John sentou no bloco, tentando respirar o mais pausadamente possível.

Ele esperou por longos 40 minutos até perceber que seu “chamado” havia surtido efeito. Quando estava já roendo a terceira unha, ouviu pesados passos na neve e já sabia o que era. Olhando para trás, na direção dos passos, pode ver quando um mini avalanche de neve surgiu assim que um urso polar montado por uma pessoa pulou próximo a ele. Quando o pesado animal tocou o chão, mais neve foi jogada para o alto, chegando a atingir John. Qualquer pessoa ficaria assustada, mas John conhecia o urso e já estava acostumado com a situação... Era o urso-polar de Paul Bentanny. O domador da fera estava com o rosto envolto em um capuz, e enquanto afagava as costas do seu urso, John aproximou-se.

- Olá Tibers, Como está? – Disse John, também fazendo carinho no animal.

- Urrr ! – Respondeu Tibers, lambendo a mão de John.

- Esse preguiçoso não merece carinho, tinha que ver o choro que fez quando disse que iríamos sair – Disse Paul, saltando do animal. – E olá para você também, Megyys...

Megyys era a forma como Paul chamava John quando queria atormentá-lo. Ele dizia que o sobrenome dele tinha uma conotação feminina engraçada. John nem ligava mais.

-Sinceramente John, esperava que me deixaria ficar em casa pelo menos no PeaceDay. – Disse Paul, afastando o capuz do rosto e batendo a neve do pesado casaco. Assim que John encarou Paul e olhou o azul dos seus olhos, lembrou-se da origem da sua amizade.

John e Paul se conhecem desde criança, quando juntos, participavam dos trabalhos em campo que toda criança que nasceu em Freijord deve passar. John sempre fora magro e frágil, sendo perspicaz apenas em atividades que exigiam concentração e raciocino enquanto Paul naquela época já demonstrava uma vitalidade e força física tremenda. Paul perderá as contas de quantas vezes teve que entrar em uma briga para salvar John que por sua vez, sempre era alvo dos outros meninos por ser o mais fraco. Já John era o cérebro fora da cabeça de Paul, ajudando-o a decifrar antigos textos e a recitar magias simples. O laço entre os dois ganhava cada vez mais força com o tempo. Quando, entraram para os Combatentes do Gelo. No treinamento ambos repetiram o que já faziam: Um auxiliando o outro naquilo que tinham dificuldade. E foi assim, que conquistaram o titulo de Combates do Gelo. Era o sonho de Paul desde quando era criança e influenciado por seu melhor amigo, John que antes só queria uma vida calma, também tornou-se membro do exercito de Freijord. Quando se pegou olhando para aqueles olhos azuis, não conseguiu conter todas as vezes que o havia observado, confuso em meio a tantos sentimentos divergentes. Mas, John sabia que agora não tinha volta. Tinha que fazer o que havia planejado, antes que fosse tarde demais.

-É, eu sei, desculpe. Mas é muito importante, cara... – John, sério, disse essas palavras. Não tirando os olhos de Paul.

- Ei ! Aconteceu algo ? – Respondeu Paul, preocupado com o semblante sério do amigo.

- Sim... Não... É complicado dizer – Gaguejou. – É o seguinte – Respirou fundo – É que...

- Diz logo ! Está me deixando nervoso – Praguejo Paul.

John buscou palavras para tentar dizer o que queria, mas não as achou. Buscou força, mas suas pernas tremiam. Olhou para o céu e sentiu o vento gelado bater no rosto. Era agora. Tinha que ser. Ele sabia que não havia volta. Então, usando toda força de vontade que tinha para controlar a tremedeira, retirou a caixa de madeira do bolso e a entregou a Paul. Sem pestanejar e já irritado, Paul tirou a tampa e olhou o fundo do objeto. Mas, descobriu que seria melhor nunca tê-la aberto...

- Isso... Espera pouco... Isso aqui... John. Isso é... Não acredito! Por Anvira! – Enquanto gaguejava, o semblante de Paul mudava para branco neve e espanto terror. – John, o que você fez?! POR QUE ESTÁ ME ENTREGANDO UM CORAÇÃO DE GELO ?! POR QUE ESTÁ ME ENTREGANDO O SEU CORAÇÃO ?!

John ficou em silêncio, enquanto encarava seu amigo. Enquanto dos olhos saia uma lágrima, ele mais uma vez respirou fundo. Já imaginava essa reação do amigo, já que havia feito exatamente o que ele disse: Havia lhe entregue seu coração.

Há muito tempo atrás, na época em que Freijord ainda estava sendo construída, um casal sofreu um grave acidente provocado por um avalanche. A mulher não havia se machucado tanto, entretanto o homem estava preste a morrer. A moça, que estava vendo seu amado morrer, rogou pelos Deuses em busca de ajuda. Ela queria tudo, menos assistir a morte daquela pessoa que amava mais do que a si mesmo. Anvira, a Deusa Fênix Criogênica, ouviu o apelo da mulher e lhe fez uma aparição. Invés que lhe salvasse, a mulher rogou para que a Deusa salvasse o homem, já que ela não se via nesse mundo se ele não estivesse ao lado dela. Comovida com o amor dos dois, a Deusa lançou uma maldição em uma adaga ali presente: Aquele que por amor verdadeiro apunhalar seu coração terá o direito de dar mais uma vida à pessoa amada, em troca da sua. E foi o que ela fez: Apunhalou seu coração e como magia, uma pedra cravejada com safiras azuis apareceu ao lado do homem. A pedra brilhou intensamente e enquanto o homem ganhava suas forças novamente, aos poucos, a mulher padeceu, até morrer. A história percorreu toda Freijord e movidos mais por curiosidade do que por necessidade, vários perderam a vida, tentando dar ao amado(a) uma vida extra. O alto escalão político achou a adaga extremamente perigosa e trancafio-a, proibindo qualquer cidadão de “testar” o seu amor, utilizando a maldição da adaga. Desde então, essa lenda ficou conhecida como a lenda do Coração de Gelo.

John havia escutado essa história quando era criança, de um ancião. Desde então, ficou fissurado pela lenda e suas nuances. Pesquisou muito e utilizou toda a sua inteligência até achar a adaga. Ele a queria apenas por curiosidade. Não havia nenhuma pessoa que amava tão intensamente. Sabia que pelo histórico da arma, apenas o amor verdadeiro ativaria sua maldição. Porém, com o passar dos anos, achou uma utilidade para a arma. A medida que ficava cada vez mais perto de Paul, sentia-se estranho. Como se não fosse ele mesmo. Ficava rubro quando ao amigo o olhava atentamente e estranhamente feliz quando o via sorrindo. O ódio queimava-lhe as veias quando via Paul conversando com alguma garota da cidade e dava pulinhos de alegria quando ele ia vista-lo em casa. Tinha desejos estranhos ao olhar os braços musculosos do amigo e quase todas as noites sonhava com John. De inicio, não soube o que realmente sentia e de forma alguma se sentia livre para conversar com outra pessoa sobre isso. Resolveu esquecer essa história e criou como estratégia observá-lo de longe. Porém, era impossível. Cada dia que não o via, considerava um dia perdido. Quando o encontrava, sorria discretamente por fora e por dentro soltava urros de vitória. Foi então que ele desistiu de resistir afirmou para si mesmo: Ele estava perdidamente apaixonado pelo seu melhor amigo.

Assim que Paul abriu a caixa, a pedra reluziu de forma intensa e a luz começou a ser absorvida pelo corpo dele, de maneira automática. John sentiu as forças se esvaecendo até cair no chão.

-O QUE VOCÊ FEZ, JOHN ?! O QUE VOCÊ FEZ, DROGA ?! – Gritou assustado Paul, largando a caixa e correndo para acudir o amigo. A pedra já havia sumido e vendo que o amigo estava cada vez mais debilitado, acomodou a cabeça de John em sua perna.

- Eu te amo – Disse, com a voz vacilante. Soltou um singelo sorriso, lembrando de quantas vezes queria ter dito aquilo mas não tinha coragem. – Eu te amo mais que a mim mesmo e sei que é um amor impossível – Tomou um longo suspiro. Estava cada vez mais difícil respirar. – Sei que parece besteira... – Pausa. Pele mais gelada que o normal – Mas essa foi a única maneira que encontrei de declarar o que sinto. Lhe dou a minha antes da guerra, pois não teria forças suficientes para lhe ver morrer...

-E-Eu Não, n-não to acreditando... – Gaguejou Paul, com a revelação do amigo. – Por favor, cara.Diz que isso não ta acontecendo! – John chorava. Sabia o que estava acontecendo.

John sorriu. Era sempre engraçado ver as caras e bocas de Paul.

-Por favor – Respiração ofegante. – Não me odeie. – Fechou os olhos, estava difícil mantê-los abertos. – Sei o que fiz e para mim não parece errado morrer pelo aquilo que você ama... – Um longo suspiro e depois silêncio.

Paul encostou o rosto no peito gelado do colega. Nada batia ali. E então chorou como nunca havia chorado antes. Chorou, pois havia perdido a chance de dizer a única coisa que queria dizer a John há algum tempo.

Eu te amo.

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