As palavras de Benn fazem o coração de Misuki bater de forma mais descompassada ainda por seu peito, bate tão depressa que é como se quisesse sair por sua boca.

Liberdade...

Liberdade...

Uma palavra tão simples, mas com um significado tão grande...!

Ela não é capaz de negar que deseja sua liberdade como jamais desejou nada em sua vida... Apesar de tudo, leva uma vida que pode ser considerada infeliz, vivendo ali, sozinha e recebendo as visitas de seu amor quando convém a ele.

E agora, esse estranho vem lhe falar de liberdade... Mexendo com sentimentos que estavam literalmente enterrados em seu coração... E que ela sempre fez de tudo para manter assim, enterrados...

E agora...

E agora esse estranho chega e o desperta, e, mais uma vez, Misuki sente seu coração clamando por uma liberdade que ela não pode ter... Por uma liberdade que ela aceitou de bom grado perder por conta do imenso amor que ela sente pelo Mago das Trevas...

Lágrimas voltam a inundar sua face, o reflexo de seu mais profundo desejo, o desejo por algo que não pode mais ter...

− Misuki... – a voz de Benn é de pura compreensão.

− Não... Por favor... Por favor... Pare de falar... Eu não quero ouvir mais nada...! Eu... Eu estou muito confusa...! Não sei o que pensar...!

Benn apenas sorri, um sorriso que deixa bastante claro toda a pena que ele sente de Misuki, mas também seu sincero desejo de ajudar...

− Agora eu me vou, Misuki, mas, pode ter certeza de que eu voltarei, pense bem no que eu disse... Posso dar sua liberdade de volta para você, se esse for o seu desejo. Até breve, minha bela, nos veremos de novo.

E, após dizer estas palavras, Benn desaparece do campo de visão de Misuki, desaparecendo nas trevas da noite...

Misuki apenas observa o Cavaleiro Benn desaparecer, enquanto seus olhos continuam a verter as lágrimas mais amargas que já derramou em sua vida... As lágrimas de um desejo que há muito estava adormecido, mas que agora parece ter despertado com força... E com força total...

Liberdade...

Em toda sua vida, sempre desejou duas coisas, a liberdade e que o Mago das Trevas a ame com a mesma intensidade que ela o ama, mas... Os dois desejos sempre estiveram muito distante dela... E, acostumou-se a se contentar com o que tem... Acostumou-se com o fato de que seu corpo desperta desejo em seu amor, de forma que ele a quer só para si...

Mas agora...

Benn não apenas apareceu do nada em sua vida, como também despertou sentimentos que ela jurou a si mesma não nutrir... Sentimentos que ela jurou congelar em seu coração e fingir que eles nunca existiram...

Mas então...

Agora está confusa e, não sabe o que fazer... Não sabe que decisão tomar... A única coisa que ela realmente sabe é que Benn mexeu com ela e... Mexeu de forma profunda, como ela jamais imaginou que alguém seria capaz de mexer...

Secando suas lágrimas, Misuki fecha a porta, voltando para dentro de casa e, começando a pensar em que decisão irá tomar...

*****

Terra...

Katherine está sentada em um banco no parque ao lado de Hyomin. As duas conversam sobre as diferenças entre os dois mundos, Katherine querendo saber mais sobre a Terra e Hyomin sobre o mundo chamado Merat, onde a magia impera.

As duas jovens conversam animadamente, e, Hyomin é a mais animada, querendo saber tudo a respeito deste mundo, e até mais um pouco. Para ela, cada palavra dita por Katherine é uma novidade, e, tudo o que deseja é conhecer este lugar, mas antes, ela sabe que precisa ajudar os novos amigos a encontrar a pedra suprema, O Coração dos Quatro Elementos.

− Uma coisa me deixa muito curiosa, Katherine. – fala Hyomin, como quem não quer nada.

− E o que seria? – Katherine devolve a pergunta.

− Meu mundo é um lugar muito grande, e, mesmo que vocês agora tenham nossa ajuda, como serão capazes de encontrar essa pedra suprema que é a salvação do seu mundo?

Katherine dá um longo suspiro antes de dizer:

− Pra falar a verdade, eu não sei exatamente como vai ser isso. A única coisa da qual eu tenho certeza, é que de alguma forma a senhora Cat sabe. Ela é sucessora de um dos Quatro Grandes Magos e, isso a torna uma mulher incrível e muito poderosa, por trás de toda aquela simplicidade que você viu.

− Se ela sabe, porque ela não vai de uma vez atrás dessa pedra?

− Posso estar errada, mas imagino que ela tenha os motivos dela. E que ela sabe onde está, mas deve existir um caminho a ser percorrido, ou algo assim. Os Magos Guardiões não iriam facilitar a busca do Mago das Trevas, disso você pode ter certeza.

− Quando todos vocês falam desse tal de Mago das Trevas, eu percebo certo medo em suas vozes. Mas, mesmo assim, vocês o desafiam, e eu admiro isso.

− Se o desafiamos é porque não queremos um futuro sombrio em nosso mundo. Todos nós, que lutamos contra este homem, sabemos perfeitamente bem do que ele é capaz, e, acredite, ele se diverte torturando seus inimigos.

− Eu já tenho medo deste homem só de ouvir vocês falando as barbaridades das quais ele é capaz.

− É sensata em temê-lo, porque agora que você tem poderes do nosso mundo, ele também é seu inimigo e, ele não pensará duas vezes em mata-la se você se colocar no caminho dele. E não falo isso para te assustar, mas é porque a verdade, isso pode acontecer com cada um de nós.

− Não se preocupe, Katherine, isso não me assustou. Ao contrário, só me fez ficar com mais vontade de lutar ao lado de vocês, porque acho linda toda esta determinação que vocês possuem.

Ao ouvir as palavras de Hyomin, Katherine sorri, ao mesmo tempo em que sente uma brisa de vento um pouco mais forte que o usual, e, imediatamente, sua expressão facial muda, pois ela sabe perfeitamente bem o que isso significa.

Mensageiro da Morte!

Ela olha para trás e dá de cara com Yana. A mensageira da Morte a encara com seus frios olhos cinzentos, pronta para um combate.

− Bom, Hyomin, acho que chegou o momento de você usar os poderes que ganhou da senhora Cat, pois nós duas vamos lutar!

*****

Na maior universidade da cidade, um rapaz de dezessete anos acaba de sair de sua aula, ele tem estatura mediana, olhos negros, cabelos curtos e negros e, não é musculoso, tendo um porte físico normal para um rapaz de sua idade.

Usa uma cala jeans, uma camisa branca e uma jaqueta de couro por cima. Alguns rapazes o chamam para ir a algum barzinho, a fim de tomarem uma bebida e jogarem conversa fora, mas ele educadamente declina o convite, dizendo que precisa ir para casa.

Começa a caminhar sozinho, pelas ruas pouco movimentadas da cidade, pensando apenas nas aulas que teve aquela noite. Ele vem de uma família muito tradicional e, desde os seus três anos de idade, tem uma rotina de estudos, mas sempre gostou disso. E, além dos estudos, também praticou karatê durante a juventude, o que fez com que aprendesse alguma coisa sobre defesa pessoal, embora a vida inteira fosse um rapaz contra violência.

Está passando por uma das ruas quando olha para frente e tem uma visão que chama a sua atenção. Desmaiada na rua e toda ensanguentada, uma jovem jaz caída. Ele corre em direção a ela, e vê que ela está toda ensanguentada. A jovem possui longos cabelos alaranjados e, suas vestes brancas estão todas sujas de sangue.

Se ajoelha no chão e, segura a jovem em seus braços, fazendo de tudo para reanima-la.

− Senhorita... – sua voz é ansiosa – Por favor... Por favor fala comigo... Diz alguma coisa...

Aos poucos, a jovem vai recobrando os sentidos e, seus olhos alaranjados se encontram com os olhos negros dele, e, o rapaz suspira um pouco aliviado e, ao mesmo tempo, preocupado.

− Senhorita, o que aconteceu com você...? – pergunta o jovem, a voz carregada da mais genuína preocupação.

− Quem... Quem é você...? – Mitchiko pergunta, a voz mostrando o quanto ela está fraca.

− Meu nome é Arzus. Mas, me diga, o que aconteceu, senhorita? Por que está tão ferida?

− Fui atacada... Por uma Mensageira da Morte...

Arzus simplesmente não entende uma única palavra dita por ela, mas, mesmo assim, sabe que não pode deixá-la, ali, que ele precisa ajudá-la.

− Senhorita, como se chama?

− Mitchiko...

− Vou levá-la para um hospital, senhorita Mitchiko. A senhorita será tratada e depois eu a levarei até a sua casa.

Mitchiko não escuta as palavras de Arzus, pois perde a consciência nos braços do rapaz. Sem alternativa, Arzus pega a moça em seus braços, pronto para levá-la até um hospital. Por sorte, o hospital de sua família está a apenas algumas quadras dali e, não vai demorar muito até que ele chegue.

Caminha com a jovem ferida em seus braços com passos leves e ao mesmo tempo apressados, só tem medo de, n caminho, se encontrar com algum guarda, pois não terá como explicar porque tem uma donzela ferida em seus braços, muito menos como ela se feriu, e, pelas palavras que ela lhe disse, tem a mais absoluta das certezas do que ela tem algum problema mental, pois a coisa coerente que ela disse foi o nome dela.

Mitchiko...

Esse é o nome dela... Um lindo nome, e, não pode negar, sentiu alguma coisa quando olho no fundo dos olhos alaranjados da moça. Seria compaixão...?

Caminha com a jovem em seus braços e, quinze minutos depois, está na porta do hospital que pertence a sua família. Não é questionado ao entrar e, logo uma equipe médica chega para atender a jovem de cabelos alaranjados. A moça é deitada em uma maca e é levada para ser atendida na emergência, enquanto Arzus permanece ali, na sala de espera e com os olhos aflitos, querendo saber se a jovem ficará bem.

*****

Os olhos negros de Embla estão fixos nos olhos igualmente negros de seu irmão. Seu rosto, um misto de alegria por vê-lo novamente e, tristeza por saber que ele agora luta do lado inimigo...

− Irmão... – esta única palavra saí da boca de Embla com sua voz embargada por uma emoção inexplicável.

Uma emoção sem tamanho... Um misto de sentimentos que lutam por assumir o controle de seu coração e de todo o seu ser.

Enzo encara a irmã com os seus olhos negros repletos de uma grande frieza, pois não lembra quem ela é. A única coisa que consegue pensar é em acabar com a vida da Maga a sua frente, pois esta foi à ordem dada por Seu Soberano e ele deve cumpri-la.

Markhos nota o quanto este encontro mexe com Embla, sempre foi um ótimo observador e, além disso, muito bom em ler os sentimentos das pessoas, por isso, entende o que se passa no coração de Embla.

Prometera a ela que não nunca mais iria tocá-la e, esta é uma promessa que pretende cumprir. Porém, em nenhum instante prometeu que não lutaria por ela e, neste momento, é exatamente isso que ele pretende fazer, lutar por Embla!

Ela não precisa fazer isso quando ele pode e deve lutar por ela!

Dá um passo a frente, se colocando entre os dois irmãos.

− O que pensa que está fazendo? – questiona Embla.

− Me colocando entre você e seu irmão, senhorita Embla. – Markhos evita olhar nos olhos negros da maga.

− Essa luta é minha! Não precisa fazer isso!

− Preciso, porque eu sei que você não é capaz de dar continuidade a isso, você não é capaz de lutar contra seu irmão, senhorita Embla! Percebo isso não apenas em seu olhar, como também em seu coração! Eu quero o seu bem, e vou protegê-la, nem para isso eu tenha que protegê-la de si mesma!

As palavras do homem despertam sentimentos estranhos em Embla, os quais ela não quer pensar! Não precisa que Markhos se intrometa em seus assuntos! Não precisa mesmo! Enzo é um assunto somente dela! Ele não precisa mostrar que é um homem que precisa proteger uma donzela em perigo, até porque ela não é uma donzela em perigo!

Ela é uma poderosa maga da casa do vento e, está disposta a mostrar isso para ele agora!

− Sai da minha frente! – Embla não perde tempo em dizer – Eu não preciso da sua ajuda e nem me lembro de ter pedido por ela! E por favor, não se intrometa, porque isso é um assunto meu!

− Senhorita Embla...

− Já disse, isso é um assunto meu! Agora por favor, Markhos, saia da minha frente! O Enzo é uma assunto meu!

Sem alternativa, Markhos abre espaço para que Embla passe e, ela o faz, voltando a encarar o seu irmão, que olha para ela com ódio. Um ódio desmedido que ela sabe que foi cultivado de alguma forma perversa pelo Mago das Trevas!

− Pronta para morrer, maguinha? – a voz de Enzo é fria como o gelo.

− Não para morrer, mas para fazer com que você enxergue a verdade, Enzo! – fala Embla, a voz um tanto conflitante.

− Eu vim aqui para mata-la e, dessa vez ninguém vai me impedir!

E, após dizer estas palavras, Enzo parte para o ataque, criando em suas mãos um pequeno tornado e o lançando na direção de Embla, que desvia sem qualquer dificuldade.

O Mensageiro da Morte sorri e salta, lançando, rajadas de vento cortantes contra Embla, ao mesmo tempo em que dá no ar um giro de trezentos e sessenta graus e aparece nas costas da Maga da Casa do Vento, acertando nela um chute nas costas e lançando-a longe, para ser atingida por suas rajadas de vento cortante.

Embla sente suas vestes se rasgarem nas costas, devido ao ataque de seu irmão, mas, ela não se deixa abater e, com os olhos inflamados pela fúria, se levanta e envolve seus braços com poderosos tornados, se lançando em seguida contra o seu único irmão.

Enzo consegue repelir os socos de Embla com perfeição, ao mesmo tempo em que dirige a irmã de quem não se lembra um sorriso que é de pura maldade. Ignorando o laço de sangue que os une, Embla consegue acertar um chute em seu irmão, lançando-o longe com este ataque.

Os irmãos voltam a se atacar, as mãos de ambos envolvidas por tornados, em um brilhante jogo de ataque e defesa, onde um descuido de uma das partes pode vir a ser fatal.

Os olhos de Embla estão focados em todos os movimentos do irmão, e, dessa vez, ela quer não apenas vencer, mas encontrar uma maneira de trazer o seu irmão de volta. De fazer com que Enzo volte a ser o rapaz gentil de outrora, não esse Mensageiro da Morte impiedoso de agora!

Como irmã, é seu dever ajudá-lo e, é por isso que essa luta é dela e de mais ninguém!

Enquanto continuam se atacando, Embla consegue ver uma pequena brecha na defesa de seu irmão e, sabe que é através desta brecha que ela conseguirá sua vantagem na luta. Com a mão esquerda, dá um soco para atingir Enzo, soco este que o Mensageiro da Morte desvia com agilidade, mas é isso que Embla quer e, e, no momento em que Enzo desvia de seu soco, a Maga da Casa do Vento lança uma poderosa rajada de vento à queima roupa, da qual ele não é capaz de desviar e é atingido em cheio.

Com a força do golpe recebido, Enzo é lançado Longe e, totalmente tomada por seu desejo de fazer algo para ajudar o seu irmão, Embla volta a ataca-lo, pois não vai perder a vida para ele! Ao contrário, vai fazer com que ele se lembre dela custe o que custar!

Com suas mãos, cria verdadeiras correntes de vento e, com elas, tenta aprisionar seu irmão, mas Enzo se recupera rápido do golpe recebido e volta a se levantar, para novamente partir ao ataque.

Ataca Embla com fortes rajadas de vento, colocando toda a sua força nesses poderosos golpes, a Maga desvia de alguns e é atingida por outros nos momentos em que consegue atacar, conseguindo acertar vários golpes em seu irmão, o combate seguindo de forma equilibrada entre os dois.

Embla começa a sentir o suor por seu rosto, enquanto continua a bloquear os golpes de seu irmão. Lança um tornado contra Enzo e toma alguma distância, a fim de recuperar o ar que começa a lhe faltar.

E é então que Enzo aproveita o momento para lançar duas poderosas correntes de vento contra Embla, que não consegue desviar a tempo e é lançada contra uma árvore. Enzo não dá tempo da irmã se levantar e se aproxima dela, pegando-a pelo colarinho e a empurrando contra o grosso carvalho, fazendo com que Embla perca o ar.

Em vão, a Maga da casa do vento segura a mão de Enzo com as suas duas mãos e, tenta se soltar, mas a pressão que Enzo faz contra o seu pescoço é tão forte que a falta de ar vai fazendo com que pouco a pouco o ar lhe falte, e, ela acaba por soltar as mãos do irmão.

− Vai morrer agora, maguinha! – anuncia Enzo, com um olhar demasiado frio.

Mesmo contra a sua vontade, os olhos negros de Embla começam a verter amargas lágrimas, pois, mais uma vez, falhara em seu dever... Havia dito que ajudaria Enzo a se lembrar de quem ele realmente é, e, falhou miseravelmente nesta missão...! Sendo derrotada mais uma vez por seu irmão!

Enzo cria em suas mãos um poderoso tornado e, está prestes a lança-lo contra Embla, mas, inesperadamente, a terra começa a tremer de uma forma tão forte que ele perde o equilíbrio e, acaba soltando Embla, a fim de se manter de pé. Olha para trás e vê Markhos o encarando sem qualquer sentimento em seus olhos, ao mesmo tempo em que Embla tenta recuperar o fôlego e também olha estarrecida para o homem que criara aquele terremoto... Por ela... Para protegê-la...

− Não deixarei que machuque a senhorita Embla! – a voz de Markhos é a da mais pura e genuína determinação.

Notas finais
CONTINUA...