O Coração Dos Quatro Elementos
23 Sob a Luz do Luar
Terra...
Lia encara completamente surpresa o albino a sua frente. Quem é esta pessoa? Amigo ou inimigo? Da Terra ou de Merat? São tantas perguntas... Sua cabeça está a mil, e, sente como se um milhão de agulhas estivessem perfurando o seu cérebro... Uma dor sem tamanho toma conta de sua cabeça, enquanto a confusão continua dominando-a por completo.
O homem a sua frente continua sorrindo para ela, como se a conhecesse ou, conhecesse alguém muito parecido com ela. Seus longos cabelos continuam sendo levados pela brisa do vento, seus olhos mostrando uma vontade imensa de ajudar.
− Estive te procurando por muito tempo, Lia. – fala o homem.
Ao ouvir seu nome sendo pronunciado por aquele estranho, Lia se surpreende completamente, pois, como ele sabe quem ela é? Seu olhar perdido e confuso parece transparecer seus sentimentos, pois, o albino continua a sorrir para ela, como se fosse capaz de ler todos os seus pensamentos conflitantes.
− Está se perguntando como eu sei o seu nome, não é? – continua o albino.
− Sim... – é tudo o que Lia consegue dizer.
− Minha cara Lia, eu estou aqui para falar com você a pedido de seu pai.
− Como se ele está...?
− Morto? – o homem sorri – Isso foi muitos anos atrás, minha jovem, quando ele soube que sua quebra de votos havia gerado uma vida. Nessa época, um pouco antes de ser assassinado, ele me pediu para que a ajudasse.
− Me ajudar....? Me ajudar com o que...?
− A entender melhor a natureza de seu coração e, principalmente, a te ajudar a escolher o caminho certo, minha cara Lia.
− Eu não compreendo...
− Se você quiser a minha ajuda, pode ter certeza de que eu vou te ajudar a compreender. Mas, eu só o farei se você quiser, Lia, porque não vou e não quero te obrigar a nada.
Lia continua a encarar aquele homem a sua frente. Não sabe explicar porque, mas, algo no fundo dos olhos vermelhos dele lhe inspira confiança... Uma confiança muito grande...
Sente que, verdadeiramente ele quer ajudá-la então por que não? Por que não se deixar ajudar?
− E então, você vai querer a minha ajuda, Lia? – o albino volta a perguntar.
− Como posso aceitar sua ajuda se eu nem ao menos sei o seu nome? – questiona a morena, ainda confusa.
− Então é isso? – o albino não consegue deixar de sorrir – Perdoe-me por não ter me apresentado, minha cara Lia. Meu nome é Nicholas.
Após dizer seu nome, o jovem albino estende seu braço, oferecendo a sua mão para que Lia a segure. Sem pensar duas vezes, a jovem filha do Mago Guardião da Casa do Vento segura a mão de Nicholas e, eles começam a caminhas pelas areias da praia, com passos lentos e, sem pressa, Nicholas vai conduzindo Lia, que, mesmo sentindo que pode confiar nele, ainda se sente um pouco insegura, pois não faz ideia de onde este homem que surgiu do nada pretende leva-la.
Só espera que, ao chegarem seja lá onde for, que ela tenha todas as suas perguntas respondidas.
*****
Merat...
Misuki termina de dar comida para Alexya e, leva a menina para sua cama e, a colocando para dormir. Não demora muito e a criança cai no sono, deixando a mulher sozinha com os seus conflitantes pensamentos.
Ela vai até a sala e se senta no sofá. Sente um forte aperto em seu coração, como se pressentisse que um tempo ruim e de escolhas está chegando para si. E, por mais que tente espantar estes pensamentos de sua mente, ela não consegue, pois sente seu coração cada vez mais aflito.
Se levanta, vai até a cozinha, abre a geladeira e pega uma jarra de água gelada. Abre o armário, pega um copo, o enche e, bebe o conteúdo em goles delicados. Após beber sua água, guarda a garrafa na geladeira e, olha pela janela, tendo quase certeza de que viu uma sombra passar por ali, e, não uma sombra qualquer, mais uma sombra humana.
Deixa a cozinha e, vai até a porta de sua casa, abrindo-a. Como sempre faz quando abre aquela porta, coloca sua mão no escudo invisível, e, quase é capaz de chorar, sentindo falta da liberdade há muito tempo perdida.
Mas, seus pensamentos são paralisados quando vê novamente uma sombra humana. E, dessa vez, ela tem certeza de que é humana.
E mais!
Dessa vez ela tem certeza de que conhece aquela sombra! Tem certeza de que não é a primeira vez que a vê! Tem certeza de que esta sombra é a sombra do Cavaleiro que há dias a vem observando!
E, essa certeza faz com que seu coração comece a bater de forma totalmente descompassada em seu peito.
Sabe que precisa fazer alguma coisa! Mas o que? E se o Mago das Trevas tiver razão, no fim das contas? E se essa pessoa que estiver aí fora for na realidade um inimigo? O que fará? A verdade é que tem medo por si própria, mas também teme por Alexya, essa doce criança que fora trazida para que ficasse sob seus cuidados por alguma razão desconhecida.
O que fazer? Ficar ali parada ou enfrentar os seus medos e deixar claro que sabe que há alguém nos arredores da floresta?
Seu coração bate de forma quase que descontrolada em seu peito enquanto pensa nas opções, pois as duas são perigosas.
“Pense, Misuki... Pense...!”
Em seu quarto, sabe que Alexya dorme profundamente. E, além do mais, está protegida contra qualquer pessoa que venha de fora por conta do escudo criado por seu amor. E, este escudo é tão poderoso que só ele pode desfazê-lo e, somente Lícia, seu braço direito, é capaz de adentrar ali.
Com isso em mente, respira pausadamente, toma um último fôlego e, sua voz se faz ouvir:
− APAREÇA!!! EU SEI QUE ESTÁ AÍ!!! APAREÇA!!!
E, para seu espanto, das sombras das árvores surge o Cavaleiro misterioso. O homem faz seu coração começar a bater de forma ainda mais descompassada, talvez por sua altura ou por seu olhar, ela não sabe ao certo. Percebe compaixão nos olhos cor de mel do sujeito e, por mais estranho que pra ela possa parecer, não sente medo, seu coração lhe diz que pode confiar neste Cavaleiro Misterioso.
− Quem é você? – Misuki se vê perguntando.
− Meu nome é Benn, e, eu esperei muito tempo, para poder falar com você, Misuki.
*****
Terra...
Em um cemitério, um homem de vinte e oito anos de idade encara uma lápide. Em seus olhos, uma profunda tristeza, mas, ele é incapaz de derramar uma única lágrima sequer. Este homem tem a pele muito pálida, alto, o corpo bem modelado, musculoso devido a anos de treinamento, mas nada exagerado, tudo na medida certa. Olhos de um azul intenso, cabelos curtos, negros e arrepiados. Ele usa uma camiseta preta com gola V um pouco longa e calça jeans, que tem dois rasgões no joelho, e, em sua testa, ele usa uma faixa vermelha.
Está ali naquele cemitério por um motivo bastante especial. Hoje, se completam sete anos de falecimento de seu amado irmão, e, para ele, parece que foi ontem.
Sete anos...
Sete longos anos e ainda não se acostuma com o vazio que seu irmão deixou em sua vida. Ainda tinha seus pais, porém, não era a mesma coisa, pois desde que era apenas um garotinho era muito grudado em Riuma, seu irmão mais velho.
Na verdade, o que Riuma fez a vida inteira foi o trenar, até o dia de sua morte. Os treinos foram capaz de deixá-lo muito forte e, mesmo depois da morte de seu amado irmão, não conseguiu deixar a rotina de treinar diariamente.
Para o que exatamente ele treina tanto não sabe... Na verdade, ele nunca soube, pois Riuma apenas lhe dizia que um dia, todos os treinos para que se tornasse forte fisicamente valeriam a pena.
Até hoje, não entende o motivo de Riuma tê-lo treinado a vida inteira. Lembra-se uma vez, quando havia acabado de completar o seu décimo oitavo aniversário, que questionara o irmão por conta de tantos treinamentos e, ele lhe dissera que foi por conta de um sonho.
E, no dito sonho, um homem, que literalmente parecia ser de outro mundo, lhe pedira para que treinasse o irmão nas artes marciais, e que, chegaria o dia em que o irmão seria consagrado por uma força sagrada, e que, quando este dia chegasse, ele deveria estar pronto.
Ele nunca fora capaz de compreender as palavras que o irmão lhe dissera aquele dia. Mas agora, anos depois, isso pouco importa. Considera sua força um legado deixado pelo irmão e, no dia em que o irmão morrera, prometera a si mesmo que iria considerar sua força, proveniente de anos e anos de treinamento, como o legado deixado por seu amado irmão.
Sente a suave brisa do vento e, é como se ela, de algum modo, aquecesse o seu frio coração e, sem que ao menos se dê conta, um esboço de sorriso surge em seus lábios.
Sabendo que já ficou tempo demais naquele lugar, ele vira as costas, a fim de deixar aquele lugar e voltar para casa e, ao fazer isso, esbarra em Belinda.
− Belinda, o que faz aqui? – ele pergunta, ao ver a amiga sorrindo para ele.
− Estava a sua procura, Caio. – responde Belinda, sem deixar de sorrir – E, eu sabia que o encontraria aqui.
− Como tinha tanta certeza?
Belinda segura o braço de seu amigo, o conduzindo para fora do cemitério e, quando finalmente eles deixam o triste lugar, ela volta a sorrir.
− Eu preciso de você, Caio. – a voz de Belinda se faz ouvir.
Caio então para e, encara a sua amiga, sem entender o que ela quer dizer com “eu preciso de você”.
− O que quer dizer com isso?
− Exatamente o que você ouviu, que eu preciso da sua ajuda, Caio.
− Minha ajuda para o que?
− É complicado de se explicar, mas, em resumo, eu vou para um lugar perigoso e, vou precisar de ajuda. Não sei por que, mas imediatamente pensei em você.
− E que lugar seria esse?
− Aí é que está, Caio. É complicado de se explicar. Se você aceitar vir comigo, te levarei até uma pessoa, ela lhe explicará tudo o que você quiser muito melhor do que eu. A história pode parecer incrível e até surreal no começo, mas eu garanto que é real, eu vi, com meus próprios olhos. Eu preciso de alguém em quem eu confio para ir comigo até este lugar e, este alguém é você.
− Se você precisa de minha ajuda, Belinda, poderá contar com ela. Irei com você aonde quer que seja e, te ajudarei no que for possível. Afinal é para isso que servem os amigos.
− Eu agradeço muito, Caiu.
− Não há o que agradecer, minha amiga.
Os dois vão caminhando para o apartamento de Belinda e, durante todo o percurso, Caio deixa Belinda à vontade, para ela contar o que quiser contar. E, a mulher apenas fala de coisas como o bem, o mal, lutas... Paz... E o desejo em seu coração de ajudar pessoas que conheceu há pouco tempo, mas que sente a grande necessidade de ajudar.
E, durante todo este tempo, Caio apenas tenta compreender, embora não consiga. Mas, mesmo assim, ele sabe que não deixará Belinda na mão e que, irá com ela seja lá pra onde for.
Chegam ao apartamento de Belinda e, ela abre a porta, indicando para que ele entre e, ela entra em seguida. Os dois caminham até a sala e é então que Caio vê que ela não está sozinha, mas com várias visitas. Duas das meninas ele reconhece sendo alunas dela, mas as outras pessoas são completamente estranhas para ele.
− Cat, onde estão Markhos e Embla? – pergunta Belinda, estranhando a ausência dos dois.
− Eles deram uma saída. – responde a Sucessora do Mago Guardião da Casa do Fogo, e, sua atenção então se volta para o recém-chegado – Este é o homem do qual você falou?
− É sim. – Belinda responde com um sorriso – Cat, este é Caio, meu amigo de infância.
*****
A noite já caia e, uma bela lua cheia ilumina o céu da cidade, acompanhada de um tapete estrelado, que faz com que a noite seja bela.
Ao lado de Markhos, Embla caminha por um parque. O lugar é adorável, árvores de cerejeira enfeitam todo o local, dando uma visão maravilhosa para todas as pessoas que passam ali.
Os dois passam por uma ponte e, embaixo deles, um rio de águas cristalinas, uma água tão limpa que, as pessoas que ali param conseguem ver perfeitamente os peixes nadando e, algumas vezes, saltando na água para pegar pedaços de pão que as pessoas costumam jogar para eles.
E, é exatamente nesta ponte que Markhos para. Ele se debruça sobre a ponte e, calmamente, começa a observar o lago, como se ele estivesse sozinho e, sem nenhuma preocupação no mundo, apenas para admirar o momento.
E, a calma do homem acaba, de certa forma, incomodando Embla, pois, quanto mais ela tenta entender o misterioso homem que está em sua frente, mais ela percebe que, ele se parece muito com um enigma e que, ela está longe de resolvê-lo.
Sem escolha, ela se coloca ao lado do homem mas, ao contrário dele, que observa o movimento do lago, ela observa o reflexo do rosto dele na água, e, novamente em seu coração vem o desejo de compreender este homem.
Ficam em silêncio por alguns minutos mas que, para Embla, parecem horas. E, após vários minutos, ela decide quebrar o grande silêncio e, sua voz se faz ouvir:
− Será que você poderia fazer a gentileza de me dizer por que nós paramos aqui?
Ao ouvir as palavras de Embla, Markhos desvia sua atenção do lago e, os olhos dos dois se encontram. Os olhos de Embla são carregados de indiferença, e, bem lá no fundo, Markhos consegue ver ali certa curiosidade e ele, como um homem experiente, sabe perfeitamente bem o que a deixa tão curiosa.
A Maga da Casa do Ar imediatamente desvia o olhar, o que faz com que um discreto sorriso cruze os lábios do homem e, obviamente, este breve sorriso, não passa despercebido por Embla.
− Será que o senhor poderia me fazer a grande gentileza de me dizer qual é a graça?
− Eu poderia. – Markhos volta a sorrir – Mas será que eu diria?
− E por que não?
− Talvez porque eu saiba que a senhorita não irá gostar da resposta.
− E se eu te pedisse para que você me falasse mais a seu respeito, realizaria o meu desejo?
− Certamente não, Senhorita Embla. Há certos fatos na vida de um homem que devem ser esquecidos. Certos fatos do passado que há muito foram enterrados, e, é lá que eles devem permanecer, enterrados.
− Você é um homem difícil de compreender. – Embla se pega falando e, no mesmo instante, se amaldiçoa por ter externado os seus pensamentos.
Tarde demais para arrependimentos, fecha a cara e vira as costas para o homem. Sua atitude só serve para Markhos rir e, dessa vez, ele o faz abertamente.
− Dessa vez eu não preciso perguntar qual é a graça. – a voz de Embla soa dura, enquanto ela tenta controlar a sua raiva – Eu sei perfeitamente bem que você esta rindo de mim.
− Não de você, senhorita Embla, mas de sua atitude, que me lembrou a atitude de uma menininha mimada.
− E daí se eu pareço uma menininha mimada? O que você tem a ver com isso?
− Realmente, eu nada tenho a ver com isso. Mais uma vez, perdoe-me, senhorita Embla.
E, após dizer estas palavras, Markhos volta sua atenção para o lago, olhando atentamente o movimento das águas, como se estivesse sozinho.
A facilidade com a qual ele desviara a atenção dela e se voltara a fim de observar a água fez Embla se enfurecer ainda mais. Como ele consegue fazer isso com ela? Como ele consegue provoca-la apenas com as palavras?
Ao mesmo tempo em que quer este homem bem longe dela, o irrita o fato de como ele a deixou falando sozinha e se virou para as águas! E, se existem duas coisas que sempre a deixaram demasiado irritada são ser contrariada e ser ignorada.
E, por esta segunda razão, ela, com toda a sua força, segura o braço de Markhos e, faz com que a atenção do homem se volte novamente para ela.
− Qual é o seu problema, senhorita Embla? – a voz de Markhos é dura – Pensei que fosse seu desejo que eu não a perturbasse, e, é exatamente isso que eu estou fazendo, realizando o seu desejo.
− Eu só detesto ser ignorada! – a voz de Embla denuncia toda a sua ira – E é exatamente isso que você está fazendo! Me ignorando por completo!
− Continua agindo como uma garotinha mimada, senhorita!
− E daí? Sua opinião pouco me importa! Mas o que você esconde sim! E não me venha dizer que não esconde algo, pois você confirmou no momento em que disse que certas coisas em seu passado devem permanecer enterradas! E quer saber! Não duvido que você tenha conseguido ludibriar a senhora Cat para conseguir os seus poderes!
− Cuidado, mocinha! – a voz de Markhos torna-se estranhamente séria – Agora você está começando a ir longe demais!
Embla encara Markhos com fúria e, ele corresponde a este olhar com uma raiva que ele está tentando conter. Ao mesmo tempo, seus corações começam a bater de forma rápida e descompassada, em um mesmo ritmo, como se cantassem a mesma canção.
E, sem que ao menos se dê conta, Markhos aproxima os seus lábios dos de Embla, beijando-a. No primeiro instante, seu toque é leve, sem maldade, apenas um roçar de lábios. Mas Embla entreabre seus lábios e o homem começa a beijá-la de forma aprofundada.
Um beijo que é assistido apenas pela lua cheia, que continua a iluminar o céu.
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