O Coração do Espada
9 Escritora Aspirante
Notas iniciais
Uma luz queimava seus olhos, quando redobrou a consciência. Apenas enxergava um clarão rosa, desfocado.
— Oh, já acordou princesinha. Como se sente?
Mesmo ainda não distinguindo visualmente com clareza, ela tentou escapar da maca em que estava deitada. Esteve a poucos centímetros de ter uma queda desajeitada e dolorosa.
— Procure evitar ferimentos desnecessários, mulher.
— Ulqui…orra?
Os braços suspendiam sua cintura numa curta distância do piso. Piscando incontáveis vezes, ela consegue ver na plenitude a face de Ulquiorra, quase colada à sua. O rubor alastrando-se totalmente por seu rosto.
— Obrigada…
O quarto espada recompôs-se, ainda com a ruiva colada em seu tronco. Um gesto que não passou despercebido a nenhum dos três presentes. Sob as lentes transparentes, o arrancar de cabelos róseos ria perante aquela cena, no mínimo, inacreditável. Ulquiorra trouxe uma humana para curar seus ferimentos, ficou todo o tempo ao seu lado como garantia que não a usava para nenhum de seus experimentos e ainda demonstrava preocupação fútil com a mesma. Não era apenas uma questão de mantê-la viva, não eram ordens de Aizen-sama… existia interesse. De ambas as partes, mesmo que nenhum percebesse isso. Ainda.
Ulquiorra colocou um de seus braços pelas pernas de Inoue, saindo do laboratório sem sequer agradecer. Um detalhe que não incomodou o outro servo do shinigami. Longe da audição do morcego, Aporro sentenciou um conselho, que ecoara pelos corredores do palácio de Las Noches, e que talvez alcançassem o destinatário.
— Tenha cuidado. Suas acções pouco discretas só comprovam a importância da humana para si, quarto espada.
Carregou-a cordialmente até os aposentos desta. Sua expressão encontrava-se inexpressiva, mas seu corpo queimava com o calor que recebia do corpo de Orihime. Um formigar percorria a pele que lhe tocava directamente. Com um esforço colossal, ele fugia de todos os pensamentos relacionados a essas sensações.
Ao avistar a porta, quase suspirou de alívio. Receava o desconhecido. E a mulher era um abismo escuro, uma fonte de problemas. Pretendia deixá-la simplesmente em seu quarto e vigiá-la na parte exterior. Seus movimentos inconscientemente tornaram-se mais rápidos, um reflexo de seu ínfimo desespero ao sentir o coração dela bater fortemente contra seu buraco hollow.
— Fique.
Uma simples palavra. Um único apelo. Foi o suficiente para o prender ali, com ela. Para o demover de seus planos. Então esse era o real poder de Inoue Orihime? Persuasão? Ou algo além? Por que ele não fora embora? Pelo tom dela? Pelo seu olhar? Ou pela mão que ela lhe estendeu, num pedido mudo de sentar-se ao seu lado?
Até onde iria o alcance de seu poder?
Orihime sorriu enquanto assistia o espada encostar suas costas no objecto macio, fechando por instantes os olhos. Ela quase cedeu à vontade de acariciar sua face, em remexer em seus cabelos...
Procurando espairecer seus desejos inapropriados, e buscando algo para se entreter, balançava infantilmente as pernas no ar, aborrecida. Criar algum entretimento em Hueco Mundo não era propriamente fácil, exigia muita criatividade. Pulou de repente do sofá, animada, assustando de leve o espada pelo infundamentado entusiasmo. Seja o que for que ela se lembrou, algo perigoso se avizinhava.
— Ulquiorra-kun, em Hueco Mundo existem canetas e folhas de papel? Eu preciso delas urgentemente!
A forma como ela se expressara só demonstrara a inutilidade dos objectos e do que ela pretendia fazer com eles. O arrancar ficou confuso, o que ela planeava? Alguma de suas ideias estranhas de novo? Dirigiu-se até à porta para realizar os caprichos humanos, mesmo não sendo obrigado a fazê-lo. Cumprir ordens de um lixo… Até quando a ironia sorria a Ulquiorra Shiffer?
Ele ficou preocupado. Não por estar a seguir os pedidos rigorosamente de sua prisioneira, ou por esta ter agarrado sua blusa inesperadamente. Na verdade, a aproximação de Orihime, as constantes tentativas de ela o tocar ou outro toque íntimo já não o surpreendiam… e isso era o que estava a preocupar. Estava a cair em suas armadilhas como se fosse um mísero mortal.
Disfarçando todos os conflitos em sua mente, ele desviou seu olhar esmeralda até à ruiva que escondia-se em suas costas, para fugir de seu campo de visão, inutilmente. Seu constrangimento chegava a ser engraçado. Ela entreabria múltiplas vezes os lábios, sem nenhum som sair… desviou o olhar, como se esse facto lhe desse mais coragem para prosseguir com seus actos.
— Só não demore muito, onegai?
Mesmo ela não estando transbordando de medo, ele percebeu o seu receio em ficar só. Talvez temia que o incidente anterior se repetisse. Mas ele não a voltaria a deixar sozinha… Mesmo quando ele estivesse longe, iria estar a observá-la. Por um momento, quase tocou em seu olho, instintivamente.
Ele não comentou nada, não lhe deu qualquer palavra de conforto. O que seria previsível. Não costumava usar o sonido em situações desnecessárias, todavia optou por não seguir as regras dessa vez. Em menos de um minuto ele desapareceu de seu campo de visão e retornou com o que a humana pedira.
— Sempre quis escrever um romance, uma linda história de amor proibido… Mas nunca tive um namorado, e não sabia bem como fazê-lo…
O tom sonhador desfigurou-se em melancólico. Ela queria escrever um conto que se baseasse na sua vida… Orihime acreditou firmemente que esse príncipe seria Ichigo. Mas a princesa dele era outra. Ela esperou por alguém que não estava destinado a amá-la.
— …, mas nunca é tarde para começar! Vou escrever o melhor romance entre o senhor chocolate e a senhora salada! São opostos certos? Uma dieta saudável não inclui ambos… E se alguém come um deles, não comerá o outro ao mesmo tempo… é uma história de amor linda mas trágica… Como Romeu e Julieta!
Enquanto discursava seu monólogo, a ruiva abanava teatralmente os braços. Quase declamando um poema. O quarto espada não considerou sua ideia bizarra, como seus amigos fariam, apenas era fora do comum… aliás o aspecto que mais lhe chamou a atenção foi: “a mulher só pensa em comida?”.
Subitamente, ela parou de enunciar suas ideias românticas, colocando o dedo no queixo, com uma feição pensativa. Até voltar seu olhar para o arrancar.
— Talvez seja um pouco estranho escrever um romance entre comida, não é?
— Com sorte, seus amigos a colocam num hospício.
— Que cruel, Ulqui-kun! Isso não é nada motivador!
— Deixe de me tratar como se fosse um de seus amigos.
Choramingava falsamente, enquanto contorcia os lábios num discreto beiço. Iria continuar a resmungar pela falta de sensibilidade do moreno, porém, seus olhos arregalaram-se com sua nova ideia.
— Já sei! Ulqui-kun você me pode ajudar a escrever!
Se Ulquiorra fosse um humano teria sido brutalmente surpreendido. Talvez começaria a tossir por engasgar-se com a própria saliva, ou deixava de respirar se precisasse de ar para sobreviver. Contudo, limitou-se a encará-la fixamente enquanto erguia uma sobrancelha, quase desconfiado da sanidade da ruiva. Inoue riu do seu jeito “expressivo”. Talvez tenha sido directa demais em sua proposta.
Mordeu nervosamente seu lábio inferior. Perante aquele tema, surgiu uma dúvida que não cessava na mente da humana. Seria inapropriado ela perguntar? Não estaria a meter-se na vida particular do espada? Além do mais, ele poderia não responder e só ignorar. Mas perguntar não ofende não é mesmo? Ulquiorra já demonstrou ser alguém com tendências para questões, mesmo que ele ignorasse “um pouco” a dos outros.
— Você já teve uma namorada, Ulqui-kun?
— Mulher, você só abre a boca para perguntar coisas estúpida? Esses assuntos não me interessam.
O arrancar foi extremamente seco ao responder. Esperava que ela se acomodasse num silêncio profundo, ou que seu olhar mergulhasse numa tristeza demonstrável. No entanto, seu riso contagiou a pequena divisão. Um sorriso que o confundiu. Por que ela ria, sendo ele grosseiro com ela? Até onde ia a felicidade irracional e inexplicável dos humanos?
Não. Não eram “os humanos”, era ela em particular. Orihime Inoue.
De um jeito estranho, ela era especial.
E perante esse mistério, Ulquiorra decide alinhar nas esquisitices da sua prisioneira, disposto a desvendar todos os seus segredos.
— Como pretende começar essa história?
Talvez, o melhor romance estivesse a ser escrito naquele quarto, onde os autores eram as personagens.
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