O Coração do Espada
3 Bipolaridade de Ulquiorra
Notas iniciais
“Fique aqui e se comporte.”
Ordens e mais ordens ecoavam na mente da ruiva, presa dentro do seu quarto branco que era, nem mais nem menos, sua prisão. Ela olhou para fora da janela, encarando a lua crescente estranhamente imóvel no céu nocturno que era a única fonte de luz naquele lugar. Ela tomou a bainha de seu vestido branco, segurando o material de seda em suas palmas. Raiva corria em suas veias, como nunca antes.
Ela era uma prisioneira. Uma cativa naquele palácio incrivelmente alvo, curiosamente a sua cor simbolizava a pureza que na realidade este não possuía.
“Inesperadamente ele combina com você.”
Seu aperto no vestido afrouxou quando os seus pensamentos se desviaram para o sequestrador dela, mais propriamente quando pela primeira vez escutara um elogio da parte dele. Quando fora obrigada a vestir aquela vestimenta desprezível mas o fizera pelos seus amigos. Ela se sentia imunda porém subitamente ela escutou algo que a animara, ele podia tê-la chamado de desleal para com os seus amigos, mas não. A ajudara. Todavia, alguma coisa fez com que a sua raiva interior retornasse.
“Fique aqui e se comporte.”
Isso era o que ele tinha dito a ela várias horas atrás… Horas? Talvez fossem só minutos. Ela não tinha noção do tempo naquele mundo. Parecia que o tempo não se movia. Como se estivesse congelado num ponto fixo, imóvel. Era assim com quase todas as coisas… Até os pequenos arbustos e árvores mortas que encontrava pela sua janela, não davam a menor noção do passar do tempo, parecia que não tinham a característica seiva a correr em si, nem nunca tiveram. Mas isso era irrelevante naquele momento, ele falara com ela como se fosse um animal.
A humana repreendeu-se por ficar incomodada com isso, afinal era inevitável. O que ela previa? Ser tratada como uma princesa? Ela deveria esperar por um tratamento semelhante mas algo no Ulquiorra era diferente… A fazia sentir-se diferente. Sua maneira de pensar já não era a mesma depois de o conhecer.
Ele parecia outro quando adormecera ao seu lado, parecia mais humano… E por um breve segundo pensou que ele sentisse como ela. Porém, bruscamente, suas fantasias foram desfeitas quando ele lhe dissera aquilo. Sentiu ódio… Não dele, mas dela por ser tão tonta.
Acalme-se Orihime, acalme-se, a raiva não é saudável lembra?
Mas sentir essa raiva a fez-se sentir mais saudável do que ela havia sentido em anos... Seria mesmo errado sentir-se dessa forma?
Ela balançou a cabeça, como poderia ter tais pensamentos!? Aquela estadia lhe estava a transformar em algo horrível. Ela não era assim… Até onde o desespero e o medo mudam uma pessoa?
– Mulher.
O corpo esbelto feminino enrijeceu, ao escutar a voz profundamente monótona contudo não se virou na sua direcção.
– É tempo de seu jantar.
Inspirando, Orihime virou-se para enfrentar o arrancar que tinha entrado em seus aposentos.
Ulquiorra estava a poucos metros de distância da garota de cabelos ruivos, com seu rosto impassível. Inexpressivo. Ela não conseguia compreendê-lo. Eles eram de mundos tão diferentes, como o contraste do sol com a lua. Eles não pertenciam ao mesmo universo, defendiam ideais divergentes. Tinham filosofias de vida opostas. Nas suas divagações, Inoue não tinha notado a bandeja que era trazida por um outro subordinado.
Com fé de reencontrar o quarto espada amistoso que por meros minutos conheceu, ergueu os olhos, encarando fixamente, os seus verdes.
– Coma.
Ele ordenou inclemente, com as mãos nos bolsos.
– Não, obrigado. Eu não...
– Você vai comer, mulher. Aizen-sama ordenou-me para garantir que você come as suas refeições, ele não quer que morra antes de fazer uso de suas habilidades.
O sorriso de Orihime murchou. Ela começara a falar educadamente, precisamente para manter uma relação estável entre eles, contudo ele não parecia minimamente disposto a isso. A prova disso foi a forma brusca e gélida, como cortou sua fala. Ela era um objecto para eles, nada mais. Como ele poderia ser tão frio? Lembrou-se do contagiante e brilhante sorriso de Ichigo. Mas novamente censurou-se pela linha de seus pensamentos.
Ele não virá. Ele está com a Kuchiki-san…
O quarto espada tinha a cabeça indicada na bandeja servida de pão, arroz e legumes diversificados.
– Eu não preciso disso.
Orihime não alterou seu tom de voz, permanecia calmo e angelical. Porém todo o requisito de simpatia que havia nele, evaporou. Ulquiorra direccionou seu olhar para ela por alguns momentos, antes de voltar para o servo.
– Pode ir.
Ordenou sem emoção. Por sua vez, o outro arrancar parecia bastante aliviado, curvando-se e recuando de imediato. Uma vez que a porta fechou, o espada olhou para trás, fixando esses olhos esmeralda nela. A respiração de Orihime ficou presa na garganta... Ele não iria machucá-la, iria?
De repente, ela sentiu que estava sendo apoiada na cadeira ao lado da mesa, antes mesmo que ela percebesse que estava sendo movida. Ele estava ao lado dela, colocando o prato com a comida na frente da ruiva.
– Mulher. Foi-me dada a permissão para usar a força se recusar a cooperar, de modo que pode comer de própria vontade ou pode tê-la forçada em sua garganta.
Seu tom de voz não havia mudado, todavia Orihime detectou uma lasca de frieza sob suas palavras. A ruiva o encarou, com tudo o que ela conseguiu reunir, antes de começar a colocar os legumes lentamente em sua boca, mastigando-os melancólica. Depois de comer quase todos os recipientes presentes na bandeja, com uma mão, ela afastou o tabuleiro.
– Estou cheia.
Ulquiorra olhou para ela. Parecia que ele estava resistindo à vontade de revirar os olhos, mas é claro que ele não podia fazer nada, porque tecnicamente ela tinha comido.
– Certo. Não espere ajuda de ninguém mais tarde, se você ficar com fome.
Após retirar a bandeja da mesa, ele silenciosamente retomou ao caminho para a porta.
– Idiota.
O ritmo do espada diminuiu, antes de continuar novamente, fechando a porta atrás de si. Parecia ter ouvido o murmúrio da prisioneira mas preferiu ignorar. Sem nunca ter demonstrado que aquele comentário o afectou.
Assim que ele tinha saído, Orihime dispôs a cadeira junto da janela gradeada, subindo por ela. Ela não perdeu tempo em inserir os dedos na parte de trás da língua e arremessando-se a comida através das barras. Assim que o vómito assumiu uma forma mais aguada, ela limpou os lábios e novamente sentou-se em seu sofá.
Eu não preciso de hospitalidade falsa…
Ulquiorra caminhava rapidamente pelo corredor principal, depois de voltar da cozinha. Dizer que ele estava irritado seria um exagero. Ele apenas estava ligeiramente incomodado com a atitude turbulenta da garota humana.
– Que mulher teimosa.
Ainda assim, mostrando tal ousadia consigo, estava desrespeitando Aizen-sama... Ele teria de lembrá-la disso da próxima vez que a visse.
– Yo!
O espada parou de caminhar, como não percebeu a presença? Estava tão distraído assim a pensar na mulher? Ela estava a prejudicar sua sanidade mental. Teria de ter cuidado, ela era um perigo. Sentia, que de certa forma, já não era o mesmo.
O possuidor daquela voz, era provavelmente o hollow que ele tinha a menor paciência para aquele momento. Desviou o olhar das paredes alvas para o encarar: Um homem magro de cabelo sebáceo, com um enorme sorriso malicioso, encostado num pilar.
– Nnoitra.
– Como te estás a sair com a mascote?
Na falta de reacção, Nnoitra prosseguiu, jocoso.
– Eu sei o que estás a fazer... Foste designado a cuidar da mulher certo? Que inveja...
Se Ulquiorra fosse humano, ele tinha a certeza de que estaria sentindo náuseas naquele momento. Era desagradável para ele, ter de constatar o sorriso superior do quinto, e em simultâneo, seus olhos que vibravam de alegria, podia adivinhar perfeitamente o que este pensava só de escutá-lo falar.
– Então... O quanto lhe vais ensinar?
– Lixo. Deverias controlar melhor teus instintos, Nnoitra.
– Não sejas tão chato. Eu só estou perguntando se fizeste um bom trabalho, não?
O espada pisca sugestivamente, enquanto Ulquiorra mantinha-se desinteressado no diálogo.
– Estás curioso num ser humano. Previsível de um número inferior.
– O que disseste!?
O quarto espada tivera vontade de suspirar longamente mas se conteve. De facto, muitos súbitos de Aizen eram insuportáveis. Admirava a paciência de seu superior.
– Eu tenho uma reunião com Aizen-sama.
Ignorou completamente a expressão enfadonha do quinto, dirigindo-se ao Salão Principal onde o shinigami o aguardava.
– Ulquiorra! Ulquiorra! Maldito seja, sempre me ignorando!
– Aizen-sama.
O espada curvou-se sob o joelho, mostrando a seu líder o respeito que ele merecia. Aizen sorriu, observando seu arrancar preferido.
– Ah Ulquiorra, entre.
Este ergueu novamente seu tronco, saindo de perto da porta, caminhando até estar diante de seu mestre, reclinado preguiçosamente na cadeira branca.
– Relatório sobre a nossa convidada, Ulquiorra?
–Sim, senhor. A garota humana se estabeleceu em seu quarto e comeu a refeição exigido dela.
–Teve de usar um pouco de força para ela se alimentar?
– Ela foi persistente no início, mas acabou por ceder. Eu não permiti que ela desrespeitasse você, Aizen-sama.
O sorriso do shinigami alargou-se ao constatar a lealdade de seu servo. Um rei, era esse o poder que ele desfrutava dos outros reles seres inferiores. Quase um deus.
– Não se preocupe sobre tais assuntos triviais, Ulquiorra. Deixe a princesa de Las Noches ter um pouco de diversão, certo?
Ulquiorra assentiu, como se contemplando as palavras de seu mestre, em seguida, fez uma reverência.
– Como desejar, Aizen-sama.
– Você gosta dela?
Ulquiorra enxergou os olhos divertidos de seu mestre. Reparou que os cantos de sua boca se elevaram levemente, desenhando um elegante sorriso. Não esperava uma pergunta daquele género, não de Aizen.
– O senhor prefere uma mentira ou a verdade?
A rica melodia de seu superior rindo ecoou por toda a câmara. O espada sabia que não conseguiria escapar a uma resposta. E obviamente, mentir poderia ser perigoso... Audaz, o shinigami perceberia, antes mesmo de ele detectar sua própria mentira.
– Diga o que pensa, Ulquiorra.
– A humana não é nada mais do que lixo. Insubordinada e desobediente.
Doía. Seu peito ardia, inflamava como se chamas o consumissem mas ao desviar rapidamente seus olhos para a zona não via nada. Absolutamente nada. Suas vestes estavam intocáveis, sua pele permanecia intacta. Então porque sentia que algo estava errado? Algo para além do que seus olhos podiam enxergar...
– Oh? Fiquei com a impressão de que ela era um doce, uma jovem educada.
– Aparentemente não, quando algo a irrita.
– Oh, percebo. Bem, é melhor tentar não irritá-la quando você for buscá-la mais tarde para o seu banho.
Se ele fosse um espada inferior, teria estremecido. Era incrível a capacidade que o traidor da Soul Society possuía em intimidar seus inimigos, e até seu exército.
– Sim, Aizen-sama. Noitora parece particularmente interessado nela.
– Tenho a certeza de que esteja, mas eu só confio em você Ulquiorra, com a manipulação do ser humano.
– Certo, Aizen-sama
– Você está dispensado Ulquiorra, encarregue-se de deixar Inoue Orihime confortável em sua estadia, suponho que você tem os requisitos necessários?
– Considere feito, Aizen-sama.
– Bom, agora pode chamar Nnoitra no seu caminho, e é tudo.
– Sim.
Ulquiorra recuou para fora, sem nunca virar as costas para o rei de Hueco Mundo, preparando-se para ter que lidar com o lixo novamente.
Aizen observou curioso o seu súbito leal afastar-se, começando a escutar os passos do quinto a dirigir-se até si. Sorriu, estava integrado com a relação que se estabelecera entre Ulquiorra e Orihime, apesar de o próprio ainda não ter percebido. Mas ele como Deus, sabia tudo.
– Me chamou Aizen-sama?
O arrancar de cabelos longos deslizou através das portas. Por sua vez, o shinigami assentiu com calma.
– Eu tenho uma missão muito importante para atribuir-lhe Nnoitra.
– Verdade? O que seria?
As pupilas do espada dilataram com excitação. O Rei considerou-o levemente por um momento, antes de dizer. Tendo em consideração a informação de Ulquiorra.
– Tomou um certo gosto pela nossa convidada, estou correto?
– Está certo, Aizen-sama.
Inconscientemente lambeu os lábios, vagarosamente, imaginando por um momento ser ele a vigiar a humana... A poder dominá-la. Poder. Era tudo o que importava para um ser sem alma como ele.
– Neste exacto o substituto de shinigami, Kurosaki Ichigo, e seus amigos estão se preparando para vir resgatar Inoue Orihime, sua missão é entrar no mundo humano e pôr fim à operação pequeno resgate. Mas...
O Rei se ergueu do trono, elevando um dedo à altura dos olhos do quinto, fazendo este estremecer por dentro de sua vestimenta.
– E, só para ficar claro, eu quero que ele viva. Eu quero todos eles vivos. Entendido?
– Como desejar, Aizen-sama.
O shinigami sorriu suave novamente, desleixando sua compostura assustadora de segundos atrás. O que Nnoitra agradeceu mentalmente.
– Isso não quer dizer que você não pode se divertir um pouco. Ah, e lembre-se Nnoitra. Existe mais de uma maneira de destruir um homem.
Nnitora mostrou os dentes cintilantes em um largo e aberto sorriso, em êxtase com a permissão recebida. O grande traidor da Sociedade das Almas sabia manusear seus servos, sabia como coordená-los, evitando rebeliões. Aizen sempre alcançava o pretendido porém deixava seus súbitos também usufruírem de alguns privilégios, os mantendo satisfeitos e assim na sua mira, perfeitamente dominados. Numa harmoniosa relação hierarquizada.
– Eu entendo perfeitamente, Aizen-sama.
– Cumpre a tua missão imediatamente.
Nnoitra se curvou numa pequena vénia, diante de seu criador, tentando conter toda a euforia que sentia. O jogo da caçada iria começar.
Em cativeiro e desamparada no palácio melancólico, Orihime peleja com a realidade de Ichigo nunca a vir salvar como nos contos de fada, em que a princesa sequestrada é salva pelo príncipe encantado. Não podia confiar em ninguém, precisava proteger-se… Mas ela pode virar as costas para um determinado espada melancólico?
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