Era noite de lua minguante, o castelo estava apagado.

Sentado no sofá do salão, bebia meu sangue num cálice, ouvia sons de violinos, os morcegos entravam e saíam, minha mansão estava cheia de acordes fantasmas, era uma noite gloriosa.

De repente tudo ficou em silêncio... Não ouvi mais nada, os morcegos tinham entrado em seus ninhos escondidos nos tetos, mas eu não me levantei, continuei "bebendo" o cálice.

E fiquei assim, estático e pensativo. Varei a madrugada inteira até o sol nascer.

Porém durante toda a noite, senti ao meu lado a presença de algo estranho. Movia-se no silêncio, senti subir as escadas, tocar as mobílias ricamente desenhadas que tinha herdado dos meus antepassados, todos, Vampiros mortos com flechas de ferro nos seus corações.

Mas já o sol invadia o castelo quando finalmente, aquela presença que senti à noite toda, ficou diante de mim, e falou exalando pó do seu hálito:

"Porque você é assim, tão acabrunhado Vampiro? Se estou contigo todos os dias?"

Entendendo a pergunta profunda e existencial, falei com uma gota de sangue pingando de um dos cantos da boca:

"Sou assim porque apesar de ter a imortalidade no peito, jamais sei qual é a face da morte".

E a figura estranha me respondeu arrastando seus dedos/ossos pelos meus cabelos compridos e pretos:

"Pois não fique assim..."

E no mesmo instante vi sua face, era a Morte, cadáver suntuoso jamais visto pelos vivos, fiquei estupefacto. Novamente, me olhando nos olhos (com os seus vazados) disse com um brilho roxo em seu peito:

"Vampiro, você vê meu coração... Ele está dentro do teu".

E antes que o sol adentrasse de vez no castelo, olhei para o meu coração, estava sangrando, e a Morte, me interrompendo disse:

"Você não vai morrer agora, mesmo com o sol aqui dentro porque estou contigo. Só quero que saiba, que a eternidade é tua alma, tua expiação, esse é teu coração".

Ela mesma fechou as cortinas longas e negras do castelo, o deixando imerso numa escuridão à luz do dia, e se foi.

Eu subi até o quarto, acendi uma vela negra e disse pra mim mesmo:

"Ainda que eu nunca morra, tenho nas minhas sombras, o beijo da Morte... Mesmo que tenha sido por uma noite inteira até o despertar dos anjos, se é que eles também um dia, sangraram nas trevas..."

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!