O Copiador

3 Parte 3 - Lar Doce Lar


Notas iniciais
Esse é o último, galerinha.

“Podes fugir dos outros, mas não de ti mesmo”

— Sêneca.

Joseph, como sempre acontecera nos últimos dias, acordou com medo e o pior de tudo é que ele sentia que não estava sozinho. Ele estava cercado por algo quente, ele próprio sentia algo quente em seu rosto, algo molhado e quente. Ele não queria abrir os olhos, pois sabia que havia algo pior do que seus pesadelos o esperando: a realidade. Mesmo assim os abriu, contra todos os seus instintos e cada célula do seu corpo mandando não o fazer, mas os abriu.

Joey forçou a levantar-se e percebeu que ele não estava deitado em um colchão macio, nem coberto com cobertores finos ou usando um travesseiro cheio de plumas. Ele estava deitado no chão, seu corpo cheio de sangue e usando uma coxa como travesseiro. Não estava vestido com a calça moletom da qual se lembrara, mas sim uma calça jeans surrada e cheia de sangue, o tronco estava desnudo e coberto não só com sangue, mas com pedaços de alguma coisa que ele, sinceramente, não queria nem saber o que era. Ele estava cercado por membros de todos os tipos: pernas, coxas, braços. Ele ergueu os olhos e os direcionou para frente. O que ele vira não o deixara minimamente surpreso.

Havia quatro cabeças em cima de uma mesa marrom e longa no canto da sala, três homens e uma mulher de cabelos loiros e fartos. Joseph se levantou e foi andando até lá, nem sequer tomou cuidado para desviar-se dos membros, estava cansado. Cansado daqueles dias, cansado de sempre acordar sujo de sangue ou com um glóbulo ocular em seu bolso. Na verdade, estava até se acostumando. Joseph Doss sempre estivera rodeado de mortes, aquilo não era novidade pra ele, mas a culpa que sentia era muito pesada. Ele tinha matado inocentes, mesmo que não fosse ele que controlasse tudo, mas era culpa dele por ter copiado o cara errado.

Havia um tipo de bilhete enfiado entre os lábios da cabeça da mulher. Ele o tirou da boca com facilidade, não fazia muito tempo em que ela estava morta, ainda estava um pouco quente. O papel estava dobrado em três verticalmente e possuía uma letra masculina, porém bem desenhada no papel. Era uma carta. Uma carta de Cliffard Craft.

“Caro Sr. Doss,

Sou eu, Cliffard. Acho que você já me conhece o suficiente para saber quem eu sou e o que eu faço, mas não acho que conhece o bastante de si mesmo. Nós somos dois tipos diferentes de monstros e também possuímos dois tipos diferentes das chamadas ‘doenças mentais’. Acho que devo explicar melhor para você, já que é praticamente um leigo no assunto e eu sei que é, pois tenho acesso a cada memória sua — inclusive aquelas que você mesmo não sabe que possui. Uma vez eu escrevi uma matéria sobre os diferentes tipos de doenças mentais, foi realmente um grande aprendizado, pois descobri realmente minha descrição oficial e por acaso também sei a sua. Bem, eu não sou interessante por aqui. Sou bastante óbvio até para você: psicopata. Sem emoções, calculista, o único prazer é matar e blá-blá. Agora você, meu caro, isso sim é interessante. Você é um ser sobrenatural com um distúrbio totalmente humano, o que lhe faz um monstro é, obviamente, a parte humana.

Devo admitir que no começo não entendi muito bem o que estava acontecendo, fiquei bastante confuso, mas até que gostei de matar a “mim mesmo”, quem tem a chance de fazer isso? Mas quando você acordou e eu fui “dormir” — para deixar você menos confuso —, eu compreendi tudo. O meu eu verdadeiro estava morto, enterrado em alguma vala e eu não era eu mesmo. Não posso dizer que pirei, sou bastante inteligente para saber que eu não sou eu. Então pra que ter tanto trabalho para esconder os corpos? Foi algo que realmente pensei ontem à noite, enquanto você estava apagado e eu no controle. O verdadeiro Cliffard Craft estava morto, você — ou eu, acho que tanto faz agora — o tinha matado, então por que fazer aquele trabalho todo se eu nem ao menos estava vivo?

Bem, foi por isso que eu desenterrei o corpo do outro ontem à noite, e o coloquei no apartamento antigo. A polícia iria para lá novamente, é claro, deixei bem claro o interesse que tive pelos olhos daquela bela oficial e o parceiro dela estava bem ao lado. Se ele tiver o mínimo de capacidade cerebral irá juntar as peças. Eles acharão que primeiro Cliffard foi uma das vítimas do Oftalmologista, mas descobrirão a verdade quando descobrirem o seu armazém de olhos. Dessa parte você pode estar tranquilo.

Quanto à Instituição... Corra. Eles demorarão algum tempo para achar o lugar onde você está e irão atrás de você novamente, então corra, se esconda, mas não mude novamente, pelos menos tente, fique como Joseph Doss.

Você tem Distúrbio de Múltiplas Personalidades, Joey. Quando você copia alguém, não copia apenas a aparência, mas também personalidades, hábitos, maneiras. Vamos, Joey. Tente se lembrar do que realmente aconteceu com o verdadeiro Joseph Doss. Você o chamou para brincar na floresta perto do orfanato e ele — como o bom garoto que era —, aceitou brincar com você, o deformado. Você o matou, abriu sua garganta e jogou o corpo no lago. Assumiu sua identidade, mas com plena consciência de que era um metamorfo e pegou toda a personalidade dele para você. Você é bondoso, inteligente, amável, carismático. Você tem sorte de ter ficado tanto tempo sem ser notado e ainda com o corpo de Joseph Doss. Muita sorte.

Só queria lhe falar isso. E não se preocupe, eu não retornarei, ficarei escondido bem dentro de você, enquanto ainda atua como Joseph Doss, entretanto você adquirirá um certo... hábito meu. E acredite, meu amigo, você não vai resistir.

De: Cliffard Craft”

***

Depois de tudo o que ocorrera com Joseph, ele decidiu ir para o único lugar em que achava que estaria seguro: o seu lar. Stranger Hill foi o local onde ele crescera e matara pela primeira vez, o orfanato agora já estava abandonado, o prédio todo acabado e vazio, mas ainda era um teto e era, apesar de tudo, o seu único verdadeiro lar. Ele entrou pelos fundos, havia muito mato ali atrás, mas ele conseguiu passar. Andar por aqueles corredores era nostálgico, a saudade quase explodia em seu peito e as lembranças vinham em sua mente, como um filme antigo que ele sabia decorado de tanto ver. Aquele fora um lugar triste para ele, mas era o único lugar que tinha. Ele apostava que todos os arquivos ainda estavam ali, as camas estavam reviradas, sem lençóis limpos, tudo bagunçado. Sinceramente ele estava surpreso por não haver nenhum mendigo ali ou viciados, eles adoravam aqueles lugares. Ele devia estar com sorte, uma vez na vida.

Foi onde era a ala masculina e viu os beliches caídos, quebrados e espalhados pelo grande e longo quarto, os baús caídos e esquecidos, os lençóis sujos. Ele costumava dormir no canto do quarto, longe de todos e sozinho, na cama de cima do beliche que tinha uma ótima vista pela janela. Ele pegou um dos beliches e o colocou onde ficava o seu antigo, subiu as escadas e deitou-se na cama, encolhido, pois já estava grande demais. O jardim lá embaixo estava cheio de mato, a grama alta demais e ninguém para cortá-la, a janela estava quebrada em vários pontos e suja. Mas, apesar disso tudo, era o mais próximo que ele tinha de um lar.

Ele gostaria de ficar um bom tempo ali, escondido nas sombras, naquela velha cidade que tanto conhecia e mudara tanto. Estava ansioso por aquilo, ele iria abalar um pouco a vida daquela pacata cidade. Cliffard estava certo. Ele podia sentir aquela vontade dentro de si, aquela fome por algo. Sabia que cedo ou tarde, por mais que resistisse, ele acabaria matando alguém. Joey não sabia como mataria, quem mataria ou detalhes profundos. Só sabia que o faria de novo, e de novo e de novo. Até saciar aquela fome que existia dentro de si.

Afinal, matar era igual a fazer sexo. Não dá para parar depois da primeira vez.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!