O Contrato
1 O Nome
"Finalmente depois dos nossos comerciais, o país irá conhecer o rosto da escritora do maior best seller feminino do momento, em que será que ela se inspirou para escrever tal personagem? Vamos descobrir em três minutos, não saia daí."
Melanie Smooter, a apresentadora mais famosa do país silabou aos seus telespectadores todas as palavras que eu não desejaria ter ouvido. "Finalmente irá conhecer" "em quem será que ela se inspirou?"
— Achei ter deixado bem claro para você que eu não falaria sobre isso. — Meu agente me olha pensativo enquanto caminho pelo camarim.
— Um dia esse mistério precisará ser revelado e é melhor para o livro e para sua carreira que seja no programa da Melanie, onde há milhões de telespectadores assistindo. — Ele me aponta a caneta que até agora usava para riscar aquelas perguntas que não poderiam entrar na entrevista. — Suas fãs merecem isso, elas querem saber quem é o jogador, elas querem saber quem inspirou o personagem de Logan e finalmente querida, elas querem saber se a sociedade existe e aposto que estão implorando para que seja real.
— Acho que sei o que as fãs do livro querem e vai por mim, elas não vão gostar de saber, a maioria delas acredita que Logan é Cristiano Ronaldo ou pior, o Neymar... Pelo amor de deus, como se eu realmente estivesse interessada em escrever sobre eles e não, elas não estão implorando que essa sociedade exista.
— Não repita isso em um lugar público, se a grande maioria são as fãs deles, então é melhor que elas não saibam do seu ódio pelo ídolo delas.
— Mas eu não os odeio apenas não me sinto inspirada em escrever sobre eles.
— Essa foi bem melhor. Agora, querida. — Peter estala o dedo para maquiadora. — Ela precisa de um pouco mais de pó no rosto, ainda está brilhando. — Ele inclina meu rosto para que eu possa me observar bem no espelho. — Pare de suar!
— Estou tentando, mas não dá. — Eu o observo bufar através do espelho. — Minha família vai estar toda assistindo e eu não me sinto nenhum pouco a vontade de saber que vovó Ester descobrirá sobre o livro, e pior ainda, que ela possa se interessar pela leitura.
— Aposto que ela não é tão careta quanto você a descreve e se for, é uma ótima maneira de ela cair na vida real e descobrir que a neta dela pode escrever sobre sexo.
— Meu livro não é sobre sexo. — E eu me recuso a deixar que o taxem como tal.
— Ah, ele é sim, sou seu agente não esqueça. — Sua mão esbarra em meu queixo e então Peter faz um barulho estranho com os lábios acreditando ter me convencido.
— Um minuto. — Alguém na produção bate a porta do camarim e eu dou um pulo da cadeira. — Precisa ir para o corredor agora. — Ele avisa antes de sair.
— Pronta ou não, lá vai você. — Peter me empurra, tirando meu roupão, deixando a vista um vestido estranho de uma grife famosa da qual gentilmente fui presenteada para a ocasião. Puro marketing, isso sim, aposto que amanhã o vestido estará esgotado, não por eu tê-lo usado, mas por tê-lo vestido na televisão. E eu sei disso porque ninguém esgota as roupas de departamento que eu uso. — Por favor, pareça descente, e não abra as pernas, você está de vestido. — Ele me lembra pela oitava vez na mesma noite.
— E agora... — Diz Melanie fingindo caras de espanto. — Que rufem os tambores... — Ela olha para sua banda e os mesmos a obedecem, e estou tão nervosa que nem me dou ao direito de chamá-la de patética antes de colocar os meus pés no palco. — Estúpido, não? Mas vamos lá... — Ela pega meu livro e o folheia antes de fazer uma careta ao estilo Ellen DeGeneres e o coloca sobre um apoio de acrílico. – Sociedade Eros, foi o livro mais vendido deste verão, chegando a encabeçar a lista dos best sellers no jornal inglês Daily Mail por oito semanas, isso não seria nenhuma surpresa se estivéssemos falando de outro livro sobre sadomasoquismo ou vampiros, mas estamos falando sobre jogadores de futebol, estrelas da musica e do cinema envolvidos em uma seita secreta. — Ela começa o coro de ohhh e a platéia a acompanha. — Mas sem mais delongas senhoras e senhores, vamos descobrir finalmente quem é a autora do livro que faz mulheres gritarem por toda Europa e também fora dela... Vamos receber Olivia Oliver.
As luzes apontam para o corredor em minha frente e tudo que consigo pensar é em como achar o caminho até o palco com toda aquela iluminação. Felizmente o produtor ao meu lado me leva até a entrada e então de canto de olho, posso ver a platéia a minha direita e ouvir os gritos das adolescentes próximas, como se estivessem recebendo Robert Pattinson durante um tour promocional dos primeiros filmes de Crepúsculo. Pelo amor de deus, sou apenas eu. Ninguém ficaria tão entusiasmada assim se me vissem em casa com meu moletom largo e cabelo desarrumado, assistindo os vídeos engraçados de gatinhos enquanto me empanturro de sorvete de creme.
— Você se perdeu? — Melanie brinca ao me estender a mão e todos começam a rir. — Na verdade eu estava tentando encontrar a saída. — Digo a ela prendendo um sorriso no rosto e isso faz as risadas aumentarem, falar a verdade tem lá seus benefícios.
— Não se preocupe, não vamos pegar pesado. — Ela bate as mãos sobre a mesa e encosta-se à cadeira para poder me encarar. — A seita realmente existe? — Suas sobrancelhas vão parar no alto de sua testa e eu olho para a platéia que está gritando novamente, pedindo mentalmente para que essa mulher fale sério.
— Eu espero que não. — Respondo a ela, pegando minha caneca de água e entornando praticamente o líquido todo, implorando que isso me acalme, principalmente porque não estou habituada a mentir.
— Estou um pouco desanimada agora, ou não... Eles só aceitam virgens mesmo? — Ela cita uma parte do livro parecendo desapontada e eu a olho com o rosto fervendo, porém mantendo meu sorriso.
— É o que está escrito ai. — Digo somente me encolhendo um pouco para rir.
— Vamos falar sério agora. — Finalmente! — Quando você começou a escrever o livro e de onde surgiu a idéia?
Então eu me ajeito em seu sofá e deixo que as palavras corram de meus lábios, explicando a ela todo o processo de escrita e inspiração que me levaram a escrever "Sociedade Eros"
— Parece que há muito a falar sobre isso, mas vamos ao que interessa a todos nós. — Ela se inclina para frente chegando mais perto de mim. — Quem é Logan? Qual jogador serviu de inspiração para o personagem?
Olho para a platéia também inclinada em minha frente, e meus olhos doem com toda aquela iluminação odiosa focada em meu rosto.
— Bom... Eu preciso confessar que nenhum em especial. — Minto, porque não vou falar porcaria alguma para o país inteiro ouvir, não posso me entregar, não agora.
— Não pode estar falando sério? — Pergunta em tom desapontado. — Vamos lá Olivia, nos conte, suas fãs estão eufóricas para descobrir.
— Talvez não tenha sido um jogador, poderia ser um cantor, quer dizer... Eu tenho uma quedinha pelo James Bay — Começo a rir quando as garotas da primeira fileira gritam. — Mas a verdade é que eu prefiro que isso fique no imaginário de todas elas, não quero desapontar ninguém. — Respondo pondo fim naquela pergunta, mas recebendo reclamações vindas da platéia e também um desapontamento da apresentadora em minha frente, como se eu não estivesse fazendo algo que havia sido combinado por alguém. Como eu não estivesse cumprindo a minha parte do trato.
— Já que não quer confessar, então... Está lançada a campanha para a caça de Logan. — Ela olha para a câmera. — Todas as informações estão em nosso site, e há recompensas! — Seu sorriso é intimidador quando sussurra em meu ouvido um singelo... — Espero que saiba na confusão em que se meteu...
Mas não, eu não sabia, na verdade, não fazia idéia.
Duas horas mais tarde após a gravação do programa, lá estava eu sentada em minha mini casa no meio do quintal dos meus pais ouvindo o barulho dos martelos dos construtores que finalizavam o teto. É eu sei, eu não tinha uma vida muito emocionante, vinte e dois anos e ainda morar com os pais, mas eu não posso reclamar, porque primeiro, eu não pagava aluguel e segundo, havia muita comida e eu não precisava me preocupar em prepará-la. Bastava apenas ouvir o sininho tocado pela ajudante de minha mãe, Minnie e lá estava eu atravessando o quintal, pronta para devorar tudo.
— John? Acha que vai demorar muito ai em cima? — Estou tentando escrever qualquer coisa a mais ou menos uma hora, mas com esse barulho todo é impossível.
— Já estamos acabando dona Olivia, não vai querer que chova novamente nos seus livros não é? — E ele vence de novo, da última vez que choveu realmente forte em Chartres alguns dos meus livros ficaram ensopados.
— Tudo bem, levem o tempo que for preciso.
— Kate, o que pensa que está fazendo? — Ouço minha mãe gritar para minha melhor amiga enquanto se refresca ao lado da piscina com um leque que ela não para de abanar um segundo. Kate, era minha amiga rebelde, tem vinte e quatro anos e teve coragem o bastante para sair de casa com dezesseis, deixando de lado as inúmeras reclamações vindas de sua mãe.
Eu tenho uma família grande, e honestamente eu adoro isso. É claro que eu não posso tomar a minha família maluca como exemplo para nenhum livro, mas não posso reclamar. Meus pais se conheceram na faculdade e após se casarem e decidirem que teriam apenas dois filhos deram-se conta de que na verdade não se pode planejar nada. Um ano depois do casamento, vieram os gêmeos, Noah e Ethan, e novamente, logo após um ano, Rebeca veio para fechar com chave de ouro a família perfeita. E lá se passaram dois anos, após minha mãe ter feito ligamento e o médico jurado que era um método cem por cento seguro. Mas em uma consulta de rotina, lá estava eu, pequena e encolhida no útero de minha mãe. Eu sempre gostei de dizer, desde pequena que eu era o último sopro de esperança daquela família, mas Ethan sempre gostara de deixar claro que na verdade eu era o acidente da família, aquela que não deveria ter vindo.
Eu sei, você deve estar pensando, ah, lá vai mais uma história chata de como ela se sente inferior aos irmãos porque eles a maltratavam quando mais nova. Então eu devo avisá-los que não, na verdade toda vez que Ethan se referia a mim como acidente, eu encontrava um modo de castigá-lo de volta, e isso só parou quando nosso pai me pegou enfiando um anzol em seus lábios enquanto ele estava dormindo.
Embora Ethan não tivesse culpa para tanta maldade vinda de minha parte, papai achou melhor que ficássemos o dia inteiro de castigo no mesmo quarto, até que virássemos amigos, e de fato isso adiantou. Hoje Ethan é o único capaz de me compreender cem por cento.
— Lave as mãos — Mamãe grita de novo para Kate que está pegando alguma coisa na mesa.
— Oi pra você também, senhora Oliver! — Diz ela vindo em direção a minha casa. — O que o seu avô está fazendo pelado no telhado?
— A meu deus, Tony, seu pai está pelado de novo!
Mamãe gritou para meu pai que estava no lago do vizinho, pescando, e ele apenas levantou a mão, aposto que não ouviu nada, ele nunca a ouve. Mas lá estávamos nós novamente, todos mobilizados a caçado do vovô, Jack. Ele era um ex pracinha das forças expedicionárias Brasileiras e sofria de Alzheimer, então volta e meia nós o pegávamos andando nu pelo jardim, assustando os vizinhos enquanto perguntava a eles onde estava a vala mais próxima, pois precisava se esconder dos alemães.
Para nossa sorte desta vez, John o convenceu a descer do meu telhado, jurando a ele que faria um esconderijo secreto de presente para o mesmo, assim que tivesse tempo. Foi engraçado, mas não era na maioria das vezes. Para nossa sorte, vovô era ainda era normal 70% do tempo.
— Amanhã você me leva para fazer aquela tatuagem? — Ele pisca para Kate quando passa por ela.
— Claro vovô Jack! Vamos fazer aquela da enfermeira levantando o uniforme.
— Isso mesmo. — Ele ri e saí caminhando para dentro de casa, como se nada tivesse acontecido.
— Kate! Saia de perto do vovô Jack, da última vez que saíram juntos ele voltou com um pierncing. — Mamãe grita novamente com ela, antes de eu puxá-la para dentro de minha casa fechando a porta.
— Ela me odeia. — Kate atira-se sobre meu sofá e começa a folhear um livro qualquer que deixei atirado por ali.
— Claro que não, você sabe como ela é. — Eu volto a encarar a tela em branco de meu notebook.
— Você foi à Melanie hoje de manhã?
— Sim.
— Confessou quem era Logan?
— Não.
— Não seja monossilábica comigo!
— Logan é apenas um personagem que eu criei, ele é perfeito demais para existir. Quantas vezes eu vou precisar repetir isso?
— É mesmo? — Ela minimiza a tela no meu notebook e lá estava a foto dele. — Porque não é o que esse cara aqui está dizendo.
— Ele é só um jogador do time para qual eu torço.
— E a fonte da sua inspiração. — Kate ergue as sobrancelhas e volta para o sofá atrás de mim. — Tem que parar de mentir para todos que sua inspiração foi James Bay, isso é bizarro. — Ela me aponta do dedo, Kate nunca gostou dele, sempre soube, desde o dia em que ela afogou meu pôster do James na privada, questionando minha idade mental por ter um pôster no quarto. — Eu poderia ganhar uma grana confessando o seu segredo, mas...
— Mas não faria isso. — Eu completo.
— Tem razão, eu não faria, porque isso faria com que você parasse de escrever e eu gosto de ter uma amiga famosa, dá para pegar muitos caras citando o seu nome, eles sempre pedem um autografo para as irmãzinhas ou para as namoradas.
— Está saindo com um cara comprometido?
— Claro que não, apenas dormindo, às vezes. — Ela debocha. — Não me olhe assim, eu não vou virar uma beata como você, há quanto tempo você não faz sexo?
— Por que você veio aqui mesmo? — Tento desviar o assunto, mas ela não parece estar disposta a desistir da minha vida sexual.
— Você não namora ninguém há dois anos e...
— Eu sou muito ocupada.
— Você é muito ocupada, os caras não prestam e blá blá... Vamos sair hoje à noite e arrumar alguém para você transar, podemos até usar uma peruca loira para que ninguém te reconheça... — Ela perece entusiasmada.
— Parece tentador. — Minto — Mas eu tenho duas entradas para ver o Manchester e eu não pretendo faltar.
— Está apaixonada por esse cara? Quer dizer, amor platônico? Credo Liv! Está parecendo às garotinhas adolescentes para quem você escreve suas histórias.
— Vai pra casa, vai! Eu preciso revisar o último capitulo do segundo livro antes de ir para o jogo e você não está ajudando em nada.
— Hei! Não é justo, eu sempre ajudo nas cenas de sexo, aliás, se não fossem as minhas experiências você não teria nada para escrever. — Ela me aponta o dedo, mas sei que está brincando.
— Pare de mentir, e de sair com homens comprometidos. — Grito para ela enquanto a mesma atravessa o jardim correndo para roubar comida da mesa perto da piscina e mais uma vez ser xingada por minha mãe.
Mais tarde, depois de eu passar algum tempo na frente do espelho escondendo meu cabelo dentro de uma touca vermelha, para além de me esconder do frio, também passar despercebida por qualquer jornalista ou fã do livro, entro no estádio Old Trafford e me sento em minha nova cadeira cativa comprada com o primeiro cheque que recebi da editora. Ter escrito um livro capaz de chamar atenção de várias mulheres enlouquecidas ao mesmo tempo tinha lá seus privilégios.
Ok... O lugar não era dos melhores, mas eu não podia me sentar onde queria ou correria o risco de ser descoberta e apontada por algum torcedor. E caso isso ocorresse, no mesmo dia lá estariam às notas nos sites de fofocas... "Logan joga no United" ou "Estamos a um passo de descobrir quem é Logan!" E eu definitivamente não estava preparada para enfrentar a enxurrada de comentários e manchetes que viriam depois disso.
Mas voltando ao que interessa, o jogo... Lá estava ele, entrando em campo há dez minutos para terminar a partida, porque obviamente o treinador não enxerga que ele é um ótimo jogador. Lá estava ele com seu cabelo estranho, com suas pernas longas e seus lindos olhos, que eu não podia enxergar direito da minha cadeira, eu confesso, mas só de imaginá-los... Lá se foram os dez minutos, droga, eu não paguei caro para vê-lo jogar só isso.
Fim de jogo, United ganhou mais uma e lá estou eu caminhando entre um corredor e outro tentando chegar o mais rápido possível até o estacionamento, até que, ao virar o corredor, dou de cara com um grupo de meninas com seus enormes copos de refrigerante na mão.
— Olivia Oliver?
— Ela estava no programa da Melanie hoje, não acredito que está aqui. — Diz a garota ruiva com o numero 25 gravado na camiseta.
— Nós sabemos, olhamos juntas. — Diz a loira fazendo careta e soltando um sonoro "dãhh" — Mas espera! O que está fazendo aqui?
— Não é obvio? Agora nós já conseguimos uma pista de quem é Logan ... — A morena diz, com cara de quem descobriu a cura para AIDS.
A loira me olha dos pés a cabeça como se estivesse esperando que eu fosse revelar a elas ali mesmo, a charada imposta por Melanie no programa de hoje.
— Eu vou a muitos jogos, muitos, muitos jogos... — Dou um passo para trás.
— É claro! — A loira solta um risinho irônico.
— Preciso ir, com licença meninas.
— Vamos segui-la. — Grita à ruiva derramando seu refrigerante no chão.
E essas últimas palavras bastaram para que eu apressasse o passo ainda mais e fosse parar no corredor onde os jogadores estavam saindo do estádio. E após eu conseguir passar quase que despercebida pelos olhares dos mesmos, elas apareceram correndo atrás de mim estacionamento a fora, como loucas, em uma caça ao tesouro, ou neste caso, o suposto Logan.
— Entra! — Disse a voz vinda do interior de um Audi prata, e então eu obedeci, porque não era como se eu tivesse outra escolha no momento.
— Obrigada. — Digo a ele enquanto o vejo acelerar o carro para longe do estádio. — Isso é loucura! — Digo para mim mesma, enquanto olho para trás.
— Sim, mas você sabe que Melanie é uma grande influenciadora de cabeças ocas. — Ele encosta o carro em uma rua iluminada e então liga a luz de seu interior. – Sou Daniel.
Não esboce nenhuma reação exagerada, não esboce nenhuma reação exagerada! Repito para mim mesma enquanto não desvio meus olhos dos dele.
— Eu vi sua entrevista hoje de manhã, quer dizer... Minha mãe estava olhando e eu estava passando e...
— Ele ri e meu coração derreteu, na verdade quase não consigo sentir meus batimentos e tenho certeza que estou prestes a desmaiar.
— Eu sei quem você é. — Agora ferrou. — Acha que elas me viram entrando no seu carro?
— Não, John as parou nas grades que separam os estacionamentos, e acho que elas ainda não conhecem o meu carro, troquei hoje. — Diz esboçando um sorrisinho fino.
— Melhor assim... — Respiro aliviada, porque não quero causar nenhum tipo de encrenca para o lado dele.
— Então, sobre o que é o seu livro? — Pergunta tirando as mãos do volante.
— Disse que havia me visto no programa. — Digo olhando para as minhas unhas, que estão horríveis na verdade.
— Sim, mas não que havia prestado atenção. — Ele faz um barulhinho estranho e eu olho, mas logo desvio, caramba! Ele precisava ser tão bonito assim? — Desculpe, eu não sou muito ligado nessas coisas e...
— Tudo bem, obrigada pela carona. — Tento abrir a porta, mas obviamente ela está travada.
— Onde você quer que eu te deixe, porque não seria aqui, esse lugar é meio sinistro, na verdade. — Diz rindo.
— Você não precisa fazer isso, eu posso voltar e pegar o meu carro e...
— Sim você pode, mas elas também podem ainda estar lá, pronta para uma foto ou ameaças e não pense que eu sou um louco ou coisa assim, mas eu sei como se sente, eu também não gosto de chamar a atenção e evitaria todas as fotos e especulações sobre a minha vida, se pudesse... — Ele fica sério e talvez sinta que se abriu mais do que deveria, então volta a ligar o carro. — Só precisa dizer e eu levarei você...
Eu não podia deixar que ele me levasse em casa e descobrisse que eu ainda moro com meus pais, embora a casa fique no quintal, parece mais que eu estou de castigo na casinha da árvore do que qualquer outra coisa, então, depois de duas batidas na porta milagrosamente lá está Kate em seu apartamento em pleno sábado e pronta para falar alguma bobagem logo que coloca seus olhos em Daniel.
— Sua safada! — Diz ela ainda olhando para ele e eu não consigo pensar em nada para que se cale. — Então era por isso que não quis sair comigo.
— Daniel me ajudou. — Isso é tudo que consigo silabar.
— Aposto que sim. — Ela pisca para ele que não entende, ou finge não entender.
— Eu preciso entrar, ou ela vai falar mais bobagens que o normal, mas obrigada. — Levanto minha mão esperando que ele a aperte, e quando o faz quase não sinto tamanha a sua delicadeza, apesar de ter mãos grandes.
— Não precisa agradecer. — Ele olha para Kate atrás de mim. — Foi bom conhecer você também.
— Sempre é. — Ela exagera.
Daniel olha para baixo tentando entender aonde ela quer chegar então volta seu rosto para mim e depois de lançar um sorriso infantil, some descendo as escadas do prédio de Kate, com suas pernas esguias.
— Você transou! — Ela grita comemorando.
— Não seja obscena, pelo menos não com a porta aberta.
— Os vizinhos já sabem como eu sou, mas agora me conta vai, como encontrou ele?
— Umas adolescentes apareceram e...
Meu celular começa a tocar dentro da bolsa, é Peter.
— Você sabe que horas são? — Sussurro ao atender.
— Eu não estou ligando para saber onde diabos o ponteiro está marcando, Olivia. — Ele está bravo, o que não prova nada, já que está quase sempre de mal humor. — Passei a tarde e a noite em reunião com os executivos da editora e eles não estão contentes por sua última entrevista.
— É mesmo, e o que eu fiz de errado desta vez?
— O nome, eles querem o nome, quem a inspirou! — Peter grita e eu afasto o telefone do ouvido. — Essa brincadeira da Melanie está rendendo, o livro está sumindo das bancas, mas eles acham que se você der o nome, tudo ficara maior, pode imaginar os estúdios adaptando seu livro para o cinema.
— Acha isso possível?
— Diga o nome e terá tudo isso.
— Ele pode não gostar. — Na verdade, agora, depois da cena toda no carro eu tenho certeza que ele não irá gostar.
— Não se preocupe com isso, apenas diga o nome. Em três dias você terá a entrevista no Jonny Carter Show e pode confessar a todos.
— Não, Peter eu não vou fazer isso, boa noite!
Manhã:
— Acorda! — Abro meus olhos e Kate está sorrindo perto de mim na cama. — Seu príncipe encantando está lá fora.
— Por quê? — Eu me assusto, não acredito que ela esteja falando mesmo a verdade, então corro até a janela e o vejo encostado em meu carro enfrente ao prédio de Kate.
— Eu não sei. — Ela esboça um sorriso enorme e animado enquanto balança a cabeça.
Corro para o banheiro, lavo o rosto e escovo os dentes antes de atar meu cabelo em um rabo de cavalo e então desço de pijama mesmo.
— Acordei você. — Seu sorriso é tão encantador logo pela manhã que quase choro ao pensar que devo estar parecendo uma medusa inchada em sua frente, a natureza é tão cruel às vezes.
— Não tem problema. — Olho para o meu carro ao seu lado e agora sei o que está fazendo aqui. — Não precisava fazer isso.
— Eu normalmente não vou ao CT nos dias de folga, mas quando vi sua chave esquecida no meu banco achei melhor ir lá buscar antes que alguém achasse estranho e sabe ele demorou um pouco para pegar, eu quase tive que pedir para alguém me ajudar a empurrar e bom... Eu conheço um bom mecânico e...
— Obrigada, mas não... — Meu rosto está prendendo fogo de tanta vergonha. — A Dory é assim mesmo.
— Dory? — Ele está confuso.
— É o nome dele, meu carro, ele se esquece de pegar às vezes e esse era um nome legal, é uma alusão a personagem do filme procurando Nemo e...
Ele ri e eu paro com minha explicação ridícula.
— Desculpe, por ter feito você passar por isso. — Digo morrendo de vergonha.
— Não se desculpe, eu preciso de uma carona para ir buscar o meu.
— É claro, eu não pretendo descer então, podemos ir...
O caminho é feito em silencio, e eu quase esqueço como se dirige tamanho é meu nervosismo perto dele.
— Você já tomou café da manhã, porque eu vou me sentir culpado se não... — Pergunta enquanto mexe nos cabelos, bagunçando-os ainda mais.
— Não, mas...
— Tem um café a duas quadras do CT e...
— Não é uma boa idéia, desculpe. — Respondo instantaneamente e ele fica sério novamente.
— São muitas desculpas e agradecimentos, só precisa dizer que não está afim e eu vou entender.
Por um momento eu fico com pena e desvio meu olhar da rua em nossa frente para poder encará-lo... Como dizer a ele que não posso ser vista com o mesmo, ou todos vão saber quem é Logan? Ou achar que sabem? E que no mesmo dia seu rosto vai estar estampado nos sites de fofoca e não vai ser por seus 10 minutos em campo no jogo passado.
— Em qualquer outro dia eu iria adorar, mas hoje, não posso. — Na verdade não posso nunca, com você, nunca, não quero estragar sua vida, penso para mim mesma enquanto me perco em seus olhos, até que meu celular vibra no meu bolso do pijama. — Oi Peter. — Eu paro o carro enfrente ao CT do United e desço.
— Onde está? — Grita ele alarmado!
— Estou em casa. — Minto e Daniel encosta-se ao carro me observando.
— Tudo bem, Liv, escute bem, preciso que venha até o Coffester, há alguém com quem eu quero que converse e não aceito não como resposta. — Ele é enfático e como preciso de uma desculpa rápida para sair da frente de Daniel, resolvo aceitar.
— Eu já estou indo. — Desligo. — Preciso ir, mas obrigada.
Não dou a ele chance de resposta, ou melhor, não dou a mim mesma uma chance para que tenha tempo de me convencer a ficar, ou seja, deixo ali apoiado em seu carro, meu sonho de consumo, meu plano de tela do notebook... Finalmente encontro meu Logan e sou obrigada a abandoná-lo, para o seu próprio bem.
Minutos depois de ficar parada no sinal enquanto batia minha cabeça constantemente no volante me culpando por deixado minha chance de tomar um café com Daniel para trás, chego ao tal Café que Peter me esperava.
— Ai está ela. — Ele se levanta entusiasmado e me empurra para que eu me sente de pressa provavelmente com vergonha por eu ainda estar de pijama.
— Finalmente! — O cara que está com ele resmunga, parece estes tipões bonitos, porem um pouco velho demais.
— Olivia, este é Giuliano...
— Cineasta? — Interrompo Peter e os dois riem.
— Ainda não, meu bem, Giuliano é empresário de alguns jogadores e bem, depois de termos uma longa conversa, chegamos a um acordo, queremos fazer uma proposta a você. — Peter abre um sorriso largo, o tipo de sorriso que conheço bem, há fama e dinheiro por trás dele...
— Eu posso pedir um café antes, estou morrendo de fome. — Na verdade aposto que meu estomago já deva estar colado nas costas, mas isso seria informação demais para relatar a eles.
— Eu já pedi, agora, Olivia, por favor, o ouça. — Suas pausas me irritam enquanto ouço minha barriga grunhir, será que é tão difícil entender que eu preciso comer pelo menos um pãozinho? Acho que sim! Porque toda vez que faço menção em tocar na bandeja com croissant Peter me da um tapinha de leve para que eu ouça o cara em minha frente com atenção.
Giuliano se ajeita na cadeira e eu observo seu sorriso amistoso se abrir aos poucos como se estivesse próximo de fazer a grande proposta do século.
— Como deve saber eu sou empresário de muitos jogadores.
— Eu não sabia. — Mas Peter já falou, podemos pular essa parte! Sussurro para que ele não ouça.
— Que seja! — Ele balança a mão no ar e cruza a perna. — A maioria deles não me dá nenhum trabalho fora do comum, mas é claro que sempre há uma ovelha negra no rebanho e digamos que preciso podá-la urgentemente para que não estrague a reputação do meu campo.
— Por que estamos falando de ovelhas e rebanhos? — Minha sobrancelha sobe como se tivesse vida própria. — Eu não sou boa fazendeira, nem ao menos estive em uma.
— Harry Syles é o nome dele.
— O garoto encrenca? Acho que eu li sobre ele nos jornais, festas, bebidas, "atropelou" uma criança, mulheres... — Será que era isso? Ou era ele ou o jogador que havia abandonado a carreira para virar monge.
— Isso não é verdade, o garoto surgiu do nada e trombou com ele. — Giuliano se altera um segundo, mas logo volta ao seu lugar. Ok, então era mesmo o garoto encrenca. — O fato é que preciso salvar a carreira e a reputação dele, principalmente com seus patrocinadores, e o novo time, Harry perdeu muitas contas por causa dos últimos acontecimentos e depois da copa, bom...
— Bom, talvez assim ele aprenda. — Meu sorriso aumenta, finalmente consigo roubar um pão da bandeja e enfiar na boca.
— Olivia! — Peter me repreende.
— Talvez ele aprenda sim, se você o ajudar. — O sorriso de Giuliano brilha e eu posso jurar ter visto um dente de ouro bem no final do lado esquerdo, mas volto a olhar nos seus olhos e rir, porque ouvi bobagem demais para uma única manhã.
— Acho que bateu na porta errada, eu não sou dos alcoólatras anônimos e muitos menos a madre Tereza.
— Na próxima semana o Daily Mail vai lançar a lista dos mais vendidos e o seu livro caiu para a 7ª posição dos mais vendidos. Ele praticamente despencou depois do programa da Melanie e da sua recusa em dizer o nome do jogador que a inspirou. — O Cara está afiado, e daí que meu livro caiu? Aposto que ele volta ao 1° lugar da lista assim que a terceira e última parte sair. Tudo bem, talvez ele não volte, mas quem liga? Um ano atrás eu nem pensava que pudesse viver essa loucura toda que minha vida se tornou.
— Como sabe disso? — Pergunto a ele, sem me exaltar.
— Eu tenho os meus contatos! E Peter me disse que isso pode agravar seriamente a seqüência do seu livro e também o seu contrato. — Ele recosta-se na cadeira. — E contratos quebrados geram multas altíssimas Olivia.
— Bom...Eu...
— Eu estive lendo o seu livro e mesmo que você não queira dizer o nome, Harry poderia se passar facilmente por Logan. — Giuliano faz movimentos com as mãos. — Cabelos grandes e bagunçados, pernas esguias, olhos claros, essas são as características principais do seu personagem.
— Meu personagem tem uma índole impecável, acha mesmo que iriam acreditar que eu poderia ter me inspirado no jogador encrenca da liga inglesa?
— Se você os fizer acreditar, eu creio que sim, as pessoas a adoram, você poderia mudar a imagem de qualquer jogador, Olivia, e o meu cliente está precisando de ajuda, da sua ajuda. — Ele enfatiza completamente seguro de que eu tenha realmente a salvação para aquela pobre alma.
— E se eu disser não?
— Você só tem a ganhar se disser sim. Pense, Olivia... Não há nada a perder, além disso, já deixou claro para o Peter que Logan não foi inspirado em ninguém, então...
"You know nothing, Jon Snow!" A lendária frase de Game of Thrones vem a minha mente, e tento não rir, mas a verdade é essa mesma, "Você não sabe de nada, Giuliano!"
É claro que Logan foi inspirado em alguém, todo personagem é, pelo amor de deus, todo mundo sabe disso, e Logan é Daniel, Daniel é Logan e ponto final, não há espaço para outro alguém nesta história, a não ser que Harry queira ser o vilão, Sebastian...
— O que eu teria que fazer? Voltar ao programa da Melanie e dizer a todos que Logan é Harry? Só isso? Na verdade eu não entendo o que isso mudaria a vida dele e as coisas erradas que vem fazendo.
— Peter e eu escrevemos algumas exigências e gostaria que olhasse com atenção. — Ele pega sua pasta e coloca sobre a mesa, quase posso sentir que estou naqueles filmes da máfia, e que daquela maleta sairá milhares de dólares, mas não! É só um contrato estúpido. — Na verdade, Harry também irá ler e é melhor que façam isso junto.
— Ele está aqui? Ele está de acordo? — Fico surpresa, não! Na verdade fico alterada!
Eu pergunto a Giuliano e Peter e os vejo olhar para o corredor atrás de mim e então, quando me viro, lá vem ele, a encrenca em pessoa. Óculos escuros, cabelo extremamente bagunçado, o que faria o do Logan ser chamado de nerd se fosse o caso, e o andar completamente malandro que me irritava apenas por observar.
Sim, era ele mesmo, a encrenca em pessoa e com cabelos que parecem não ter visto tesoura e pente há muito, muito tempo.
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