O Contrato
1 Capítulo I
Notas iniciais
Era muito tarde, vinha caminhando para casa sem pressa, afinal ninguém se preocuparia com meu atraso. Chovia uma garoa fina e gelada que me refrescava. Perto da praça vazia, olhei para o lado esquerdo e vi rente a parede dos prédios, uma figura disforme, poderia ser um bebê abandonado então fui me aproximando lentamente para não ser surpreendida.
Deixei a lentidão de lado quando percebi que à medida que me aproximava àquela estranha forma que vi de longe, começou a contorcer-se. Por puro impulso corri rapidamente, aproximando-me cada vez mais. Assim que parei de frente para a coisa, sim coisa. Não havia outra palavra para descrevê-la. Tentei olhar para seu corpo, e senti uma forte tontura. Não enxergava, era apenas um borrão, a única parte clara eram suas asas pretas e lustrosas. O seu brilho também era estranho, diferente. Era um brilho negro, que não trazia nem pânico ou paz, trazia um incomodo um forte desejo de curiosidade.
A fina e fria garoa de antes, estava transformando-se aos poucos em uma tempestade com raios e trovões. Poderia ter corrido, saído dali o mais rápido possível, recusado. Deveria ter saído assim que vi a Criatura. Deveria ter saído assim que ouvi sua voz penetrar em minha mente.
- Estava esperando por você – me respondeu, mesmo sem ter falado nada, como uma Criatura pode falar e ler meus pensamentos? — Saugnapf, para de me chamar de Criatura. É ofensivo! As Criaturas sao muito piores – Saugnapf pelo que me lembro, é um nome alemão. Mas qual sera o significado?
- Desculpe – nao sabia o que fazer, seu brilho negro me envolvia, minhas roupas nao estavam mais molhadas e eu ja nao escutava o barulho dos trovões. Olhando ao redor, percebi que estava no vazio, nao havia nada alem de mim e Saugnapf.
- Ajude-me, minha energia esta muito fraca – disse levantando uma de suas asas e mostrando um grande buraco
- Como?
- Apenas faça um contrato comigo.
- Um contrato? O que seria exatamente? – neste momento estava disposta a fazer qualquer coisa, ninguém ligaria para a minha ausência.
- Venha ao meu mundo, e eu lhe mostrarei. Mas digo que so há uma maneira de voltar – pensei na pacata e tediosa vida que tinha, e vi ali uma oportunidade de mudá-la
- Certo, leve-me então — assim que disse isto, seu brilho envolveu-me por completo, e em um piscar de olhos estavamos em um bosque, com folhas secas no chão e várias flores brancas com pontinhos vermelhos plantadas ao longo da trilha à nossa frente.
A medida que andavamos explicava-me. Existiam várias tipos de Saugnapf, de energia, emoção, vitalidade... De acordo com ele o seu mundo precisava da energia de alguns humanos para sobreviver e permanecerem inteiros. Tudo até então animava-me, ainda mais em aceitar o contrato.
Foi quando me deparei com duas garotas lutando, uma contra a outra. Levavam chutes, facadas, socos. Mas nada as detinha, era como se não sentissem dor. Como se lutassem apenas por lutar.
- Não se preocupe. Elas realmente não sentem dor.
- Como?
- São apenas corpos vazios, máquinas de lutar que ainda tem um pouco de seu lado humano. Mas mesmo assim é muito pequeno.
- I-isto... É... é... – então me lembrei. Saugnapf traduzido significa Sugador!
- Isto é apenas uma fase, se tiverem a sorte de não se tornarem criaturas voltam a ser humanas e podem voltar ao seu mundo. Isso se suas flores não forem destruídas... Se isto acontecer, elas morrem.
- Aquelas flores todas são... Mas por que estão com pontos vermelhos?
- Sim, os pontos vermelhos indicam o numero de derrotas. Quando a flor ficar completamente vermelha, elas se transformam em criaturas.
- São tantas... Deixe-me voltar!
- Eu disse que há apenas uma maneira de voltar não disse? Então faça o contrato!
- E-eu...
- Não faça isso! Você consegue de outro jeito! – uma voz não muito distante disse.
- Não há outra maneira – Saugnapf insistia.
- Há sim.– a voz falou novamente, com calma.
- Decida.
Então eu decidi, corri em direção a voz sem me importar com o que poderia acontecer. Na minha mente ambas as opções eram igualmente ruins. Com uma diferença, a primeira opção era um destino traçado, e a segunda uma esperança, uma chance.
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