O Conto dos Ventos do Norte
2 Capítulo 2
A infância do pequeno Gale foi tão rápida quanto proveitosa. Parte dos seus primeiros anos de vida foi gasta passando tempo com sua família ou brincando com outras crianças da sua idade. Mas, com certeza, a maior parte do seu tempo foi gasto com Abillion, treinando mais e mais. O garoto era dedicado e muito empolgado, aprendendo quase tudo que um verdadeiro paladino deveria saber. Treinava combate e manejo de espada, tentava aprender magias de cura apesar de ser péssimo nisso e recebia muitos ensinamentos que levaria por toda sua vida.
"Durante a trajetória da sua vida, surgirão pessoas que te marcarão e farão a diferença. E em diversos momentos, você irá precisar dessas pessoas. Confie em seus amigos, pois poucas coisas nesse mundo são mais preciosas que os nossos amigos. Não se envergonhe de depender de seus amigos ou de pedir ajuda, pois ninguém vence sozinho. Confie neles e eles confiarão em você."
"Haverão momentos em sua vida que seu futuro dependerá exclusivamente de você e de suas escolhas. Momentos que nem mesmo seus amigos poderão te ajudar. E serão nestes momentos que você terá que confiar em si mesmo mais do que nunca. Acredite, não existe ninguém mais confiável que você mesmo. Confie em si mesmo, confie nos seus instintos, confie nas suas experiências e nas coisas que aprendeu com as pessoas ao seu redor e você terá êxito em tudo que almejar, contanto que, seja lá o que fizer, seja voltado para o bem."
O menino cresceu, se tornando cada vez mais forte. Porém, em um momento de sua vida, tudo mudou.
"Gale, meu filho, está aí fora?" Sua mãe procura-o no lado de fora de sua casa e o encontra no chão, desacordado. "Gale!!" grita ela, correndo em sua direção. Ajoelha e o deita em seu colo e tenta acordá-lo, sem sucesso.
Seu pai aparece, assustado com os gritos de sua esposa. "Querida, o que aconteceu com o Gale?!"
"Eu não sei! Eu o encontrei desmaiado e não consigo fazê-lo acordar. Eu não sei o que fazer!"
O pai pega-o no colo e, o mais rápido que pôde, o levou aos curandeiros do Templo. Eles não podiam fazer muito por ele naquela situação. Não havia ferimentos nem vestígios de magia, além de permanecer desacordado. Abillion foi avisado do ocorrido e chegou logo em seguida. Após algumas horas, o menino acordou, extremamente fraco. Os curandeiros cuidaram dele até que pudesse conversar com eles e seus pais.
"Garoto, você sabe o que aconteceu para ficar neste estado?" perguntou o curandeiro.
"Eu não sei, lembro-me apenas de acordar um pouco indisposto. Como de costume, tomei meu café da manhã e, quando estava saindo para ir à casa do mestre Abillion, senti uma dor de cabeça e uma fraqueza intensa. Depois disso, não me lembro de mais nada."
As pessoas ao seu redor o observavam com preocupação. O garoto continuou com os curandeiros por semanas, sendo visitados por seus pais e por seu mestre todos os dias. Quanto mais o tempo passada, pior sua saúde ficava.
"Sinto dizer isso, mas... no ritmo que as coisas estão indo, logo ele não suportará mais," disse um dos curandeiros. "Tentamos de tudo para salvá-lo. Utilizamos toda magia que conhecemos, estudamos em todos os livros que puderem imaginar, mas nem o mais poderoso curandeiro pode ir além do que a natureza impõe. Sinto muito, mas não há mais nada possamos fazer."
A mãe estava aos prantos e o pai, tentando segurar as lágrimas, tentava reconforta-la. Abillion, tentando parecer o mais calmo possível, entra nos aposentos de Gale, sem saber o que falar.
"Gale, eu..." O menino logo o interrompe.
"Não precisa falar nada, mestre. Eu pude ouvir minha mãe chorando e logo entendi do que se tratava," disse o menino, com uma voz serena. "Mas você não precisa sentir medo, pois eu não sinto. Se é isso que os espíritos desejam, eu seguirei feliz por este caminho. E se lá onde eu estiver, estarei sempre com vocês."
Abillion se ajoelha ao lado do leito do menino. Com os olhos cheios d'água e com um sorriso de orgulho no rosto, ele diz, "Garoto... Nunca ouvi palavras tão sábias quanto essas que disse. É corajoso e gentil, mesmo nas mais difícil das situações. Jamais conheci alguém como você, pequeno Gale"
O garoto teria mais uma noite antes de voltar para casa com os pais, porém, uma estranha movimentação em seu quarto fez com que ele acordasse. Quando abriu os olhos, se deparou com o ser mais magnífico que já viu em toda sua vida. Um enorme lobo, com pelos que, de tão brancos, pareciam brilhar. Porém, o que mais impressionava o menino eram as galhadas que o lobo tinha em sua cabeça, iguais às de um cervo adulto.
Gale se senta e tenta acariciá-lo. O animal se aproxima e permite que o menino o toque. Após um breve momento, ele se aproxima ainda mais e retribui as carícias. Sentindo uma felicidade que não sentia há semanas, Gale o abraça e chora. Depois disso, o animal se afasta do menino e vai embora.
Gale volta a dormir e, no dia seguinte, acorda com seus pais e Abillion esperando-o para leva-lo para casa. Mas o menino se mostra extremamente saudável, talvez até mais que antes do ocorrido. Todos estavam espantados.
"Gale, o que aconteceu? Você está bem mesmo?" perguntavam para o menino.
"Estou sim. Eu fui salvo por um espírito," respondeu, com um grande sorriso no rosto.
Todos olhavam para o menino, estupefatos. "Está dizendo que um espírito veio ao seu quarto e o curou?"
"Foi o que eu disse. Um enorme lobo, com galhadas iguais as de um cervo, apareceu no meu quarto e cuidou de mim. Pude sentir na hora que era um espírito."
A expressão de espanto e interesse continuava nos rostos de quem o ouvia. Porém, Abillion já não se comportava da mesma forma. Estava inquieto, pensativo, como se algo não quisesse sair de seus pensamentos.
"Será que me permitem ficar a sós com Gale? Prometo que será rápido," pede Abillion, com sua voz calma e firme de sempre. Os outros saíram, pasmos demais para refutar.
O mestre agacha e olha diretamente nos olhos do menino. "Você tem certeza do que está dizendo?" O menino acena com a cabeça, confirmando.
"Esse lobo que diz ter o salvo tem o nome de Espírito dos Ventos do Norte. Muitas histórias são contadas sobre um lobo com galhadas que vaga pelo mundo material ajudando quem ele achasse digno. Dizem que, quem quer que seja abençoado por ele o terá como guia pelo resto de sua vida."
"Eu sou digno?" pergunta Gale, emocionado.
"E eu nem precisaria de um lobo mágico para te confirmar isso," diz o mestre, acompanhado de uma risada carinhosa. "Ele deu-lhe uma segunda chance. Ele está permitindo-lhe viver mais do que a própria natureza tinha em mente. Você é um garoto especial. Os ventos agora são seu conselheiro e guia. Confie nos ventos, confie nesse espírito."
E foi exatamente isso que Gale fez. Durante os anos que se passavam, o garoto confiou em seu guardião e se tornou um dos mais fortes guerreiros do Templo. Desenvolvia suas habilidades mais rápido que qualquer um ali, apesar de continuar péssimo nas magias de cura. Continuou seu treino arduamente até que, aos seus 20 anos, foi nomeado oficial como Paladino do Templo.
"Estou muito orgulhoso de você, garoto. Não pensei que veria você tão cedo como Paladino," diz Abillion, dando tapinhas no ombro de Gale.
"Tudo graças ao melhor professor de todos. Você também teve muita participação nisso."
"Sim, eu sei. Mas, para ser sincero com você, não sei o que sentir sobre o nosso mundo nos últimos tempos." Abillion olhava para o céu, chateado.
"Por que, mestre Abillion? Não entendo o porquê da preocupação," questiona Gale, tentando entender o que se passava na mente de seu mestre.
"A verdade é que há muito tempo, talvez centenas de anos, não precisam mais de nós. Cada vez menos a presença de cavaleiros e feiticeiros é necessária. Cada vez menos conflitos ocorrem. Sei que deveria me sentir feliz pela paz no nosso mundo, mas daqui há algum tempo, não existirão mais heróis. Temos cada vez menos guerreiros qualificados. Tenho um pressentimento ruim em relação a isso." Abillion parecia, realmente, preocupado com algo. Como se esperasse que algo acontecesse e não estivessem preparados. "Mas talvez sejam apenas as inquietudes de um velho caduco."
"Aah, não diga isso. Você ainda está em forma, ainda é jovem," fala Gale, tentando anima-lo. "Com certeza existe alguma razão em suas preocupações. Sem dúvida nenhuma, devemos estar sempre prevenidos, sempre com a guarda alto. Foi isso que você me ensinou."
"É, você tem razão. Neste caso, vamos voltar a treinar! Isso foi só o começo de uma longa jornada, garoto!"
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