O Conto dos Ventos do Norte
1 Capítulo 1
"Houve um tempo, há muitos ciclos, em que os espíritos e os seres materiais ainda conviviam em harmonia. A amizade entre homem e espírito era tão próspera que o Grande Espírito Ancião presenteou os homens com uma pequena parte de seu poder, materializado em três poderosos orbes. O primeiro possuía o poder da luz e da vida, e foi entregue à Kahla, uma bondosa curandeira. O segundo, o poder da sombra e da morte, e foi entregue à Dorothar, um petulante mago. E o terceiro, o poder da natureza e do equilíbrio, e foi entregue à Galaghar, um destemido cavaleiro. Juntos fundaram a magnânima Endor e lá aprimoraram a magia no mundo material."
"Porém, em algum momento daquela longa trajetória, Dorothar se voltou contra seus amigos e partiu, carregando consigo seu orbe, em busca de conhecimento e poder. Em cada lugar que passava, seu carisma e irreverência conquistava os ambiciosos e fazia aliados, até construir a Grande Cidadela, um enorme forte situado no lado leste do continente, onde instituiu seu império. Cada vez mais louco, cobiçou os outros dois orbes e entrou numa dura guerra contra Endor, culminando na batalha entre Dorothar e os outros dois guardiões, Galaghar e Kahla. Derrotado, o mago foi executado por Galaghar e, com isso, a guerra se encerrou."
O pequeno aprendiz ouvia atentamente a história contada por seu mestre.
O aprendiz e o seu mestre estavam sentados nos gramados verdes do verão. O primeiro, olhando fixamente para o segundo com um olhar animado, ouvia atentamente a história contada por ele.
"Kahla, extremamente sentida com o ocorrido, partiu em jornada de busca espiritual e redenção. Sua bondade e generosidade atraía a cada dia mais seguidores. Quando se deu por conta, já havia erguido o Templo Radiante, um espaço para meditação e estudo."
"O orbe dado à Dorothar foi selado na, já abandonada, Grande Cidadela pelo próprio Espírito Ancião. Este, insultado pela traição do mago e apreensivo quanto aos futuros acontecimentos, decidiu retornar para o plano espiritual com todos os outros espíritos e selar a ponte que liga os dois mundos. É dito que alguns espíritos aventureiros ainda nos visitam, se disfarçando, para terem a oportunidade de estar próximos de nós e ajudar aqueles que os cativam, ou apenas divertir-se à custa dos outros."
As antigas histórias do continente de Drakthar faziam o jovem Gale vibrar a cada palavra e faziam sua alma queimar como brasa em grama seca.
"E você acredita que os espíritos existam, mestre Abbilion?" pergunta o garoto, animado.
"Sem dúvidas," responde o velho mestre, com sua voz firme, porém gentil. "Os espíritos são seres magníficos, que exercem influência em tudo a nossa volta, desde o ar que respiramos à colheita farta do outono. Estão presentes em cada momento de nossas vidas, são nossos protetores."
Abbilion se levanta e olha ao seu redor.
"Eu vim para o Tempo Radiante quando era apenas uma criança, eu tinha a sua idade. Eu e meus pais viemos em busca de um lugar calmo, onde teríamos amigos de verdade e poderíamos viver em harmonia com as pessoas e com a natureza. Pude conhecer a mestra Kahla, quando já era bem velha. Foi a pessoa mais sábia que já conheci. Tudo que sou e tudo que sei, eu devo à ela. Por isso, posso te afirmar, os espíritos existem."
Gale também se levanta e, com um olhar de confiança, braveja, "Mestre, um dia serei um herói tão poderoso e corajoso quanto os nossos Guardiões. Serei um paladino destemido e ninguém será páreo para mim, assim como o senhor."
"Assim como eu?" Abillian mostra-se encabulado com as afirmações de seu aprendiz, porém, muito feliz. Ele agacha e bagunça o cabelo do aprendiz, num ato de carinho. "Se isso é realmente o que você quer, terá que se esforçar muito. Terá que treinar, estudar e dar o melhor de si. O mais importante é que, como paladino, deve sempre buscar ajudar as pessoas e manter a pessoa, mas nunca se esquecer quem você é."
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