O Conto dos Dois Irmãos
1 Prólogo - O Início da Jornada
Notas iniciais

Música — Brothers: A Tale of Two Sons
Edward estava ajoelhado sob a bela árvore que ficava ao lado de sua casa, olhando para o chão, sem coragem — ou forças? — para olhar diretamente a lápide de sua mãe... já faziam seis meses, e mesmo assim ele ainda sentia a mesma dor, como se tudo aquilo tivesse acontecido ontem mesmo.
Edward e a mãe estavam voltando para casa em uma pequena canoa que era castigada por uma forte tempestade. O vento acabou fazendo com que o barco quase virasse e a mãe caísse no mar. Ela não sabia nadar, Edward tampouco... Ele gritou por ajuda, mas estavam muito longe para que seu pai ou seu irmão viessem auxiliá-los, ou ao menos pudessem ouvi-lo. Ele tentou puxar a mãe de volta pra o barco, mas não tinha força para tanto...
–Mamãe, segura a minha mão, por favor mãe, mamãe!!! — ele gritava em desespero enquanto tentava segurar a mãe, a última coisa que ela conseguiu lhe falar foi quando o filho conseguiu segurá-la por alguns momentos com a cabeça para fora da água:
–Eu te amo, meu filho...
Depois disso ela escorregou, e nunca mais se teve notícia da bela e amada Lilibeth, mãe dos irmãos Hensler.
A culpa havia sido dele. Edward pensava assim, mesmo com seu pai e seu irmão sempre lhe dizendo que não, que aquilo havia sido uma fatalidade... Sempre que pensava na mãe seus belos olhos verdes ficavam marejados. "Eu podia ter feito alguma coisa", pensava ele, "Eu podia ter evitado aquilo! Mas falhei..." Uma lágrima escorreu pelo seu rosto. Não só de tristeza, mas também de frustração. Ele deveria ter feito algo para impedir que aquilo acontecesse...
Então Edward sentiu uma presença. Quando ousou olhar, viu a forma translúcida de sua mãe tremeluzindo em sua frente
–Mã... mamãe? — perguntou ele mais perplexo que assustado.
–A culpa não foi sua, meu amor...- disse ela, ajoelhando-se ao lado de Edward — Eu sempre estarei com você, filho. — completou ela. Edward tentou tocá-la, mas quando sua mão aproximou-se da forma fantasmagórica de sua mãe ela esvaiu-se em fumaça. Após isso o garoto ficou tão absorto em pensamentos e nos sentimentos de pesar e culpa que quase não ouviu os chamados de Edgard, seu irmão mais velho.
Edgard estava colocando o pai deles em um carro de mão para que os dois pudessem levá-lo até o Curandeiro da Aldeia. Após a morte da mãe parecia um exagero do destino fazer o pai deles doente, mas esta era a triste realidade. Edmund já estava doente há poucos dias, mas melhorava ao tomar os chás e as ervas que o Curandeiro receitava, porém nos últimos dias a doença o derrubou de vez, tanto que o Curandeiro aconselhou que se ele não apresentasse sinais de melhora seria melhor que o levassem até sua casa.
– Edward! Vamos, me ajude!
Edward correu para atravessar a antiga ponte de corda que levava da pequena ilha rochosa onde estava a lápide de sua mãe até a sua casa, para que pudesse ajudar o irmão a levar o pai à casa do Curandeiro. Edgard segurava o carro de mão por trás, sustentando praticamente todo o peso sozinho e ao mais novo cabia apenas a condução, não totalmente por falta de força, mas por um sentimento protetor do irmão mais velho. Edgard não acreditava no que estava acontecendo. Primeiro a sua querida mãe havia morrido, e seis meses depois seu pai, a pessoa que ele mais admirava no mundo, caía doente. Aquilo não era justo! Principalmente com seu irmão mais novo, pensava ele. O pobrezinho havia presenciado a morte da mãe, e ainda se culpava por não ter conseguido salvá-la. Agora ele via seu pai correndo risco de vida por uma doença. O pai era a única família que lhes restava, e Edgard se recusava a deixar que ele se fosse. "Edward não merece passar por isso", pensava ele, "Eu não vou permitir que meu irmão sofra ainda mais".
– Então ele não melhorou mesmo?- perguntou Edward, com a voz carregada de tristeza
– Não. Nenhuma erva ou chá que o Curandeiro recomendou parece fazer efeito... Ele está cada vez pior — disse Edgard, enquanto punha o carro no qual estava o pai — pálido, tossindo e tremendo muito — em movimento.
– Não se preocupem comigo, filhos — Disse Edmund com um tremendo esforço, entre seus acessos de tosse — É só um gripe qualq... — Ele não chegou a terminar a frase, pois começou a ter outro ataque violento de tosse. Este foi tão forte que quase parecia uma convulsão, e depois desta ele não voltou a falar, pois não tinha forças para tanto... Ficou óbvio que não era uma gripe comum.
Os irmãos e o pai chegaram a uma ponte "mecanizada", na qual apenas metade do caminho era coberto por chão, que deslizava sobre as sustentações quando uma alavanca era puxada. Uma obra de engenharia interessante, mas que as vezes causava certa irritação
–Não teria sido muito mais fácil se tivessem construído uma ponte normal? — perguntou Edgard, puxando a alavanca com certo esforço.
A ponte se moveu e os irmãos carregaram o pai até uma coisa um pouco mais útil que haviam construído: na falta de espaço para se fazer uma rampa, fizeram uma plataforma que se erguia quando uma manivela era girada. O único problema era só tinha uma manivela na parte de cima.
– Parece que recolheram a corda... De novo... — disse Edward, apontando para o lugar onde geralmente ficava uma corda que os dois usavam para subir. Edgard nem esperou o irmão terminar a frase para chegar na beira da parede natural de pedra e fazer um apoio com as mãos.
–Suba, Edward. De lá você me joga uma corda.
Edward apoiou um pé nas mãos do irmão mais velho, e se agarrou no chão da parte de cima para subir. Aquilo não era nenhuma dificuldade para os dois, pois desde que Edward havia aprendido a andar — e talvez até antes disso — eles trabalhavam em equipe. Haviam se habituado tanto com isso que chegava a ser natural.
– Venha, Ed! — Edward chamou o irmão pelo apelido, que assim como muitas coisas, os dois também compartilhavam. Edgard subiu pela corda que Edward havia jogado e amarrado num toco de árvore. Juntos, os dois giraram a manivela para subir o pai
– Que coisa mais pesada! — comentou Edward. Edgard sorriu levemente
– É pesado mesmo. — Edgard admirava como o irmão conseguia ser, de certo modo, mais forte que ele. Enquanto ele estava absorto em preocupação com o pai e até mesmo com o irmão menor, este demonstrava que, as vezes, um pensamento mais infantil e despreocupado era a solução — ou ao menos um refúgio — dos problemas e das preocupações.
Assim que trouxeram a plataforma para o mesmo nível do solo, eles conduziram o carro de mão até a casa do Curandeiro, que saiu apressado de casa quando os viu chegando
– Ele piorou muito desde que o vi ontem... — comentou o Curandeiro, assustado. — Vamos, tragam-no para dentro, rápido!
Dentro de casa o Curandeiro derramou algumas gotas de chás exóticos na boca de Edmund, que pareceram aliviar a tosse dele, mas que apesar disso não pareciam fazer muito efeito, pois ele ainda estava muito fraco e branco como giz. O Curandeiro também escutou o coração de Edmund e sentiu seu pulso, e a cada teste que fazia, murmurava "nada bom, nada bom..."
Edgard e Edward estavam debruçados sobre a mesa na qual estava o pai, olhando com preocupação os testes que o Curandeiro fazia. Após mais alguns testes e alguns minutos procurando frascos com extratos de ervas, o Curandeiro finalmente falou:
– Crianças, seu pai está com uma doença que eu desconheço... Posso apenas dizer-lhes o óbvio, que é uma doença grave e que se o pai de vocês continuar piorando, pode... — ele parou, procurando formular a frase de um jeito menos... Traumatizante. — Acontecer o pior. — completou ele, pesaroso.
Os irmãos fizeram uma cara de espanto, Edward parecia prestes a chorar
– Mas o senhor não sabe de nada que possamos fazer pra evitar isso? — apressou-se Edgard
– O senhor precisa salvá-lo! — Disse Edward, a beira das lágrimas — Ele é a única família que nos resta! — continuou ele, sem querer diminuir o irmão.
– Tenham calma, meninos... Ainda há uma esperança. Tem uma coisa que pode salvá-lo. — Assim que o curandeiro disse aquilo, os expressões dos dois suavizaram-se um pouco — Além das Montanhas do Norte — disse ele apontando para as grandes montanhas, visíveis na janela — Existe uma árvore lendária: a Árvore da Vida. — Ele lhes mostrou um pergaminho no qual estava desenhada uma bela árvore e um mapa — Em seus galhos mais altos, ela produz uma seiva azul, brilhante e cristalina, e essa Seiva cura qualquer doença, fecha toda a ferida... É a chamada Água da Vida... Ela tem o poder de resgatar uma vida a beira da morte, embora não possa reverter a morte em si... E por isso mesmo, vocês tem de ser rápidos. se o seu pai vir a falecer antes de vocês voltarem, nada o trará de volta a vida...
– Antes de nós voltarmos? — Edgard indagou.
– Sim, era isto que eu iria lhes dizer agora... Eu não posso sair numa busca pela Água da Vida, pois sou velho e não tenho mais vigor para tanto... Além disso, o seu pai precisa ficar sob supervisão, e se eu fosse não haveria ninguém capacitado para cuidar dele.
O Curandeiro entregou a Edgard o pergaminho e um cantil. Edward estava ajoelhado ao lado do pai:
– Papai, fique bem... Nós vamos voltar logo.
Edgard segurou no ombro do pai
– Não vamos demorar — Prometeu ele, numa tentativa de convencer não só ao pai, mas a ele mesmo.
Edward se levantou e os dois foram em direção à porta
– Façam uma boa viagem. Farei o que estiver em meu poder para que ela não seja em vão. — Disse o curandeiro, em tom de despedida.
Era estranho para os dois estarem saindo sozinhos numa aventura tão inesperada... E mais estranhamente ainda, isso lembrava a Edgard dos tempos em que ele ainda tinha 12 anos, e Edward apenas 9, quando os dois saíam para explorar o vilarejo sozinhos. Era tudo tão parecido, mas ao mesmo tempo tão diferente daqueles tempos!
– Lembra de quando a gente saía pra explorar? — Falou Edward, como se lesse os pensamentos do irmão mais velho. Edgard deu um sorriso fraco enquanto olhava para as Grandes Montanhas do Norte.
– Lembro sim... Parece que vamos fazer algo assim de novo não é mesmo, Ed?
– Parece — Respondeu Edward — Eu queria tanto que fosse só mais uma de nossas explorações... — completou, com um sentimento de nostalgia.
Os dois olharam uma última vez para casa, do outro lado daquela bizarra ponte mecânica, antes de saírem para aquela que seria a aventura mais perigosa de suas vidas.
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