O Conto dos Dois Irmãos
8 Capítulo 7 - Sonho Febril
Notas iniciais

Edward acordou com um cutucão do irmão mais velho. O pequeno sentou-se, assustado, esperando mais uma vez tossir praticamente sua alma para fora do corpo, mas isso não aconteceu... "Muito estranho..." Pensou o garoto. Ele lembrava-se de ter visto as raízes de uma árvore envolvendo o cipó onde estava pendurado e da sensação de queda, seguida de um baque contra a água que fez todo o ar esvair-se de seus pulmões e então... Apareceu ali, sendo acordado pelo irmão mais velho. "Devo ter desmaiado com a queda..." Pensou ele.
– O que aconteceu? — Sua voz soou estranhamente distante. Será que ele havia batido com a cabeça? Ele passou as mãos pelos cabelos à procura de algum sinal de dor e sangramento, mas não sentiu nada.
Edgard não respondeu, apenas balançou a cabeça e ajudou-o a levantar. Edward pensou que talvez fosse para esconder algum resquício de choro em seu rosto.
O menor olhou em volta, mas era difícil avaliar de onde tinha caído... Além de estar completamente desorientado, uma neblina densa o impedia de enxergar muito a diante... Mesmo assim, ele notou algo estranho; as lanternas de papel que deveriam estar boiando no rio estavam no chão, sobre pedras e até penduradas em algumas árvores, mas no rio não havia nenhuma.
– Edgard... Foi você que tirou essas... Huh, lamparinas da água? — Perguntou.
– Não. Na verdade, eu nem tinha notado. — Respondeu o mais velho, estranhamente apático.
O menor notou então que as pequenas lamparinas de papel conduziam por um caminho ao longo da margem do rio até uma...
– Aquilo é uma mulher, Ed! — Disse o mais novo, olhando para a gigantesca mulher deitada sobre algumas pedras. Ele não conseguia ver seu rosto, mas a mão da gigante estava aberta sobre uma pedra, e Edward soube que deveriam subir nela; mesmo sem saber ao certo por que nem como sabia daquilo. Edgard seguiu-o em silêncio, e quando os dois estavam sobre a mão da gigante, ela ergueu-os até a pedra onde sua cabeça estava apoiada... Antes mesmo de ver seu rosto, o pequeno soube quem era ela.
– Mamãe... — Sussurrou ele — Mamãe! — Repetiu, quase chorando de alegria a ver seu rosto. Mas havia algo errado. Seu semblante não era o mesmo, não era a mulher alegre e sorridente de sempre... Ela parecia triste, amargurada... Seus olhos não se mexiam, e seus cabelos louros pareciam mais grisalhos... Além do fato de ela ser uma gigante. — Ma-mamãe... Fale comigo, mamãe — Então ele notou o homem de cabelos e barbas ruivos, deitado sob a mão da forma gigante de sua mãe. — Papai... Mamãe solte-o! Está esmagando ele! — Ele virou-se para Edgard, a procura de ajuda — Ed! Faça alguma coisa, me ajude! — Mas o mais velho estava imóvel, olhando apático para o chão, como se estivesse em transe.
Edward começou a entrar em pânico.
– Papai, acorde! Papai!! — Ele chorava desesperado, procurando por uma ajuda... "Aguente firme, meu pequeno..." Ele ouviu a voz da mãe dando-o força, mais clara que qualquer outro som, vinda não da boca da gigante, mas de dentro de sua cabeça... A gigante tirou a mão de cima de seu pai, e Edward desesperou-se ainda mais ao ver a tonalidade pálida do pai. Seu peito também não se mexia — Papai! Edgard me ajude, por favor... — Ele foi jogado para o lado um forte tapa em seu rosto — Ed, por que?... — O mais velho deu-lhe um soco, ajoelhou-se sobre o tórax do pequeno e começou a enforcá-lo... "O que eu fiz?" Pensou Edward, perdendo a consciência em meio a um turbilhão de outros pensamentos "Por que ele está fazendo isso comigo?"
•••
– Acorde Ed! — Gritou o maior, sacudindo os ombros do irmãozinho numa tentativa de acordá-lo... Ele deu alguns tapas de leve no rosto do pequeno, que estava muito gelado e colocou o ouvido no peito de Edward. O silêncio o assombrou.
– Ah não... — Sussurrou desesperado. O maior lembrou-se então sobre o que o pai lhe havia dito sobre ajudar pessoas afogadas, e começou a pressionar o tórax do irmão de forma ritmada, parando às vezes para soprar-lhe ar pela boca.
– Edward! — O maior estava prestes a desistir e sucumbir às lágrimas, mas o menor deu um pequeno espasmo, abriu os olhos e tossiu os litros de água que havia engolido quando submerso. Edgard mal conseguiu conter o impulso de abraçá-lo...
Ele virou o menor de lado para que não engasgasse, e deixou que o irmão pusesse toda aquela água pra fora... Depois de tossir tudo o que podia, Edward respirou apressadamente, podendo quase sentir a vida voltar a circular por seu corpo... Estava com tanto frio que não o sentia mais; tudo o que tinha era sono. Só notou o quanto a temperatura do seu corpo estava baixa quando Edgard o abraçou...
O pequeno surpreendeu-se quando viu que o irmão soluçava de tanto chorar... O maior sempre se obrigava a parecer forte frente ao mais novo, mas aquela situação o havia forçado demais... Não conseguia, não queria esconder o quanto estava abalado. Ao longo daquele dia, o mais novo correra risco de vida duas vezes; uma ao ser atacado pelo cachorro e outra quando quase despencou para o fundo da Montanha dos Trolls. Mas daquela vez havia sido diferente.
– Ah, Ed... — Soluçou o mais velho — Não sei o que eu faria... — Ele não conseguiu falar, ao invés disso, abraçou o menor com mais força e chorou.
– Obrigado... — Sussurrou o pequeno — Desta vez... Foi diferente, não?... — Perguntou ele, sentindo um nó formar-se em sua garganta — Eu tinha ido... Eu estava morto, mas você... Ed, você me trouxe de volta. — Ele entregou-se às lágrimas junto com o irmão...
Eles não choravam por uma causa específica, mas por todo o estresse emocional que estavam sofrendo... Pela morte da mãe, pelo pai doente, pela exaustão que aquela viagem os trouxera. Pela gratidão por ainda estarem vivos, dadas as circunstâncias.
– Seus lábios ainda estão azuis — Disse Edgard, após suspirar e limpar as lágrimas do rosto. — Vou acender uma fogueira antes que sua hipotermia piore — Disse ele, levantando-se.
Ele pegou os galhos mais secos que conseguiu e os acendeu com uma das velas que ainda boiavam no rio. Também improvisou uma grade feita de madeira, onde pôs as roupas mais pesadas para secar após torcê-las.
– Ed, tire suas roupas também... Vai ser mais fácil secarem perto do fogo, e você sentirá menos frio também...
Edward seguiu o conselho do irmão e ficou apenas com a camiseta sem mangas e shorts, o que o deixou muito mais aquecido do que com as roupas molhadas, próximo à fogueira. O mais velho tentou preparar um lugar confortável para passarem o resto da noite, juntando folhas secas para usar de colchão.
– Deite Ed, ficarei acordado mais um pouco... Acho que não tem jeito de voltarmos para o caminho de antes, vou ver se o mapa pode nos ajudar...
Edward não protestou. Sabia que estavam muito longe de onde deveriam estar graças ao rio que os cuspira ali, e dera tantas voltas que não fazia ideia de qual direção tomar... Subir o rio não era uma opção.
"De certo modo, chorar junto com Ed me fez muito bem..." Pensou, sentindo o coração mais leve.
– Boa noite... — O pequeno ainda estava muito atordoado para falar mais, então se deixou levar mais uma vez pelo cansaço e adormeceu ao lado do irmão...
Edgard pegou o pequeno recipiente cilíndrico que deixara ao seu lado quando colocou as roupar para secar próximas à fogueira, e suspirou aliviado ao ver que o pergaminho dentro dele continuava intacto.
Ele abriu o mapa, torcendo para que o local onde estavam ser próximo o suficiente da Árvore para aparecer nele.
Primeiro verificou através das constelações para onde estaria o norte, e depois tentou achar algo parecido com o rio no mapa... Por causa do cansaço físico e mental, as linhas pareciam misturar-se...
Edgard não conseguiu calcular se havia analisado o mapa por minutos ou por horas antes de cair no sono, mas acordou de sobressalto com um barulho... Seriam mais lobos?
Mas, ao olhar melhor, viu que era apenas um esquilo, curioso pela luz do fogo fraco que ainda sobrava na fogueira... "As roupas já estão secas" Pensou ele, pegando suas roupas azuis e vestindo-as. Ele também vestiu Edward, que dormia tão profundamente que mal se incomodou.
"Acho que também vou aproveitar e dormir o resto da noite... Mas antes..." Ele pegou o pergaminho e viu que o que havia notado logo antes de adormecer realmente não fora uma ilusão... Bem no canto do mapa havia um rio que fazia uma curva fechada e ficava mais largo. "Lago das Memórias..." Não era exatamente um lago, mas o nome era apropriado, já que as lamparinas representando as almas daqueles que partiram paravam ali... Edgard sorriu, pois muitas lembranças o invadiram ao pensar no nome do lugar... Edward caindo da árvore aos seus seis anos de idade, as tardes de pesca com seu pai, o tempo que ele e o irmão brincavam com os garotos do vilarejo... O sorriso de sua mãe. Seu abraço. A forma como ela e seu pai pareciam felizes juntos. A sensação de um lar, que tanto lhe fizera falta nos últimos tempos.
Envolto nesses pensamentos, Edgard deitou-se ao lado do irmão menor.
– Boa noite, Edward... Te amo, meu irmãozinho — Sussurrou ele, dando-lhe um beijo na testa, como costumava fazer quando ainda tinha cinco anos e o menor ainda era um bebê... "Ele ainda é tão pequeno... Muitos adultos não conseguiriam suportar o que ele suportou..." Pensou ele. Um tanto atordoado com isso, Edgard disse uma última coisa. — Desta vez sou eu que prometo, Ed... Eu te garanto que tudo vai ficar bem. Não deixarei que você sofra mais...
Ele fechou os olhos e se permitiu dormir pelo resto da noite.
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