Desde sua inauguração, cinquenta anos atrás, a Academia Brunnhilde de Estudos Arcanos tem sido uma referência em praticamente todos os campos da magia. O passar do tempo apenas contribuiu para aumentar o número de colaboradores e estudantes, culminando na movimentada instituição que é hoje.
Àqueles cujas matrículas são aprovadas se desfralda um horizonte de possibilidades, e em seu primeiro dia os novos alunos são apresentados à grande maioria delas. O tradicional passeio pelos diversos laboratórios e antros de conhecimento já é mais que suficiente para satisfazer as expectativas das jovens mentes e mantê-las motivadas.
Porém, mais importante que isso, é a formalidade que ocorre a seguir: uma reunião no Anfiteatro das Sete Estrelas, uma magnífica construção circular em cujo teto foram talhados os símbolos místicos dos sete arcanjos do Mundo Variante. Lá é onde o corpo docente é apresentado.
Um velho de baixa estatura e levemente curvado, com ralíssimos cabelos compensados por uma barba comprida e mantos de seda lilás e prateada é quem costumeiramente discursa. Mesmo apoiado por uma bengala já desgastada pelo tempo, a presença poderosa dele não permite que surjam dúvidas quanto ao fato de que é o diretor em pessoa.
Logo em seguida, como já é padrão, um segundo mago avança ao centro do auditório esbanjando uma imponência que rivaliza até mesmo a de seu predecessor. Este, de pele escura como o abismo, é sempre visto com um manto de um carmesim vívido e não possui cabelos ou barba.
Com sua voz retumbante, o mago traz à tona sempre o mesmo conto.

Num tempo longínquo, todos os aventureiros do mundo conheciam as histórias sobre o Rei Dragão Infernal, uma fera com poder tal que era capaz de incinerar um exército num piscar de olhos com seu sopro. Os sussurros trocados em tavernas e estalagens atiçavam a cobiça com boatos sobre tesouros e riquezas além da imaginação escondidos no topo do Monte Desfall, o covil da besta.
Desafiar o domínio do dragão era algo que somente os mais corajosos – e tolos – poderiam sonhar em fazer. Verdadeiramente, para combater um poder imenso seria necessário outro de igual magnitude. Assim, durante séculos o reinado do majestoso lagarto manteve-se incontestável.
Porém, eventualmente surgiram cinco lendas que rapidamente ganharam tanta fama quanto o senhor do Monte Desfall. Heróis que superaram desafios impossíveis, como resgatar o príncipe Itamar das garras do vampiro Edmond Culler, invadir a fortaleza impenetrável do bárbaro Arrancatripa e até mesmo desmantelar o exército de desmortos do necromante Kalaboss. Sim, se havia um grupo capaz de combater o Rei Dragão Infernal, era esse.
Isadora, a guerreira, tinha a força de um gigante e a fúria de cem. Seu machado enorme abria caminho entre as falanges inimigas a cada golpe e não havia desafiante que não sentisse as pernas tremendo diante de seu grito de guerra. Trajando uma armadura reluzente e resistente, sua visão era o suficiente para inspirar coragem em seus aliados.
Varduc, o ladino, tornou-se conhecido como um trapaceiro sem igual, capaz até mesmo de, diziam alguns, ludibriar os deuses. Verdade ou não, sua capacidade de enganar a morte e se safar até mesmo das mais tenebrosas enrascadas era inegável. Não existia no mundo armadilha que pudesse prendê-lo ou tranca que pudesse detê-lo.
Serena, a patrulheira, tinha pés ligeiros como o vento e setas ainda mais velozes. Seu prestígio como caçadora de feras a precedia e, quanto mais assustadoras fossem as histórias sobre algum monstro, maior sua intenção em transformá-lo num troféu. Para ela, o mítico dragão seria a conquista suprema.
Nolav, o conjurador, era um especialista em todos os campos da magia e dominava forças que lhe permitiam verdadeiros milagres. Os elementos dançavam na ponta de seus dedos e até mesmo o tempo lhe era obediente. Com efeito, poucas eram as forças no mundo que não se dobravam à vontade do mago.
E finalmente Nero, o sacerdote, mais conhecido como o Apóstolo das Sete Estrelas e respeitado como um homem santo onde quer que passasse. Caridoso e generoso sem medidas, seu simples caminhar deixava uma trilha de esperança e respeito, capaz de inspirar até mesmo os mais simples à grandeza.
Após uma jornada longa e árdua, eles finalmente adentraram a rede de cavernas no interior do Monte Desfall ao cair da noite. Lá o cheiro de enxofre era nauseante e, em conjunto com o ambiente extremamente abafado e quente, sufocava em instantes qualquer um que tentasse avançar. Contudo, as bênçãos de Nero protegeram a si e seus companheiros.
Enquanto caminhavam pelos túneis que pareciam pulsar, ora negros como breu, ora reluzindo com uma tonalidade vermelha, as habilidades de Serena e Varduc garantiram que o quinteto seguisse pelo caminho mais seguro e que as múltiplas ciladas ocultas fossem evitadas.
Por sua vez, Isadora e Nolav garantiam que quaisquer outros desafios que se impusessem no caminho fossem demolidos e desfeitos. A sinergia daquele grupo era admirável a tal ponto que parecia torná-lo uma força irrefreável. Se isto era verdade ou não, logo seria posto à prova, pois eles se aproximavam de seu maior desafio.
Uma enorme câmara oval nas partes mais altas da montanha era o covil da fera, e lá a rocha brilhava com a intensidade do sangue. O próprio dragão era um terror indescritível, grande como um portão de castelo e muito robusto. Suas asas escamadas enchiam o teto da caverna e sua cauda tinha espinhos grandes o bastante para empalar um ogro.
A batalha não poderia ter sido diferente: brutal. Os maiores heróis do mundo mostraram ser um desafio tal como o Rei Dragão Infernal jamais havia enfrentado antes e este provou ser o obstáculo máximo na carreira dos cinco. Como não havia sequer o menor traço de temor no espírito de qualquer um dos combatentes, horas de caos se arrastaram até que um dos lados finalmente esvaiu suas energias. Ao raiar do dia, era o senhor do covil quem se erguia vitorioso.
Os aventureiros, esgotados, mas ainda vivos, sentiram pela primeira vez o gosto amargo do desespero, como uma neblina que os envolvia rapidamente. Falharam em sua última missão e a recompensa seria a morte, como foi com todos os outros que cometeram a tolice de desafiar o dragão anteriormente.
Mas a fera não os matou de imediato. Ao invés disso recolheu suas asas e sentou, até mesmo seu semblante parecia sereno, e falou num tom tão contido que aqueles que o tinham desafiado há pouco custaram a acreditar que se tratava da mesma criatura. Ele perguntou: “Com que objetivo vocês vieram aqui me enfrentar?”
Varduc se ergueu num salto e pareceu tentar responder algo, mas se engasgou e por pouco não caiu novamente. O rosto do ladino era lividez pura, mas a fera que o observava não tardou a explicar: “Eu lancei uma magia poderosa sobre este covil. Aqui ninguém é capaz de mentir. Agora diga de uma vez, por que veio até aqui?”
Pela primeira vez na vida forçado à mais pura sinceridade, o trapaceiro buscou todas as forças que tinha para não gaguejar. “Eu queria riquezas sem fim. Poder viver na fartura para sempre e satisfazer todos os meus desejos.”
A sinceridade de Varduc foi recompensada por um sopro das chamas do dragão que o reduziu a um esqueleto calcinado. Gritos de horror preencheram o ar assim como a fumaça que subia lentamente dos restos do famoso ladrão, mas eles foram ignorados pela fera, que insistiu: “E quanto ao resto de vocês?”
Isadora havia sido a única a reprimir qualquer tipo de reação, exceto a raiva. Ela se levantou e gritou, desafiando o opressor com sua voz poderosa, como se desdenhasse do fato de estar diante da morte. “Eu vim para provar a meu pai que ele sempre esteve errado ao dizer que eu não podia me tornar uma guerreira. Que era estúpido por achar que sempre fui mais fraca que meu irmão!”
E mais um dos heróis foi reduzido a ossos carbonizados, mas desta vez não foi necessário repetir a pergunta. Os três que ainda estavam vivos sabiam muito bem que teriam de responder o fatídico questionamento. O seguinte foi Nero, que nem sequer se deu ao trabalho de se por em pé. “Eu queria puni-lo, filho do inferno, por trazer terror e desespero para estas terras. O mal não pode triunfar, e não existe mal maior que você!”
As chamas também consumiram o sacerdote e com isso os rostos dos dois que ainda respiravam se transformaram em máscaras de pavor. Serena, amargando a humilhação, conseguiu apenas balbuciar “De caçadora eu me tornei a caça...” e então foi igualmente devorada pelo fogo.
Nolav ergueu o rosto para contemplar seu algoz, sua resposta já estava pronta e, no fim das contas, já havia aceitado a ideia de que morreria. Os filetes de lágrimas que escorriam do seu rosto atestavam arrependimento, mas não por ter invadido os domínios do dragão infernal. “Vim até aqui porque queria proteger os maravilhosos amigos que conheci em minhas viagens e que me acompanharam por tantos anos. Eu queria vê-los sorrindo e realizando seus sonhos. Mas agora você matou a todos, então prefiro continuar ao lado deles no destino que me aguarda depois da vida.”
O mago fechou os olhos e esperou. Não tinha a mínima intenção de resistir e, do fundo de sua alma, desejava apenas se reunir com os falecidos companheiros. Mas os segundos se arrastaram e ele nada sentiu, até que um cântico alcançou seus ouvidos. Mesmo versado no arcano como ele era, Nolav não fazia ideia do que aquelas palavras significavam.
Ao abrir os olhos, o que o conjurador viu encheu-o novamente de lágrimas, mas desta vez de um sentimento diferente. Os ossos enegrecidos de seus amigos se tornavam brancos novamente e a carne começava a envolvê-los lentamente, até que Isadora, Nero, Varduc e Serena ressurgiram ilesos. O dragão, que estava todo aquele tempo entoando o ritual de ressurreição, então estendeu a mão aberta adiante, e nela havia um cajado dourado, com duas espirais de louros se entrecruzando várias vezes até envolver a esfera no topo e formar detalhes que lembravam asas. Instintivamente, Nolav sabia que devia pegá-lo e assim o fez.
“É um presente para você e também um pedido de desculpas. Quando seus amigos acordarem já estarão do lado de fora e então devem partir.” Disse o Rei Dragão Infernal, e então ele deu lugar a um feixe cegante de luz.

Ao final do conto os professores deixaram o anfiteatro para retomar suas atividades convencionais e os alunos, dispensados, agora seguiam o caminho que os levaria para os dormitórios. Porém, três deles seguiam logo atrás da multidão, levemente afastados e cochichando entre si. “Vocês repararam a bengala do diretor?” perguntou um deles, ao que outro retrucou “O que tem ela?”. O terceiro, compreendendo a linha de pensamento, argumentou “Ela parece muito com a descrição do cajado que o dragão deu de presente para Nolav.”
O segundo aluno se surpreendeu por um instante, mas então comentou “Realmente, agora que vocês comentaram até que parece. Vocês acham que ele e Nolav são a mesma pessoa?” Ao que o primeiro, que na verdade era uma garota, declarou “Só existe uma forma de saber.”
Mais tarde naquele mesmo dia, o trio conseguiu se esgueirar despercebido até o escritório do diretor. Mal conseguindo crer no milagre que haviam realizado, eles encontraram o velho sentado diante de sua mesa, rabiscando um rolo de pergaminho. Ele os cumprimentou e os convidou a sentar, parecendo até que aquele encontro tinha horário marcado. Depois explicou que, evidentemente, teria sido impossível passar por suas salvaguardas místicas caso ele não tivesse a intenção de receber os três.
Levemente constrangidos, mas motivados por uma curiosidade ainda maior, eles então fizeram a pergunta que estava entalada em suas gargantas. O idoso riu, novamente passando a impressão de que tudo corria conforme imaginara, e para a surpresa ainda maior dos alunos respondeu com um sincero “Sim”. Quando então foi questionado a respeito do destino de seus companheiros e do dragão, ele explicou que os outros heróis ao fim alcançaram seus verdadeiros sonhos e a felicidade que almejavam, ao passo que o rei infernal simplesmente desapareceu, provavelmente fixando residência em outro covil para testar o coração de aventureiros da nova geração, e que certamente não tinha sido morto, pois era poderoso demais para ser vencido.
Satisfeitos com as respostas, os alunos deixaram o escritório e retornaram para suas camas. Tudo que ouviram e descobriram naquele dia serviu apenas para aumentar ainda mais sua sede de conhecimento e vontade de aprendizado. Mas havia mais uma pessoa lá, o mago careca de robes carmesim que saiu de uma sala adjacente para se juntar ao diretor assim que o trio partiu.
“Por que não contou a verdade sobre o dragão para eles, Nolav?” Disse o homem de pele escura, fitando com certa curiosidade os olhos do velho curvado. Este ergueu os seus e abriu um sorriso ainda maior, enrugando o próprio rosto. “Ora, meu velho amigo Inflamo, você sabe muito bem que, para um mago, descobrir algo por si mesmo é muito mais satisfatório do que ouvir da boca de outra pessoa.”

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