O Conto da Narradora
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Não demorou muito para eu estar em meu – nem tão − lindo lar, em parte por culpa de minha pressa de sumir do caminho do Duque de Helianth, mas também havia o fato de que as bolsas pesavam o suficiente para eu evitar demora. Era uma casa pequena, de paredes desbotadas e com algumas plantas irritantes presas as paredes, janelas e teto – eu deveria tirá-las, mas preferi à tática “ignora que some”, foi falha −, a porta feita de um metal qualquer rangeu quando a abri.
−Jade. –a voz firme e retumbante que soou assim que terminei de entrar na casa me causou a, quase impossível de controlar, vontade de ir embora. Joguei as bolsas no chão e me virei para o lugar de onde a voz vinha. –Pensei que não voltaria nunca.
Sentada no sofá atipicamente torto, já que uma de suas pernas estava quebrada, estava à digníssima Samambaia Nucifera. Observei o resto da sala evitando responde-la, o lugar era pequeno, contudo isso não fazia diferença já que quase não havia móveis ali, apenas aquele sofá torto e uma poltrona que parecia chique demais para a casa, acompanhado de um porta guarda−chuva e uma pequena mesinha de madeira, na parede um único quadro, uma pintura de quando eu tinha apenas dois dias de vida, o que teria sido uma linda obra caso eu não tivesse cara de joelho de gente velha.
−Não irá me responder? Deve estar encantada com o passeio com o duquesinho até agora. –por um segundo arregalei os olhos e abri a boca sem emitir nenhum som, a risada áspera ecoou pelo cômodo. –Oh, minha querida sobrinha, pretendia esconder isso de mim?
Naquele momento eu quis tampar os ouvidos e gritar como uma criança faria, queria gritar para ela sumir e nunca mais se aproximar de mim ou de minha mãe, até mesmo do duque, já que as conseqüências disso pesariam para minha mãe, queria gritar até não ter mais voz ou vontade, gritar até que ela explodisse. Mas não. Eu não a olhei, não falei e não gritei, eu simplesmente me dirigi ate o pequeno corredor que se abria no outro lado da sala. Eu conhecia seus meios de descobrir onde e com quem eu estava, mesmo que quisesse desconhecê-los, o melhor que podia fazer era ignorá-la e, se alguém perguntasse, agir como se não soubesse de nada.
Aquele mínimo corredor tinha apenas três passagens, a de frente levava a cozinha, que não possuía porta, ao lado direito havia uma porta de madeira que levava ao quarto que eu dividia com minha mãe (veja como a casa é pequena), e a porta do lado oposto levava ao quarto e santuário de coisas ruins, que eu não quero ter nada a ver, de minha tia. Entrei na porta a direita e me joguei na cama de casal, que soltou um rangido estranho (que minhas costas também deveria soltar do jeito que a cama era desconfortável), e fiquei pensando nas desgraças da vida.
Se nesse momento você estiver me achando uma pessimista dos quintos do mundo inferior, você que me desculpe, mas não estava fácil pra ninguém não. E quando eu pensava que o dia seguinte teria aula, eu sentia uma séria vontade de subir em um penhasco e me jogar de lá, escola é aquele lugar aonde você vai para pagar seus pecados, e pelo que eu via não era só os meus que eu estava pagando. Ampére sempre teve um ponto –considerado pela maioria das pessoas− positivo: há uma única escola, ou seja, plebeus, nobres, e os que acham que são nobres dividem o oxigênio. Não é vantajoso, legal ou positivo pra mim, mas como disse: não esta fácil pra ninguém.
Estiquei o braço para uma pequena mesa próxima da cama, a única gaveta dele ficava trancada o tempo todo e mesmo depois de dezesseis anos não sabia o que havia ali, porém sobre o móvel havia livrinhos finos e coloridos, contos de fadas. Puxei o bolinho para cima da cama olhando a capa do que estava em cima, uma brilhante (e muito azul) Cinderela aparecia enquanto um carinha bem vestido colocava um sapato, que devia valer mais que minha casa, no pé dela. Antes que algum de vocês diga que é uma historia para crianças, posso garantir que é uma historia para qualquer iludido, e não só para os mini-iludidinhos.
O segundo era A Bela Adormecida, a princesa mais sortuda que existia, dormiu vários anos (anos que eu gostaria de ter evitado dormindo) e depois acordou rica. Mas se pensar bem, ela dormiu rica, enfiaram uma agulha, que não sabemos por quantos outros sangues passou antes, nela, e teve um príncipe abusado que chegou achando que porque ‘tá dormindo pode beijar. Não é assim que a vida funciona não amigo.
Também havia Branca de Neve, a história que eu nunca entendi. Ignorando toda a historia do “invadi a casa de uns anões e viramos amigos”, a mulher estava morta no meio de uma floresta, de repente chega um cara que ninguém sabe quem é e acha super legal beijar uma defunta, só que a defunta volta a vida e eles se casam. Será que ela nunca considerou perguntar para ele o que ele estava fazendo na floresta, ou se ele costuma beijar gente morta, ou se ele sempre traz gente de volta a vida? Também tem o Espelho –que não era muito legal com a moça não−, mas eu gostaria de ter um, imagina: “Espelho, Espelho meu, como eu estou?” “Uma deusa, lindona.”
O terceiro livro da pilha era o meu preferido, uma fitinha verde o prendia a outros dois livros, minhas três versões de A Bela e a Fera. Os três livros estavam em perfeito estado, sem manchas, sem dobras, sem rasgos, meus orgulhos. A edição presa ao meio tinha desenhos, e eu me surpreendia por ter algo tão caro quanto aquele livro, porém quando a Fera voltava ao normal ele era tão feio que se eu fosse a Bela gritava “desfaz! Desfaz!”. Da forma que fosse, era minha história favorita. Desatei o nó que prendia os três livros e peguei o primeiro, deixando os outros dois empilhados do meu lado.
“Era uma vez, uma jovem chamada Bela...”
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