O Conto Dos Dois Irmãos
1 O Embate
Notas iniciais
Eu sabia que ele estava a espreita, isto era inevitável, eu quisera assim, afinal de contas eu não tinha escolha. Não podia deixar isso se prolongar.
Sentia o ar congelante da noite cortar meu rosto, enquanto tentava discernir sua forma em meio a tanta escuridão, ele era um predador inteligente, me atraíra para aquela clareira. Eu só tinha duas saídas, as minhas costas, por onde vim, o que me deixaria totalmente exposto a um ataque, e pela frente, onde ele, sem sombra de dúvida estava a espreita. Eu podia correr e esperar a morte me alcançar, ou podia simplesmente abraça-la. Mas nenhuma dessas era uma opção que eu escolheria, pelo menos não até matá-lo. Ouvi sua respiração lenta e forte, pouco a pouco fui conseguindo enxergar sua forma em meio às trevas. Uma figura, enorme todo coberto de pelos, seus olhos eram vermelhos escarlates, sedentos de sangue, pelo meu sangue. Podia sentir seu hálito de morte, mesmo estando a vários metros dele, tal hálito mutilava minhas narinas. Não pude deixar de repudiar aquela criatura.
Olhei para o céu, onde a lua cheia brilhava, era uma noite estrelada, uma noite que terminaria com um dos dois caído. Então, começamos a nos rodear, nos analisando, aquela enorme figura humanóide era sem duvida muito mais forte que eu, pus então minha mão no bolso interno de meu sobretudo, e tirei minha pistola. Seis balas, seis balas de prata, era tudo que eu tinha.
Foi ai que ele avançou, saltou sobre mim, só houve tempo de jogar-me no chão enquanto ele passava disparei minha arma, ouvi um grunhido e logo me levantei pra ver se havia acertado. Ele estava parado apoiado em suas mãos, ou seriam patas? A minha bala o atingira de raspão, fazendo seu sangue escorrer, este fumegava ao tocar o chão.
O ódio em seu olhar era fulminante, senti um arrepio se espalhando por todo meu corpo. Não sabia distinguir o que estava sentido, uma mescla de adrenalina, repulsa, medo, coragem, loucura, e tristeza. Ele avançou uma vez mais os enormes dentes a mostra, a saliva escorrendo, o ódio no olhar. Então, uma centena de lembranças passaram pela minha mente. Lembrava-me de quando éramos crianças, e brincávamos juntos no enorme jardim de nosso casarão. Lembrei-me também da noite em que ele fora mordido por aquela criatura horrenda, ela dilacerou seu ombro direito. Ele teria morrido, se não fosse meu pai ter chego ao local com sua velha espingarda, mas, talvez tivesse sido melhor assim. Meu pai... foi o primeiro a morrer, aquela maldita noite, em que ele veio a se transformar pela primeira vez, a dor que senti ao vê-lo destroça-lo, meu coração foi destruído naquela noite. Desde então, tornei-me um homem frio, já fazia meses que o caçava, e já havia visto tanta atrocidade ao longo dela, que nada mais me abalava, nem mesmo o medo, que por sinal era inevitável, já não mais me importava em continuar vivo. Só o que eu desejava era matá-lo, impedir que ele ferisse mais alguém.
Ele vinha em disparada, só que dessa vez não me movi. Finalmente havia entendido que não poderíamos permanecer vivos. Ele chegou mais perto, foi então que senti suas garras perfurarem meu abdômen, a dor era quase que insuportável, utilizava toda minha força de vontade para me manter consciente e impassível. Senti o sangue escorrer pelos meus lábios. Ergui a cabeça e encarei a fera nos olhos, estava incrédula. Eu sorri, segurei seu antebraço com a mão esquerda, e ergui a arma com a direita. A pistola apontada para a cabeça daquilo, que outrora fora meu irmão mais novo, ele iria se desvencilhar, mas eu pude ver um pouco de meu irmão em seus olhos. E ele conteve a fera e a si mesmo para que eu pudesse desferir o golpe final. Disparei minha arma, a bala atravessou a testa da criatura. Cai então de costas, observando o luar que nos iluminava, meu irmão agora voltara a sua forma humana. Ali encontramos nosso fim, naquela noite, e nossos nomes ecoam apenas em contos de anciões que o batizaram de “O Conto dos Dois Irmãos: O Guerreiro e a Fera”.
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