O Conto De Ashtchulak
1 O conto de Ashtchulak
Notas iniciais
— Este, meu jovem, é um bom planeta para se viver!
Essa é frase que Ashtchulak mais gostava de dizer para seu filho, Cumuñak. Ambos são da espécie puerperium feminam, nativa do planeta Zhenshchiny. Para aqueles que não estão familiarizados com não-humanos, eles podem parecer intrigantes e um pouco assustadores à primeira vista, com seus mínimos dois metros de altura, seus braços e pernas peludos e seus focinhos e orelhas de urso (o terrestre), mas na verdade essa espécie é nota 5 de 7 na escala Levier de compatibilidade física e sociabilidade inter-racial, logo, é fácil, fácil se acostumar com um feminamiano.
Quem tem pelo menos uma noção de latim, deve ter percebido que o nome da espécie quer dizer “predominantemente fêmeas”, o que talvez não faça sentido ao leitor, que lê justamente sobre dois machos neste pequeno relato. Mas não vos enganais; nesse planeta 99% da população é de fêmeas, sendo os relatados aqui duas exceções à regra. Cumuñak é o mais novo sortudo da espécie, mas é melhor deixar Ashtchulak explicar o porquê:
— Nós, vybrannyy, temos o melhor trabalho, o melhor estilo de vida que qualquer ser deste universo poderia querer!
— E o que é que o senhor Ashtchulak faz? – como tradição, o vybranny não conhecera o pai até aquele dia, quando chegara a maioridade, logo Cumuña não se usava de muita intimidade.
— Fazemos filhos sem precisar criá-los, claro! Hohohoho – típica risada de um feminamiano mais velho.
— E por que isso seria bom? Aliás, posso ter permissão para falar sinceramente? – no meio das mulheres que o criaram, todo cuidado com as palavras era pouco.
— Fale com vontade, meu jovem! Agora você já saiu das garras daquelas criadoras! Hohohoho
— Eu não acho que o fato de alguns de nós poder ter sexo ilimitado compense a judiação pela qual os homens do nosso mundo passam. Sinceramente, de mil homens que nascem apenas um ser eleito para competir pela sobrevivência, e então de dez mil eleitos apenas um se tornar se tornar vybranny e assim garantir o direito à vida! Isso é injusto! – ao fim da fala, ele pisoteou com força o chão de pedra, causando um grande estrondo.
— Hoho! Parece que você é meu filho mesmo para ter tanta energia assim! Talvez você esteja certo e nós sejamos judiados, mas essa judiação é pouca em comparação aos modos antigos!
— Que modos? Já fomos de outra maneira?
— E como não? Não é como se a Deusa Mythranyr – a deusa de Zhenshchiny – houvesse ditado para nosso sangue essa nossa tradição! Você deve ter visto quão mais homens nascem em comparação às mulheres; então pense comigo: e se antigamente nós não comêssemos nossos homens não-vybrannyy? Esse mundo certamente seria um macharal! E eu posso te contar, meu filho, que esta certamente já foi a terra dos homens!
— Mas então o que aconteceu?
— Aconteceu o que deveria acontecer uma hora ou outra, criança. – Ashtchulak bufou para mostrar a seriedade do que falava, como diz a tradição.
— Conte-me detalhes, meu pai!
— Hoje é folga, então tenho tempo para passar a você, o mais novo vybranny, a história de nosso povo.
“Antigamente, não vivíamos em confederação como hoje; nem sequer habitávamos todos os continentes. Nossa espécie se resumia a milhares de tribos nas savanas do continente Vysushute. E sempre que podiam, essas tribos estavam lutando entre si por recursos, honra e até mesmo por diversão. Éramos tão pouco avançados tecnologicamente que sequer conseguíamos fazer barcos que cruzassem o Mar Pequeno para chegar ao Continente Verde; e acho que ninguém se importava muito com isso, acho que todos só pensavam em continuar vivendo para lutar e em lutar para viver. As coisas começaram a mudar, porém, quando o Apokalipsis entrou em erupção, deixando infértil a terra de todas as tribos do sul e criando um caminho de lava solidificada através do Mar Pequeno até o Continente Verde. Sem ter recursos para lutar e tomar a terra de outros, as tribos do sul tiveram de se arriscar no novo mundo.”
“Lá eles encontraram fartura de alimentos e metais para suas armas, mas no processo de reerguimento das tribos, muitos homens morreram com as surpresas do antes desconhecido inverno, o que fez que muitas tribos se unissem e formassem uma nação. As que não se uniram, foram destruídas pela Nação. Ainda nesse tempo, na falta de homens, surgiu a poligamia, que antes era desconhecida e até proibida em algumas tribos. Depois de anos, quando a Nação estava completamente estabelecida no sul e o nível de homens voltou a ser grande, a saudade das lutas fez que o primeiro exército visto neste planeta avançasse sobre as terras tribais; nenhum povo do norte teve chance. Saiba, meu filho, que um feminamiano bem alimentado desde criança cresce para ter nossa altura, de pelo menos dois metros, mas o povo do norte daquela época não comia bem, pois não se planta bem nas savanas. Nada dos primitivos nortistas interessava aos sulistas, por isso nem espólios de guerra eram tomados.
“Ai ai, quase que minha memória velha me pega; tinha, sim, uma coisa que interessava aos sulistas: mulheres. Está no nosso sangue, Cumuñak, o desejo da carne! Eles levavam todas as mulheres que achavam bonitas de volta para casa com eles, e acho que eu faria o mesmo hohoho. Nosso planeta via pela primeira vez o que antigamente chamavam de “haréns” nas terras do Sul. ‘Quanto mais mulheres, mais soldados!’ acho que você já deve ter escutado esse ditado que sobreviveu até os dias de hoje; foi naquele tempo que surgiu, mas o significado era um pouco diferente. Naqueles dias, os líderes sulistas perceberam que quanto mais barrigas para por ovos, mais homens nasceriam de cada vez, e com um exército ainda maior, eles poderiam conquistar todo o continente Vysushite. Eles seguiram essa ideia e em um século, sobrou no Norte apenas ruínas como indício de que um dia ali já tinha sido habitado por alguém; e todo aquele vazio serviu para outro fim também: nunca antes haviam percebido o quão pequeno era o Continente Verde até toda a sua extensão ter sido ocupada; o Sul estava superpovoado e o jeito foi fazer a Nação se expandir de volta para o Norte.”
“Depois de mais um século, ainda sobrava na memória coletiva dos novos nortistas a lembrança da vida mais amena no Sul em comparação com aquela sequidão do Norte. Não se passou mais um século e o ressentimento e ambição dos Nortistas os fez se segregar da administração do Sul e avançar sobre eles. Aconteceu, então, a primeira guerra que este planeta já viu. Décadas ela durou, e nenhum homem poderia ser mais feliz do que naqueles tempos! Tirando o motivo da luta, eu admiro muito aquela guerra e queria eu mesmo ter podido participar hohoho. Infelizmente, um dia a guerra acabou, mas nenhum dos lados havia sido derrotado. Ambos os lados começaram a angariar recursos e a se reconstruir para poder voltar a guerrear em poucas dúzias de anos.”
“O único preparativo direto para a próxima guerra que fizeram foi criar um exército de mulheres-prontas. O que seria isso? Hoho, eles ainda lembravam o ditado, meu jovem, e pensavam o seguinte: “não podemos nos dar ao luxo de ter poucas mulheres para chocarem nossos homens durante a guerra, por isso devemos fazer as mulheres que já temos hoje chocarem apenas mais mulheres!”. Como eles iam fazer isso você já deve ter deduzido, pois é o mesmo método de hoje em dia: comemos os ovos de homens e deixamos os das mulheres. Pronto, Nortistas e Sulistas tinham pela primeira vez uma população com o mesmo número dos dois sexos. E pronto novamente, a guerra estourou mais cedo do que pensavam, mas foi a outra surpresa que deixou os homens surpresos ao invés de animados. Enquanto os respectivos homens estavam longe de suas casas no Norte e no Sul, as mulheres remanescente aproveitaram para matar os poucos que permaneceram na terra natal e tomaram o poder e logo em seguida começaram a organizar o próprio exército.”
“Naquele época não existiam telégrafos, aviões ou trens para levar as notícias, por isso, do primeiro confronto da guerra dos homens, os sobreviventes que retornavam para casa foram recebidos e surpreendidos por mais um exército, mas agora se via pela primeira vez no planeta exércitos de mulheres, antes rebaixadas a meros instrumentos de prazer e reprodução. Os homens feridos, cansados ou os dois, resistiram, mas, apesar do número não muito menor, logo sucumbiram à falta de comida e aos ataques bem coordenados das mulheres. Todos os machos adultos restantes foram exterminados, sobrando apenas garotos que começaram a ser treinados nas maneiras de hoje em dia, a mesma maneira que me ensinaram e a mesma que você aprendeu na teoria e que agora vai aproveitar na prática. Os homens são poucos; mas os que dão sorte de ser vybrannyy desfrutam de uma vida de fartura e luxúria, em troca fazemos as mulheres porem seus queridos ovos de novas mulheres e todos saem felizes. Estamos assim faz mil anos...”
- Uau! E eu com meus treze anos achando que sabia de alguma coisa nessa vida...
- Hoho, você tem apenas o espírito de todo jovem, Cumuñak. Agora, me diga, você sabe como poderíamos ter evitado a dominação?
- Uhm... Acho que se não tivéssemos feito o exército de mulheres-prontas?
- Não, não... A verdade, aprenda, é que estávamos fadados desde o começo a essa situação!
- Impossível! – Cumuñak rosnou.
- Pois digo que não, pois é claro como a água que um dia ou outro nossa tolice nos faria ser dominados! Mythranyr tem seus desígnios realizados de maneiras tão objetivas como as de nossa espécie!
- Mas isso é tão... fatídico...
- A vida fora dos aposentos dos vybrannyy é dura e fatídica, Cumuñak. Acho que você lembra bem disso. – o ancião disse amargamente.
- Sim...
- Agora fique alegre! – disse e então uivou – Sabe, se nós fôssemos simplesmente usados como máquinas reprodutivas, eu não defenderia esta vida, mas, não, não é assim! As garotas lá fora aprendem, numa coisa chamada eshcola, acho que é assim que se fala, várias ciências que os homens não são capazes de compreender, mas uma delas nós sentimos na pele; educação sexual, é assim que a chamam.
- O que tem isso?
- Veja bem, meu filho, o homem, depois de algum tempo, tem menos energia na hora do prazer; precisa de mais estímulo para dar a semente que elas querem. Por isso elas estudam todas as artes de dar prazer a um homem, pois assim até mesmo o mais cansado dos vybrannyy não deixará de fecundar um ventre. Como você ainda é novo, todas as mulheres que aprenderam mal as técnicas, as mais novas e as que têm menos energia vão te procurar, pois você fará boa parte do trabalho para elas com sua energia extra.
- E isso é bom?
- Na opinião deste velho vybranny, essas suas usuárias são as melhores para quem tem energia para isso porque eu gostava muito em sua idade de tomar as rédeas! Os dias em que uma garota aparecia aqui disposta a um pouco de sadismo da minha parte eram bons demais!
- Certo, certo – o jovem não queria se aprofundar no assunto – eu não precisava saber dos gostos do senhor... – cochichou essa última parte.
- Bateu um sono agora – bocejou – acho que você já se conformou com a vida que terá, não é? Só antes que eu vá dormir, tem algo mais que você queira saber?
- É... Acho que não... Aliás, talvez uma coisa. É que eu me pergunto quantos anos o senhor tem.
- Ah... Eu tenho 121 anos, meu filho. – já convertidos para anos terrestres.
- O quê?! Mas... Isso é o dobro da vida de uma mulher! E você ainda nem parece tão velho quanto uma mulher de 60 anos!
- Seleção artificial, Cumuñak, seleção artificial... Os ovos que são selecionados para serem chocados são os que indicam melhor saúde, os outros viram comida; os bebês escolhidos para serem criados são os mais fortes, saudáveis e menos enérgicos, os outros viram comida; as crianças eleitas são as de melhor disposição sexual, saúde e obediência, as outras viram comida; os escolhidos, os vybrannyy, são aqueles que passaram nos teste que você acabou de fazer e que eu fiz há muito, testes que mostram quem será o melhor reprodutor, ou seja, aquele que fecunda mais, que dá sementes de maior qualidade, que dura mais no posto e que não apresenta ameaça para a sociedade das mulheres, os outros... Viram comida. – ele pausou para um suspiro – Por isso os machos da nossa espécie, que viviam até menos do que as fêmeas, agora chegam aos cento e oitenta anos... E viveríamos até os duzentos, caso não perdêssemos a fertilidade antes. Quando isso acontece, nos juntamos aos outros homens no jantar das mulheres.
- Eu... Eu vou gostar dessa vida...?
- Meu filho – Ashtchulak deu um sorriso tão grande e contagiante que até o hesitante Cumuñak sorriu também – Até hoje não conheci ou ouvi falar de um homem sequer... Que não tenha gostado de nossa vida!
O jovem em seguida se despediu do pai e se dirigiu a seus próprios aposentos, onde adormeceu depois de algumas horas com um sorriso no rosto por perceber o quão sortudo era. Anos mais tarde, Cumuñak ficou famoso como o melhor reprodutor já visto no planeta, tendo conseguido, ainda aos trinta anos, fecundar mais de 71.000 mulheres, chegando, certos vezes, a uma taxa de até duas fecundações por hora!
O pai quando soube, ficou orgulhoso do filho. A mãe, como ninguém sabe quem foi que pôs aquele ovo, não sentiu nada, pois sequer sabia que o filho era seu.
E em Zhenshchiny a vida continuou.
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