O Conto Da Morte
1 O Crepúsculo da Morte
Notas iniciais
Porta de entrada, hall, cozinha, sala de estar. Eram as poucas coisas que ela percebia, objetos e cômodos diretamente á sua frente, margeando sua mente, nebulosa por causa dos sentimentos que a-preenchiam. Sala de jantar, três escadas, corredor, terceira porta a esquerda. Entrou no cômodo abafado e trancou a porta. E chorou.
Uma badalada.
Não estava com fome para descer e almoçar.
Duas badaladas.
Não acreditava que pudesse ficar chorando por muito mais tempo.
Três badaladas.
Achou que sua mãe havia percebido que estava chateada, por que deixou um lanche em frente à porta do seu quarto. Agradeceu o lanche porque já estava com fome.
Quatro badaladas.
Ela se sentou na cama e começou a simplesmente encarar a parede, como se o objeto inanimado pudesse lhe dar alguma resposta.
Cinco badaladas.
Colocou o fone de ouvido e começou a ouvir musicas depressivas, que a fizeram perder a vontade de viver.
Seis badaladas.
Ainda sentada na cama, começou a ler o livro da Morte, para a Morte, pela Morte.
Sete badaladas.
A vontade de viver já não existia mais. Nem sua irmã, batendo na porta sem parar por, pelo menos, quinze minutos, a fez abrir a porta.
Oito badaladas.
Depois? Silêncio.
Nove badaladas.
O barulho das risadas e dos talheres batendo nos pratos só fez com que sua dor de cabeça aumentasse.
Dez badaladas.
Era o horário em que todos na casa iam para a cama, então o barulho do lado de fora do quarto não despertou a sua curiosidade.
Onze badaladas.
Ela pensou e pensou, mas suas emoções estavam intensas de mais para fazer isso claramente.
Levantou-se e foi até a porta. Tinha tomado uma decisão. Pegando impulso pulou através da janela. Aproveitando o tempo da queda de quatro andares e a sensação incrível de voar, sem ter nada sob seus pés, ela pensou se havia tomado a decisão certa... Bem, não importava, já estava feito.
Caiu no chão com um baque surdo, pousando sobre os espinheiros que cercavam a casa, e ficou lá deitada, olhando para o céu escuro.
Se alguém lhe perguntasse como estava se sentindo ela teria que pensar um pouco para responder.
Sentia uma dor alucinante no braço. Quando olhou para suas pernas se assustou. Não dava para dizer em que posição elas estavam. Mas estranhamente, não as sentia. Tentou mexer a perna, mas os seus músculos não obedeciam ao comando. Devia ter quebrado uma parte da coluna, assim como o seu braço direito.
Com custo, virou sua cabeça para o lado. Levantou o braço esquerdo, mais pálido do que o comum, e o sangue escorreu até seu cotovelo. O vermelho sobre o seu braço branco, em um fundo preto. Vermelho, branco e preto. As cores do livro Crepúsculo. Riu da comparação, já que os principais personagens dessa história eram vampiros, que já estão mortos. Riu, achando que iria se juntar a eles logo, riu de solidão, riu de dor, riu de sua própria loucura e riu da morte. Qualquer um que ouvisse acharia que a menina era louca. Não que não fosse.
TAM. A primeira badalada da meia-noite.
Lembrou-se da primeira vez que foi ver o balé Quebra-Nozes.
TAM.
Lembrou-se da festa no início.
TAM.
E do mágico barbudo que a havia feito rir.
TAM.
Então Clara ganhou o Quebra-Nozes.
TAM.
A cena mais encantadora do balé.
TAM.
Clara dormiu naquela cadeira, abraçada ao seu novo boneco.
TAM.
Então as doze badaladas.
TAM.
E tudo cresceu com a magica do tio de Clara.
TAM.
E os ratos.
TAM.
O exercito de soldados de chumbo do boneco Quebra-Nozes.
TAM.
O duelo entre o Quebra-Nozes e o rei dos ratos.
TAM.
E o Quebra-Nozes ferido que se recuperou com uma magica do tio. Ela era o Quebra-Nozes, entregue para o mundo, que logo a iria despedaçar. Mas dessa vez não havia mágico. Era sua morte.
Apenas a aceitou de bom grado sabendo que esse era o castigo por ter se precipitado.
Então, exatamente a meia-noite, a menina parou de respirar, olhando para o céu, que em sua homenagem havia sido decorado com as estrelas mais brilhantes.
E apenas morreu.
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