O Conto Da Lua

4 Capela em chamas


Notas iniciais
capítulo 3! Espero vocês gostem.

\"\"


Trean permanece atrás de mim desde a descida do ônibus na frente da Grandton High School até a porta da sala de Literatura. Se senta no canto da classe, à minha direita e continua lendo o livro.

Escuto Oasis no último volume a espera do professor Robin. Tudo corre na mais perfeita ordem: Os populares arruaceiros do fundão sempre fazendo bagunça; as líderes de torcida fofocando sobre os jogadores do time de futebol americano do colégio; os CDF’s discutindo cálculos em grego; os normais conversando sobre qualquer coisa banal e eu, ouvindo tudo com atenção e em silêncio. A única coisa estranha foi a sensação que tive de estar sendo observada constantemente por Trean, que me assistia pelo canto do olho de vez em quando e disfarçava ao perceber que eu reparava.

Assim se segue o resto do dia. E o resto da semana. Ao voltar para o orfanato, permaneço no quarto, fazendo os deveres e ouvindo música. Só saio para as refeições ou quando a Srª Wade começa a gritar pelo meu nome, o que acontece constantemente.

Trean passa a semana sentada no mesmo canto da sala de aula. O grande par de olhos âmbar com aspecto desconfiado observando todos ao redor. Nesses poucos dias percebo como é inteligente, sempre respondendo aos questionamentos que lhe são direcionados com uma notável esperteza.

Aquela sexta-feira amanhece nublada e sombria, o frio contribui com minha preguiça. Tenho que lutar bravamente para vencer a vontade de permanecer deitada. Visto minha roupa mais quente, incluindo o moletom roxo. Quando desço, o ônibus já me espera. Frank, o motorista, está evidentemente impaciente e irritado.

Sento ao fundo e novamente, Trean se senta ao meu lado, sorri e abre a mochila à procura de algo.

–Tome – diz me oferecendo um sanduíche natural – Percebi que você demoraria a levantar devido o frio intenso, então tomei a iniciativa de pegar um lanche para você já que provavelmente não tomaria café – explica.

–Obrigada – tímida, aceito o favor. – Eu ia passar uma manhã difícil sem esse sanduíche.

–Obviamente ia. – confirma e eu rio – O que é engraçado?

–Você... – respondo

–Eu?

–Sim. Você fala engraçado – esclareço e ela parece confusa.

–Bem – faz uma pausa como se procurasse uma forma para se defender — é que no lugar de onde eu venho, as pessoas costumam falar desta forma.

–Nunca ouvi dizer que as pessoas falam engraçado em São Francisco... – retruco ainda não convencida.

–Você já esteve em São Francisco, Charlotte? – pergunta

–Não, mas...

–Então você não tem como provar sua teoria – rebate sagaz.

Abro a boca para me defender, mas torno a fechá-la. Ela sorri vitoriosa e pergunta se fiz a atividade de álgebra. Conversamos durante toda a viagem, sentamos ao lado uma da outra na classe, almoçamos juntas e ela me ajuda nas tarefas mais difíceis.


O som da chuva batendo no teto do ônibus faz da nossa volta ao orfanato uma experiência extremamente barulhenta. Divido meu fone com Trean e ficamos escutando Red Hot Chili Peppers, tentando ignorar o barulho.



Ao chegar, descemos do veículo correndo e quando entramos no prédio, nos encontramos encharcadas e aos espirros. A Srtª McLower se espanta com a nossa situação e imediatamente vai buscar toalhas para nos secarmos. Tomamos uma caneca de chocolate quente e subimos para trocar de roupa. Me atiro na cama com sono — espirros me dão sono — e durmo.



–CHARLOTTE! CHARLOTTE! ABRE A PORTA!



Acordo assustada com os gritos desesperados de Trean vindo do corredor. Meu quarto está abafado e estou muito suada. Olho pela janela e meus olhos se arregalam. Esfrego-os crente de que não estou enxergando direito. Mas sim, a capela está consumida por chamas.


–CHARLOTTE, VOCÊ NÃO ESCUTA?! – ouço um estrondo e a porta cai no chão violentamente. Trean passa pela abertura e apanha minha mochila, abre o guarda-roupa e começa a atirar minhas roupas dentro dela.

Os órfãos passam pelo corredor, descendo as escadas aos gritos, alguns chorando. “Calma, crianças. Sem pânico!”, posso ouvir a voz da Srª Wade através da confusão.

Reúno forças e consigo falar alguma coisa:

–Que diabos está acontecendo? – questiono perturbada

–O orfanato está sendo atacado! – responde Trean fechando a mochila.

–Atacado? Por quem? – ouço o pavor em minha voz

–Explico depois...

–Explica depois? Não, me explique agora! — insisto

–Depois, Charlotte... – ela me puxa para fora do quarto e corre comigo na direção da escada.

Mas antes de chegarmos aos degraus, o teto desaba a nossa frente e uma criatura repugnante, coberta por escamas negras entra pelo buraco, bloqueando a passagem. O mostro nos encara. Suas narinas abrindo e fechando, ofegante. Ele solta uma espécie de urro agudo e lança, ferozmente, em nossa direção, chamas azuladas quem saem pela sua garganta. Posso sentir um frio congelante chegando perto de mim, porém, em uma fração de segundos, um cajado de madeira com uma pedra púrpura na extremidade superior se materializa nas mãos de Trean, que o usa para criar um escudo entre nós e o dragão, impedindo que sejamos atingidas pelas chamas.

–Cor Ignis! – Trean profere, em tom solene, erguendo o cajado. A pedra púrpura se ilumina levemente.

A fera produz um som ensurdecedor de agonia, seu enorme corpo começa a se ramificar em finas linhas faiscantes, suas escamas descascam e então só o que há são cinzas no chão. Fico em choque.

A escada está em pedacinhos. Um novo urro penetrante informa que outra besta está a caminho.

–Por aqui, Charlotte! – a garota lança um raio na janela mais próxima e faz com que uma escada de luz branca, que vai do buraco até o solo do lado de fora do prédio, apareça. – Rápido! – me puxa apressadamente.

Descemos até o jardim – eu particularmente cautelosa, com medo de que os degraus sob meus pés sumissem repentinamente -. Seguimos abaixadas, tentando nos esconder dos outros três dragões que faziam o orfanato Stª. Jude em pedacinhos. Ela me direcionou até atrás de um velho salgueiro, a árvore mais afastada no terreno.

De lá pude ver, com os olhos cheios de lágrimas, todas aquelas pessoas, aquelas crianças, sendo atacadas, congeladas e devoradas por aqueles monstros gigantes que cuspiam gelo. Os gritos ecoavam de todos os lados, os pedidos por piedade eram a única coisa a se fazer quando não havia mais esperança.

De punhos cerrados vi Jessie Astorn e a Srª Wade serem carregadas para longe. Seus corpos imóveis entre os dentes pontiagudos e compridos das bestas. Desabo no tronco da árvore e só o que consigo fazer é observar tudo de longe, imponente. Eu queria ir lá, ajudar a quem eu fosse capaz, mas sabia que acabaria como todos os outros, congelada ou dilacerada.

Cerca de uma hora depois, tudo era silêncio, destroços e morte. Recuperei aos poucos a lucidez. Viro-me para Trean, que me contemplava com pena no olhar.

–O que aconteceu aqui? – as palavras saem falhas pela minha boca. Ela me olha calmamente.

–Vem, fique de pé. – diz e obedeço. Ela fecha os olhos por alguns segundos e um som abafado, de grandes asas batendo, invade o ambiente.

Um esplendoroso cavalo-alado, com um pelo cinza e cintilante, pousa a alguns metros de nós.

–Pearl, aqui – diz ela acenando para o animal. Nos aproximamos e Trean acaricia sua crina lisa carinhosamente – Pearl, essa é Charlotte. Vamos dar uma carona para ela, ok?

–O que? – exclamei – você quer que eu suba nessa coisa?

–É um cavalo-alado, Charlotte. Uma criatura extremamente dócil. Não vai lhe fazer mal algum. – afirmou fazendo carinho no animal mais uma vez.

–Não vou subir nisso de jeito nenhum, Trean! – protesto me afastando do cavalo.

–Escuta aqui, Charlotte. Daqui a pouco, uma dúzia daqueles dragões de gelo vai voltar e com eles virão uma tropa de espectros. Eles não vão descansar enquanto não apanharem você! Então ou você monta na Pearl agora ou morre, entendeu?

–Espectros? – exclamo com a voz esganiçada.

–Espectros são seres das trevas, sem forma, sombras demoníacas com poderes sobrenaturais. – explica subindo no dorso de Pearl e me entregando minha mochila. Subo atrás dela.

Seguro com firmeza em sua cintura e fecho os olhos. Ouço as asas cobertas de penas e pelos do bicho baterem e posso sentir quando suas patas deixam o chão. Minha vontade é saltar de volta para a estabilidade da terra firme, mas algo me diz que essa não é a melhor opção, então permaneço de olhos fechados, apenas percebendo que subimos mais e mais.

O vento bate forte em meu rosto, estimulando a circulação de sangue naquela região. Relaxo e crio coragem para abrir os olhos. A imagem que vejo é magnífica: A cidade de Detroit toda iluminada por pequenas luzinhas — amarelas, azuis, vermelhas, verdes -, umas quem vão e vêm, outras inertes. Nos afastamos dos centros urbanos, indo para o norte. A cidade dá lugar às densas florestas de pinheiros, onde podemos ouvir os sons dos animais noturnos. Trean se curva para frente e Pearl começa a descer lentamente. Nos aproximamos do Lago Superior, onde o cavalo-alado mergulha levemente suas patas deixando um caminho pela correnteza. Vejo meu reflexo na água, meu semblante transparece temor e ao mesmo tempo admiração. Comtemplo o animal em que estou montada, acaricio-o. Trean me fita sorridente.

–Estamos quase chegando – diz.

Notas finais
Gostaram? Espero que tenha ficado legal como eu imaginei.

Então é isso, deixem reviews por favor! Críticas, elogias e idéias...

Beijo e até o próximo capítulo.