O Compêndio

1 O Beijo da Morte.


Notas iniciais
Eis uma pequena One-Shot de ideia súbita, com anseio de ser publicada.Espero que apreciem.Boa leitura.

Não entendia bem o que tinha acontecido. Não me lembrava de muitas coisas, apenas o primordial. De manhã eu acordei como qualquer outro dia na minha rotina, e vivi o dia inteiro normalmente, sem qualquer anormalidade: fui à escola; comi; vi pessoas que estou acostumada a ver, e por isso nem me despedi quando estava com um pouco mais de pressa; mas quando o Sol se pôs tudo mudou. Reafirmando o que já disse: não me lembro de muito, apenas sei que por um minuto eu me entorpeci do cenário e nada vi, somente escutei o meu coração bater. Batia como se eu tivesse corrido quilômetros, e não tinha certeza se minha respiração também estava exasperada daquela forma, não sentia nada, e meus ouvidos estavam preenchidos pelas batidas rápidas, fortes e altas, até que, de repente... parou.

Não sei como e não sei porquê. A única coisa de que estou certa nesse momento, é que talvez eu esteja realmente assistindo meu próprio enterro.

Havia mesmo muitas pessoas ali. Meus avós, meus tios, minha madrinha, parentes distantes, amigos próximos, e todos chorosos. Aquilo pesou esmagadoramente em meu peito e quase chorei junto com eles, mas não por mim — não completamente —, mas pelo que estavam sentindo. De alguma forma, naquele momento, eu sentia exatamente o que eles estavam vivenciando, como se pudesse absorver suas emoções, como se estivéssemos conectados. No entanto, de todos os sentimentos tenebrosos de cada um ali, nada era mais arrasador do que os da minha mãe. Ela chorava e soluçava sem cessar, meus avós estavam perto dela lhe consolando e precisando ser consolados também, minha madrinha a abraçava forte, enquanto meu pai permanecia por perto. E eu podia sentir, não como ela sentia; mas era o chão. O chão úmido do fim do poço. Era escuridão e desamparo, era tudo o que estava do outro lado dos sorrisos calorosos dela, e a felicidade plena.

Olhando para os outros rostos, eu conhecia cada um deles. Alguns estavam mais afastados, pessoas que não faziam parte da família; amigos e amigas que vez ou outra, sem querer, deixavam escorrer uma lagrima. Privilegiadamente havia pessoas de sentimentos sinceros, e dei-me conta de como isso era demasiadamente importante para mim; ter pessoas que me estimavam tanto quanto eu estimava elas e as amava. E por ama-las, odeio a dor que os estou causando.

Por mais surpreendente que possa parecer, não tenho sentimentos em relação a minha morte, somente alguns específicos: alguns arrependimentos, perturbações superficiais, nada de estridente, eu estou confortável; apenas com uma vontade absurda de me despedir melhor e dizer que não lamentassem por nada, pois eu não lamentava. Pensei que quando esse momento chegasse seria diferente, na verdade, sequer considerei que aconteceria tão cedo, dezesseis anos de vida é relativamente pouco, mas espantosamente não faz a menor diferença; tirando, é claro, o fato das pessoas que eu estou deixando; mas os planos, os desejos que tinha de realizar meus sonhos, tudo: sumiu., e é completamente irrelevante. Eu sei, de alguma forma, que tudo ficará bem e irá se acertar. Se há algum sentimento, é especialmente por aquelas pessoas em volta do meu corpo deitado no estofado creme e macio do caixão.

Movida pela curiosidade, me aproximei do meu falecido corpo. Mesmo estando consciente da situação e tendo ido voluntariamente me olhar por fora. O susto foi inevitável. Eu estava me vendo. Estava com a cabeça deitada sobre o travesseiro e com uma expressão tão pacifica e angelical que ninguém poderia julgar mais do que ser uma menina dormindo serenamente. Tinha pouca maquiagem, mas era notável uma breve sombra marrom nas pálpebras, um pouco mais forte rente aos cílios; o rímel era perceptível mesmo com os olhos delicadamente fechados; talvez a pele estivesse um pouco mais pálida do que o normal, mas o leve blush rosado dava cores saldáveis ao rosto; e a boca estava com um suave batom rosa; os cabelos escuros espalhados pelo tecido claro enfatizava a cor castanha; o vermelho do — irônico — vestido e a palidez da pele estavam adoravelmente graciosos em contraste. Me deixa contente que a última visão que tenham tido de mim tenha sido tão agradável, ao menos. Lá estavam eles para se despedirem do corpo enquanto eu me despedia em...

— Espirito? — inconscientemente pensei alto.

— Isso. — e uma voz vinda de trás respondeu, me pregando um susto que me fez saltar no lugar. Virei-me na direção da fonte da presente voz que me esclareceu, e lá estava um homem alto de ombros largos e fortes, trajando roupas completamente pretas, um belo terno feito sob medida, da mesma cor negra de seus lisos e arrepiados cabelos um pouco bagunçados; e seus misteriosos olhos azuis espectrais, quase brancos brilhantes, miravam diretamente á mim, em meu corpo imaterial. Um rosto perfeitamente bem formado, reparei. Possivelmente nada mais do que jovens vinte anos, uma pele lisa e clara cobrindo sua mandíbula um tanto marcada e queixo um pouco quadrado. Seu viril e grande corpo exibindo posses e posturas nobres e finas, mas seus extraordinários olhos eram felinos e traiçoeiros, completamente imprevisíveis, e sua mente: impenetrável. Claramente ameaçador, mas isso não diminuía o fato de seus lábios serem extremamente convidativos — Desculpe-me. Não foi minha intenção assusta-la.

— Quem é você? — ele realmente podia me ver.

— Pode-se dizer que serei o seu guia. — com a minha clara confusão ele deu-se ao trabalho de explicar melhor. — Devido ao nosso deslize o seu desejo de se despedir foi prontamente atendido, mas você precisa voltar, não é?

— Agora? — preocupei-me.

— Pode despedir-se o quanto quiser, mas antes do pôr-do-Sol precisamos voltar.

— Voltar para onde? — o indecifrável rosto dele esboçou um sorrio pequeno e talvez eu tivesse identificado algo familiar ali. O que só me confundiu mais.

— Quando chegarmos lá você descobrirá. — finalizou.

— Você deve ouvir muito essas perguntas. — palpite do efeito de muitos filmes assistidos em vida.

— Menos do que você imagina. — enigmático. Deixou-me curiosa.

— As pessoas não fazem perguntas quando morrem?

— Devem fazer. Mas normalmente não é para mim. — parecia um pouco cansado de responder perguntas, mas paciente. No entanto, suspirou antes de esclarecer melhor vendo novamente tamanha confusão em meu rosto, provavelmente. — Na maioria das vezes são os ajudantes os guias.

— E se você não é um, quem é? — ele olhou-me profundamente nos olhos antes de responder, fazendo minhas emoções fraquejarem perante seus intimidadores olhares, então disse firmemente:

— Eu sou a Morte. — perante impactante declaração, centímetro por centímetro o frio desceu bem lentamente por minha espinha, simultaneamente arrepiando minha nuca com seu sopro gelado, que logo após se instalou em meu ventre.

— Posso perguntar por que a própria Morte está vindo me levar?

— Por causa da falha.

— Falha? — questionei com o intuito de incentiva-lo a prosseguir.

— Complicada historia. — respirou fundo, como quem vê uma montanha e sabe que seu trabalho é desloca-la do lugar. Seus olhos misteriosos eram desproporcionais ao seu jovem rosto e porte físico, o profundo de seus olhos exibiam mais sabedoria do que podia assimilar.

— Eu tenho muito tempo. Estou morta. — o mal habito do humor negro é a indelicadeza, isso é evidente.

— Ajudantes seguem a agenda das manipuláveis leis da natureza, do destino e da escolha. Em outras palavras: eles apenas podem levar quem está na hora de ir. Você foi uma exceção eventual, eu precisei matar você.

— Como disse? — não estava na minha hora?!

— É exatamente o que você está pensando. Não, não estava.

Quão transparente meus sentimentos deviam ser. Normalmente seria o meu primeiro pensamento, mas a exceção da curiosidade dos porquês era bem superior.

— O que houve?

— Você não para nunca de fazer perguntas? – já parecia um pouco impaciente.

— É a última, eu prometo. Se você explicar devidamente.

E com outra queixa aceitou á proposta.

— Á alguns anos houve um equivoco ao enviarem as almas aos corpos, e então ao mundo mortal. Você foi colocada acidentalmente em um corpo errado e mandada a uma vida que não lhe pertence. — ele ergueu a cabeça e contemplou o céu azul da primavera e as nuvens brancas flutuando lentamente para o norte. Passou-se poucos segundos, mas por um momento pensei realmente que esse era o fim da historia e que fiz um mal negocio ao dar minha palavra daquela forma, mas ele logo prosseguiu — É tempo de mudanças e instabilidade na Terra. — voltou seus olhos para mim novamente — Muitos impactos ambientais, muitas coisas para os homens reverem e reorganizarem, principalmente seus pontos de vista. O aquecimento global, a escassez de água, a poluição aumentando, são coisas que você não iria presenciar. Você está destinada a vir depois desses eventos; quando respostas forem encontradas, soluções forem aplicadas, e tenha se resolvido as conturbações da revolta da natureza e tudo estiver estável e terno outra vez. Você terá um trabalho importante em sua próxima vida, mas essa deve ser apenas em um futuro distante.

— Que trabalho? — perguntei instintivamente, apenas para incentiva-lo a responder, apesar de que a falha em minha voz deixou claro para mim mesma que talvez eu não queira realmente saber; mas mesmo assim ele me olhou com uma sobrancelha arqueada como quem diz “Já se esqueceu da sua promessa?”.

— Não tem problema mesmo eu lhe contar. — deu de ombros — Quando você reencarnar não se lembrará de nada. Memorias são habilidades do corpo; toda vez que você morre seu espirito leva sim essências daquela vida que deixou, como: memorias intensas, experiências e, ás vezes, até alguns hábitos pequenos, e assim os vai colecionando. Mas toda vez que se é colocado em um novo corpo, as memorias e experiências são isoladas, e tudo começa do zero, utilizando apenas aquele cérebro limpo e aquele organismo novo. É claro que quando você se desconecta completamente outra vez daquele corpo descartado, o que ainda não é o seu caso, as barreiras são derrubadas e o corpo imaterial, quem resguarda todos os registros de todas as vidas, se torna o cardeal e tudo é recobrado aos poucos. — é assombrosamente logico, mas ilógico também, e a queda de muitas crenças, até mesmo minhas — Então não importa se eu revelar ou não, não é mesmo? — apenas concordei com a cabeça, sem querer interromper — Você será a mulher de um poderoso homem. Um homem muito rico e influente. Sua alma gêmea. No entanto ele ainda não nasceu, quem está nesse tempo é ainda seu tataravô. Esse homem tem grandes propósitos, nada como acabar com a fome no mundo, mas tem; e consequentemente você também. Ele precisará de ajuda e você será a principal delas, será um marco importante na vida dele. — e então ele sussurrou, possivelmente apenas para si mesmo, mas audível — Afinal, a luz não pode curar a escuridão, mas as duas se completam. Entretanto, aconteceu esse imprevisto e você acabou tomando o lugar de outra pessoa, alguém que deveria nascer nessa família — o vi deslizar o olhar para trás de mim, olhando para as pessoas e o decorrer do enterro. Curiosa, me virei para olhar também. As pessoas se aproximavam do corpo e deixavam belas flores, belas demais para o cenário mórbido do cemitério, era o contraste da vida com a morte. — Apenas determinada alma pode cumprir seu proposito no mundo, houve e haverá um grande desequilíbrio que deve ser corrigido o quanto antes. Por isso a ceifei, e porque se você vivesse essa vida, muito provavelmente não estaria apta na hora certa de voltar, e retardar seu próximo nascimento apenas interferiria mais. Sem contar que essa vida não é sua. Por mais apegada á essas pessoas que você seja, simplesmente não é aqui o seu lugar, e você não está programada com um proposito a ser cumprido; pode estar bem agora, mas mais tarde iria sentir o verdadeiro vazio que isso causa e nunca realmente seria feliz. Tais sentimentos brutos, como: a solidão de não estar conectado a ninguém; o desespero e uma incessante busca por respostas que nunca aparecerão, porque aquelas sequer são as perguntas certas; o sensitivo deslocamento., são coisas que marcam a alma para sempre. Você tem sonhos assim, não tem? Com os fundamentos da sua próxima vida. É á esse futuro que está designada e não há nada que podemos fazer. Além disso, não sente nada também, não estou certo? Não importa quantos planos e desejos tivesse, sua alma é fria e objetiva, independente dos sentimentos que tenha pelas pessoas queridas que deixa para trás. — não pude dizer nada. Vontade não faltou, mas não tinha nada a ser dito; estava sem palavras. Minha boca abriu e fechou algumas vezes para pronunciar algo, mas nada saia, nada coerente me vinha a mente. Logo desisti — Não demorou muito para perceberem o erro, mas tudo já estava sendo executado, então era preciso esperar para agir no momento certo. Na primeira oportunidade trouxemos ao mundo a menina que deveria estar em seu lugar, para que ela estivesse pronta para retornar aonde sempre deveria ter estado, quando chegasse a hora. Você já deixou esse mundo e consequentemente um espaço em branco, agora ela irá ocupa-lo. Já não poderá toma seu verdadeiro lugar completamente, porque as pessoas com quem você conviveu não podem te esquecer, você sempre será lembrada, mas as coisas se ajeitarão o máximo que puderem de agora em diante.

Isso foi uma bruta fisgada fina bem no centro do peito. Veloz, persistente dor, e sem hesitar. Não poderia imaginar outra pessoa em meu lugar, sendo amada como eu fui, vivendo os momentos em meu lugar, as coisas que eu presenciei ou presenciaria, sentindo o aconchego dos meus dias e deitando tranquila na minha cama, cercada por todo o adorável e reconfortante amor das minhas pessoas mais especiais. Ser beijada pelos lábios gentis da minha mãe e confortada nos braços carinhosos dela, rir e se divertir com os meus amigos, segurar as mãos dos meus entes queridos, e sorrir graciosamente para as pessoas que querem ver um sorriso. Pessoas do meu mundo. O ciúme é impossível de reprimir, ele está ali, cru e claro como água para mim, mas isso abrangia também um egoísmo rude, que apenas não pude abominar mais do que a ideia de alguém ter a minha vida e ficar perto das minhas pessoas preferidas, enquanto e eu: longe.

Isso retraiu minha boca em uma linha reta e tensa, não consegui com todo o esforço sustentar meus olhos em um ponto fixo, eles passaram pelo chão e depois dei as costas para o homem de preto, voltando a olhar para aquelas pessoas que sofriam por mim. Era um adeus afinal, então eu deveria me despedir mais apropriadamente. Era uma perda de tempo ficar escutando aquelas coisas que só estavam me angustiando e me irritando.

— Pare de ser tão egoísta! — tão perceptível o asco em sua voz — Por mais que você não tenha tido a intenção e nem a opção, é você a intrusa. — virei-me novamente de encontro para ele a fim de lhe dizer algumas palavras, mas ele não permitiu — Essa vida não é sua e nem nunca foi, é dela. O erro não foi seu, mas será ela quem mais está perdendo. Oportunidades, momentos que já se foram, tudo. É nada mais do que lamentável que esse desagradável fato tenha acontecido, você não precisa ser egocêntrica assim. Pare para pensar que, por mais que ela nunca vá conseguir tomar completamente o lugar á que ela pertence, o buraco será parcialmente tampado, nem tudo estará perdido. A vida de todos, não apenas a dela; não estarão mais tão vazias, não estará mais faltando tamanha peça. E pessoas, como a sua mãe, que tem a mais forte e dolorosa perda, não estarão perdidas para sempre. Se não quiser ficar bem pela menina que retornará á seu lar, tenha piedade pelas pessoas que você ama, ao menos.

“Constrangedor” definiria bem. Tão constrangida pelo meu lado ruim quanto poderia estar. Nunca é uma parte agradável de trazer a tona, menos ainda de alguém presenciar. Talvez eu já estivesse envergonhada no minuto em que estava assumindo esses males, ciente da feiura e repugnância deles, mas o sentimento em si já se tornava pior pronunciando-o em voz alta, e pior ainda sendo repreendida por ele. Não podia ficar triste por meus entes queridos, mas não podia ficar completamente feliz. Em parte, sim, porque estava sendo claramente substituída, mas também porque, subjetivamente uma parte mínima estava pronta para abrir mão e deixa-los ir, como se coubesse a mim eles serem felizes. E essa era quase tão triste quanto não poder faze-los felizes: não deixar que sejam. E em parte, também estava feliz pela menina que tomaria seu lugar outra vez, não poderia desejar um mal como essa infelicidade de não ser amado, ou não estar perto das pessoas certas a quem você pertence, á ninguém. Muito menos á alguém que eu sequer conheço, mas se ela está ligada aquelas pessoas tão especiais com quem passei meus anos, não poderia ser nada menos do que alguém incrível.

Mas, outro pensamento atravessou minha mente.

— Você é uma pessoa muito observadora.

— Se está se referindo aos seus sentimentos: quase da maneira como você imagina. Mas, sim, está quase chegando á resposta.

Essa não é o tipo de coisa que se fala em voz alta, sequer é um questionamento lucido e não queria correr o risco de faze-lo rir da minha cara, zombando e me acusando de ser louca, como qualquer um faria. Mas, não estava falando com qualquer um, não é mesmo?

— Você... é um excelente observador. Como você faz? — não. Não estava pronta para pronunciar aquilo.

— Sim, eu leio mentes. Se quer tanto perguntar, e se irá quebrar sua promessa, ao menos seja honesta e objetiva. Faça as perguntas das respostas que busca.

Meu Deus! Isso explicava bastante. E me fazia hesitar bastante também. Ter a minha privacidade violada dessa maneira não parecia nem um pouco justo. Tinha que rever meus pensamentos. Todas as coisas que refleti, absolutamente todas, até as ideias que não levei adiante, cada palavra, cada movimento da minha mente, qualquer coisa que fosse inapropriada e vergonhosa. Pensando, e pensando mais um pouco — ciente de que ele sabia de tudo — colidi com um pensamento constrangedor que tive assim que o vi. Então, ele sabe do comentário pessoal que fiz á mim mesma de que ele é absurdamente bonito e que seus lábios são muito tentadores?

— Sim. — uma resposta afiada como uma terrível lamina — Eu sei que você quer me beijar. — riu discreto e divertido.

Além de ser injusto era uma imensa desvantagem.

Isso deveria ser impossível, porque, afinal, eu não tenho mais um corpo, então não há mais sangue, não há coração pulsando, mas eu estava sentindo, até mais perceptível do que enquanto estive viva, essa sensação do sangue subindo para o rosto, corando minhas bochechas e as mãos ficando frias. Foi então quando ele se deslocou. Um pé na frente do outro, passos largos, predadores e aristocrático ao mesmo tempo. Acabou com a distancia em poucos segundos, quando me dei conta sua respiração tocava meu rosto erguido para poder olha-lo nos olhos, por mais difícil que fosse. Olhos castanhos contra olhos azuis. – fantasmagoricamente azuis.

— Quero que você diga. Você quer me beijar? — de repente sua voz se tornou tão sedutora que eu jamais poderia imaginar que existisse algo assim. Começando por ser desigual e sedutoramente hipnotizante; e o fato da mudança drástica. Em um minuto: da água para o vinho.

Tão vermelha quanto sequer podia imaginar, provavelmente. Olhei no fundo de sua pupila contraída, e por uma fração de segundo, literalmente acho que vi algo cintilar. Um brilho branco no pequeno espaço de escuridão profunda, mas tão logo veio, ele se foi. A coragem surgiu de um lugar tão profundo e distante de mim, fraca, mas o suficiente. Então sussurrei, porque não tinha mais voz para falar.

— Quão irônico seria beijar o anjo da morte. — então vi um sorriso torto preencher seus lábios de malicia. O ar simplesmente deixou meus pulmões. Eu o estava prendendo? Não sei dizer. Mas o coração, que provavelmente não deveria haver naquele corpo, começou a bater rápido e compassado. Bom, pelo menos era o que parecia, mas talvez não fosse um coração, fosse apenas coisa da minha mente. Afinal, eu não deveria precisar de ar, nem de respirar, mas meus pulmões queimavam desesperados.

Senti sua mão — contraditoriamente — quente tocar meu rosto enquanto a outra agarrava minha cintura por cima do vestido branco, tão diferente daquele que o outro corpo trajava. Minhas pernas cederam, mas encontrei meu equilíbrio apoiando-me nele, que sustentou meu peso sozinho, sem fraquejar um segundo. A mão em meu rosto guiou-me até seus macios lábios, e então o beijo foi consagrado e logo depois aprofundado.

Tecnicamente eu estou morta. Tecnicamente não tenho um corpo e não posso sentir. Mas com toda certeza os movimentos presenciados e saboreados eram a coisa mais real e mais vivida sentida.

Quando o beijo cessou, senti minhas pernas bambas, depois ás mãos tremulas, segurando o nobre tecido das roupas pretas, enquanto a sombra de cada detalhe era novamente revivido. Meus olhos abriram-se bem devagar, não pude faze-los ir mais rápido, nem abrir muito. Com apenas uma fenda enxerguei bem de perto um sorriso misterioso e satisfeito nos lábios brevemente avermelhados dele. Então perguntei, em um fio de voz:

— Beija todas as mulheres que guia para o outro lado?

— Não. Você é uma exceção. Sempre foi. — despertou-me.

— Já nos conhecemos? — afastei meu dorso do corpo dele colado ao meu, para poder olhar todo seu rosto e avaliar suas feições.

— Oh, sim. — respondeu aquele estranho encantador, em uma vibração de puro mistério e um oscilante brilho não identificado, nos extraordinários olhos azuis intrépidos.

FIM.

Notas finais
Bom... essa é uma historia que... pode-se dizer que foi a primeira que eu realmente conclui. Ela veio voluntariamente até mim, já completamente constituída, e mesmo assim eu demorei um tempo para transferi-la ao papel. Mas achei que quando ela foi finalizada, seu mistério merecia ser contemplado. E então cá estamos.Se houver qualquer erro eu peço que tenham a gentileza de informarem; eu li varias vezes, revisando e procurando por alguma falha, mas sempre há alguma coisa que passa despercebida.Esperarei enciosa pelos Reviews. Não se acanhem! Criticas e elogios são bem-vindos.Obrigada por ler ^^
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!